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Como se referiu, este importante documento da gestão concelhia, pela obrigatoriedade de registo do nome e descrição pormenorizada de todas as propriedades, seus proprietários, a indicação dos confrontantes e os limites das propriedades, revelou-se um importante instrumento para a investigação da sociedade local.

Desta época, ainda hoje encontramos alguns vestígios arquitectónicos e outros em total ruínas, mas que as fontes documentais nos permitem reconstruir com grande exactidão e certo grau de fiabilidade. Contudo a sua organização social, as pessoas que compunham este burgo e foram parte integrante da sua história e evolução, exceptuando algumas de maior influência, dificilmente se conhecem e quase nada se encontra sobre elas.

Neste período, estávamos perante uma sociedade estratificada, em ordens ou classes, às quais andavam indissociavelmente ligados os interesses de natureza económica e política que as caracterizavam e lhe conferiam estatuto peculiar, organizando-se de acordo com o prestígio, poder ou riqueza de cada grupo. Sociedade bastante desigual, a categoria social era definida pelo nascimento e pelas funções sociais que desempenhavam. O Clero gozava de imunidades e privilégios, cobrava a dízima e desempenhava altos cargos. Por sua vez, a Nobreza era a ordem de maior prestígio e destacava-se pelo grande poder fundiário, pela função militar e pelos altos cargos administrativos que desempenhava. O Terceiro Estado, povo, compreendia a ordem não privilegiada, tributária e muito heterogénea, cujas diferenças residiam na actividade profissional e modo de vida, pessoas anónimas e com grande pendor na actividade agrícola. Neste grupo, evidencia-se a burguesia (mercadores, financeiros, letrados) e os camponeses.

Apesar do Antigo Regime se caracterizar por um maior protagonismo político da realeza desde os finais do século XV, começou a notar-se uma propensão oligárquica no seio do poder local, com notória incidência no século XVIII. Observa-se a cristalização de um grupo social da gente nobre da governança ou, mais simplificadamente, de nobres e nobreza. Estas elites de poder, normalmente apareciam referenciadas como das pessoas principais da vila, tendo servido de vereadores, assim como os seus ascendentes, de boa

cristandade e costumes77. Poderosos económica e socialmente, tendiam a ligar-se entre si por estreitos laços familiares, assumindo nas vereações e nos cargos de excelência, como a Mesa da Misericórdia, um carácter verdadeiramente dinástico.

O clero, por sua vez, estava sempre presente numa comunidade que, antes de mais, era uma comunidade de crentes que vivia à sombra da Igreja e a quem entregava a grande parte do produto do seu trabalho, em troca das terras que possuía e dos bens espirituais que dela recebia.

Entre o povo coexistia uma imensa amálgama indiferenciada de pessoas que viviam do seu trabalho braçal, dedicado à agricultura ou outras profissões complementares. Há, todavia, algumas pessoas saídas do seu meio e que se distinguem pela sua instrução e que desempenhavam funções próprias dos letrados, como boticário, escrivão da comarca, escrivão dos órfãos, ou, ainda aqueles que seguiam a vida eclesiástica.

Os Autos de Visitação que compõem os Termos de Medição deste tombo revelam-nos informações complementares, decorrentes da morosa empreitada de aforamento das propriedades e que, basicamente, neste texto, são-nos facultados esses importantes elementos para o conhecimento da população local. Ainda que por vezes a indicação do pessoa se apresente com maior ou menor detalhe, é possível em alguns casos obter conhecimento sobre o estado civil e a própria profissão.

Infelizmente, grande parte da informação obtida ao nível da antroponímia é muito deficitária, ocorrendo situações em que somente surge com o nome próprio, como se verifica na medição e confrontação de uma propriedade “…que foi do Saudino as quaes pessue Antonio Antunes trabalhador desta Villa”78, ou em situações que a mesma pessoa surge com um ou mais apelidos e por vezes concordando somente no nome próprio e num ou dois dos seus apelidos, sendo que em alguns casos, ainda que muito escassos, tenha sido possível através das confrontações de propriedade, ou das assinaturas no final

77 Condição indispensável para a obtenção do título de Familiar do Santo Ofício, que na documentação existente na Torre do Tombo se consegue encontrar alguns nomes relevantes da sociedade pombalense do século XVIII, tal como o Reverendo Doutor Henrique Henriques de Carvalho e Serrão, referenciado neste Tombo e que neste capítulo se apresentará. Cf. AMARAL, Luís - Índices dos processos de habilitação para familiar do Santo Ofício da Inquisição. Lisboa : Guarda-Mor, 2008

