Foram vários os povos que, ao longo dos tempos, se instalaram na atual paisagem litoral de Peniche, beneficiando de um território rico em recursos naturais. De facto, a primeira referência à península de Peniche que, à data, era uma ilha, trata-se de uma descrição mitológica no poema Orla Marítima, de Avieno, séc VI. a.C., que pretendia dissuadir pelo medo, navegadores mediterrâneos de se aproximarem da ilha e usufruir dos seus recursos naturais (Cardoso et al., 2011): Em seguida, encontra-se no meio do mar uma ilha abun-dante de ervas e consagrada a Saturno. Nela a força da Natureza é tanta que, se alguém navegando próximo dela, de imediato em volta o mar se excita: a própria ilha se agita e a água revolta-se toda, fortemente embravecida, enquanto o resto do pélago permanece silencioso como se fora um tanque (Ferreira, 1985, p. 21,22).
Fig.15 Praia do Baleal e respetivo cordão dunar – Da esquerda para a direita: Juniperus turbinata; pisoteio da duna; bando de pilrito-das-praias Calidris alpina
Os vestígios mais antigos de ocupação humana na paisagem litoral de Peniche remontam-nos, mais uma vez, à gruta da Furninha, que terá sido ocupada desde o Paleolítico Médio, como abrigo, até ao Neolítico (Calcolítico), período durante o qual foi usada como necrópole, como atesta o vasto espólio aí recolhido e inventariado por Nery Delgado (1884) (Cardoso, 2009; Cardoso, 1997; Bicho & Cardoso, 2010). Deste legado, que em parte se encontra no museu municipal de Peniche, destacam- se: vestígios osteológicos de vários hominídeos, nomeadamente do Homo Sapiens (Homem de Neandertal) e de Homo Sapiens Sapiens (Homem atual); utensílios líticos (bifaces, pontas de seta, ou machados de pedra polida); utensílios em osso; e várias peças de cerâmica neolítica (os célebres vasos de suspensão da Gruta da Furninha) 30.
Os recursos marinhos e estuarinos adquiriram especial importância para os Romanos que, já no século I d. C. desenvolveram aqui uma tradição socio-económica assente na pesca e conservas de peixe. De facto, inúmero projetos de investigação no campo da arqueologia, desenvolvidos nas últimas décadas em Peniche, vieram a demonstrar que a atividade piscatória e industrial, que ainda hoje caracteriza o contexto socio-económico atual de Peniche tem, pelo menos, dois milénios. Um dos locais mais relevantes para o estudo arqueológico da ocupação Romana em Peniche, é o complexo oleiro junto à localidade Murraçal da Ajuda. Esta olaria, contemporânea ao principado de Augusto, é uma das mais antigas do território da Lusitânia, remetendo-nos para inícios do império (Cardoso et al., 2011). Nos quatro fornos já descobertos, seriam produzidas ânforas destinadas ao envase de preparados de peixe assim como outros produtos cerâmicos de qualidade superior, de paredes finas, para irem à mesa, estampados com o selo Lúcio Arvénio Rústico, seu produtor (Cardoso et al., 2011 ; Arruda et al., 2006). Escavações arqueológicas levadas a cabo no Bairro dos Pescadores, na Ilha da Berlenga, revelaram um vasto espólio de ânforas, das quais a esmagadora maioria de produção regional, na olaria de Murraçal da Ajuda, com selo de Rústico mas, também originárias de outras regiões da Lusitânia assim como de proveniência bética e africana, destinadas ao transporte e armazenamento de conteúdos piscícolas e vinícolas (Bugalhão & Lourenço, 2011). A Ilha da Berlenga seria, à data, um importante ponto de apoio às rotas de navegação comerciais no contexto inter-regional, nomeadamente de circum-navegação da Península Ibérica, com destino às províncias setentrionas da Britannia e ao limes germânico, abastecedoras das populações romanizadas e dos exércitos aí acantonados (Bombico, 2012). De facto, outras evidências arqueológicas, nomeadamente um vasto espólio subaquático de ânforas de diversas proveniências (Bugalhão & Lourenço, 2011) assim como âncoras que terão pertencido a barcos de grande tonelagem, sugerem que Ilha da Berlenga funcionou como fundeadouro de embarcações comerciais
31.
