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Main policy recommendations

Dans le document for Structural Transformation (Page 174-200)

Centre for Migration Studies, University of Ghana, Legon

6.2 Main policy recommendations

Esta pesquisa está embasada na leitura analítica de La ciudad y los perros, levando em consideração seu caráter político em função de desnudar a realidade vivenciada por jovens militares de Lima, capital do Peru. As ideias aqui desenvolvidas estão fundamentadas na crítica sociológica de Bakhtin (1997), na crítica integrativa de Candido (1987), nas reflexões acerca do boom propostas por Donoso (1987), nas

teorias sobre as relações de poder de Foucault (1987), na teoria do romance de Lukács (2000) e ainda nos ensaios críticos do próprio Vargas Llosa e de outros autores do boom.

Os postulados de José Donoso serão usados para elucidar a pesquisa no que diz respeito à história da literatura latino-americana e da América Latina. A partir desses teóricos, serão elencados todo o processo histórico da América Latina e suas influências socioculturais, o que ajudará a entender a desigualdade social que está fora e dentro do quartel, o Peru indígena, africano e branco. O livro "As veias abertas da América Latina", de Eduardo Galeano, norteará grande parte da pesquisa no que diz respeito ao entendimento da construção histórica, política e social dessa parte marginalizada da América.

A obra analisada narra dois mundos, o dentro e o fora da farda, e cada personagem – as que estão intimamente ligados ao colégio – apresenta duas identidades. Ao sair do Leoncio Prado, os cadetes e outros militares em geral são submetidos a outro estilo de vida, no qual se comportam de maneira diferente. Desse modo, as personagens transitam em dois universos. Mario Vargas Llosa afirmou, anos atrás, no Primeiro Encontro de Narradores Peruanos, evento promovido pela Casa de la Cultura del Peru (1965), que

[...] a vocação de um romancista nasce quando a relação de um homem com o mundo entra em conflito; creio que todo escritor, todo criador é no fundo um rebelde, um homem insatisfeito com a sua realidade, com a sociedade, com o tempo que lhe tocou viver [...] (VARGAS LLOSA, 1965).

O relato de Vargas Llosa nos leva direto para a conjetura de Lukács, que, em A teoria do Romance, preconiza que “a problemática da forma romanesca é a imagem especular e um mundo que saiu dos trilhos” (2000, p. 14). Vargas Llosa converge com Lukács no sentido de enxergar o romance como um deicídio secreto, em que a escrita é uma forma de rebelião contra a criação de Deus. Assim, o sujeito que escreve tenta substituir a realidade real pela realidade fictícia. É tomando por base questões como essas que o olhar se volta para os conceitos críticos de “totalidade”, “tipicidade” e

“histórico-universal” de Lukács, relacionando-os às considerações de Candido (1987) no que diz respeito à personagem do romance.

Alberto, ao sair, definitivamente, do Colégio Militar, ou melhor, ao retornar à vida em Miraflores, ficou por um tempo aturdido, tentando devolver cada coisa, cada pessoa, cada lembrança ao seu lugar, mas parecia estar andando em um labirinto, onde é difícil achar a saída: “parece que todo aquele que penetra no labirinto do romance polifônico não consegue encontrar a saída e, obstaculizado por vozes particulares, não percebe o todo” (BAKHTIN, 1997, p. 45). Alberto, então, passou por um processo de autorreconhecimento, pois tudo havia mudado: as preocupações, os interesses, embora o seu lugar como civil tenha permanecido intacto durante os anos em que esteve fora.

Em suas considerações introdutórias sobre a poética de Dostoiévski, Bakhtin afirma que “A posição da qual se narra e se constrói a representação ou se comunica algo deve ser orientada em termos novos em face desse mundo novo, a esse mundo de sujeitos investidos de plenos direitos e não a um mundo de objetos” (1997, p. 5). Adequando tal proposição ao contexto de análise de La ciudad y los perros, pode-se considerar as personagens narradoras do romance também como sujeitos investidos de plenos direitos, entre os quais está o direito de ser “veículo de sua própria palavra, dotado de valor e poder plenos” (BAKHTIN, 1997, p. 3). A existência de mais de um narrador, cada qual com sua visão de mundo e a partir de seu lugar social, possibilita a criação de um mundo polifônico, que diverge do romance europeu tradicional da época, encarando-o e, assim, desconstruindo as bases monológicas romanescas. O alçamento da obra de Vargas Llosa no boom latino-americano deve-se a essa fuga aos parâmetros (homofônicos) de produção literária. Esta pesquisa está embasada principalmente em alguns pontos da discussão em que Foucault (2013) se engaja, como, por exemplo, o poder, a disciplina, os corpos dóceis, a punição, a arte das distribuições, o controle da atividade, a vigilância hierárquica, panoptismo e outros pontos estudados por ele que são bastante pertinentes à pesquisa.

Será de grande relevância para a pesquisa o conceito de poder disciplinar, já que a narrativa trabalhada está inserida no universo militar que prega a ordem e a

disciplina acima de tudo. No primeiro capítulo da terceira parte do livro Vigiar e Punir, Foucault inicia descrevendo a figura ideal do soldado do século XVII, resumindo-se em uma imagem de vigor e honra. Já no século XVIII, aparece o soldado como algo que se fabrica; assim o corpo aparece como alvo do poder – o corpo que pode ser manipulado, modelado e que obedece. Pode-se dizer que a instituição militar faz funcionar o espaço escolar como uma máquina de “ensinar”, como também de vigiar, hierarquizar e recompensar. Assim, o corpo do aluno pode ser manipulado, transformado e utilizado. Nesse caso, é possível manter o corpo ao nível da mecânica, o chamado corpo dócil.

O homem máquina de La Mettrie é ao mesmo tempo uma redução materialista da alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a noção de ‘docilidade’ que une ao corpo analisável o corpo manipulável. É dócil o corpo que pode ser submetido, que pode ser transformado e aperfeiçoado (FOUCAULT, 2013, p. 118).

As disciplinas são as formas e os métodos que permitem o controle do corpo, formas de executar o poder, atuando em uma relação de docilidade-utilidade. Assim, disciplinar é construir um indivíduo pela força do poder sobre o corpo desse sujeito e, para que o poder disciplinar atue sobre os corpos, é necessário confinar esses corpos em instituições. O próprio Foucault insere os quartéis dentro dessa técnica de distribuição dos indivíduos no espaço. Nesse sentido, levanta-se o questionamento a respeito da (de)formação do sujeito no colégio militar, visto que tal instituição aparece como um reformatório preocupado em punir e vigiar, como pregam os postulados de Michel Foucault, mas que acaba por cercar – pois “a disciplina às vezes exige a cerca – os homens em um local fechado em si mesmo, em um mundo onde o elemento principal é a violência bruta, que faz sucumbir os mais fracos”. Desse modo, a obra de Vargas Llosa nos traz à tona a construção do sujeito no centro educacional militar que transforma o homem em um ser desumanizado, com valores e princípios deturpados.

Na obra La ciudad y los perros, aparece ainda a prisão, instituição sobre a qual Foucault se debruça para estudar a dinâmica do poder. Na prisão, é possível entender o poder profundamente, visto que ali ele não se mascara, mas se manifesta em sua forma bruta, já que, no cárcere, ele se justifica como um poder moral que pode passar por cima de tudo, sendo exercido onde a punição é permitida em nome do bem e da

ordem. Assim, a pesquisa está pautada nesses teóricos com os quais se estabelecerão relações com a análise da narrativa, para que se possa levantar uma discussão que permita conhecer o pensamento crítico latino-americano para uma abordagem mais situada em relação à literatura regional.

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