dos termos, obter mais dados79. Em outros casos também se constatou a adição de informação complementar como por exemplo o estado civil e por vezes com referência ao nome do falecido, a profissão ou por vezes alcunha, como veremos: “… que pessue Maria Pimenta, viuva de Francisco Simoens, officiaal de Pedreiro desta Villa”80 ou “… que pesue Antonio Antunes, o Velho, do ditto lugar [sítio das Paredes, na vizinhança do lugar de Chão de Ulmeiro]”81. Tratando-se de um Tombo, as subscrições que rematam cada um dos Termos de Medição não se apresentam autógrafas, tendo sido o próprio escriba a efectuar a sua transcrição. Se, por um lado, este aspecto impossibilita analisar a ortografia de cada um dos intervenientes, por outro lado, sendo o escrivão uma pessoa habituada ao oficio da escrita, terá facilitado para uma melhor interpretação das subscrições. De salientar, que este campo também se demonstrou próspero em alguns pormenores que foram enriquecendo este estudo. Em algumas das situações houve a possibilidade de se obter dados sobre os graus parentesco, morada e de literacia82. Vejamos:

Subscrições delegadas Tabela nº 17

Fólio

[…] asinou com Manoel Lopes dos Andres que, a rogo da sobreditta, asinou, por esta

naõ saber escrever […] 420

[…] e por naõ saberem as emfiteutas escrever, asinou a seu rogo Simaõ da Cunha

[…] 50v

[…] por naõ saber a Infiteuta escrever asinou a seu rogo Bento Alves Mendes,

barbeiro, desta Villa […] A rogo da sobreditta Bento Alves Mendes […] 189v

[…] asinou com Joaõ Lopes que, a Rogo da sobreditta, asignou por ella naõ saber

escrever […] a rogo da sobreditta Joaõ Lopes huma crus […] 445

[…] por minha Mai Antonia Simoens Manoel Guardado huma crus […] 477

[…] por meu Pai Joaõ Luis Joze Luis huma crus […] 478

[…] asinou por seu Tio, Joam do Espirito Santo, Joaõ de Deos huma crus […] 479

Pombal não fugia a esta realidade e como atesta Saúl António Gomes83, na vila de Pombal, durante a transição do século XVII para o século XVIII, afloram

79 No sentido de aprofundar esta informação teria sido relevante confrontar esta informação com os registos paroquiais, contudo devido à escassez de tempo, não nos foi possível. 

80 AMP – Relação de Pessoas e Bens do Concelho de Pombal. 1744, fl. 48.  81 AMP – Relação de Pessoas e Bens do Concelho de Pombal. 1744, fl. 376 v.o.

 

82 A maior parte da população da vila de Pombal não sabia escrever nem sequer assinar.  

83GOMES, Saúl António; OLIVEIRA, Ricardo Pessa – Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas:

famílias abastadas e influentes, com residência ou mesmo interesses nesta localidade, com destaque para os Sousa Ribeiro de Vasconcelos, os Castelo Branco, os Mancelos, os Mascarenhas e os Lacerda e Melo. Sendo possível constatar, igualmente, outras figuras, ainda que naquela época, de estratos nobiliárquicos mais medianos, como os Ataíde de Azevedo, os Coutinho, os Lobo de Sousa, os Leitão ou os Brito.

Destaque, ainda, para outras famílias emergentes, nobilitadas ou em vias de nobilitação, nos finais do Antigo Regime, que foram o alforge das elites regionais e locais de proprietários terratenentes, vivendo dos foros e das rendas proporcionadas pela sua exploração, alguns outros proprietários de cargos e ofícios públicos ou, até, associados às actividades de negócios (sobretudo agro-silvícolas) e de comércio, especialmente, como juristas ou financeiros locais, associando-se, por vezes, entre si, por vínculos parentais, como sejam os Cunha, os Magalhães, os Serrão de Carvalho, os Serrão da Fonseca, os Carvalho, e os Godinho Leitão, os Albuquerque, os Saraiva, os Barros, os Valdez, os Figueiredo, ou os Pimentel, os Machado, ou os Mota, entre outros tantos antigos pombalenses de várias gerações e de bom nome. Dentre as famílias enunciadas recrutavam-se as cabeças da governança do concelho com predomínio para os Furtado, os Mascarenhas, os Mancelos, os Leitão, os Serrão, os Costa, os Carvalho e os Araújo, dividindo entre eles, os ofícios de mando e gestão municipais. Estes, como outros membros das elites locais, incorporavam os órgãos das instituições pias, particularmente as Misericórdias, mas também outras irmandades e confrarias. A câmara de Pombal, pelos seus autarcas, era administradora do património da Capela de Nossa Senhora do Cardal, possuindo ainda algum património rústico, que procurava rentabilizar, dando-o de aforamento ou em prazo.

