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PART 1. INTRODUCTION

1.1.3. Policy evolution

69 (Carta escrita em 5/02/1908 - O autor foi Promotor Público no Alto Juruá e enviava cartas para um jornal na Bahia que foram reunidas neste volume) . Também é interessante o comentário do Coronel Gregório Thaumaturgo de Azevedo, ao apresentar dados populacionais em seu relatório: “Os que pensam que tirem as naturaes deducções da desproporção constatada entre homens e mulheres, reflectindo tambem sobre o pavoroso cancro do analfabetismo. Estes dois males explicam muitos desequilíbrios moraes dos povoadores destas regiões.” PREFEITURA DO ALTO JURUÁ. Relatório do Primeiro Semestre de 1906. p. 45.

práticas daqueles a quem eram dirigidos, os patrões, apontados sempre como responsáveis pela situação dos seringueiros, no momento em que o preço da borracha começou a baixar, eles foram levados em conta, como veremos no próximo capítulo.

Também parece que houveram tentativas isoladas de solucionar em parte este “problema”. Uma história contada em Cruzeiro do Sul pelo Sr. Waldenor Jardim Alves Ferreira, colecionador de documentos e conhecedor da história da região, conta que em 1905 as autoridades tentaram trazer para ali uma certa quantidade de mulheres, de Manaus, para equilibrar um pouco a população. A mesma história é contada por Alfredo Lustosa Cabral:

Foi por isso, atendendo a tamanha irregularidade de vida, que, certa ocasião, a policia de Manaus, de ordem do Governador do Estado, fez requisição nos hotéis e cabarés dali de umas cento e cinquenta rameiras. Com tão estranha carga, encheu-se um navio cuja missão foi a de soltar, de distribuir as mulheres em Cruzeiro do Sul, no Alto Juruá. Houve, dessarte, um dia de festa - a de maior pompa, que se tinha visto. Amigaram-se todas, não faltou pretendente. Contudo, umas não se deram com o clima, adoeceram e morreram. Outras conseguiram voltar a Manaus e, muitas, por fim, foram mais felizes... É que mais tarde, apareceu um sacerdote e as casou.101

Também conta-se que para fixar um bom seringueiro os patrões faziam de tudo, inclusive trazer uma mulher para o mesmo.

Antônio - Essa é uma história que contaram pra mim, eu não sou testemunha ocular desses fatos.[...J Mas contaram pra mim, né? que o pessoal trazia e às vezes se davam bem, se tomavam boas senhoras, boas esposas, mãe de família dedicada, sabe? E geralmente acontecia isso: os patrão chegavam lá e traziam qualquer mulher que quisesse vir, num sabe? voluntariamente. “Eu pago suas despesas lá e você vai ser mulher do fulano de tal, de meu serviço e que é muito bom. ” Assim acontecia diversos casos.

Cristina - E daí ele trazia e debitava na conta do seringueiro a despesa?

Antônio - Exatamente, ele pagava a despesa. [...] as despesas todinha. Elas viajava que nem uma princesa e ele é que pagava tudo. E eles pagavam satisfeitos, sabe[...J Vinha do Nordeste, do Ceará, vinha aí de Manaus, Belém. Tinha muito desses casos aí que eles contam, do Nordeste.

Cristina - O senhor até falou que tinha uma mulher que o senhor conhecia que era assim. Como é que era o nome dela mesmo?

101 CABRAL, p. 74. A história do Sr. Waldenor foi contada em conversa oral, no dia 17/02/1995. A mesma história também é contada por BARROS, Glimedes Rego. Nos confins do extremo oeste - a presença do Capitão Reeo Barros no Alto Juruá (1912-1915). 2 vols. Rio de Janeiro: Biblioteca do

Antônio - Era, pera aí ... Francisca. Não sei o sobrenome[...] sei que os filhos dela eram tudo de Souza. ”m

Também era importante a prática do aprisionamento de índias que eram depois “vendidas” aos fregueses, ou mesmo tomadas como companheiras pelos próprios homens que as aprisionaram.103

Numa região em que as distâncias eram muito grandes, entre os seringais, entre seringal e cidade, e até entre a colocação de cada seringueiro e o barracão, exigindo viagens que demoravam entre um e dez dias, a pé, de canoa ou de barco a vapor, um dado importante pode ser a distribuição espacial deste contingente limitado de mulheres. Se se pode confiar na estatística do primeiro prefeito do Departamento, as mulheres constituíam, como já nos referimos, um quarto da população. Porém é importante ressaltar que elas provavelmente não estavam “distribuídas” igualmente por todo o departamento.

