O envelhecimento da população é destacado como um fenômeno estrutural irreversível, de caráter multidisciplinar, que interfere profundamente em toda a organização econômica e social das sociedades moderno-contemporâneas, caracterizando-se, por sua vez, por ser um fenômeno urbano. Em linhas gerais, o fenômeno do envelhecimento populacional está relacionado, entre outros fatores, com a considerável queda de números de nascimentos e o aumento da expectativa de vida. É notório que o envelhecimento populacional nas últimas décadas representa inúmeros desafios econômicos e sociais e, que por sua vez, o que vemos é uma propagação da idéia do envelhecimento ativo e, portanto, com redefinição positiva do envelhecimento e da velhice (ANTUNES &VIEGAS, 2007, p.28) e a necessidade de “adaptarmos as sociedades cada vez mais envelhecidas”, para isto torna-se fundamental não apenas o desenvolvimento de políticas públicas em prol de um “bem envelhecer”, mas, principalmente, o desenvolvimento de novas formas de compreensão do processo de envelhecimento, isto é, do que é “ser velho”110.
No Brasil, por exemplo, desde as últimas décadas os dados do IBGE vêm constatando um vertiginoso aumento da população idosa tornando o prolongamento da vida uma realidade. E tais constatações são acompanhadas, em parte, pela legislação brasileira que a partir da década de 90 do século passado, multiplicou, em larga escala, o número de leis federais, estaduais e municipais que contemplam a velhice no Brasil. Por sua vez o estado do Rio de Janeiro vem se destacando nas estatísticas como o estado brasileiro que contém a maior proporção de idosos na população
110 Numa terça-feira, oito de abril de 2008, na Fundação Gulbenkian em Lisboa, no âmbito do
Fórum Gulbenkian de Saúde aconteceu à primeira fase de um seminário sobre envelhecimento, intitulada: Quanto somos? Como seremos?. A amplitude e a importância do evento pode ser medida pela presença em sua abertura do Presidente da República o Sr. Cavaco Silva. Para além da constatação do crescimento do envelhecimento populacional como um fenômeno global considerando-se sua inevitabilidade de nada serve angustiarmo-nos horrivelmente por
isso, dizia o demógrafo britânico Cris Wilson, um dos primeiros conferencistas a falar sobre o
tema e suas conseqüências para o mundo. O que temos que fazer é perceber porque que isto
total111. Sendo o bairro de Copacabana o que tem mais concentração deste segmento da população.
Hoje almocei num restaurante de comida a quilo numa galeria em frente ao pão de açúcar, bem perto do apartamento. Foi a primeira vez que almocei lá. Recebi um papel de uma moça na porta da galeria e resolvi arriscar porque o preço estava bem mais barato. Fui almoçar um pouco mais cedo, por volta de 12h30, chegando ao local, deparei-me com um restaurante pequeno, bem simples, fui recebida por um senhor por volta de uns setenta anos, bem simpático e atencioso, que parecia o dono do lugar [...], achei interessante o atendimento extremamente personalizado diferente dos outros restaurantes que já freqüentei. No restaurante tinham no total cinco mesas, três grandes, que apertadas cabiam quatro pessoas, e duas menores, para duas pessoas. Já estava bastante cheio, e assim que me sentei pude me dar conta que com exceção de mim e de um homem sentado ao meu lado, o restante dos clientes eram homens e mulheres idosas, na mesa grande na minha frente tinham
quatro delas que enquanto comiam conversavam
animadamente e falavam com a atendente do local tratando-a de uma forma bastante pessoal, uma delas, pedia que fizesse uma quentinha para levar para outra pessoa. Era evidente que estas pessoas eram freqüentadoras assíduas do local, inclusive fazendo comentários sobre a comida com a caixa que estava próxima a mesa delas [...].
Diário de campo 26/11/07.