Vejamos algumas tabelas com o levantamento das profissões constantes no Tombo:

Rol de profissões extraídas do Tombo Tabela nº 18

Oficiais da Corte

Cargo Nome

Advogado Agostinho de Barros Machado

Oficiais da Comarca de Leiria

Cargo Nome

Provedor da Comarca de Leiria Afonso da Silva Escrivão da Provedoria

Manuel Francisco Carreira Escrivão do Tombo

Procurador dos contratadores das

Terças da Comarca de Leiria Sebastião Gomes Juízes e oficiais municipais de Pombal

Cargo Nome

Procurador do Concelho José Dias Ferreira

Juiz dos Órfãos da Vila de Pombal António Serrão de Carvalho Escrivão dos Órfãos da Vila de Pombal José Ferreira da Cunha Capitão-mor da Vila de Pombal Vicente Godinho Leitão Distribuidor e contador do Juízo Geral da Vila de

Pombal Pascoal Francisco Coutinho

Juiz da Vintena de Vila Cã Manuel Domingues

Alcaide António Gomes

Carcereiro Manuel Gomes

Capitão Tomé da Cunha

Louvado e medidor do Tombo Simão Rodrigues Pereira Oficiais da Companhia da Ordenança de Abiúl

Cargo Nome

Capitão-mor de Abiúl

Manuel de Sousa de Alvim da Fonseca de Mancelos

Oficiais da Companhia da Ordenança de Porto de Mós

Cargo Nome

Capitão Agostinho António

Membros do Clero

Cargo Nome

Beneficiado na Colegiada de São Martinho da Vila

de Pombal António Ventura

Beneficiado na Colegiada de São Martinho da Vila

de Pombal Valentim Alexandre da Cunha

Beneficiado na Colegiada de São Martinho da Vila de Pombal

Manuel da Fonseca

Padre José de Santo António

Albuquerque

Reverendo Doutor Henrique Henriques de

Carvalho Serrão

Reverendo Padre Manuel Gonçalves de

Brito Ofícios liberais

Cargo Nome

Alfaiate (Oficial de) António Lopes

Alfaiate Baltasar dos Reis

Alfaiate João da Silva

Auguado [?] António Rodrigues

Barbeiro Bento Alveres Mendes

Barbeiro Caetano da Silva

Barbeiro Domingos Alveres

Barbeiro João Pimenta

Barbeiro Luís Duarte

Boticário João da Fonseca de Azevedo

Canteiro (Oficial de) João Ferreira de Carvalho

Carpinteiro Luís Bernardes

Carpinteiro Manuel da Cunha

Cirurgião António de Lima

Ferrador Diogo da Cunha

Ferrador Sebastião Alves

Lavrador Domingos Gomes

Lavrador João Lopes

Lavrador Luís Ferreira

Lavrador Manuel Gonçalves

Lavrador Manuel Lopes

Lavrador Manuel Mendes

Lavrador Teotónio de Oliveira

Lavrador Rafael de Castro

Pedreiro (Oficial de) Francisco Simões

Pedreiro Manuel Pimenta

Sapateiro Bento Francisco

Sapateiro (Oficial de) Luís Gomes

Sapateiro (Oficial de) Manuel Gomes Neves

Seareiro António Rodrigues Torres

Seareiro Manuel Lopes Manco

Serralheiro Manuel Dias

Trabalhador Alexandre Marques

Trabalhador António Antunes

Trabalhador José Lopes

Trabalhador Manuel Ribeiro

Apesar de ao longo do século XVIII se conhecer um enorme esforço no sentido de se obter um conhecimento mais aprofundado do território nacional, recolhendo um vasto leque de informações sobre as terras e as paróquias - a sua localização e inserção político-administrativa, a sua população, o seu governo civil e religioso, os seus recursos, os seus párocos, as suas instituições, os seus santos, os seus homens ilustres e as suas antiguidades - a árdua tarefa de se tentar compulsar elementos para a composição de esboços prosopográficos constitui uma morosa e, muitas vezes, estéril tarefa.

Embora se conheça um relativo conjunto de informação associado a processos de habilitação (Ordens Militar de Cristo, Familiar do Santo Ofício), processos de matricula em Universidade (Registo de matriculas na Universidade de Coimbra) ou fruto de mercês régias para o desempenho de cargos públicos (Leitura de Bacharéis), esta cinge-se essencialmente às principais figuras da vila que compunham a elite do poder local, enquanto que a restante população, que compunha o Terceiro Estado, constituía uma elevada massa de pessoas, exceptuando certos casos, anónimas e iletradas.

Somente uma aturada leitura e análise dos registos paroquiais faria chegar até nós alguma informação, ainda que cientes de eventuais lacunas, fruto das vicissitudes da nossa história e cultura. Contudo não foi exequível a consulta dos registos paroquiais, não tanto pela enorme empresa que se afigurava, mas sim pela escassez de tempo.

Seguidamente iremos apresentar alguns esboços prosopográficos, que foram possíveis encontrar, em relação aos intervenientes do Tombo.

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