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Political will and basin management systems

2 How to use this handbook

3.1 Political will and basin management systems

Como citado acima, enquanto em alguns lugares de peregrinação a motivação maior é a própria obrigação, em outros lugares, os romeiros vão motivados pelas belezas naturais já vistas ou mesmo para conhecer lugares narrados por outros romeiros. Essa motivação pode se destacar em determinados pontos de peregrinação como Bom Jesus da Lapa, onde o santuário encontra-se dentro de uma gruta, sendo ao fundo banhado pelo Rio São Francisco. A cidade é considerada além de mágica, bela por suas paisagens naturais.

A natureza e a beleza de Bom Jesus da Lapa foram ressaltadas por diversos romeiros que conheci em Maracás. Um jovem da paróquia disse-me que as motivações para ir à romaria variavam de acordo com o lugar de peregrinação. Disse-me que os romeiros vão a Bom Jesus da Lapa para ver a beleza, ―o morro‖, ―o Chico‖; já para a cidade de Milagres vai-se por obrigação.

Outro senhor ainda me disse que iria ―até passeando, ontando o Bom Jesus‖. Quando lhe perguntei o que é ―ontando‖, ele respondeu-me que se referia ao fato que ―entrando para ver o Bom Jesus, a igreja é linda!‖ E acrescentou que, em Bom Jesus da Lapa, há um barco que faz passeios no rio São Francisco, nos meses de outubro e setembro. Falou ainda que viajou para Bom Jesus da Lapa no último outubro e que passou três dias lá, concluindo sua narrativa sobre a viagem dizendo que era ―bonito‖.

Eu poderia ainda oferecer outros exemplo etnográficos, como quando com um jovem de 16 anos em Maracás contou-me sua experiência em visitar a Gruta do Coração de Jesus, mencionada no capitulo 1, na companhia do seu grupo de crisma da Igreja. Ele contou- me que ao ver as imagens esculpidas na Gruta achou-se pensando,

―como é possível não acreditar em Deus?!‖ Pois para ele a mão de Jesus fez tudo e exclama ―como a natureza é bela‖.

Esse tipo de argumento poderia a princípio remeter a uma ideia de turismo como descreve Steil, mas a experiência descrita pelos romeiros não parece ser a de um espectador distante, não se trata de uma atitude de contemplação, mas de experiência com Deus que é precipitada ao ver e sentir a beleza e magia do lugar de peregrinação. Os romeiros conjugam beleza e natureza com a existência de Deus, tomando—as como sua manifestação. O discurso, mesmo, de seu Raimundo no capítulo 1, no interior da Gruta, já sinaliza que as belezas naturais não passam despercebidas, e que também não são divindades a serem adoradas, mas atestam a existência de Deus, o único que poderia ter criado tais artefatos naturais, o arquiteto do mundo, como atesta o próprio livro de Gênesis, no qual se descreve a criação do mundo. 3.5.7 “Uma Muvuca”

Umas das primeiras respostas que obtive ao perguntar a uma senhora, que desde pequena vai a romaria, por que ir a romaria foi ―Porque é bom‖ e porque ―é um dia criativo‖. Confesso que tais respostas estavam bem longe das minhas expectativas iniciais, que giravam em torno de pagar promessas e aproximar-se de Cristo.

No dia seguinte, essa mesma senhora falou que a romaria serve para conhecer melhor pessoas com quem antes não se tinha muita intimidade. Depois, refletindo sobre minha surpresa, pensei que esta expressava menos uma diferenciação ou distanciamento entre as motivações por ela expressa e as por mim esperada, do que meu próprio esquecimento do que prega a Igreja Católica frequentada por aquela senhora, quando ensina aos seus fiéis que Jesus e os Apóstolos pregaram a necessidade da comunhão entre os irmãos, e que a própria Igreja teria sido fundada pelo propósito de facilitar o fomento da fé entre os irmãos.

Outra jovem romeira disse-me que, além da ―conversa fiada‖, noite a fora, na rancharia, suas lembranças remetem ao caminho da romaria no pau-de-arara como também um momento de descontração. Ela contou-me que, nas paradas do caminhão para descanso, as crianças divertiam-se ao ver as senhoras sem calcinhas e de anáguas descendo do caminhão. Contou-me também que as crianças divertiam-se com os campeonatos de cuspe e outras brincadeiras no caminho.

As romarias também parecem servir eventualmente a paqueras. Certo senhor, habitante da cidade de Maracás, enquanto me contava sorrindo como eram as romarias antigamente em Maracás, narrou que

numa de suas idas à Gruta do Coração de Jesus, conheceu uma moça e que se beijaram durante a peregrinação. As carícias só foram interrompidas na caminhada dentro da Gruta a pedido da moça, que alegava que se devia respeitar os lugares sagrados.

Outra situação curiosa, ligada a essa faceta da romaria associada a uma disposição para descontração, deu-se quando fui a Bom Jesus da Lapa em companhia de romeiros e de algumas pessoas que compunham o clero da região de Maracás – padres e freiras. Durante toda a viagem, a maioria das pessoas divertia-se em alta voz, cantando músicas bregas e sertanejas, contando piadas, e criando intrigas de brincadeira com companheiros de viagem. Durante todo o trajeto até chegar a Bom Jesus da Lapa, uma das freiras, vestida nos seus tradicionais hábitos, encabeçava a diversão de tal modo que quando o ônibus parou, o padre desceu resmungando em tom de brincadeira ―E freira é gente?‖.

Na volta dessa mesma viagem, a animação continuou. Exausta e com sono, observava sem muito interesse toda aquela algazarra, até que alguém reclamou da música que tocava no ônibus. Então, uma freira foi à cabine do motorista operar o som e voltou cantando e abrindo os braços ao som de ―Eu quero tchu, eu quero tcha. Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha‖!

Bem, não é difícil imaginar que, por um instante, perguntei-me se aquilo era real. Parecia que eu estava participando de um musical inspirado no Mudança de hábito (1992) estreado pela atriz Whoopi Goldberg. Só que a freira em questão não estava disfarçada, era ela mesma uma Irmã, romeira e mais uma protagonista de toda aquela animação.