A criação do euro, a liberalização dos fluxos de bens e serviços entre os países da EU e o resto do mundo, bem como o alargamento a Leste, afetaram de sobremaneira as denominadas economias periféricas do sul, em especial Portugal, Grécia, Itália e Espanha, tornando as suas indústrias tradicionais menos competitivas, sujeitando-as a uma concorrência muito maior quer em relação à economia global, quer mesmo em relação à economia dos seus parceiros europeus.
52 Não podemos esquecer que enquanto hoje o salário mínimo nacional (SMN) em Portugal são 485,00 €, a
Câmara baixa do Parlamento alemão (Bundestag) aprovou em 3 de Julho de 2014, a introdução de um salário mínimo na Alemanha, onde a partir de 2015 legalmente não se poderá trabalhar abaixo dos 8,5 € por hora. Assim, a partir de 2015 um trabalhador na Alemanha a ganhar o salário mínimo nacional terá que trabalhar menos de 60 horas mensais para ter um salário bruto igual a um trabalhador a trabalhar em Portugal o mês completo, ou seja o trabalhador alemão ganhará em pouco mais de uma semana de trabalho o mesmo valor que um trabalhador português em quatro.
39 Antes do Euro, havia “séculos que nenhum destes países competia economicamente com a França, a Alemanha ou a Holanda. Agora tinham a mesma moeda. Embora tal tenha trazido enormes vantagens, também aumentou os desafios de competitividade com que se deparavam as indústrias da periferia” (Phillips. 2014, p. 21).
Mas então como poderíamos aumentar os níveis de vida ao ponto de poder ombrear com as economias da zona euro em expansão?
Importando cada vez mais desses países, tanto bens como serviços não financeiros, os quais pagávamos depois através de empréstimos concedidos por esses mesmos países, resultantes dos excedentes de capitais acumulados por eles. Esse foi o caminho, mas é hoje claro que não deveria ter sido seguido, pelo menos sem que de vez em quando não se parasse para ver o efeito produzido por tal trajeto, até porque como se sabe quem pede emprestado terá um dia que pagar.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), entre 2000 e 2008 a produção industrial português, mantinha a tendência de queda acentuada, provando que o caminho que se seguia não era o correto e que seria complicado no futuro (Apêndice 1, Gráfico 1), situação que se agrava principalmente entre 2005 e 2008 futuro (Apêndice 1, Gráfico 2).
Mas se até 2008 a estratégia demonstrava ser claramente errada, o que aconteceu entre 2008 e 2013 demostra que nada foi feito para reverter a situação. Em vez de corrigir a trajetória, persiste-se no erro e os resultados eram evidentes. Cada vez mais dependíamos das importações e as consequências negativas na nossa economia eram cada vez mais visíveis. (Apêndice 1, Gráfico 3).
Temos então aqui a resposta para a tão propalada Europa a duas velocidades, em que uns produziam e exportavam, enquanto outros importavam e acumulavam défice e dívida.
Tudo isto resultava da entrada no Euro – moeda forte para uns e fraca para outros - de economias que ao verem inviabilizada a sua desvalorização cambial ficavam impedidas de corrigir os seus desequilíbrios externos, constituindo assim um travão aos ajustamentos fundamentais para poderem continuar a ombrear com os seus pares.
“Não há provavelmente fenómeno mais difícil de explicar na nossa política económica das últimas quatro ou cinco décadas do que a decisão de aderir
40
à moeda única, e logo no chamado “pelotão da frente” – no grupo dos países que fundaram a zona euro” (Amaral, 2013, p. 93).
Mas afinal esta situação não era visível para ambos os lados? Claro que era, mas não interessava corrigir uma vez que afinal era do interesse de todos. Enquanto permitia a uns exportar, através dos seus bancos, em forma de crédito os seus excedente de fundos acumulados, e exportações para as suas empresas, permitia aos outros manter níveis de conforto, importando bens, sem haver o cuidado de perceber que o que estava a acontecer era substituir a sua produção interna por bens importados à custa da criação de dívida.
Os países do sul da Europa, incluindo Portugal, endividaram-se demasiado no passado. Mas como tantas vezes disse nesta coluna, (do Expresso) estes países só puderam endividar-se assim porque os bancos do Norte da Europa, e especialmente os alemães, estavam desejosos de lhes emprestar massivas doses de dinheiro. Assim, por cada devedor louco do Sul, havia um credor louco do Norte” (Cravinho, 2014, p. 24 citando Paul de Grauwe53).
É assim que, a primeira década do século XXI, ou década do euro, se transforma no período do aparecimento de uma união monetária geradora de desigualdades do ponto de vista da estrutura regional nos diversos estados (Amaral, 2013), com resultados que não poderiam ser diferentes, até porque com a chegada da crise financeira à Europa, os bancos dos países excedentários interromperam abruptamente o fluxo de crédito para os países clientes do seu capital, e o castelo de cartas abateu de imediato.
Conforme refere Amaral, Portugal terá perdido cerca de 70% da sua competitividade entre 1991 e 2006 (Phillips, 2013, citando Amaral, p. 205) acentuando desequilíbrios que se iam tornando cada vez mais visíveis. Enquanto as nossas exportações tinham crescimentos anémicos, as nossas importações continuavam a crescer, afastando-nos cada vez mais do ponto de equilíbrio, aumentando a nossa necessidade de contrair dívida (Apêndice 2, Gráfico 4,5,6,7).
53 Paul de Grauwe é um economista belga professor da London School o Economics, que afirmou em entrevista,
“O governo português fez o grande erro de tentar ser o melhor da turma no concurso de beleza da austeridade. Não havia razão para Portugal fazer isso, podia não ser o melhor da turma, podia ser mesmo o pior, e isso seria melhor para a economia”. In. Jornal Público de 10/11/2013.
41