Havia seringais, como o Aurora, em que as mulheres eram muito poucas (108 homens e 8 mulheres), mas em outros a diferença não era tão grande assim como no São Francisco do Ceará (38 homens e 22 mulheres). 104 Pela estatística detalhada apresentada pelo Prefeito percebe-se que nos seringais menores a diferença entre população masculina e feminina decresce em relação aos maiores. Isso certamente fazia bastante diferença no cotidiano da população de cada um desses seringais.

Em 1906, Cruzeiro do Sul acabava de ser fundada como “capital do Departamento do Alto Juruá” e contava com 546 pessoas - 386 homens e 160 mulheres.105 Mas à medida que cresceu, tomando-se uma cidade, também concentrou- se ali uma população feminina certamente maior que a dos seringais. Assim, uma das atrações da cidade passava a ser justamente as mulheres, especialmente as “de vida fácil”. Alfredo Lustosa Cabral conta de sua passagem por Manaus, quando retomava ao Ceará, como a prostituição exercia um “fascínio” sobre os seringueiros:

Escravizado oito ou dez anos na selva, sem relações com o sexo oposto, o seringueiro que chegava à cidade, não o deixava de frequentar [ao bordel El-Dorado]. A exploração era roxa. Muitos ali deixavam todo o dinheiro que haviam arranjado com

Exército, 1993. (n ° 606). p. 143. O autor situa o fato no Governo Silvério Nery do Estado do Amazonas. E também por REIS, p. 123.

102 PAULA, Antônio Francisco de. Entrevista .19/05/1995, com a participação de Maria Gabriela Jahmel de Araújo e Ruy Ávila Wolff.

103 Esta questão será melhor analisada no capítulo 3.

enormes sacrifícios. ‘Lisos’ - restava-lhes ir ao escritório do patrão implorar uma passagem no gaiola e retomar ao seringal de onde saíram.106

Em seu romance “Certos caminhos do mundo - romance do Acre”, Abguar Bastos descreve cenas semelhantes na cidade de Rio Branco dos tempos dourados da borracha.

Empresa é o lado do comércio. Antigo seringal elevado ao poderio de parte oriental da cidade. Pedaço de terra livre, não se apega a preconceitos. Uma excitante vida noturna. Aos domingos funciona o cinema. Vêm-se marafonas enchapeladas nos camarotes e senhoras honestas, afrontadas, timidamente nas cadeiras de fila.107

Cruzeiro do Sul em 1907 ou 1908, durante uma enchente do rio Juruá.108

Não há porque pensar que Cruzeiro do Sul fosse tão diferente. Entre 1906 e 1914 a cidade passou de 546 habitantes para 3598.109 E adquiria ares de cidade, segundo Mauro Almeida:

Exageros à parte, a área realmente cresceu de um simples posto de comércio comprado pelo Cel. Thaumaturgo em 1904 para uma cidade de 3000 habitantes em 1912. Na área urbana de Cruzeiro do Sul, um monumental boulevard de 30 metros de largura foi projetado. A cidade tinha uma escola, uma associação de trabalhadores, um tribunal

105 Ibidem, p. 42. 106 CABRAL, p. 108.

107 BASTOS, Abguar. Certos caminhos do mundo, (romance do acre). Rio de Janeiro: Hersen, s/d., p.

66.

108 BARROS, Glimedes Rego. Nos Confins do Extremo Oeste. A presença do Capitão Rego Barros no Alto Juruá (1912-1915). Vol. I, Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1993. p. 20.

(fórum), uma delegacia, uma loja maçónica e uma capela, e a partir de 1906 tinha um jornal que defendia a autonomia da região. Além disso havia uma serraria a vapor, duas fábricas de tijolos e telhas, energia elétrica, uma fábrica de gelo e mais ou menos 150 estabelecimentos comerciais pertencentes a comerciantes brasileiros e

'orientais'(libaneses, gregos e judeus).110

Além destes “estabelecimentos comerciais”, certamente havia também bordéis - as tais “casas de pouca seriedade”, além de mulheres que exerciam a prostituição por conta própria e ao lado de outras atividades profissionais. Este é o caso por exemplo de Tertulina Souza, implicada em um processo criminal em 1909 por ter supostamente atirado em seu amante, e que é caracterizada no processo como sendo procedente de Alagoas, ter 19 anos, casada, costureira e meretriz.111 As tais “casas suspeitas” aparecem em outro processo, de 1917, acidentalmente, quando se menciona um senhor “de nome Manoel Felix, cidadão da última camada da plebe: varredor de casa de pouca seriedade sem a menor ocupação licita.”112

