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2.2 Formalisation du cahier des charges

2.2.1 Position du problème

As quatro informantes, quando ingressaram no mestrado, eram recém-graduadas e tinham, em média, vinte e três anos quando os dados foram coletados, como apresentamos na parte I desta tese. Fizeram graduação em Letras, em universidade pública estadual, e mestrado em educação. Na sequência, descreveremos um breve perfil de cada uma delas: Bridget Jones, Cândida, Louise e Pietra.

Bridget Jones

Aquela a quem nomeamos de Bridget Jones iniciou o mestrado aos vinte e dois anos. Na época, era professora da escola básica há sete anos. A escolha do seu nome fictício remete-se à personagem do cinema e da literatura inglesa (Bridget Jones), porque ela compartilha com essa informante um traço peculiar: um talento para levar a vida com relativo sucesso, não obstante seu modo de agir pouco convencional.

Proveniente da grande São Paulo, de família com poucos recursos, após ter cursado o magistério, aos dezoito anos ingressou no curso de Letras de uma universidade pública de São Paulo, onde se graduou como bacharel e licenciada em Letras. Segundo a própria informante, a participação no Programa Institucional de Iniciação Científica, na mesma instituição onde fez o mestrado, foi o divisor de águas de sua vida.

Durante a graduação, Bridget sempre trabalhou, por meio período, como professora. Estudou no período noturno e fez algumas disciplinas à tarde, principalmente as da licenciatura. Concluiu o curso em seis anos, tendo 7.1 de média ponderada nos 182 créditos cursados. Prestou a seleção do programa de pós-graduação em 2004, apresentando um projeto de pesquisa que dava continuidade, de certa forma, às questões já desenvolvidas na iniciação científica, desenvolvida com a mesma orientadora do mestrado, Jacqueline.

A convivência com a informante fez-nos perceber uma característica bastante peculiar de sua relação com a linguagem: pode ser considerada como um “dicionário de

sinônimos ambulante”. Era comum, inclusive, ajudar os colegas a resolver impasses lexicais. Se, por um lado, trata-se de uma característica bastante positiva, por outro, foi possível perceber o seu avesso: uma tendência, no início de seu percurso como pesquisadora, a limitar-se a procurar “palavras bonitas” para compor um texto, deixando, algumas vezes, de trabalhar na organização das ideias no texto ou mesmo na macro organização.

Como não entendia que a escrita pode ser usada como suporte do pensamento (LACAN, 1975-76), escrevia muito, mas sem de modo desarticulado, de modo que é a informante com o maior volume de material. Adotava um modo bastante aleatório de juntar e entregar as versões da dissertação para o banco de dados. Como escrevia intensa e desordenadamente em diversos suportes (folhas de rascunhos de textos antigos, blocos de anotações, computadores de locais diferentes etc.), encontramos no seu material uma grande quantidade de rabiscos, folhas esparsas, ideias sem concluir e documentos pessoais misturados aos acadêmicos.

A aproximação com o material coletado permitiu-nos verificar que Jones tinha muitas ideias que eram avaliadas por seu orientador como pertinentes e criativas, mas encontrava dificuldade em concretizá-las em uma escrita com progressão e finalização. Embora planejasse, diversas vezes, segmentos de texto, frequentemente não calculava os elementos textuais e sintáticos para formar um parágrafo coeso.

Ressaltamos que se trata de uma informante cuja produção é preciosa para os interessados em estudar a relação de um pesquisador com a escrita. Elencamos alguns dos motivos: 1) Abundância de material; 2) Número elevado de transformações – esse número decorreu não só porque Jones trabalhava bastante quantitativamente, mas também porque realizava inúmeras transformações nos seus textos, cortava e acrescentava parágrafos, mudava-os de posição no texto, desdobrava-os em outros tantos; 3) Inúmeros “pontos de virada” – por meio dos quais foi possível verificar mudanças da relação da informante com a escrita; 4) Profusão de processos criativos – também decorrente dos “pontos de virada”, pois, em muitos momentos, Jones teve ideias interessantes que, depois de depuradas, transformaram-se em texto, fugindo à mera reprodução – por exemplo, fez parte da introdução em forma de entrevista, justamente para dialogar; e 5) Dificuldade de concretização – muitas vezes se perdia em um texto que estava escrevendo, largava-o e iniciava outro que em seguida também era deixado de lado.

