As primeiras décadas de revolta mizrahi põem a nu a estrutura de segregação étnica que está na base do projeto nacional sionista e do estabelecimento do Estado de Israel. O movimento trabalhista sionista, cuja fundação remonta aos anos 30, formou uma elite responsável pela elaboração de um projeto hegemónico. Com a legitimidade
conquistada depois da vitória na “Guerra da Independência” de 1948, este movimento político, em conjunto com as instituições representantes da Organização Mundial Sionista, iniciou um processo de estruturação económica no recém-criado Estado de Israel. Este processo passava pela criação de uma sociedade onde etnias e classes sociais coincidiam. Ao monopolizar os recursos simbólicos, burocráticos e materiais, esta elite moldou a forma como os novos imigrantes mizrahim seriam assimilados e definiu a posição que iriam ocupar na economia israelita, ao mesmo tempo que impôs uma administração militar à população palestiniana que havia ficado dentro das fronteiras do Estado de Israel. Estas primeiras décadas são marcadas por um desequilíbrio de forças entre as instituições políticas dominantes (principalmente o Mapai, a Histadrut e a Agência Judaica) e uma sociedade civil frágil. Assim, defendemos que as primeiras décadas de existência do Estado de Israel são marcadas pela manipulação da sociedade civil por parte do poder político dominante e pela tentativa da sociedade civil conquistar legitimidade dentro do quadro hegemónico existente. Neste contexto, os protestos da comunidade mizrahi são a materialização dessa luta por legitimidade dentro do quadro social existente e raramente pondo em causa a estrutura simbólica e material do Estado.
Como nos diz Tarrow (2011: 7), a ação coletiva é transformada em disputa quando é levada a cabo por pessoas com acesso limitado a cargos de poder, que agem em nome de reivindicações não aceites e de forma a desafiar poderes estabelecidos através da criação de solidariedade interna e da construção de identidades coletivas. Se nos centrarmos na análise de Karl Marx e Friedrich Engels (2011), que veem as diferentes fases do conflito social e da ação coletiva como o resultado da luta politica e do desenvolvimento das estruturas sociais, podemos compreender melhor o desenvolvimento de uma identidade coletiva por parte da comunidade mizrahi. Se Marx e Engels (2011: 44) nos explicam que os interesses do proletariado se tornam cada vez mais semelhantes no espaço da fábrica, onde os trabalhadores compreendem que estão numa situação comum e que têm objetivos comuns, no caso da comunidade mizrahi, como grupo definido tanto pela sua condição étnica como pela sua classe social, este processo ganha uma nova dimensão. Num mercado organizado segundo princípios de divisão étnica da força de trabalho, a maioria dos imigrantes mizrahim ocupam os postos menos qualificados e recebem os salários mais baixos. A sua posição laboral aliada à sua localização geográfica periférica, às condições miseráveis em que vive e a uma realidade de estagnação social (para a qual contribui a falta de oportunidades educativas), contribuíram para o desenvolvimento de uma identidade coletiva como
grupo desfavorecido. Se, por um lado, a dispersão espacial e o isolamento geográfico contribuem para a opressão e exploração deste grupo, por outro, são a condição necessária para a criação de redes de encontro social, objetivos e quadros culturais comuns. O seu passado, aliado às condições materiais e simbólicas de segregação que encontrou à chegada a Israel são o núcleo central da construção de uma solidariedade e de uma identidade coletiva por parte deste grupo.
Desta primeira fase de análise concluímos que a identidade coletiva dos imigrantes mizrahim, nas primeiras décadas de existência do Estado de Israel (anos 50 e 60), estava ainda numa fase embrionária, onde a consciência dos interesses do grupo é expressa, mas ainda não como uma totalidade (como comunidade mizrahi) – a comunidade mizrahi é definida como tal pelo poder político, mas ainda não se define a si mesma dessa forma. Como vimos, praticamente todos os protestos e organizações políticas defendem interesses de grupos menores do que essa totalidade – sejam os interesses das comunidades residentes num local específico, ou de comunidades nacionais mais pequenas (caso da comunidade de imigrantes judeus iraquianos, iemenitas ou norte-africanos, no caso de Wadi Salib). Assim sendo, a sua identidade não é formada no espaço de trabalho, mas no bairro (bairro de lata), no campo de acolhimento transitório (ma’abara) e na development town. Classificamos esta identidade coletiva como local e periférica – periférica por questões geográficas, que se manifestam no espaço sociopolítico ocupado pelo grupo (longe do centro político e presente no projeto de construção nacional apenas como instrumento ao serviço dos objetivos dos grupos dominantes) e local por se manifestar essencialmente ao nível do bairro, do ma’abara e da development town, ganhando contornos nacionais apenas com os protestos de Wadi Salib, e mesmo assim de forma desorganizada e não planeada.