No âmbito das ciências humanas e sociais, já desde meados do século XX, assistimos a um progressivo despertar de consciências em direção ao estudo e tratamento do processo de envelhecimento (GUSMÃO, 2003). Segundo Peixoto (2000b), a antropologia ou mesmo a sociologia começam a se interessar pela problemática do envelhecimento a partir do surgimento de novo fenômeno, o aumento da população de mais de 60 anos, que passa a ser vista, então, como um “problema social”. E isso se deu, de acordo com a autora, sobretudo devido às conseqüências econômicas, que afetaram tanto as estruturas financeiras das empresas – e posteriormente do Estado, com o advento da aposentadoria112 –, quanto às
111
Segundo dados do IBGE a população de idosos no Estado é de 9,9 %, enquanto a média nacional é de 7,3 %.
112 Para maiores informações sobre estudos que tratam de políticas de aposentadoria e pensões
para idosos ver: Simões, (1992, 2004) e Hochman (2000). Segundo Simões, as idéias de que o idoso é vítima de um processo de pauperização, que sua incapacitação para o trabalho o lança
estruturas familiares, que até então arcavam com os custos gerados por seus velhos, incapacitados de se sustentarem (Ibid., p. 70).
Por outro lado, para Debert, uma das dificuldades que os estudos sobre a velhice enfrentam é justamente o fato de nas sociedades ocidentais contemporâneas a velhice ser apresentada como um problema social. Para a autora, o antropólogo deve compreender – não buscar as soluções - como um problema social é constituído e o conjunto de representações que orientam as práticas destinadas a solucioná-lo (2000a, p. 62). Um dos primeiros avanços, no que concerne aos estudos sobre velhice, foi o de contrapor a perspectiva que dominava a literatura sobre o envelhecimento – normalmente relacionada ao campo da medicina, biologia e gerontologia – até meados do século XX, que tratava o processo de envelhecimento como uma experiência comum, dissipando suas diferenças de raça, etnia, gênero, classe etc. No entanto, com o advento das pesquisas no campo das ciências sociais, foram sendo expostas as diferentes experiências relacionadas com o processo de envelhecimento (LINS DE BARROS, 1987; 2000; DEBERT, 1988, 1994 e 1999, PEIXOTO, 2000a).
O que a literatura antropológica procura destacar é justamente a infinidade de percepções e de formas de viver o processo de envelhecimento. Assim, a própria idéia da idade como algo natural deve ser deixada de lado. Neste sentido, Debert chama atenção para o fato de que em todas as sociedades podemos encontrar grades de idade, mas, por outro lado, cada cultura tem sua própria maneira de elaborá-las. Assim, é necessário considerar que as diferentes fases do ciclo de vida
são socialmente manipuladas e comportam arbitrariamente
características, qualidades, deveres e direitos (DEBERT, 2000b, p. 50- 53). Portanto, deve-se ter em conta que, a imputação de algumas prerrogativas para determinada fase da vida estará sempre em relação com o que se considera socialmente apropriado para essa fase e não para a outra. Tais prerrogativas mudam ao longo do tempo e não são as mesmas em todos os lugares (ALVES, 2001, p. 9).
Em relação às pesquisas que têm como foco a sociedade e as cidades brasileiras, destaco, inicialmente, as pesquisas realizadas por Lins de Barros (1997, 2001, 2004, 2006) com os velhos moradores da cidade do Rio de Janeiro e as pesquisas realizadas por Eckert (2000a) e Eckert & Rocha (2005) sobre os velhos habitantes da cidade de Porto Alegre e seus cotidianos, sob a ótica da cultura do medo, e Peixoto (2000a) sobre as
no desamparo, que seus cuidados devem ser assumidos pelo poder público, foram fundamentais para a legitimidade e consagração do direito à aposentadoria. SIMÕES, J. A. O
estratégias de sociabilidade entre velhos parisienses e cariocas. Cabe mencionar ainda os estudos de Simões (2003) sobre a questão do envelhecimento entre sujeitos homossexuais, fontes inspiradoras deste trabalho. Alguns estudos também giram em torno das representações sociais sobre a velhice, sobre o modo como as pessoas se definem como velhas, sobre questões relativas à construção da identidade, nesse caso, principalmente, a identidade feminina (LINS DE BARROS, 1981, 2000; MOTTA, 1998), e sobre as relações entre as pessoas de mais idade e seus familiares (LINS DE BARROS, 1987, 2006b).