Para mostrar, em números, o modo como o processo de escrita de sua dissertação de mestrado se deu, elaboramos o Quadro 2, no qual contabilizamos os manuscritos do corpus que correspondem a cada uma das partes do trabalho da pesquisadora.

Parte do Trabalho Total de versões Versões com intervenção do orientador Introdução 44 17 Capítulo 1 62 23 Capítulo 2 69 27 Capítulo 3 76 22 Considerações finais 28 06 Referências bibliográficas 10 1

Quadro 2 – Número de versões de cada parte da dissertação da informante Bridget

No quadro que acabamos de apresentar, inserimos, do lado esquerdo, cada uma das partes do trabalho, depois o total de versões a que tivemos acesso e, por fim, a quantidade de versões que contêm intervenções do orientador. Note-se que, para todas as partes da dissertação, a informante fez muitas versões, sendo que a parte com maior número foi o capítulo 3, o último a ser finalizado por ela.

Outro ponto a ser destacado é o número de versões com intervenções da orientadora. Tanto no caso de Bridget quanto das demais informantes, a média da incidência de Jacqueline nas versões dos textos era de cerca de 30%.

Cândida

O nome Cândida foi escolhido pela própria informante, assim que leu o romance Cândido, de Voltaire. Para ela, a escolha do se deu porque o livro narra a história de Cândido, um otimista que, seguindo os preceitos do filósofo que o educou, Pangloss, acreditava que vivia no melhor dos mundos possíveis, mesmo quando a realidade não correspondia a esse ideal. A informante destacou uma característica do personagem que muito lhe chamou a atenção: a crença inabalável e ser uma pessoa extremamente ingênua. Decorre desses traços de sua personalidade o nome “Cândido”.

Segundo a informante, ela se identificou a traços da personagem que Voltaire que, tal como ela, teve dificuldades de abandonar o otimismo em prol de um olhar que levasse mais em consideração a realidade. No caso, o ideal da informante referia-se a acreditar que tanto nos dados que analisava quanto nos seus próprios escritos era possível encontrar um determinado elemento. É interessante frisar que a escolha do pseudônimo dado pela informante a ela mesma já denota divisão subjetiva. Trata-se de um traço importante de Cândida, não fazer semblante de si, e reconhecer rapidamente quando uma formulação não estava apropriada.

Ingressou no mestrado aos vinte e três anos. Proveniente de uma pequena cidade do interior de São Paulo, Cândida fez magistério e começou a fazer o curso de Letras em uma faculdade particular, na mesma cidade. Nessa faculdade, no primeiro semestre de curso, foi aluna de um professor cuja postura política em favor de uma graduação de qualidade, na qual o aluno pudesse fazer pesquisa, mudou sua trajetória.

Motivada pelas provocações feitas pelo professor, quando comparava a universidade pública e a particular, resolveu abandonar o curso e estudar para prestar vestibular, para o mesmo curso, em uma universidade pública. Passou no vestibular e, no ano seguinte, mudou-se para outra cidade. A partir de então, a informante passou a ter uma posição engajada em favor da defesa da realização da pesquisa na graduação.

Começou a fazer iniciação científica desde o primeiro ano de graduação, na área de língua latina, e seguiu como bolsista até o último ano. Teve boas notas nas disciplinas que cursou, tendo média ponderada 7,5. Do contato com o professor que a incentivou a mudar de faculdade e da participação em eventos em que ele era um dos organizadores, conheceu quem veio ser sua orientadora no mestrado. Em 2007, deixou a cidade do interior e foi para São Paulo fazer mestrado em educação.

No período do mestrado, a pesquisadora teve bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Com relação ao seu processo de escrita, quando submetia algum texto à orientadora, esse já tinha passado por um período de depuração das ideias. Ela sempre conversava com seus colegas a respeito de suas elaborações, escrevia-as nos cadernos das disciplinas que cursava etc. Nas reuniões de orientação, sempre levava os textos impressos e os lia. Assim, muitas das intervenções eram feitas oralmente, sendo que a mestranda anotava, nas margens das folhas, frequentemente em forma de tópicos, as sugestões feitas por Jacqueline. O quadro 3 sistematiza as versões da dissertação que compõem o nosso corpus.

Parte do Trabalho Total de versões Versões com intervenção do orientador Introdução 22 8 Capítulo 1 23 5 Capítulo 2 24 11 Capítulo 3 19 7 Capítulo 4 17 6 Considerações finais 7 1 Referências bibliográficas 6 1

Quadro 3 – Número de versões de cada parte da dissertação da informante Cândida

Dentre as quatro informantes desta pesquisa, Cândida foi a que mais tempo levou para terminar o mestrado. Finalizou no prazo máximo estipulado pela instituição: 36 meses.

