2. SFVLAN Overview
2.2 VLAN Principles
2.2.3 Ports with Multiple VLAN Membership
O mês de Junho de 1905 pode ser pensando como um palco para as disputas no cenário literário entre os literatos fundadores da Academia Pernambucana de Letras. Em primeiro lugar, porque muitos já tinham participado de pequenos jornais ou estavam presentes nos de grande circulação do Recife, depois porque se envolveram numa polêmica sobre que nomes seriam os mais importantes da literatura e do jornalismo em Pernambuco.
O jornalista Aníbal Freire propôs em 10 de junho de 1905 o chamado Inquérito Literário nas páginas do jornal Diario de Pernambuco. Para Freire,
240
Na pesquisa documental foram localizadas apenas 5 atas de reuniões ocorridas entre os anos de 1901 e 1902. Apesar da Revista da APL mencionar a existência de 14 sessões para o ano de 1901 não foram localizadas todas as atas, pois o arquivo da APL não estava disponível para acesso ao público pesquisador durante os anos do doutorado.
interessava que fossem respondidas por pessoas, que ele considerava importantes no cenário intelectual, as seguintes perguntas:
I – A que elementos deve sua formação literária?
II – Qual o espírito mais bem organizado da actual geração de intellectuaes de Pernambuco?
III – Como considera o jornalismo do Recife e quaes os meios de remodela-lo?241.
Na prática, a maior parte dos que responderam ao inquérito não foram escolhidos sem uma conexão, mas por se tratar de homens que tinham relação com a imprensa e com o próprio Anibal Freire, isso justifica o fato de a maior parte deles serem membros do corpo de colaboradores do Diario de
Pernambuco. Na resposta de França Pereira essa aproximação ficou clara,
quando escreveu uma apresentação que antecedia as respostas:
Muito me lisonjearia a fidalga distincção com que procurou prenhorar- me, collocando meu obscuro nome entre os dos “notáveis” árbitros por você escolhidos, se eu nella não visse mais uma prova de sua delizadeza de sentimentos, da qual podemos testemunhar nos outros, seus companheiros de redação do Diário de Pernambuco242.
Segundo Aníbal Freire, Pernambuco era terra literária e por isso a razão do questionário. Como descreveu na abertura do Inquérito:
Pernambuco tem uma literatura original e fecunda. Dos seus esthetas e dos seus pensadores desprende-se um sopro forte de liberalismo triumphante de poder imaginativo superior às contingências do meio. É uma espécie de fluido magnífico, que attrahe, subjuga, aniquilla quem lhe sinta os effeitos. Tendência litterária capaz de ser explicada pela opulência dos nossos recursos naturaes, pela grandeza magnificente, triumphal do meio ambiente, pela placidez eterna de nosso clima, e, noutra série de circumstâncias, pela suavidade dos costumes, pelo brilho das tradições históricas, pelo liberalismo ordeiro das instituições políticas243.
Responderam ao Inquérito treze homens de letras: Arthur Orlando, Gervásio Fioravanti, Clovis Bevilaqua, Carneiro Vilella, Alfredo de Carvalho, Phaelante da Camara, Carlos Porto Carreiro, França Pereira, João Batista Regueira da Costa, Augusto Pereira da Costa, Faria Neves Sobrinho, João Barreto de Menezes, Altino de Araújo e Theotônio Freire.
A polêmica mais intensa a respeito do Inquérito partiu de Carneiro Vilella, pois ele apontava se tratar de certa predileção do Aníbal Freire por
241
Inquérito Litterário. Diario de Pernambuco. 10 de jun de 1905. Acervo FUNDAJ.
242
Inquérito Litterário. Diario de Pernambuco. 28 de jun de 1905. Acervo FUNDAJ.
