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7. Conclusions and policy recommendations
7.2 Policy recommendations
Seguindo a premissa de que o t e n ^ é o principio condutor do cronotopo, a questão inicial é saber como o tonpo é assimilado nas onônicas esportivas de Nelsoa
Pode-se verificar, observando as crônicas de Manchete
Esportiva, que se desenvolve alguma ação entre os pólos inicial e final de cada
narrativa tomada isoladamente, o que configura a existência de uma linha temporal de acontecimentos intema a cada um dos escritos. Já, quando tomadas em grupos ou como \im todo, há uma fábula - compreendida como seqüêiu:ia temporai-causal^ - que se desoivolve ao longo do conjunto das narrativas, o que permitiria falar da existência de tim tempo narrativo que se elabora cumulativamente, na série completa das oônicas.
* Cf. WELLEK, René; WARREN, Austin (trad. José Maria Gimeno). Teoria Literaria. Madrid: Credos, 1985.4.ed. p. 262.
Em Rigoletto de Lança Perfime^ há duas linhas ten:^x»ais iniemas á crônica, uma contemporânea do narrador, outra que resgata do passado para arrematar a narração, que de maneira nâo linear acabam por criar um efeito de circulo, coroado com o recurso estilístico de usar as últimas palavras da narrativa como título - logo, inicio - da mesma. O narrador caminha pelas ruas do Rio e é detido num cruzanoento pelo sinal. Alguém no meio da multidão denuncia a presença de um fiscal, o rapa, e as pessoas ficam histéricas, até que se nota que era rebate falso. Nâo havia rapa nenhum. Depois de obsHvar que um conhecido psicanalista fora o último a se recuperar do susto, o narrador taz tima pré-conclusâo, de que a chamada consciência humana é o
medo do rapa, para entâo desdobrar seu raciocínio e chegar ao futebol. Ele
argumenta que enire todas as pessoas, apoias o juiz de futebol é rmune ao
pânico de ser apontado como ladrão. Após uma breve apologia da falta de
vergonha do jiúz, traz da memória o relato de um episódio de 1915, quando um áibitro, por vergonha, recusa um subomo e é tido como louco.
Entâo, o tempo narrativo interno da crônica associa o relato de uma vivência quotidiana do autor (sua experiência na rua e sua idéia do medo do julgamento - lembrando Albert Camus eco. A Quedá^^) com o relato de um acontecimento do passado (o caso do árbitro que nâo aceita o subomo), ou se^a, duas linhas temporais entremeadas por um relato sem-tenqx» (a situação exclusiva do juiz de futebol que é impassível ao julgamento alheio). Este terceiro momento, que existe tenqxDralmente apenas dentro da narrativa, e que manifesta a imagem construída pelo autor do conflito intemo do ser himiano diante do seu papei público, é que cumpre papel organizador dentro do relato.
’^Crônica II.M anchete Esportiva a® 11 ,4 fev. 1956.
Observando, por sua vez, o conjunto das crônicas de Manchete
Esportiva, verifíca-se nele a representação da grande fábula do iutebol brasileiro,
compreendida como manifestação do imaginário coletivo nacional. Desde a primeira crônica, que resgata o surgimento de times como o Flamengo e o Fluminense, passando pelo conjunto de narrativas que relatam momentos dos campeonatos regionais e da Copa de 1958, passando pela estilização de personagens que se tomaram ícones dentro do universo futebolístico, como Pelé, Didi e Garrincha, conügura-se a existência de um enredo que, de forma nào autoritária, unifica as 156 crônicas da série a partir de algo como uma "grande temporalidade" do futebol brasileiro, temporalidade que Nelson Rodrigues, indiscutivelmente, ajuda a organizar e pontuar com seus escritos.