A vida na cidade era muito diferente da vida nos seringais, embora dependesse totalmente da produção da borracha, e muitos de seus habitantes se ocupassem de trabalhos ligados a esta produção, isso quando não eram mesmo seringueiros dos seringais que circundavam a cidade, ou quando não estavam somente de passagem.113 Na cidade viviam os comerciantes, funcionários públicos, soldados e policiais, proprietários de seringais, empregados no comércio, além de uma grande gama de pessoas que se ocupavam de diversas atividades: alfaiates, costureiras, lavadeiras, sapateiros, prostitutas, entre outros. Havia ainda agricultores, caçadores e seringueiros que viviam na periferia da cidade explorando as terras e matas próximas.

E claro que essa diversidade de pessoas foi se instalando em Cruzeiro do Sul somente ao longo do tempo, à medida que esta crescia. E parece que junto com a crise do preço da borracha essa diversidade aumentou, na mesma proporção em que a riqueza parecia esvair-se, como veremos no próximo capítulo.

* * *

110 ALMEIDA, Mauro W. B., p. 17. (tradução minha)

111 Fórum Municipal de Cruzeiro do Sul, Processo n 0 450, 1909. (Ficha 09.05) 112 Fórum Municipal de Cruzeiro do Sul, Processo n ° 861, 1917. (Ficha 17.03)

113 Outra razão muitas vezes alegada nas petições de justificação para que o casamento ocorresse sem que se decorresse o tempo necessário aos proclamas, era a pressa do noivo em retomar ao seringal para “tratar de negócios da sua profissão”.

Procurei mostrar, nas páginas anteriores, um pouco do processo de constituição da região do Alto Juruá como região produtora de borracha, e, principalmente, como participaram as mulheres neste processo inicial.

Parecia não haver lugar para as mulheres num “empreendimento de conquista da selva” como este que os autores atribuem aos nordestinos transformados em patrões e seringueiros. E se lemos os trabalhos e relatos escritos, se ouvimos as histórias contadas pela população que hoje vive na região do Alto Juruá, parece mesmo que elas não participaram deste empreendimento, coisa só de “cabra macho” que se internavam sozinhos nas matas, sofrendo além da fome, do medo, do impaludismo, a solidão e a saudade. Mas então como se encaixam as Carmindas, Marianas, Raimundas, Joanas e Franciscas que aparecem nos processos judiciais daquele período? E as poucas “damas” que eram obrigadas a dançar com cada um dos participantes das festas? E as índias que eram “pegas na mata” ? E as mulheres “encomendadas” de Manaus? Eram elas realmente “mercadorias”, “privilégios”, “estorvos”, simplesmente?

A da forma como olhamos para a história, buscando sempre os “personagens significativos” e os ‘Yatos históricos”, é que pode nos impedir de ver essas mulheres como personagens da trama histórica da sociedade que se formava em tomo da exploração da borracha na Floresta Amazônica. Como já disse Maria Odila L. da S. Dias sobre as mulheres pobres de São Paulo no século XIX: “A memória social de

suas vidas vai se perdendo antes por um esquecimento ideológico do que por efetiva ausência dos documentos. ”IN

Mercadorias, privilégios, meras acompanhantes, objetos de disputa, eram alguns dos papéis desempenhados pelas mulheres nessa trama. Mas não se pode ignorar as outras facetas de suas vidas. Foram também participantes do esquema produtivo, através do trabalho na borracha, sozinhas ou repartindo com o marido e os filhos as múltiplas tarefas que ele envolvia; ou através de serviços, chamados “trabalhos domésticos”, que garantiam a subsistência, o conforto e a vida nos seringais, nas vilas e na cidade de Cruzeiro do Sul.

Por fora desse esquema produtivo corria a vida naquelas paragens. Eram as intrigas do dia a dia, adultérios, disputas de território e de força que eram o assunto

das conversas. Era para isso que se vivia, também, e não somente para “extrair o látex que os mercados europeus e norte-americanos solicitavam sofregamente”.115 Foi por causa desta vida dinâmica, cotidiana, cheia de desafios colocados pelas novas relações sociais e pela relação que se estabelecia com a floresta, que os seringais sobreviveram de diversas maneiras, transformando-se em “unidades de produção agro-extrativista- florestal”, à grande crise que se abateu sobre o mercado da borracha a partir de 1913. Do contrário, se só importasse a produção do látex para o mercado em ascensão, todos teriam ido embora, a exemplo dos que realmente foram, durante o longo período de crise.

... e não desapareceram...1

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