Porque o processo de formação do indivíduo se desenvolve em transições sucessivas por contextos sociais diferenciados, faz sentido abordar a teoria do desenvolvimento ecológico de Bronfenbrenner (2002) que nos dará uma perspectiva da acção de influência recíproca que existe entre o indivíduo e o meio no seu trajecto de desenvolvimento global. Este autor ao definir níveis de sistemas progressivamente mais envolventes, oferece um
quadro compreensivo do modo como o desenvolvimento da criança vai sendo directamente afectado não apenas pelas suas transacções específicas com os seus cenários imediatos, mas também pelos contextos mais vastos em que esses cenários se inserem e pelas suas interacções recíprocas; possibilitando uma visão sistémica que se descentra da mera análise circunstancial e isolada dos contextos imediatos.
Retiramos desta abordagem a importância da articulação sequencial dos percursos de formação, fundamental para um processo de crescimento físico e intelectual harmonioso. Transcreva-se, sobre este assunto, uma afirmação elucidativa de Tavares (1992: 9):
³O sujeito humano para realizar todo o seu
potencial de desenvolvimento necessita de um contexto adequado que lhe permita interagir com os sujeitos e construir toda a teia de relações mais ou menos complexas que lhe possibilitem dar resposta aos diferentes apelos da sua personalidade quer eles sejam determinados, com maior ou menor intensidade, pela dimensão físico - ELROyJLFDSVLFROyJLFDVRFLDOFRQWH[WXDO´ .
De acordo com Brofenbrenner (2002:7), definem-se como transições HFROyJLFDV³as mudanças de papel ou ambiente, que ocorrem durante toda a vida, por ex: a chegada de um irmão mais novo, a entrada na pré-escola ou na escola, formar-se, casar, etc.´. Ou seja, ocorre uma transição ecológica sempre que a posição da pessoa no meio ambiente ecológico é alterada em resultado de uma mudança de papel, ambiente ou ambos, correspondente com as expectativas associadas a esses contextos sociais. Assim sendo, o GHVHQYROYLPHQWR KXPDQR UHVXOWD GH ³ um produto de interacção entre o RUJDQLVPR KXPDQR HP FUHVFLPHQWR H R VHX PHLR DPELHQWH´ (Op. cit.14), processo este através do qual o ser humano adquire uma concepção mais ampliada e diferenciada do meio ambiente e se torna mais motivada e mais capaz de se envolver em actividades progressivamente mais complexas (Op. cit.: 23).
Pela teoria de Bronfenbrenner, ³Teoria ecológica do desenvolvimento KXPDQR´28, o indivíduo desenvolve-se num processo dialéctico de interacção com o meio ambiente, concebido como ³um conjunto de estruturas FRQFrQWULFDV FDGDXPDFRQWLGDQDVHJXLQWH´ (2002:18), como que formando ³um jogo de encaixe´ (PORTUGAL, 1992: 42) a que o autor atribui os nomes de Microsistema, Mesosistema; Exosistema e Macrosistema. O microsistema refere-se às actividades e relações que o individuo vivencia num contexto imediato (ex.: o lar, o infantário, a escola); o mesositema refere-se às inter- relações entre contextos em que o indivíduo participa activamente (ex: a família, o grupo de teatro, os amigos); O exosistema não implica a participação do individuo, mas interfere directamente com o microsistema a que este pertence (ex: trabalho dos pais); o macrosistema refere-se a contextos mais gerais constituintes de uma sociedade (valores, cultura).
O desenvolvimento do indivíduo operacionaliza-se por uma tomada de consciência do contexto mais próximo (microsistema), e progressivamente a criança apercebe-se que além do contexto com que lida directamente, este não é único. Existem outros contextos e outras relações neles estabelecidas que não lhe dizem respeito directamente, mas dos quais vai tomando consciência.
Assim, sob esta perspectiva o desenvolvimento humano, é obra de uma interacção de influência mútua entre o indivíduo e as suas características hereditárias e as características dos meios imediatos em que este vive (PORTUGAL, 1992: 37).
A criança ao longo da sua vida experimenta transições ecológicas inerentes ao espaço social e relacional em que se movimenta, que começam por ser naturais. À medida que a criança cresce vai adquirindo a capacidade de as auto-iniciar por vontade própria.
As transições ecológicas promovem desenvolvimento, desenvolvimento este que implica a percepção de que ocorreram modificações
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Para uma melhor compreensão dos processos ecológicos de desenvolvimento humano, aconselhamos a leitura de Portugal, G., (1992) Ecologia e desenvolvimento humano em Bronfenbrenner.
comportamentais no indivíduo que persistem e evoluem ao longo do espaço e do tempo (PORTUGAL, op.cit: 44).
O contexto em que o desenvolvimento humano ocorre é um espaço vivencial e ecológico onde as trocas comunicacionais se operam de forma constante e transformadora. A forma como se organiza esse ambiente é determinante para o desenvolvimento da criança, constituindo assim uma das valências mais importantes para a sua compreensão. Costumamos dizer que a criança é fruto do contexto em que vive.
Na perspectiva ecológica do desenvolvimento humano, a criança mune-se de capacidades adaptativas e interactivas a novos contextos, nos contextos anteriores pelos quais passou, que lhe fornecem (ou devem fornecer) as bases de formação necessárias a uma sólida adaptação aos níveis seguintes. A questão é, encarar este processo como um todo evolutivo, em que o que está para trás é fundamental para continuar o que está para a frente.
Fazendo uso das palavras de Formosinho (1997:39) ³o sucesso da educação pré-escolar depende muito do modo como for continuada no nível VHJXLQWH´ faz todo o sentido dizer-se que o 1º Ciclo não inicia, mas sim, continua um processo educativo com base em aprendizagens efectuadas no Pré-Escolar, sendo que o princípio básico desta continuidade está na articulação entre os dois.
Enceta-se assim, um processo de aproximação entre Jardins de Infância e escolas do 1º CLFOREDVHDGRHP³orientações curriculares comuns a todos os contextos institucionais em que a educação pré-escolar se GHVHQUROD´ PORTUGAL, 1992: 67), com o intuito de estabelecer uma articulação entre currículos benéfica ao estabelecimento de uma linha condutora entre diferentes etapas de formação num processo que se pretende unitário e global. Daí a necessidade de se estabelecer uma DUWLFXODomR FRUUHFWD DR ORQJR GR SHUFXUVR HGXFDWLYR FXMD ³continuidade será assegurada pela atitude educativa, ao passo que a especificidade resultará da escolha dos FRQWH~GRV´(MIALARET, cit. por NEVES, 1999: 55).