Louise

O nome Louise foi escolhido por Riolfi e Igreja (2010). Na ocasião, as pesquisadoras analisavam os relatórios de iniciação científica escritos pela informante. Quando foram apresentar, em um congresso na França, um trabalho resultado dessa pesquisa, buscaram um nome que fosse facilmente reconhecido pelo público do evento. Ao pensarem nas principais características da informante, recordaram-se de uma personagem de um anime, Zero no Tsukaima. A pesquisadora compartilhava com a personagem do desenho as características de ser autoritária e controladora.

Proveniente de uma pequena cidade do interior de São Paulo, Louise ingressou no curso de Letras de uma universidade pública estadual aos dezessete anos, tendo terminado os cursos de Bacharelado e de Licenciatura aos vinte e um anos, com média ponderada de 8.9. Como as outras informantes, optou por fazer a habilitação em língua portuguesa e em uma língua estrangeira.

Durante sua graduação, depois de ler um cartaz a respeito de iniciação científica, foi procurar Jacqueline, com quem estabeleceu uma parceria de trabalho. Realizou, sob orientação dessa professora, duas iniciações científicas, ambas com bolsas de agências de fomento de pesquisa, e escreveu com ela artigos e capítulos de livro. Aos vinte e dois anos, ingressou na pós-graduação da mesma universidade onde se graduou.

No primeiro ano do curso de mestrado, trabalhou como professora de língua portuguesa e de língua estrangeira. Já no segundo ano, teve bolsa do CNPq. À época de realização do mestrado, Louise era uma pessoa cuja preocupação em manter a imagem de “boa aluna” e de “organizada” destacava-se. Tal característica tinha consequência no modo como escrevia. Isso porque, na tentativa de manter uma “imagem”, estabelecida como padrão aos seus próprios olhos, tinha dificuldades de se colocar à prova, de fazer perguntas.

A primeira consequência dessa postura era a dificuldade de escrever e de mostrar aos outros seus textos. Louise demorava até que uma ou duas páginas fossem escritas. A segunda característica era um apego mais à forma do texto do que às ideias propriamente ditas. Em seu corpus, podemos ver que a orientanda era bastante insistente na quantidade de reformulações que fazia dos textos. No entanto, tendia a repetir muitas vezes a mesma ideia. Nesse sentido, parecia que, para ela, a escrita se dava por acumulação. Como se para avançar em um pensamento X, precisasse retomar tudo o que foi já tinha escrito. Consequentemente, grande parte das intervenções do orientador foi cortar o que era excesso no texto da informante, as repetições, as partes que ajudavam na progressão temática de uma ideia.

Vejamos, no quadro 4, as versões que compõem nosso corpus de pesquisa. Parte do Trabalho Total de versões Versões com intervenção do

orientador Introdução 29 8 Capítulo 1 28 10 Capítulo 2 30 12 Capítulo 3 27 8 Capítulo 4 33 11 Considerações finais 12 8 Referências bibliográficas 9 0

Quadro 4 – Número de versões de cada parte da dissertação da informante Louise

Pelos números apresentados na tabela, vemos que Jacqueline acompanhou bem de perto o percurso de escrita, incidindo em todas as partes do trabalho, com exceção das referências bibliográficas, muito provavelmente por entender que, para Louise, essa parte normativa do trabalho não lhe traria muita dificuldade.

Destacamos a quantidade de vezes que a orientadora incidiu sobre as considerações finais de Louise (8). Nessa parte do trabalho, a pesquisadora não somente retomou os principais pontos discutidos em sua dissertação, mas, também, buscou traçar

pré-condições para o trabalho de formação de pesquisadores. Nossa hipótese é que o acompanhamento bem de perto de Jacqueline se intensificou nessa parte porque a mestranda tinha dificuldade de extrair de lições de sua pesquisa para área em que sua dissertação estava inscrita.

Pietra

A informante a que nomeamos de Pietra iniciou o mestrado aos vinte e três anos. A escolha do pseudônimo foi feita por ela mesma. No momento em que pensávamos em qual nome iríamos adotar, pedimos uma sugestão e, dada sua pertinência, ela foi acatada. Trata-se do feminino do apóstolo “Pedro”, personagem bíblico do Novo Testamento.