243
alguns intelectuais e não concordava com a postura de copiar a ideia de João do Rio, que pouco tempo antes havia realizado um inquérito na Gazeta do Rio de Janeiro. Além do mais Vilella não admitia que homens contemporâneos definissem a grandiosidade de certos intelectuais. Conforme Vilella:
Para responder com segurança ou, pelo menos, com probabilidades de acerto a este quesito insidioso, seria preciso estudar, de um em um, a organização do espírito de todos os intellectuaes da geração actual de Pernambuco, a começar pelo Sr. Manuel Arão, para á luz dessa crítica fazer competente selecção...Mas quaes são mesmo esses intellectuaes? Quem já os classificou ou sequer os apontou? Que Cuvier, que Buffon? E, quanto a mim, que autoridade tenho eu para escolher um d”entre elles a sagra-lo, ainda mesmo só em meu nome, apontado-o como o espírito mais bem organizado de uma geração que se julga superior a todas, e até pensa que nunca será supplantada? D’entre os intellectuaes (?) da geração actual de Pernambuco, muitos há que não têm conseguido publicar as cousas boas que escrevem, pelo que são quase desconhecidos, alguns totalmente, e por isso, mal podem ser julgados; ao passo que muitos outros arranjam sempre quem lhes publique e vulgarise as cousas péssimas que tem escripto, pelo que se vão apregoando por ahi além ao som de caixa e clarim... Ora, seria preciso cotejar uns com os outros, para poder conhecer a verdade, caso a verdade estivesse ao meu alcance244.
Carneiro Vilella lança mão, de que para compreender a constituição de um sujeito representante máximo das letras seria preciso cotejar os escritores que tinha uma produção que circulava e os que mesmo escrevendo bons textos não tinham repercussão de suas obras. Isso mostra, que havia certa tensão no espaço literário recifense, por estarem envolvidos em disputas ideológicas e até mesmo literárias.
Mas não apenas a polêmica deve ser vista, uma leitura das respostas remetidas ao Freire e publicadas durante o mês de junho do mesmo ano permite enxergar semelhanças e divergências no que tange à formação intelectual, a quem atribuam ser a figura mais representativa, ou nas expressões do inquérito, o espírito mais bem organizado da geração de intelectuais e como deveria ser remodelado o jornalismo.
No que tange a formação literária, apenas quatro homens não responderam, pois ou se diziam distantes do universo literário ou sem
244
condições para fazer tal exercício, pois demandaria de uma rememoração que por ora não poderia fazer. Mas quanto às outras respostas dadas, é preciso destacar que aparecem com uma descrição verborrágica, descritiva da infância, das leituras de autores franceses, ingleses, alemães, portugueses e sempre enfatizando os autores pernambucanos, quase sempre os colegas que também faziam parte da Academia Pernambucana de Letras.
Sobre o espírito mais bem organizando cinco homens se eximiram de responder por entender que quem deveria consagrar os “espíritos mais bem organizados da literatura” deveriam ser os sujeitos da posteridade. Theotonio Freire teve sua resposta publicada em 20 de junho de 1905 e argumentava que:
A obra dos de hoje, a sua grandeza intellectual não poderá ser bem aquilatada pelos contemporâneos. É tarefa que melhor caberá aquelles que, de hoje a três ou quatro lustros, se occuparem de nós outros, que esse tempo já teremos talvez desaparecido. E o juízo delles, será, de certo, mais seguro, sem a leva de ódio de um, nem a corrente de sympathia a agir sobre a opinião emittida, de outros245.
Apesar de muitos apontarem os próprios pares com as quais conviviam nos órgãos em que trabalhavam ou na APL nenhum faz menção direta a importância deles na própria instituição como imortais. Entretanto, Clovis Bevilaqua, que conviveu com esses homens e teve grande significância no cenário das letras do período teceu um comentário dizendo que poderia citar vários homens que apresentavam-se como intelectuais bem organizados e dignos de menção no inquérito, mas lembra que se tratavam de homens que são:
Verdadeira organisação do litterato, escrevendo com facilidade pasmosa ou a prosa que deslisa suavemente ou o verso que cascateia em murmúrios cantante, e tantos outros, uns já feitos e continuando serenamente a trabalhar, como esses que constituem a Academia Pernambucana de Letras246.
