III. The analysis of complementary resources
III.5 The PME Work on Representations
A respeito das “reuniões prévias” dos trabalhadores, elas ocorreram e se deram em mais de um dia, o que poderia significar que um grande número dos delegados-eleitores daquele grupo já estivesse presente na capital. O jornal “República” republicou, na sua edição de 19 de julho de 1933, um noticiário do “Jornal do Brasil”, comentando sobre as reuniões realizadas pelos delegados-eleitores. As reuniões eram diárias, conforme o jornal, e estavam presentes delegados-eleitores do centro, norte e sul do país. Mas não deixava clara se essas reuniões diárias eram apenas dos empregados. Entretanto, levando-se em consideração ao contexto, acreditamos que sim, pois não há qualquer menção aos empregadores, profissionais liberais ou funcionários públicos. Por outro lado, o nome de alguns trabalhadores são mencionados: João Borges Falcão, Adalberto Camargo, Vasco de Toledo e Martins e Silva (os dois últimos eleitos, posteriormente, deputados classistas). O posicionamento do jornal é contrário à representação das associações profissionais138, e criticava a forma como os trabalhadores decidem e determinavam as chapas, segundo o “Jornal do Brasil”:
Nessas reuniões, esses delegados desenvolveram uma intensa atividade política e fazem acordos e combinações, sistema Republica Velha, os quais dão em resultado as escolhas pelo sempre condenado critério regional.
A reunião de ontem, na sede da União dos Empregados em Hotéis e Restaurantes, à rua da Constituição 71, foi presidida pelo sr. João Borges Falcão, da delegação baiana, e secretariado pelos srs. Adalberto Camargo, Vasco Carvalho de Toledo e Martins e Silva, respectivamente de Pernambuco, Paraíba e Pará. Foram lidas e discutidas sugestões, a respeito, enviadas pela
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Paraíba Pará e Baia; foram discutidos diversos assuntos relativos ao norte.139
Uma das formas de opor-se à representação das associações classistas era classificando-a como mais um instrumento político, neste caso caracterizado como “sistema Republica Velha”. Ou seja, os pontos mais sensíveis da representação das associações profissionais, que prezava pela ausência de interferências políticas e regionais, bem como pela negação de conflitos, culminava, segundo o “Jornal do Brasil”, com a manutenção da “atividade política” e do “critério regional.” O que nos leva a considerar que havia entre os trabalhadores a tomada de posicionamento político. Além disso demonstra que os trabalhadores procuravam alternativas para se chegar a um consenso, sem acirrar disputas eventuais entre grupos ideológicos diferentes ou dispersa-las através de ações isoladas.
Devemos, pois, considerar ainda que a representação das associações profissionais, apesar de preconizar o afastamento dos trabalhadores do envolvimento com a política e o conflito, acabava estimulando debates e estabelecimento de objetivos e interesses dos trabalhadores; sobretudo, quando isso significava a definição de direitos, principal objetivo das Constituintes.
A tática usada pelos trabalhadores na definição das vagas a serem ocupadas, utilizando como parâmetro a questão regional, poderia indicar o uso de uma “prática” conhecida e difundida, ou que possibilitasse maior equidade entre as regiões:
os delegados-eleitores presentes à assembléa de ontem foram unanimemente de opinião que, agindo de conformidade e harmonia de vistas com os seus companheiros dos demais Estados e Distrito Federal, seja a divisão feita em três partes eguais, que vem a ser seis deputados e três suplentes, respectivamente, para o norte, centro e sul.140
A estratégia que acreditamos estar por trás dessa atitude, não visava costurar acordos regionais, mas a proporcionar coesão e evitar a divisão dos trabalhadores, conforme podemos deduzir neste trecho do “Jornal do Brasil”, na edição a pouco citada: “vários oradores se fizeram
139 JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro, 18 fev. 1933. In: REPUBLICA. Florianópolis, 19
jul. 1933, p. 1.
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ouvir, defendendo o principio de coesão do proletariado nacional, tendo em mira a confraternidade e a união dos operários brasileiros, para, fortalecidos melhor pugnar pelas suas aspirações.”141
Apesar do “Jornal do Brasil” mencionar, inicialmente, que estavam presentes trabalhadores do Centro, Norte e Sul do país, termina o artigo reduzindo apenas aos delegados-eleitores do Norte. Porém, adiante o jornal faz referência à participação de um delegado-eleitor de Santa Catarina – região Sul do país – na reunião que objetivava a definição das vagas entre os estados, afirma o “Jornal do Brasil”:
Um delegado de Santa Catarina, que ali se achava como espectador, obtendo consentimento da casa para externar-se sobre o caso, declarou que o bloco do sul, formado de S. Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, se contentará com seis representantes, desde que haja acordo com os outros.142
Quem era esse trabalhador catarinense? Não podemos afirmar com certeza, porém, ele fala em nome do bloco formado pelos estados do Sul (São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul), como ele se tornou representante desses estados? Também não possuímos fontes que elucidem essa informação, mas é preciso nos fixarmos ao número de vagas afirmadas durante essa reunião e apoiada pelo representante do Sul, para confrontarmos com as vagas assumidas pelos representantes dos demais estados. Assim, é possível inferir se houve ou não um acordo entre os trabalhadores, na distribuição de vagas entre as três regiões citadas.
Os representantes dos estados do Norte, durante a reunião, definiram o número de deputados provenientes de cada estado que formava esta região, ficando conforme a tabela abaixo:
141 Ibid., loc. cit.
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Tabela II:
Proposta de distribuição de deputados classistas dos empregados da região Norte Estados Número de delegados Deputados Suplentes Pará 22 1 1 Bahia 7 1 1 Sergipe 2 1 - Ceará Maranhão Piauí 5 1 - Rio Grande do Norte Paraíba Alagoas 5 1 1 Total 41 5 3
Fonte: O ESTADO. Florianópolis, 19 jul. 1933, p. 1.
Os candidatos já estavam sendo definidos, porém, num colégio eleitoral com mais de 300 delegados, o Norte não teria condições de eleger seus próprios candidatos com o número total de delegados- eleitores que possuía (41 delegados), sem antes entrar em acordo com os demais representantes dos outros estados. Assim, o presidente da reunião ficou incumbido, de acordo com o “Jornal do Brasil”: “entender-se antes do pleito com as delegações do centro e do sul.”143
Outras reuniões ocorriam em locais diferentes do Distrito Federal onde se organizavam outras chapas. Provavelmente o trabalhador de Santa Catarina tivesse emitido a opinião de uma reunião anterior. E nem todas as reuniões possuíam o clima confraternizador, na assembleia que ocorreu na “União dos Empregados do Comércio do Rio de Janeiro”, houve “agitação” e os debates foram “acalorados.” Nessa mesma reunião o delegado-eleitor, Jonas Vieira de Machado, do Espírito Santo, pronunciou que sua delegação já fez a escolha do seu candidato: “sr. Gilberto Gabeira, delegado-eleitor e presidente da Federação dos Trabalhadores do Espírito Santo.”144 Gilberto Gabeira foi, posteriormente, eleito deputado classista. Assim, as reuniões possuíam seu efeito prático: definir e chegar ao consenso sobre as candidaturas.
Portanto, havia a definição de candidaturas. Os trabalhadores tiveram, mesmo a poucos dias da eleição, a possibilidade de se
143 Ibid., loc cit.
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reunirem, estabelecerem negociações e forma como eles se distribuiriam dentro da Assembleia Constituinte.