Pedro tornou-se conhecido por ser o discípulo de Jesus que, embora tenha dito veementemente que não o negaria jamais, negou-o por três vezes. Além de ser conhecido como o apóstolo que negou a Jesus, Pedro também é conhecido como o mais “sanguíneo” dos doze apóstolos. Trata-se de uma designação que alude a seu modo de agir, muitas vezes pautado pela emoção e circunstância momentânea (sem raciocinar as consequências de seus atos). Na opinião da informante, tal qual Pedro, ela tem a peculiaridade de, por medo, inúmeras vezes renegar o que quer e, depois, se arrepender. Do mesmo modo, ela avalia que tende a agir sem pensar e, consequentemente, a magoar as pessoas ao seu redor.

O contato com a maneira de Pietra se relacionar com a escrita mostrou que, de certo modo, este traço também lá se manifestava. Isso porque a informante tendia a concluir abruptamente os parágrafos ou mesmo seções de seu texto e, sem maiores explicações ou avisos ao leitor, prosseguir para um novo assunto, sucessivas vezes.

Residente em uma cidade do interior paulista, não mediu esforços para viajar, à capital, diariamente de ônibus, desde o ano que ingressou no curso de Letras até se graduar como bacharel e licenciada. Durante a graduação, já teve um contato inicial com a pesquisa, por meio da participação do Programa de Iniciação Científica, na área de terminologia, com bolsa de um ano.

Pietra não trabalhou ao longo da graduação, podendo dedicar-se integralmente às atividades do curso. Fez as disciplinas do bacharelado, no período matutino, e à tarde, as da licenciatura. Em cinco anos, concluiu a graduação com 182 créditos e média ponderada 8.2.

Prestou a seleção de mestrado no mesmo ano em que a informante Bridget. Três meses depois de seu ingresso, trabalhando na rede estadual de ensino, em que era concursada, optou por diminuir sua jornada para ter mais tempo para se dedicar à pesquisa.

Nos seis primeiros meses do curso, a produção de Pietra se restringiu aos trabalhos obrigatórios feitos para as disciplinas da pós-graduação, uma vez que reservou essa fase inicial para as leituras teóricas e para o contato com o corpus. Após esse período, entregou-nos amostras de escrita, rascunhos introdutórios de capítulos, textos que preparava para comunicações em congressos, entre outros.

Depois de um ano no mestrado, preparou seu relatório de qualificação, o que fez sua produção se intensificar consideravelmente a cada semana. Escrevia geralmente em casa nos finais de semana, durante o dia (terças e quartas-feiras), quando não tinha atribuições na faculdade e, eventualmente, à noite. Segundo a informante, havia dias em que escrevia o dia todo, em outros, uma hora e “secava a fonte” e havia ainda outros dias, em que sentava no computador e só ficava revisando o que já havia escrito.

Pietra escrevia quase exclusivamente direto no computador. Geralmente, fazia um pequeno esboço do texto manuscrito e, deste esboço, já partia para a versão digitada. Consequentemente, as diversas versões de um texto eram enviadas por e-mail. Em sua avaliação, sempre precisou de uma “pressãozinha” para produzir.

Por escrever direto no computador e também por certo modo “organizado” de ser, decorreu, por um lado, uma maior facilidade no momento de organizarmos as diversas versões que escrevia, mas, por outro, um ocultamento maior no que se referia às suas hesitações na hora de escrever, uma vez que não ficavam registradas as eventuais rasuras, trocas de lugar e alterações no texto, feitas no momento de sua escrita.

Outro aspecto que se pode perceber por meio do exame do material de pesquisa foi a grande diferença entre as versões de um mesmo texto.

No Quadro 5, sistematizamos o número de versões que compõem o corpus de pesquisa:

Parte do Trabalho Total de versões Versões com intervenção do orientador Introdução 24 8 Capítulo 1 31 12 Capítulo 2 34 12 Capítulo 3 37 8 Considerações finais 27 9 Referências bibliográficas 14 1

Quadro 5 – Número de versões de cada parte da dissertação da informante Pietra

Tal como ocorreu com as outras orientandas, o último capítulo a ser escrito por Pietra também foi o que mais vezes foi reescrito. Trata-se de um capítulo de análise dos dados o qual, inclusive, posteriormente, foi transformado em artigo em coautoria com Jacqueline.

Posto isso, na sequência, apresentaremos um breve perfil da orientadora das alunas.