Bevilaqua ainda enfatizou que esses sujeitos partiram armados para a conquista de seus ideais, constituíram no Recife um centro intelectual digno da atenção do historiador literário.
245
Inquérito Litterário. Diario de Pernambuco. 20 de Jun de 1905. Acervo FUNDAJ
246
Todos os demais buscaram elencar os nomes de Joaquim Nabuco, Oliveira Lima e Arthur Orlando como as personalidades de destaque. Arthur Orlando foi mencionado em cinco respostas como sendo esse espírito mais bem organizado, porém vale o alerta de que ele era na época o redator chefe do Diario de Pernambuco, jornal que estava lançando o Inquérito. Somado a isso é preciso estar atento que a maior parte de quem respondeu escrevia para o Diario de Pernambuco, o que mostra certo teor tendencioso.
Quanto à remodelação do jornalismo quase todos descrevem que em Pernambuco o que havia era um produção periódica ligada ao partidarismo político e à questões de críticas e ofensas entre jornalistas, que sinalizavam ser muito mais ressalvas de cunho pessoal do que divergências teóricas, literárias ou ideológicas.
Gervasio Fioravante sugeriu que as notícias, colunas e reportagens fossem assinadas, pois os redatores chefes não podiam responder por questões pessoais. Clovis Bevilaqua dizia que o jornalismo “apresenta-se em progresso, pois o seu aparelho de informações é rudimentar, não é um jornalismo que retrata o aspecto social do Recife”247
. Alfredo de Carvalho apontava que o jornalismo era de caráter excessivamente local e que as informações externas demoravam a chegar. França Pereira, Theotonio Freire e Faria Neves Sobrinho advogam sobre a necessidade de se ter uma escola, órgão ou clube que envolvesse os jornalistas e que se tivesse uma formação comum para quem fosse enveredar pela profissão, formação que seria necessária para evitar as ofensas pessoais e dar um caráter mais amistoso e apartidário. Faria Neves Sobrinho ainda escreveu em sua resposta ao terceiro quesito que a imprensa europeia e a americana, com os modelos de artigos audaciosos, astutos, rápidos, repletos de vivacidade cotidiana, bem como os elementos da cultura, da literatura, das cores e da fotografia deveriam se tornar base para remodelar o jornalismo e dar um caráter moderno.
O terceiro quesito do inquérito teve um conjunto de respostas que em grande medida sinalizaram o que anos mais tarde veio a se tornar o padrão jornalístico adotado não apenas no Recife, mas em várias cidades brasileiras:
247
impessoal, colunas e textos assinados, criatividade, relato do cotidiano, exposição de problemas sociais e apresentação da realidade cultural.
Além da análise dos quesitos, o Inquérito de 1905 pode ser visto como um espaço das práticas de sociabilidade dos membros fundadores da Academia Pernambucana de Letras, um vez que dos vinte fundadores onze responderam ao Inquérito. Os escritores legitimavam seus pares e enfatizavam a produção literária por eles escrita. O Inquérito também gerou um caloroso debate entre escritores do jornal A Província e o Diario de Pernambuco, que movimentaram além das respostas ao questionário uma série de críticas por parte de homens que estavam no cenário das letras, mas não faziam parte do conjunto dos homens que responderem ao propósito de Aníbal Freire.
É preciso enxergar então, que as práticas de sociabilidade não eram apenas por meio da escrita de uma literatura, mas também nos encontros em salões, cafés, festejos, livrarias, redações de jornais e bancos acadêmicos. Além disso, era preciso estar em espaços institucionais, se inserir na política, no jornalismo e circular pelos lugares cuja distinção social pudesse ocorrer de formas mais rápida, era essa uma fórmula de muitos homens de letras para ganhar notoriedade social na transição do século XIX par ao XX.
Além da formação e das práticas de sociabilidade, a produção por eles efetivada possibilitou galgar patamares mais elevados e consagrá-los como imortais na Academia Pernambucana de Letras, foi também essa prática de escrita e a propagação de seus textos, por meio da imprensa e da circulação de livros que passou a existir a literatura fabricada.