A partir da breve contextualização histórica da formação da sociedade brasileira, inicia-se o presente capítulo com a formação histórica do município de Ponta Grossa. Desbravar o processo histórico do município de Ponta Grossa auxiliará na compreensão da atual realidade social, vivenciada principalmente pelas comunidades quilombolas. Seguindo a contextualização histórica, será abordado a caracterização das comunidades quilombolas Colônia Sutil e Santa Cruz, e em
13https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-e-condenado-por-comentario-racista-contra-quilombolas-
seguida a pesquisa de campo realizada nas mesmas. Este capítulo sistematiza a configuração dos territórios quilombolas do município de Ponta Grossa e sua interface com as políticas públicas na perspectiva das comunidades quilombolas Colônia Sutil e Santa Cruz, e da rede municipal de serviços públicos.
Este item se constitui na reconstrução do objeto específico de pesquisa, para o qual utilizou-se os seguintes procedimentos metodológicos: diário de campo, entrevista, formulário, observação, e software Iramuteq, explicitados na introdução da presente dissertação.
2.1 Breve contextualização sobre a questão do negro no município de Ponta Grossa
Para elaboração deste item buscou-se referências sobre a história de Ponta Grossa, para tanto foi fundamental as obras de Chamma (2007) e Ferrarini (1971). A cidade de Ponta Grossa, possui colonização europeia e é caracterizada fortemente por essas culturas. No entanto como evidencia esta dissertação, e também com o objetivo de mostrar que o município não é constituído apenas por brancos, o presente trabalho procura mostrar que o povo negro faz parte da construção histórica do município, e de forma mais específica ressaltar as duas comunidades quilombolas, Santa Cruz e Sutil, presentes no município14. Conforme exposto na Tabela 01, o sul do país possui 176 comunidades quilombolas certificadas, sendo que 38 estão no estado do Paraná, dessas duas comunidades quilombolas localizam-se no município de Ponta Grossa, sendo elas a Colônia Sutil e Santa Cruz.
O processo de construção sócio histórica do município de Ponta Grossa deve ser contextualizado a partir da construção da formação da sociedade brasileira. As características sociais, políticas, econômicas que construíram o Brasil, são identificadas no contexto ponta grossense.
De acordo com Pinto e Mezzomo (2012, p.6), as comunidades quilombolas pertenciam a antiga Fazenda Santa Cruz, a qual era dividida em 7 (sete)
14 A pesquisa exploratória realizada com o objetivo de seleção de material sobre a história do município de Ponta
Grossa, não identificou trabalhos, sendo dissertações, teses e livros que discutissem a história do processo de formação do município e o negro como ator construtor da história. A pesquisa exploratória demonstrou a fragilidade da produção científica nesta área de pesquisa.
comunidades, sendo elas: Campo da Rocha, Campo da Porta, Campo do Subtil, Capoeiras, Potreiro, Frazão e Faxinal. Segundo os autores o capitão Manoel Gonçalves Guimarães possuía sesmarias nas regiões de Curitiba, Castro, Palmeira e Ponta Grossa. Conforme Pinto e Mezzomo (2012, p.7),
Com mais de 10 mil hectares a Fazenda Santa Cruz refletia o desejo de Manoel em estabelecer naquele espaço uma grande criação de animais aos modelos das melhores conhecida naquela época. Já casado, e com cinco filhos, para poder tirar o proveito que aquelas terras poderiam lhe dar, além de alguns capitães, Manoel trouxe para sua fazenda um grande número de famílias africanas para trabalhar na Santa Cruz.
Os autores enfatizam que o tratamento dado aos escravos na fazenda não diferenciava da realidade vivenciada em todo o país. A partir da entrevista realizada com a moradora mais antiga da comunidade Colônia Sutil pode-se enfatizar o relato como exemplo. De acordo com a entrevistada,
“...os escravo eram morto, eles ponhavam as estátua daquelas pessoa pra fica assim, cuida, eu escutava eles conta quando eu vim mora pra ca. Mas aqui teve muito lugar perto contava muito causo dos escravo, lembra bem lembrado não lembro. Como eles falavam eles só contavam que faziam eles sofre carrega peso, que não podia se não fizesse apanhava. Eles eram marvado, eles tinham que faze puxa pedra do mato longe, madeira nas costa pra faze as casa deles.Isso eu escutava eles falarem sofriam muita violência muito muito muito uns contavam pros outro...15”. CS².
De acordo com Chamma (2007, p.83),
O trabalho servil numa fazenda, mesmo naquelas de criação de gado incluía a agricultura, no mínimo, de subsistência, portanto era necessário arar, plantar, capinar, colher. Para o proprietário, sua família e seus agregados brancos, o trabalho de lidar com a terra era considerado, no entanto, indigno. Neste período o escravo era definido como incapaz para os ofícios públicos’. De acordo com Ferrarini (1971, p. 48),
Nas fazendas existiam verdadeiras salas de suplícios, onde o escravo era martirizado pela roda, pelo tronco, pela gargalheira, pelo bacalhau com látego de couro cru e pela palmatória de cabiúna. Nos trabalhos de mineração de diamantes, os senhores lhes colocavam uma mordaça de lata, horrivelmente incômoda, para evitar que engolissem as pedras encontradas.
15 As falas dos entrevistados serão mantidas na íntegra, como foram verbalizadas, para expressar a
Conforme Chamma (2007, p. 83), o número de escravos negros nos Campos Gerais foi expressivo, mas há poucos registros a respeito. Ferrarini (1971, p.63) expõe um quadro estatístico com o número de escravos, separados entre sexo feminino e masculino, e o tipo de trabalho que estes desenvolviam no município. O quadro disponível no livro ‘A escravidão negra na província do Paraná’, foi sistematizado nos três gráficos a seguir.
GRÁFICO 01 – Dados estatísticos dos escravos em Ponta Grossa
Fonte: Ferrarini, Sebastião. A escravidão negra na província do Paraná. Curitiba,1971. Org. Autora 0 50 100 150 200 250 300 350 400