Têm merecido atenção também questões que envolvem as novas imagens vinculadas à velhice pela mídia, em que os estágios mais avançados da vida passam a ser vistos como momentos propícios para novas conquistas e experiências prazerosas (DEBERT, 1999), e ainda pesquisas sobre as relações entre gênero e classe, como a de Motta (1997), realizada na cidade de Salvador (BA), com homens e mulheres entre 62 e 76 anos. Nesta última, há uma interessante reflexão sobre a experiência do envelhecimento a partir de um enfoque que privilegia o gênero e a classe social, através da observação de formas de sociabilidade e atividades em grupo, concluindo que os grupos e programas culturais e de lazer contam, mais expressivamente, com a presença de mulheres, pois os homens, segundo Motta, buscariam formas menos institucionais, do tipo: encontros na praça para jogar cartas e dominós. E, em relação à classe, os grupos de convivência são, em geral, constituídos por pessoas das classes populares, enquanto os programas institucionais para Terceira Idade são freqüentados por pessoas da classe média.
Em suma, de uma forma geral, o que se vê nas últimas décadas na produção antropológica brasileira sobre a velhice em contextos urbanos é a tentativa de desnaturalizar muitas questões que envolvem a experiência do envelhecimento: muitos são os debates que chamam a atenção para a necessidade de rever a utilização de categorias como velhice, idade cronológica e de geração, terceira idade, entre outras. Nesse sentido, gostaria de destacar os trabalhos de Debert (1999, 2000a) e de Peixoto (2000a). Neste horizonte, Debert salienta que: “A identidade do velho não é homogênea, nem mesmo no que diz respeito a um único indivíduo que se sente velho para algumas coisas e não para outras e em alguns momentos e não em outros, enfim a velhice nunca é um fato total. Ninguém se sente velho em todas as situações” (DEBERT, 1988, p. 62). Assim, compreende- se que o processo de envelhecimento apresenta variações que são constituídas socialmente nos diferentes grupos sociais, de acordo com a visão de mundo compartilhada em práticas, crenças e valores (HECK & LANGDON, 2002).
Tendo em vista o universo de pesquisa, a problemática em torno do envelhecimento, ciclo de vida e as relações geracionais113 no cenário citadino é um dos eixos principais deste trabalho, afinal, em termos de Lins de Barros (2006a, p.16), “viver na cidade e viver a cidade são experienciais existenciais distintas para as diferentes gerações”. Neste sentido, algumas das questões apontadas acima serão abordadas nos capítulos que se seguem e que tratam das trajetórias sociais, itinerários urbanos e formas de sociabilidade dos sujeitos aqui estudados. E também, a partir de suas representações que, em muito, influenciam suas experiências citadinas no presente ao mesmo tempo em que nos falam, sobre seus modos de viver e perceber a velhice. Por sua vez, ainda recorrendo a Lins de Barros (2006a), a cidade, através de seus espaços e da sociabilidade neles desenvolvidas, aparece ao mesmo tempo como cenário e como significado da vivência das mudanças ocorridas nas trajetórias das senhoras desta pesquisa. A cidade torna-se suporte de suas memórias, e seus lugares pontos de amarração (BOSI, 2003) de memórias individuais e coletivas, e os diferentes usos e apropriações que fizeram dos seus espaços, transformados em “territórios de pertencimento”, são fundamentais para compreendermos suas trajetórias sociais.
As análises de suas trajetórias evidenciam as relações entre o indivíduo e seu contexto sócio-histórico, dos “campos de possibilidades” (VELHO, 1999a) e conseqüentemente de suas formas de manipulação, pensada em termos de astúcias e táticas (DE CERTAU, 2008) que, por sua vez, permite compreender as travestis como sujeitos atuantes em sua cidade e realidade social. Assim, pensando em Ortner (2005) e, em sua noção de “jogos sérios”, concordo com a autora quando coloca que restaurar a subjetividade com base na agência é reconhecer, nas ciências sociais, que o objeto, por elas estudado, é um sujeito em processos múltiplos de subjetivação, consciente e reflexivo sobre si mesmo e sobre os outros, exercendo, de diferentes formas, uma ação sobre o mundo.
113 Como bem aponta Debert, a reflexão antropológica sobre o envelhecimento diz respeito às