3. L’enfance en guerre sous l’angle de l’héroïsme
3.1. Polysémie d’une figure mouvante et ambigüe
Voltamos à questão da relação entre evangélicos e evangélicos. Em relação aos padres, os pastores se posicionam de maneira relativamente tranqüila, salvo situações como as verificadas em Afuá, o pensamento dominante entre os pastores entrevistados é de que a Igreja Católica é uma instituição que se encontra em “grave crise”, não sendo, portanto, uma “rival”, já as igrejas evangélicas, estando em expansivo processo de crescimento, não podem ser desconsideradas; das mais antigas denominações às mais recentes, elas não param de crescer e, nesse sentido, desconsiderar a importância de outras denominações religiosas evangélicas é, até certo ponto, ir contra a tese do crescimento de sua própria denominação; é como desqualificar o próprio eu.
Assim, ao mesmo tempo em que a idéia de crescimento gera um clima de euforia no meio evangélico, gera também uma grande expectativa acerca de qual denominação será a “escolhida” pelos potenciais convertidos.
Devido à diversidade de denominações presente na Ilha cada denominação evangélica se preocupa muito com seu desempenho em relação às outras denominações, no item usos e costumes que cada igreja adota se percebe como cada uma quer ser diferente da outra e, assim, se afirmar nesse mercado. De modo geral são duas as formas de entender a questão dos usos e costumes pelas igrejas locais.
Para umas, chamadas localmente de “tradicionais”, com especial ênfase para a Assembléia de Deus, os usos e costumes foram determinados pela bíblia, estão escritos, e basta que os fiéis os sigam, com o mínimo de mudanças ou adaptações. Essas denominações não se dizem rígidas, acreditam que “seguem as escrituras”; fazem questão que as mulheres tenham “zelo” com sua aparência mantendo os cabelos sempre longos e presos, saias abaixo do joelho, rosto sem maquiagem, ou qualquer “outra vaidade”. Itens como futebol e televisão não são recomendados, às vezes são até proibidos, dependendo do pastor em questão. Os pastores garantem que não obrigam ninguém a seguir tais costumes, pois as pessoas são livres para freqüentar a Igreja por um tempo como congregados e decidir se desejam, ou não, seguir as regras da denominação, se optarem pela conversão terão que seguir tais regras.
A segunda forma de entender as relações entre usos e costumes diz respeito àquelas igrejas que acreditam que não é “a aparência da pessoa que importa”, mas o fato de ela “sentir-se à vontade”. Reconhecem que os “tempos mudaram” e que a igreja precisa acompanhar essas mudanças.
Desse ponto de vista partilham igrejas recém chegadas na região, a exemplo da Comunidade Evangélica Integrada da Amazônia – CEIA, assim como igrejas pioneiras a exemplo da Igreja Cristã Evangélica. Ambas as formas de entender essa prática, tanto as muito rígidas como aquelas mais flexíveis são, segundo os responsáveis pelas denominações, pontos de atração para a membresia.
Se no passado a resistência de leigos e sacerdotes ligados a Igreja Católica, era a razão para os missionários evangélicos iniciarem seus trabalhos pelos interiores hoje
essa situação é bastante diferente. As igrejas recentemente chegadas na Região, têm como alvo principal as sedes municipais, algumas delas não fazem questão de desenvolver trabalhos nos lugarejos às margens dos rios e escolhem estrategicamente a cidade em que vão se instalar, tendo em vista sua localização e número de habitantes. Uma das explicações para o não trabalho nas zonas mais distantes das sedes municipais é a falta de pessoas que possam iniciar e tomar conta do trabalho de evangelização, afinal, manter um evangelista em temporada de evangelização inclui custos que nem todas as denominações podem manter. Além disso, tais denominações almejam fazer o caminho inverso tomado pelas primeiras igrejas, isto é, desejam se instalar nas sedes municipais do Marajó e, posteriormente, fazer trabalhos nas vilas e rios da região. Eles alegam que as cidades oferecem a melhor infra-estrutura para se manter uma denominação.
Mas o trabalho missionário em localidades distantes ainda é muito realizado, sobretudo pelas denominações Assembléia de Deus e Deus é Amor. Em minhas incursões a campo tive oportunidade de cruzar em duas oportunidades, nos barcos, com missionários em trabalho nos interiores do Marajó, ambos da Assembléia de Deus, eles são enviados pelas denominações para ficar um tempo relativamente curto no lugar em questão, seja auxiliando um trabalho recém-fundado ou mesmo para iniciar o trabalho em um lugar onde não haja evangélicos.