Este grupo com uma identidade local e periférica vai-se manifestar, como nos diz Tarrow (2011: 9), na constituição de desafios coletivos contra elites, autoridades e outros grupos e códigos culturais. Apesar de se começar a desenhar uma nova fronteira interna58 no recém-criado Estado de Israel (entre os imigrantes mizrahim e as elites
responsáveis pelo seu processo de absorção na sociedade israelita), as comunidades
58 Esta é forçosamente uma entre muitas fronteiras internas existentes dentro da sociedade israelita –
fronteira entre diferentes comunidades étnicas, fronteira entre comunidades que imigraram em diferentes períodos históricos, fronteiras entre classes sociais, etc. Destas destacamos, como já foi referido neste trabalho, a fronteira existente entre judeus e palestinianos, que acaba por determinar todos os processos políticos, sociais, económicos e culturais dentro do Estado de Israel e em todo o território da Palestina.
mizrahim ainda não têm um discurso político consolidado e a lógica de articulação das suas exigências ainda não forma uma “cadeia equivalêncial”, ou seja, quando as exigências têm em comum uma dimensão negativa. Por um lado, as exigências eram particulares e variavam entre os diferentes grupos nacionais e locais existentes dentro da comunidade mizrahi; por outro, a sua lógica de articulação partia do princípio que qualquer exigência legítima podia ser satisfeita pela via administrativa e não pela via confrontacional. As exigências formuladas pelas diferentes comunidades mizrahim variavam entre: exigências socioeconómicas (pão, habitação, educação, trabalho, melhores salários, melhores condições de trabalho, etc.); e exigências de caráter reacionário e tradicionalista (objeção às políticas de modernização cultural e de secularização forçada, reivindicação do direito a uma educação religiosa e/ou tradicional, etc.). A sua articulação é feita de forma pontual e fechada sobre si mesma, dirigida a uma instância cuja legitimidade não é questionada. Entre 1948 e 1958, as exigências eram dirigidas a instituições locais (Câmaras Municipais, Departamento de Emprego, Departamento de Imigração, etc.), instituições nacionais (Knesset, Ministérios, etc.) e instituições sionistas (Agência Judaica); o Estado, os governos locais e a Agência Judaica eram reconhecidos pelos membros da comunidade mizrahi, que esperavam deles soluções administrativas para os seus problemas. A resposta recorrentemente insatisfatória por parte das instituições levava a protestos de maior ou menor dimensão, mas durante este período nunca levou a uma luta contínua que tivesse sérias repercussões no panorama político existente. As autoridades oficiais sempre conseguiram lidar com os protestos de modo a controlar as suas lideranças e as suas reivindicações, mesmo se não as satisfizessem. Apenas em 1959, com os motins de Wadi Salib que se estenderam a todo o território israelita, é que o governo perdeu momentaneamente o controlo da situação. Em Wadi Salib, um incidente entre um dos moradores e a polícia terá servido como símbolo necessário para a construção de um inimigo (a polícia como representante das elites ashkenazim). A partir desse momento, todas as exigências particulares se agruparam em redor deste acontecimento e as palavras de ordem exigiam o fim da discriminação étnica, uma lógica que reunia todos os elementos apresentados individualmente na década anterior. Uma “cadeia equivalencial” havia sido criada, mas ainda numa lógica étnica restringida à comunidade norte-africana e não pondo em causa o projeto nacional sionista como um todo; símbolo disso mesmo é a presença de bandeiras nacionais de Israel nos protestos, como nos conta Bryan K. Roby (2015: 140).