O modo como Nelson se utihza do jogo de futebol paia organizar Uterariamente tal temporalidade, bem como seu modo de apreoisão do tempo intrinseco do jogo, é que configuram a peculiaridade cronotópica dessas crônicas. Uma primeira anáhse a fazer é se ele reproduzia a ação do jogo como ação na narrativa, estilo iniciado nos anos 20 pelo escritor e jornalista Antônio de Alcântara Machado, conforme estudo de Nicolau Sevcenko'*^. Nelson se utiliza às vezes desse recurso. Há casos em que a ação narrada transcorre acompanhando o tempo de tim jogo, reprodtizindo no texto o tempo cronometrado, marcado e de extrema concretude das partidas. É o que acontece nessa crônica que Êila de Garrincha, narrada no pretérito perfeito:
[...] Garrincha apanha a bola e dispara. Os 120 mil argentinos gelarasL E Robles, o nosso Robles, caiu num pânico convulsivo. Ele percebeu que
Garrincha faria o gol ou, pelo menos, reconheceu esse perigo evidoitíssimo. Imaginem um gol brasileiro em cima da hora e Robles tendo de reconhecê-lo! Ele que, naturalmente, tem familia, surrupiou uns bons três minutos e apitou, apitou histericamente. Ao mesmo tempo, a bola estufava o barbante argentino. Amigos, Robles assassinou o gol brasileiro!'2
É in:^x}rtanie lembrar, nessa análise, que assim como "Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte"'^, também a narrativa escrita nunca e simultânea ao jogo narrado. A narração sempre se refere a um evento que já passou, como por força acontece no jornalismo escrito, em que o distanciamento minimo, do acontecimento á redação, parece funcionar como atestado de autenticidade para os fatos relatados. Em muitas de suas crônicas, contudo, Nelson rqjroduz narrativamente as caracteristicas especificas do te n ^ do jogo, que e ao mesmo te n ^ controlado e dinâmico: a rigidez do cronômetro associada á rapidez dos passes e das jogadas. O xiso do presente do indicativo parece intensificar esse efeito, como se pode perceber nessa outra crônica, sobre Pelé:
Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer to ia despachado. Pelé, nâo. Olha para a fiente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o '2 Crônica IA&. Manchete Esportiva tl" 177,11 abr. 1959.
segundo. Vem-lhe, ao encalço, ferozmaiíe, o tanceiro, que Pelé corta, sensacionalmente.
Narrados ^ toupo passado ou presente, nesses episódios a açáo narrada aconiece no campo de futebol. O campo toma-se o espaço da narração e o tempo do jogo, o tempo da naiiação. Na maior parte das narrativas iutebolisticas de Nelson, poiém, o tempo da nanação rompe com o tempo compacto do jogo. Ele iranscende a tempoiaUdade padronizada da partida e ingressa num lempo irrestrito, alimentado pela memória.
[...] a imaginação da crônica funciona mesmo embabco de goteiras. E nunca me esqueço de um Fla-Flu tempestuoso. Chovia a cântaros, a t^des. O vento fustigava, varria, desgrenhava a crônica. Mas esta, qual nma lunosa equipe de Balzacs, não arredou pé: - continuou, fírme e inspiradissima, a encher tiras, resmas, bobinas de papel. Vamos e venhamos: - tal impassibilidade profissional é sublime!
[...] a torcida tricolor era, nos últimos jogos, uma amaiga sombra de si mesma. Por toda a cidade, esbarrava-se, tropeçava-se « n "pós de arroz" amargos, azedos, deprimidos. E digo mais: - fomos para o Maracanã na prévia e irredutivel c ^ ^ a de que iamos levar na cabeça. Felizmente, o coice
''’ Crônica 104 no volume anexo. M inc^eíe£ipo?tjvaa“ 120,8mar. 1958. ' ^ Crônica 3. Manchete Esportiva t f 3,10 dez. 1955.
sublime mudou o nosso panomma iníerior. Examinem as caras dos tricolores: - resplandecem por toda a cidade.'^
À memória nào alimenta apenas passagens eventuais das crônicas. Muitas v ^ s , ela desfía uma crônica inteira, como nas ciônicas 1 e 4, por exemplo. Embora o jogo e o campo sejam o tempo e lugar dos acontecimentos narrados, é na memória que a açào se organiza. Ela ronç)e, também, com a imediaticidade entre os fatos reportados na revista e a temática de NelsoiL E é, em última instância, a mranória que organiza a série total de crônicas, sejam elas de ontem, sgam históricas, imia vez que a nairaçâo nâo é
feita concomitantemente ao jogo.
Partindo da idéia de que há um enredo tbrmado pela série total ou por algumas séries de crônicas, pode-se dizer que ele é tramado sobre esse tempo especial, alimentado pela memória. O tempo da memória transcende as partidas, pontuais, e as articula num eixo histórico, tmindo-as para além do limite de cada uma das narrativas, num Uame que poderia ser chamado de horizontal. É esse tempo da memória, portanto, que possibilita a formação de imifl iábula exterior a cada uma das crônicas, conferindo-lhes unidade de conjunto.
