A cadeia em que essa estória foi encenada fica localizada na cidade de Petrolina, no Sertão de Pernambuco: território de sol escaldante, de solo fértil e de vidas resistentes. A região abençoada pelas riquezas trazidas pelo Velho Chico se desenvolveu muito nos últimos anos -
Ana
Negra, tem entre 20-30 anos, bissexual, estudou até a 5ª série, não tem religião, foi presa por tráfico. Cumpre uma sentença de 8 anos. Trabalhava na infância como catadora de frutas.
Antônia
Branca, tem entre 30 -40 anos, heterossexual, tem união estável, estudou até a 7ª série, não tem religião, mas acredita em Deus. Foi presa a 8 anos por tráfico de drogas. Sentenciada a 37 anos, possui mais de uma sentença.
Sandra
Negra, tem entre 30-40 anos, heterossexual, divorciada, trabalhava como agricultora, católica, estudou até a 3ª série do ensino fundamental, presa há mais de 4 anos. Sentenciada a 10 anos.
Raimunda
Parda, 30-40 anos, bissexual, parda, solteira, não tem religião, mas acredita em Deus. Tem ensino superior incompleto. Não tem filhos.
Jucira
Negra, tem entre 30-40 anos, heterossexual, casada, manicure, estudou até o 3º ano do Ensino Médio. Presa por furto qualificado. Teve quatro filhos. Não possui sentença. Tem quatro filhos, um deles vive com o pai, dois com a avó materna e um está em uma instituição de acolhimento.
Marta
Negra, tem entre 20-30 anos, heterossexual, solteira, católica, estudou até a 7ª série, trabalhava como doméstica e vivia com a o bolsa-família, foi presa ao tentar entrar em uma unidade com 133 gramas de maconha. Cumpre uma sentença de quatro anos e seis meses. Presa há 1 ano e cinco meses.
atualmente ocupa uma posição de destaque no cenário econômico nacional e internacional em função da sua relevância no setor de exportações de frutas e de vinhos para países da Ásia, da Europa e para os Estados Unidos - também tem uma história cruel em se tratando da exploração dos trabalhadores rurais.
Situada na divisa entre os Estados de Pernambuco e Bahia, Petrolina-Juazeiro são quase uma só, divididas por uma ponte, que como cantada nos versos de Altinho18, se levantava para dar passagem ao vaporzinho que descia rio abaixo. A fé do seu povo vem de vários santos e lugares, seja ela em Nossa Senhora Rainha dos Anjos, padroeira da cidade ou no nego d’água e nas carrancas19 que protegem os pescadores e ribeirinhos dos maus agouros do poderoso rio. Por sua localização geográfica estratégica, a região opera como um grande elo entre diferentes estados do Norte e Nordeste, por se escoa boa parte da produção agrícola produzida. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Petrolina tem uma população de 343.219 pessoas. A sua vizinha Juazeiro, na Bahia, tem um quantitativo populacional de 221.773 pessoas. Juntas, Juazeiro e Petrolina tem uma população de mais de 500.000 pessoas, além das inúmeras das cidades do Piauí, da Bahia e de Pernambuco que fazem vizinhança a esses dois territórios.
Banhada pelas águas do Velho Chico, a região do Submédio do São Francisco
,
onde Petrolina faz território, foi desde os tempos coloniais até os primórdios da era republicana,
conhecida como o “polígono das secas” (Ribeiro, 2008)20.A geografia da seca começa a mudar, ao menos para uma pequena minoria de políticos e latifundiários, a partir das décadas de 40-70, com a consolidação de projeto hidrelétricos que modificaram a topografia econômica da região. No entanto, “o projeto de uma modernidade extremamente conservadora” (Ribeiro, 2008, p.1), que empregou um grande contingente de trabalhadores rurais, também acentuou sobremaneira a desigualdade em termos de classe e território no sertão pernambucano, o que deu vazão ao
18 Trata-se da canção “Juazeiro, Petrolina”, de Jorge de Altinho, que faz referência as cidades vizinhas que são
banhadas pelo Rio São Francisco e separadas por uma ponte que fronteiriza os estados da Bahia e de Pernambuco.
19 Esculturas de madeiras que são colocadas nas barcas que navegam pelo Rio São Francisco como forma de
proteção dos pescadores e ribeirinhos.
