Da análise efetuada às narrativas dos supervisores constatamos que estes compreendem a supervisão de estudantes em ensino clínico como um processo indutor e promotor do seu desenvolvimento profissional. Este processo é encarado como um período privilegiado de reflexão sobre vários aspetos da prática profissional e supervisiva, durante o qual o supervisor é confrontado com diferentes perspetivas e teorias trazidas pelo estudante, despoletando a necessidade de se preparar para a tarefa.
Os atores fazem alusão à importância da transposição para a prática dos conhecimentos teóricos que vão apreendendo no contacto com os estudantes, valorizando a reciprocidade como um motor de enriquecimento pessoal e profissional. Está também patente nos seus discursos a importância de analisar, avaliar e repensar constantemente as suas práticas. É esta capacidade autocrítica que conduz à mudança e à consequente melhoria contínua nos cuidados de enfermagem.
O impacto emergente desse desenvolvimento pode alargar-se para além do próprio supervisor e a abranger toda a equipa, nomeadamente quando se verificam alterações das práticas clínicas, com base, não só no que os estudantes puderam impulsionar, mas também com base nas pesquisas a que levaram os contributos dos estudantes.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Durante o ensino clínico, o supervisor é confrontado com diferentes perspetivas e teorias trazidas pelo estudante, despoletando a necessidade de uma constante atualização e formação profissional e de uma reflexão sobre vários aspetos da prática profissional e supervisiva que o conduza à competência profissional.
Neste contexto, e de acordo com Le Boterf (2003), no processo de desenvolvimento de competências compete ao profissional saber transpor, o que pressupõe que este tenha a capacidade de aprender e se adaptar, que consiga tirar as lições da experiência, transformando a sua ação em experiência. Esta ideia aparece bem marcada no discurso dos atores, que
consideram que durante a supervisão de estudantes em ensino clínico o supervisor tem oportunidade para ficar em contacto com a parte teórica que entretanto poderá ter ficado mais esquecida, permitindo-lhe transpor para a prática esses conceitos, de forma a melhorar as suas práticas.
Na mesma linha de pensamento, o estudo de Sword et al. (2002) evidencia a importância dos supervisores se sentirem ligados com o corpo de conhecimentos científicos do curso de enfermagem e por se sentirem revitalizados com as discussões e reflexões emergidas no contacto com estudantes.
A investigação conduzida por Huybrecht et al. (2011) revela-nos também os ganhos potenciais que a partilha de experiências e o acompanhamento próximo dos desenvolvimentos da disciplina se revestem para o supervisor. Esta partilha de experiências conduz muitas vezes ao confronto de perspetivas que, na ótica dos atores, propiciam a reflexão, a análise e a avaliação constante das práticas. O profissional reflexivo é aquele que sente necessidade de repensar constantemente as suas práticas e as suas atitudes, confrontando os seus saberes, movimentando-se numa postura crítica e aberta à mudança. O profissional reflexivo sente-se implicado em todas as ações, estando consciente que estas poderão ter repercussões no seu auto desenvolvimento e no desenvolvimento das pessoas com quem interage, nos contextos em que se move e nos processos proximais operados ao longo do tempo.
Outro dos aspetos emergentes no estudo é a constatação que o supervisor, no contacto com o estudante, adquire uma maior consciencialização de si próprio, das suas características, dos seus comportamentos, das suas atitudes e das suas limitações, com reflexos importantes no seu desenvolvimento pessoal e consequentemente profissional. Não obstante, os supervisores descrevem os aspetos que foram alvo de mudança nas suas práticas durante ou após os períodos de supervisão de estudantes em ensino clínico, dos quais destacamos: i) Mudança de procedimentos e de algumas práticas estabelecidas nas instituições de saúde; ii) Revisão dos procedimentos adequados à prestação dos cuidados de enfermagem, com vista à melhoria contínua dos mesmos; iii) Desenvolvimento de competências comunicacionais e de relação interpessoal; iv) Mais rigor na realização dos registos; v) Maior
atenção ao acolhimento do utente/família; vi) Mais cuidado na informação/educação prestada ao utente; vii) Aperfeiçoamento de estratégias de formação e de supervisão;viii) Estudo dos diferentes perfis de supervisor clínico.
CONCLUSÕES
Os supervisores do estudo consideram que a supervisão de estudantes em ensino clínico provoca um impacto no seu desenvolvimento profissional. Para este desenvolvimento profissional concorrem vários aspetos que emergem no processo supervisivo. Ressaltamos os seguintes: i) Maior consciencialização de si próprio, das suas características, dos seus comportamentos e das suas atitudes, ajudando-o no processo de desenvolvimento pessoal; ii) Movimentação na espiral teoria-prática e prática-teoria, tendo por base processos de observação, reflexão e questionamento; iii) Apreciação das necessidades formativas e consciencialização de que se torna necessário efetuar uma mudança de perspetiva, com o respetivo reflexo nas práticas; iv) Mais responsabilização pela formação ao longo da vida; v) Confronto com outras perspetivas e formas de pensar; vi) Promoção da reflexão em equipa e com o estudante; vii) Observação mais atenta e rigorosa, impulsionadora do questionamento, da reflexão e da (des/re)construção das práticas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Le Boterf, G. (2003). Desenvolvendo a competência dos profissionais (3ª ed. revista e ampliada). Porto Alegre: Artmed editora.
Huybrecht, S., Loeckx, W., Quaeyhaegens, Yvo, De Tobel, D., & Wilhelm, M. (2011). Mentoring in nursing education: Perceived characteristics of mentors and the consequences of mentorship. Nurse Education Today, 31, 274-278.
Ordem dos Enfermeiros (2010). Modelo de Desenvolvimento Profissional:
sistema de certificação de competências. Lisboa: Conselho de
Enfermagem.
Sword, W., Byrne, C., Drummond-Young, M., Harmer, M., & Rush, J. (2002). Nursing alumni as student mentors: nurturing professional growth. Nurse
Education Today, 5, 427-432.
Yin, R. (2010). Estudo de Caso: Planejamento e Métodos (4ª ed.). Porto Alegre: Bookman.
SUPERVISÃO NO ENSINO CLÍNICO NO SERVIÇO DE CIRURGIA: UM