No interior dessa horizontalidade englòbadora, calcada sobre o tanpo da memória, é possivel destacar dois modos distintos de organização dos acontecimentos. No primeiro modo, as crônicas se apresentam como cones verticais no grande te n ^ histórico do iutebol brasileiro, desde o inicio do
século, até à época da narrativa. Essas crônicas relatam cada uma um episódio e, colocadas lado a lado, constituem uma contínuidade histórica de gtande concretude.
No segundo modo, as afônicas fazem con^ctações de grandes períodos em pequenos espaços. Ou seja, sào ciònicas que articulam, elas mesmas, vários episódios de uma série, como se a própria narrativa, em sua brevidade, compusesse um histórico. É o caso da (^n ica 3, sobre o sanduíche, em que se relata a história da relação dos clubes com a crônica esportiva. Ou da crônica 1, sobre a gana do Flamengo, que inaugura a presença de Nelson em
Manchete Esportiva. Nessas crônicas, a ficção não se desenrola entre o ponto de
inicio e o ponto de chegada da narração, mas sún, sobre esses dois pontos.
Gérard Genette denomina de cena o tipo de narração do primeiro modo, em que são relatados episódios, e de sumário o do segundo, o das con^actações^^. Ele observa que se tratam de aspectos das velocidades narrativas e, enquanto as cenas são em geral uma expressão, relato de um episódio, os sumários sào geralmente abstrações. O que nos remete de novo à possibilidade de entrever nas crônicas de Nelson esse movimento do tempo expressivo das cenas - como nos exemplos das crônicas sobre Pelé e Garrincha - com o tempo abstrato da memória, que pode, por sua tanto relatar cenas como sumariar a história.
A própia possibilidade de fimdir expressões e abstrações se dá, pois, através de associações da memória do narrador. Uma mocnória de que - e aqui aumenta o int«%sse - não se exige coerência. As narrativas vêm pontilhadas
de descontinuidades de pensamoito e de verdades que mudam de lugar. Conforme o momento vertical a verdade do narrador pode ser outra, como sucede nessa opinião sobre o Maracanã, que se inverte radicalmente, de um a situação para outra:
No Maracanã, há entre nós e o jogo uma distância irredutível. Todas as nossas relações com a partida são modificadas. E, de feto, que espécie de élan, de glorioso espasmo, de furiosa adesão podemos ter, se tudo é tão vago, longínquo, utópico? Insisto, amigos: - a diatâncifl desumaniza os fatos, retira das criaturas todo o seu conteúdo poético e dramático.'8
O mesmo narrador, em outra crônica, afirma: Decidimos o título onde? Aqui, no doce, no idílico, no bucólico Maracanã?
Ou seja, o Maracanã pode ser bucólico num dia, Mo e distante em outro, dependendo apenas da idéia geral que o narrador prociira defender. Ele retoma um mesmo assunto em divorsos momentos da série de crônicas, mas a significação desse assunto não é sempre necessariamente a mesma: pode ser substituída por outra, mais apropriada para a situação narrada. Essas descontinuidades de pensamento revelam a circulação de sentidos dentro da crônica de Nelson, e podem ser apontadas como aspecto da sm concepção da verdade, um tema que ainda será retomado.
Crônica 5, Manchete Esportiva a “ 5,24 dez, 1955. '^Crônica 75,Manchete Esportiva a° 81,8 jua 1957.
o que é possivel afinnar a partir dessas observações iaiciais é que o tempo se manifesta de maneira complexa, porém com alguma constância,
oessa série de crônicas. O instante pode durar uma crônica, ccono o instante em
que o mono é olhado na capelinha, na crônica 12; 50 anos de história podem caber noutra, como nas crônicas sobre a história do F la m ^ o ou a do sanduíche, já mencionadas; e, finalmente, uma verdade aparentemente etema pode deixar de ser vaxladeira, crônicas depois.
O que sobressai na complexidade dessa assimilação do tempo é a intensidade. A imensidade do instante na memória do narrador é que determina a verdadeira duração narrativa. Ela é também uma componente temática, ao longo das 156 crónicas. A preocupação com a idade dos jogadores, como é o caso de Ziza, o craque sem idade, e a conclusão de que o tempo no futebol é desonesto, são alguns dos exemplos em que a duração é tematizada.
O que nós chamamos idade, o que nós chamamos tempo, o que nós chamamos velhice nada mais é do que um jc^o de aparências e de ilusões. A idade ricocheteia por Zizinho sem atingi-lo. Em .\ssunção, ele se projetou aos olhos do público e dos companheiros, is^ to do tempo. E vamos e venhamos: - sua velhice é mü vezes mais nova, quinhentas vezes mais jovem do que a adolescência dos companheiros.^^