20 As informações foram extraídas do artigo intitulado “O ‘Polígono da Maconha’, de Ana Maria Motta Ribeiro,
professora de Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), em que se faz uma análise das relações sócio-histórico-patriarcais das transformações políticas e econômicas empreendidas na região do Vale do São Francisco, sobretudo, no que diz respeito ao avanço do agronegócio e da expansão da economia do tráfico de drogas. Disponível em: http://diplomatique.org.br/o-poligono-da-maconha/. Acesso em 5 de novembro de 2017.
desenvolvimento de uma atividade ilícita que tornou a região do Submédio São Francisco uma das maiores produtoras de cannabis no Brasil, conhecida nacionalmente como o polígono da maconha.
Essa economia ilícita foi constituída dentro de um amálgama moldado pela cultura sertaneja tradicional, impregnada de violência e pistolagem misturadas a uma linguagem e uma presença modernas, mas também como consequência das contradições fomentadas pela ambiguidade-e do modelo agrícola central, que reduziu o foco no social e aumentou o contingente de excluídos (RIBEIRO, 2008, p. 1).
Em entrevista publicada na Carta Capital21, o professor Paulo César Fraga, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), aponta para o curioso fato de região do Vale do Vão Francisco ser responsável pela produção de 40% da maconha consumida em território nacional, abastecendo as grandes capitais, regiões metropolitanas e cidades do interior do Nordeste (FRAGA, 2015a; FRAGA, 2015b).
Segundo o autor, embora presente há muito tempo na sociedade brasileira, o consumo da maconha se intensificou profundamente a partir da década de 70, quando um grupo significativo de pessoas passou a externalizar os ideais da contracultura que se disseminava pelo mundo. Na região do Submédio São Francisco, o seu cultivo em larga escala se deve, principalmente, a implementação dos projetos hidrelétricos que impulsionaram o seu desenvolvimento econômico (FRAGA, 2015a; 2015b; 2015c).
Figura 1 - Divisa entre os estados da Bahia e Pernambuco. Ponte sobre o Rio São Francisco.
Fonte: Arquivo de Antônio F. da Silva (Reprodução autorizada).
Os agricultores que sobrevivem do cultivo da maconha realizam seu trabalho seguindo uma dinâmica semelhante aos demais produtores agrícolas da região, a exceção é a intensa repressão que recai sobre suas vidas. Segundo o autor, é preciso que aconteçam transformações
21 Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/brasil-produz-40-da-maconha-que-consome-
de caráter macropolítico no que diz respeito à legalização da droga, pois os efeitos na economia doméstica de quem planta e de quem vende são avassaladores (FRAGA, 2015a; 2015b; 2015c).
A política de drogas é severa demais para com essas pessoas, em sua maioria pobres, que veem no cultivo do produto ilícito uma fonte de complemento de renda. Aqui no Vale do São Francisco, as plantações de maconha ficam localizadas em áreas de difícil acesso como em ilhas, propriedades abandonadas e na própria caatinga (FRAGA, 2015b; 2015c):
Em um possível cenário em que a maconha seja liberada, esta região poderia ser aquela que teria o monopólio da produção, notadamente, no sistema de agricultura familiar. A maconha, então, traria melhores condições de vida para o sertanejo. Porque vamos ainda colocar trabalhadores rurais na cadeia ou na vida do crime? Quem ganha com isso? Com certeza, não é o pequeno agricultor. Quem mais se beneficia não é o pequeno agricultor, mas o atravessador e o "patrão", como na agricultura tradicional (FRAGA, 2015c, p. 1).
Esses aspectos, na minha ótica, são imprescindíveis para o entendimento da articulação dos marcadores sociais da diferença (raça/etnia, gênero, classe, território/geografia, geração) na construção histórica de relações oligárquicas e fundiárias que produzem a desigualdade e a exclusão, que têm capturado ininterruptamente uma parcela significativa das vidas sertanejas. Vidas essas, que encontram nas interlocuções com atividades ilícitas, como o cultivo e/ou o comércio de maconha, um modo de subsistência à precariedade que toma corpo nas suas trajetórias e nos seus fluxos rurais e urbanos.
4.3 Criminalização da pobreza e suas intersecções de gênero, raça, território e geração: