Neste trabalho, considerou-se como arcabouço metodológico a Teoria Geral dos Sistemas, que permite a compreensão do espaço geográfico de forma integrada. A visão sistêmica incorporada na geografia permite análises conjuntas entre o todo e as partes. (CAPRA 1996). A concepção sistêmica teve sua disseminação no início do século XX, e alcançou contribuições de diversos ramos da ciência, mas obteve aprimoramento teórico na área da Biologia na década de 30 por Bertalanffy. Troppmair e Galina (2006) propuseram que a Geografia não deve se limitar em estudar o meio físico como produto final, mas sim considerar esse meio físico como algo integrado a outros elementos, além de dinâmico. Segundo Nunes et.al (2006), a abordagem sistêmica surge com a proposta de trabalhar ideias de sistemas complexos, deixando de lado a visão fragmentada, centrada no elemento e passa a absorver a ideia de interatividade e conjunção. Tratando- se de dinâmica da natureza ou da sociedade, a Geografia permite, através de sua abordagem abrangente, compreender e discutir as dinâmicas do espaço geográfico de forma ampla.
Dessa forma, nesse trabalho, busca-se agregar, além da caracterização física do local, outros aspectos, como condições socioambientais para ajudar na compreensão da evolução do espaço urbano e das relações dos objetos presentes na área de estudo. Quando se trata do estudo de determinada parcela do espaço geográfico, essa visão holística torna-se essencial, pois, são muitos os fatores influentes nesse espaço, além da dinamicidade dos mesmos.
Quanto à organização do trabalho, utilizam-se as etapas propostas por Libault (1971), seguindo as fases a seguir:
1. Nível Compilatório: Caracteriza a primeira fase da pesquisa, e refere-se ao levantamento, compilação e armazenamento dos dados. É essencial nessa etapa, a definição dos objetivos da pesquisa, sendo que posteriormente são determinadas as fontes bibliográficas, escala de análise, vetorizações a partir de imagens de satélite, produção cartográfica e métodos de trabalhos de campo.
2. Nível Correlativo: Nesta fase qualifica-se e correlacionam-se os dados de acordo com as variáveis determinadas. Os materiais são classificados de acordo com os métodos estabelecidos e toda a parte de produção cartográfica é construída. Os resultados dessa produção vão sendo analisados juntamente com a construção do trabalho.
3. Nível Semântico: Nesse nível é feita a organização dos dados selecionados e correlacionados na etapa anterior. As produções cartográficas são analisadas de uma forma mais fechada e controlada, baseadas no âmbito do sistema processo/resposta.
4. Nível Normativo: Trata-se do último nível do trabalho, com a conclusão dos objetivos propostos. As análises produzidas por ferramentas de geotecnologias, estudos de campo e o texto acadêmico são finalizadas. Com as considerações finais, também são apontadas perspectivas para o futuro e propostas para problemas observados na área de estudo.
É incorporado também o termo vulnerabilidade, que segundo Marandola e Hogan (2005), é utilizado tanto para as áreas naturais, como transformadas e também relacionada à dimensão propriamente social, sendo empregado em diversas abordagens científicas sempre acompanhado do conceito de riscos. Risco não é um conceito simples, mas sim de grande extensão e vem sendo objeto de novas formulações. No âmbito da geografia, o termo risco é utilizado para representar determinada situação futura que traz incertezas e insegurança.
O risco constitui um conceito que, por desencadear ações político- administrativas, necessita trazer uma definição precisa. Nesta dimensão, o risco é o potencial de ocorrência de efeitos indesejados decorrentes da realização de atividades. Simultaneamente à maior precisão com que órgãos ambientais avaliam a probabilidade do risco - crescente assim como os níveis de urbanização, os fluxos são mais intensos e as aglomerações mais densas e complexas -, há formulações sobre risco que são mais recentes, e que, se despontam como uma contraposição, embora tenham origem nas mesmas reflexões sobre registros de desastres ambientais ocorridos. Dentre formulações recentes, no sentido de serem colocadas frente com as determinações técnicas, está o conceito de ‘Sociedade de Risco’, desenvolvido por Beck (1992). Para Beck, o risco ecológico está diretamente ligado ao poder destrutivo das técnicas gerando, considerando aspectos sociais, uma compreensão de que é própria sociedade possui um
caráter destrutivo, causando essa devastação ao reproduzir-se. Diante de uma situação de risco ou uma crise, a sociedade poderia notar essa condição de destruidora, além da consciência (reflexibilidade diante da situação) para entender que há a necessidade de transformação.
Porém, surgem críticas aos conceitos elaborados por Beck, pois quando este autor critica o poder dos técnicos, ao mesmo tempo deixa de considerar a condição de insegurança com que vive uma boa parcela das populações de regiões mais carentes. Nestas, os riscos e suas consequências não necessariamente são previstos pelos métodos habituais, não são contabilizados, e fundamentalmente, expõem a população à riscos, ou que seguem sobrevivendo aos desastres com os meios limitados que possuem (ALCSERAD & MELLO, 2002). As dimensões de análise geográfica, dentre as quais a percepção do risco passa a ser um elemento, cuja mensuração não é fácil, mas que tornaria a gestão ambiental mais condizente com a complexidade do social. A técnica desponta como parte da resolução de crises ambientais, pois, apenas o conhecimento da exposição a uma situação de risco por parte da população, não é o suficiente para a prevenção adequada à ocorrência de desastres.