A vida religiosa nesses vilarejos é também bastante diferente daquela levada em sedes municipais ou cidades maiores, onde as relações sociais são mais frouxas. Por serem espaços menores as relações são mais próximas e a vigilância e controle de uns sobre os outros também o é. Relato aqui a experiência que passei numa dessas vilas no município de Chaves, Marajó.
A vila Maranata fica localizada na Ilha Cavianinha no Rio Arrozal, acerca de 9 horas de barco de Afuá. Formada por cerca de 20 casas se sustenta economicamente com a pesca do camarão e tiragem do açaí para subsistência, e corte do palmito para venda. Há duas escolas na vila que funcionam até a oitava série atendendo crianças da vila e de arredores. Possui um templo da Assembléia de Deus, denominação que chegou à vila em 1969.
Antes de chegar à Vila fui informada pelo pastor que todos os moradores da vila eram evangélicos, no entanto, à noite durante o culto para o qual fui levada, algumas pessoas presentes foram convidadas a “aceitarem Jesus”, o convite era dirigido para três ou quatro jovens mulheres que estavam sentadas na última fileira de cadeiras do templo. Elas não aceitaram o convite, mas continuaram até o final da celebração.
Como fui acompanhada pelos pastores de Afuá e da Vila, fui recebida pela comunidade com o mínimo de desconfianças. Chegando lá fui apresentada às pessoas e pude fazer algumas entrevistas, sempre na presença de ambos os pastores. Em algum momento fui procurada pela professora da Vila que, sabendo que se tratava de uma pesquisa acadêmica, se animou em ir conversar comigo, pois seu desejo, depois fiquei sabendo, é fazer um curso de especialização na cidade de Macapá.
A professora conversou um tempo relativamente curto comigo, porém foi uma conversa extremamente reveladora; gostaria de discutir dois pontos suscitados em sua fala: o primeiro diz respeito à forma como se conduz o processo formal de repasse de conhecimento numa comunidade de maioria evangélica, e o segundo ponto diz respeito às questões ligadas à identidade e cultura amazônica em relação com o universo evangélico.
A questão do repasse de conhecimento diz respeito às funções que a professora desempenha na comunidade, ela é ao mesmo tempo membro da denominação religiosa e professora da Vila. Convertida de uma família católica aos doze anos de idade, e casada com um católico que se converteu recentemente, a professora diz não ter problemas para desempenhar sua função na vila, pois todos a vêem com “bons olhos”. Ela é moradora antiga da comunidade que saiu para estudar em Macapá e retornou para dar aulas. Como professora de história diz não ter problemas com seu conteúdo, problemas mesmo, diz ela, enfrenta seu esposo, professor de educação física, pois ele não tem, segundo ela, muitos meios de desenvolver atividades com a turma, tendo em vista que suas alunas não podem usar shorts ou outra roupa adequada à realização de
esportes, além de que, qualquer outra atividade esportiva com bolas não é aceita pelos pais que acham que seus filhos estão sendo “desviados” 50.
O segundo ponto que queria chamar atenção diz respeito também à educação, mas de uma forma mais ampla. Está relacionado às crenças em entidades do sobrenatural como matintapereras, botos, encantados entre outras, comuns no imaginário amazônico. Na vila a professora de história diz lidar bem com isso, dado o fato das pessoas “não acreditarem mais nessas coisas”, mas argumenta que aquilo que nós (católicos) chamamos de lendas, pra eles (evangélicos) é diabólico, assim, acredita que possa existir seres malignos que se aproximam e incorporam nas pessoas para fazer o mal. Ao terminar nossa conversa, a professora me relatou, com riquezas de detalhes, a istória de uma conhecida sua que acredita que seu filho fora encantado. Não é o caso de eu repetir aqui a história relatada, mas, a maneira como a professora guardava riqueza de detalhes da história, sua expressão quando narrava o acontecido e a finalização dizendo que não sabia como tratar a questão, já que achava que a senhora acreditava mesmo que seu filho fora encantado pelas águas, indicam certa partilha na crença, ao final do relato, como que querendo justificar-se para si mesma, disse que o encante é citado pela bíblia.