A resposta do Estado de Israel aos protestos ocorridos durante os anos 50 e 60 enquadra-se naquilo a que Gramsci chamou “transformismo”. Mouffe (1979: 182-183) diz-nos que segundo esta forma de hegemonia, as massas eram integradas através de um sistema de absorção e neutralização dos seus interesses, de modo a impedir que estas se oponham à classe hegemónica. A criação de uma vontade coletiva, na qual a classe hegemónica e os seus aliados formam um homem coletivo, era levada a cabo pelo Estado através da exclusão dos cidadãos palestinianos de Israel e da manipulação dos novos imigrantes mizrahim. Como escreve Laclau (2011: 64), de modo a impedir que os novos imigrantes se exprimissem como força política autónoma, as instituições políticas existentes: 1) quebravam as ligações equivalenciais entre as diversas exigências particulares; 2) mudavam o “signo político” das fronteiras: se os significantes centrais do discurso político se tornam parcialmente vazios, eles ficam abertos a uma variedade de rearticulações.
A quebra das ligações equivalenciais entre as diversas exigências era feita de várias formas: satisfazendo as exigências, fazendo promessas e criando expectativas, culpando os imigrantes pela sua situação desfavorável, respondendo com violência e criando medo (detenção e julgamento de líderes, coação, ameaça, ou seja, conseguir uma decomposição das massas em corpos individuais, mais expostos a represálias por parte das autoridades), deslegitimando os protestos (como ilegítimos, sectários e contra os interesses da sociedade israelita e do Estado), deslegitimando as suas lideranças (como inimigos dos Estado, hooligans, criminosos, marionetas dos partidos de oposição, anti sionistas, etc.) ou simplesmente impedindo que estes se organizassem politicamente de forma legal nos ma’abarot. O próprio recrutamento de imigrantes mizrahim para as forças policiais era uma forma de pacificar a comunidade. Esta era uma forma do Estado dividir a comunidade e dizer que, ao atacar um polícia, a comunidade mizrahi estava a atacar um dos seus.
Quanto à rearticulação dos símbolos políticos em disputa, esta era facilitada quando, tanto o Mapai, como a sua oposição, reconheciam a identidade mizrahi, mas não reconheciam as suas agendas, nem os atores políticos que expressavam as suas revindicações. Ao excluírem as lideranças políticas, criavam um vazio de representação e colocavam-se no lugar de mediadores entre o poder e a comunidade, esvaziando as suas agendas políticas, as suas reivindicações e qualquer tipo de poder negocial. A identidade dos judeus mizrahim, estando ainda em formação, era alvo de manipulação por parte do poder político e, para isso ser possível, a cooptação de líderes comunitários
era uma estratégia recorrente, como vimos com Ben Haroush. Neste sentido, os partidos do establishment político israelita incluíam um número cada vez maior de imigrantes mizrahim nas suas listas (no caso do Mapai, em postos do governo). Estes líderes cooptados não representavam os interesses da comunidade mas possibilitavam uma rearticulação política das exigências através de um deslocamento interno dos elementos que entram no processo de representação dos conteúdos políticos.
Podemos concluir desta primeira década de protestos que, pelo facto da identidade mizrahim estar ainda num processo formativo, os representantes do poder político israelita conseguiram controlar os focos de protesto e impedir que eles redefinissem o quadro de representação política existente até à década de 6059. Os
protestos analisados, mais do que pedirem uma alteração total do projeto nacional sionista, pediam uma integração dos judeus mizrahim no quadro social existente. Estes ainda não pediam um quadro social alternativo e mais inclusivo, mas uma inclusão num sistema que garantia privilégios segundo critérios étnicos.
59 Neste período, o poder político estava em clara vantagem perante movimentos políticos sem uma
organização estruturada, sem experiência, sem lideranças com cultura política (menos ainda neste novo contexto) e sem financiamento. Como refere Sami Shalom Chetrit: “If the Mizrahim have become a political force, it was not so in the early years of the state (…) These were the most difficult years of their painful encounter with the European Zionist movement. Uprooted from their native lands, having lost control of their lives as individuals and communities, they were mainly preoccupied with a daily struggle for suvival and with gaining the trust of their new rulers.” (2000: 51)