A partir da mensuração de riscos, é possível então, determinar o grau de vulnerabilidade de determinada população frente à elementos diversos, de cunho social ou ambiental. A vulnerabilidade como ferramenta de pesquisa atrai estudiosos de diversas áreas, embora ainda não haja um consenso quanto às definições apropriadas para se encaixarem nesse conceito (MARANDOLA E HOGAN, 2005). São estudos realizados em diferentes áreas, desde a psicologia, até demografia ou ecologia e, particularmente, ganhando importância nos estudos geográficos. Além disso, de acordo com Alves (2006), muitas organizações elaboram estudos utilizando-se da vulnerabilidade para priorizar as áreas de risco, onde a intervenção é mais necessária.
O conceito de vulnerabilidade ambiental traz contribuições, pois, pode contribuir com características relacionadas à antecipação da ocorrência, a capacidade de recuperação e resistência frente a riscos. Temos, portanto, um conceito que pode originar uma mensuração, ou seja, uma forma de medir a exposição de um determinado grupo frente à vulnerabilidade. Como ferramenta, permite trazer características de medida agregada, em que há identificação da possibilidade de exposição da população, ou região, a um determinado problema, assim como identifica as possibilidades desta população – ou região – enfrentar as consequências, responder a elas e recuperar a sua
condição inicial. (BLAIKIE; BROOKFIELD, 1987; DOWNING, 1991 apud MOSER, 1994).
Essa extensão do conceito também é empregada de forma clara nos setores que tratam da dimensão social, particularmente da pobreza, ou da questão da fome, como por exemplo, no Estado de São Paulo há o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS). A vulnerabilidade de um indivíduo, família ou grupos sociais refere-se à maior ou menor capacidade de controlar as forças que afetam seu bem-estar, ou seja, a posse ou controle de ativos que constituem os recursos requeridos para o aproveitamento das oportunidades propiciadas pelo Estado, mercado ou sociedade (SEADE, 2013).
O avanço da urbanização sobre o meio natural, de maneira ilimitada e segregada, tem sido não só um fator gerador de problemas ambientais, como também um produtor de descompassos sociais, envolvendo pobreza, risco e vulnerabilidade em suas diversas faces (Martine, 1993; Smolka, 1993 apud UMBELINO et al, 2005). Os processos como deslizamento de encostas, inundações e erosão estão fortemente associados à degradação de áreas frágeis e são potencializadas pelo desmatamento e ocupação irregular.
O termo vulnerabilidade, segundo Serra e Rodrigues (2002), vem sendo utilizado nas pesquisas que envolvem o estudo de populações, permitindo uma análise mais aprimorada das relações entre homem e ambiente. Caracterizam-se em uma ferramenta para avaliação e estudo de riscos, perigos, impactos e danos a que determinado grupo populacional está exposto, assim como o nível de susceptibilidade a esses elementos. Através dessa medição é possível apontar como essa população desenvolve habilidades para contornar ou mesmo se adaptar aos problemas ocasionados decorrentes dessa exposição.
A vulnerabilidade não pode ser entendida como uma característica que atinge toda a população de um modo geral, pois todos são vulneráveis em maior ou menor grau e essa intensidade é relacionada diretamente à capacidade de resposta, ou resistência/resiliência apresentada. Existem diversos modos de medir essa vulnerabilidade, como o trabalho proposto por Marandola (2006), no qual a vulnerabilidade é medida de acordo com a mobilidade do indivíduo, ou seja, na vida adulta, onde há maior mobilidade, a vulnerabilidade também aumenta. As ameaças, impactos ou danos que podem atingir as populações têm diferentes origens, mas é possível identificá-las e atualmente há recursos que o fazem com antecedência. Há situações originárias da própria dinâmica natural: períodos de estiagem severa ou de
furacões. Há outras situações criadas pelo modo como são ocupadas áreas que, pela fragilidade, não poderiam sê-las, tal como ocorre com áreas de proteção permanente, encostas ou áreas marginais aos cursos d’água como exemplo.
Ameaças, impactos ou danos que podem atingir as populações tem diferentes origens, porém em algumas delas são criadas pelo modo em que as áreas são ocupadas, devido aos fatores da exposição ao risco, não poderiam ser, tal como ocorre com área de proteção permanente, encostas ou áreas marginais aos cursos d’água. Em locais afetados por deslizamentos ou inundações geralmente a população mais afetada é mais carente, onde as habitações são mais precárias, assim como a infraestrutura urbana. “Assim é que, ao se encontrarem expostas a fenômenos naturais, tecnológicos ou sociais impactantes e de ordem eventual e/ou catastróficos, parcelas importantes da população passaram a evidenciar condições de risco ambiental” (MENDONÇA, 2004, p.141).
Segundo Alves (2006), as áreas mais vulneráveis apresentam indicadores socioeconômicos inferiores, além de maior concentração de crianças e jovens se comparadas às áreas com menor grau de vulnerabilidade ambiental, sendo possível assim identificar as áreas mais críticas, onde há maior concentração de problemas e riscos sociais e ambientais.
Como foi aplicado no trabalho de Hogan (2001), é proposta a análise de características sócio demográficas econômicas como elementos essenciais para medir a vulnerabilidade, sendo afirmado que os dados censitários utilizados para identificar riscos ambientais são eficientes, havendo claras ligações entre riscos ambientais e condições sociais. Dessa forma, foram utilizados os dados disponibilizado pelo SEADE, através do projeto IPVS. A partir da análise de dados censitários, combinando duas dimensões (socioeconômica e demográfica), a população foi classificada em grupos de vulnerabilidade social.