Outro evento reforça a presença, mesmo que precária, de figuras do imaginário amazônico no cotidiano dessas pessoas, mesmo que elas conscientemente tentem mostrar que não.
Nesse mesmo dia em que conversei com a professora, ao final da tarde, conversei com uma jovem de 18 anos, que segurava um bebê de cerca de três meses no colo, estávamos no trapiche; conversávamos sobre seu namoro com um rapaz da vila, no meio de nossa conversa a moça parou e censurou o bebê por ele está olhando fixamente para o rio, perguntei por que ela fez isso e ela me respondeu que “faz mal bebês olharem fixo pra água”, porque a “mãe d’água” pode assustá-lo. Ela não utilizou
50 No município de Portel ouvi declarações de alguns professores que eram verdadeiros desabafos, eles
alegavam que em vilas distantes das sedes municipais o pastor das denominações em questão exerce verdadeiro monopólio sobre o conteúdo escolar assim como sobre a escolha do professor que vai desempenhar a função, dizem eles que já houve caso de professor ser “devolvido” à Secretaria Municipal de Educação porque não estava ensinando o que o pastor queria.
nenhum termo diabólico para caracterizar a entidade, lançou mão do termo recorrente na crença dos ribeirinhos amazônicos para justificar seu ato.
Considero este ponto de fundamental importância, pois acredito que os evangélicos, habitantes dessa parte da Amazônia brasileira, mesmo vivendo sob um universo de crenças diferentes daquelas cultivadas pela maioria da população da região, partilham, em algum nível, dessas crenças. A razão para isso é que essas crenças se fundem ao universo religioso dando forma a uma totalidade que é a própria vida dessas pessoas. Não tenho dados objetivos para tratar dessa questão, mas minhas observações e experiência têm me convencido que, na prática, no campo de um certo imaginário amazônico, temos mais continuidade que descontinuidades entre evangélicos, católicos e adeptos de outras formas religiosas.
De alguma maneira minhas considerações destoam daquelas verificadas por Harris (2006), em sua pesquisa no Baixo Amazonas. Ele verificou que nessa região da Amazônia há uma resistência muito grande dos católicos em relação aos evangélicos, essa resistência impede, inclusive, a convivência de famílias recém-convertidas em seu lugar de origem, obrigando as mesmas a migrar depois de sua conversão para outros lugares . Diz ele:
E levou algum tempo até que eu obtivesse uma explicação que fizesse sentindo, já que essas famílias não haviam se mudado por causa da educação de seus filhos, por fim fiquei sabendo que estas famílias haviam se convertido para a Assembléia de Deus (em 1998) e foram forçadas a se mudar. Os protestantes convertidos (oito adultos, numa densa rede de unidades domésticas) tentaram viver em harmonia com seus vizinhos, católicos, e não devemos nos esquecer de que essas pessoas são todas intimamente aparentadas. Mas, no fim, a tensão subjacente cresceu muito. Os crentes solicitaram mudanças na escola, como a suspensão da execução do hino nacional (porque contem referencias católicas), e passaram a se abster das atividades de lazer costumeira, como beber, fumar e assim por diante, eles não comiam mais os mesmo tipos de peixe, vestiam-se de modo diferente e não trabalhavam aos sábados. Todas essas diferenças provocaram um racha, que se tornou cada vez mais irreconciliável, assim as famílias partiram e se juntaram a pequenas comunidades protestantes em cidades próximas (HARRIS, 2006, p, 96-97).
Na região do Marajó não foi verificado nada em relação a famílias que tiveram que migrar devido sua escolha religiosa, apesar de haver bastante relatos que falam de “tempos difíceis” no passado, também não verifiquei nenhum problema com relação a
alimentação ou às questões do resguardo do sábado como dia de descanso, especialmente com a denominação Assembléia de Deus, citada pela autor.
Ainda sobre a área pesquisada por Harris, ele conclui que os ribeirinhos por ele investigados, apesar de possuírem uma abertura cultural para as influências externas, “o protestantismo, para a maioria, é uma mudança demasiado profunda” (p. 98). Quanto a essa questão arrisco dizer que no campo investigado não apenas as pessoas têm se adaptado ao universo evangélico, mas o próprio universo evangélico tem se re- configurado para receber essas pessoas51.