30 http://www.cm-peniche.pt/Patrimonio_Peniche_Arqueologia_GrutaFurninha 31http://www.cm-peniche.pt/Patrimonio_Peniche_Arqueologia
Na idade média, a paisagem litoral de Peniche perdeu importância para a localidade vizinha da Atouguia da Baleia, onde se encontrava um dos mais importantes portos Portugueses. Embora hoje em dia esta localidade se localize no interior do território era, à data, aqui que o continente encontrava o mar. O crescimento económico da Atouguia da Baleia e consequente autonomia administrativa da povoação de Óbidos em 1158, foi motivado pela sua posição geográfica, servindo de entreposto comercial, assim como rentável atividade piscatória, nomeadamente da baleia, de onde deriva o seu nome, e pela importante atividade agrícola desenvolvida nos férteis terrenos aluvionares, alimentados pela Ribeira de Ferrel e S. Domingos32. Enquanto que na Atouguia da Baleia surgia um importante
centro urbano, um dos mais importantes do reinado de D. Dinis, na Ilha de Peniche existiam pouco mais do que apenas algumas cabanas de pescadores. Mas tudo viria a mudar a partir do século XV com a formação do tômbolo de Peniche que acabaria por transformar esta paisagem insular numa península, como atesta a esmagadora maioria do seu património cultural edificado erguido já no final da idade média e durante a era moderna. Com efeito, os portos e atividades pesqueiras deslocaram- se para o novo litoral, na paisagem da península de Peniche, motivando o seu povoamento e desenvolvimento económico. Ao mesmo tempo a linha defensiva de costa, que então defendia a próspera vila da Atouguia da Baleia da pirataria muçulmana norte-africana, sua principal ameaça (Venâncio et al., 2007), e de outros corsários, deixaria de cumprir o seu propósito. É neste contexto que surge a necessidade de fortificar a península de Peniche enquanto novo ponto estratégico litoral. Foi D. Luís de Ataíde, 3.º Conde de Atouguia que, em 1557, principiou o processo de fortificação da península de Peniche, com a construção do Baluarte Redondo, estrutura defensiva, concluída no ano seguinte, que se viria a integrar na atual Fortaleza de Peniche (Calado, 1999). Em 1580, Portugal perde a última batalha simbólica pela sua independência e, já em domínio Castelhano, Peniche volta a ser reconhecido enquanto ponto estratégico na defesa territorial por Filipe II de Espanha. O sistema defensivo da península de Peniche, ainda modesto em comparação com o que se viria a tornar no século seguinte, provou ser insuficiente, mesmo depois de alguns melhoramentos introduzidos pelo arquiteto e engenheiro militar italiano Fillipo Terzi, contratado por Filipe II (Calado, 1991). De facto, em 26 de Maio de 1589, desembarcaram na baía da Consolação, próximo da península de Peniche mas distante da fortificação, 6500 soldados ingleses comandados pelo duque de Essex que vinha em auxílio de D. António, Prior do Crato na reconquista do trono Português. A restante frota inglesa seguiria para Cascais onde, juntamente com os soldados ingleses desembarcados em Peniche, que então chegariam por terra, fariam o cerco a Lisboa. A ação militar por terra teve um início bem sucedido deitando a baixo a Praça-forte de Peniche, no entanto, os militares ingleses, vencidos pela peste, não chegariam a Lisboa. Deste episódio nasceu a expressão “Amigos de Peniche”, que qualifica um falso amigo, que não merece confiança e, tal como os soldados ingleses, não está presente quando dele se necessita (Calado 1991).
Ainda assim, após um período conturbado de longas batalhas, Portugal vê a sua independência restaurada em 1640. D. João IV, então aclamado rei, decide construir um sistema defensivo em toda a linha de costa no qual a península de Peniche e a Ilha da Berlenga estavam inseridos. Neste seguimento são erguidas diversas estruturas defensivas como o Forte de Nossa Senhora da Consolação em 1642, concluída a Fortaleza de Peniche em 1645 e erguido o Forte de S. João Batista, na Ilha da Berlenga em 1656 (Calado, 1999). Já no reinado de Afonso VI de Portugal, seguiu- se a construção das Muralhas de Peniche que se estendiam ao longo do istmo da península, desde o Forte das Cabanas, junto à Fortaleza, do qual restam apenas as suas muralhas até ao Forte de Nossa Senhora da Luz, na península de Papoa, em elevado estado de degradação por erosão do mar, afim de prevenir a entrada de forças inimigas por terra. (Calado, 1999)Hoje em dia as Muralhas de Peniche, constituídas Monumento Nacional, encontram-se degradadas e estão em risco de ruir33,
como, aliás, advertem os sinais de perigo que se podem encontrar ao longo do monumento.
No Baleal existiu também um pequeno forte, erguido já no século XIX designado Fortim do Baleal, também conhecido por Fortim dos Franceses, do qual restam apenas alguns muros e pavimentos que facilmente se perdem na paisagem. O nome pelo qual ficou conhecido deve-se ao contexto da sua construção, na sequência das invasões francesas (Calado, 1999).
Para além do legado bélico que atesta a importância de Peniche enquanto ponto estratégico na defesa de Lisboa e do reino (Venâncio et al., 2007) marcam também presença, uma série de património religioso que testemunha uma vivência popular marcada por trágicos eventos ligados ao mar. De facto, o mar que sustentava as atividades económicas desta paisagem, era também o mesmo que naufragava os barcos nas agitadas águas, promontórios e massas rochosas da sua costa. A contradição na relação entre o homem e o mar, marcou profundamente a fé deste povo, visível nos cultos e festas religiosas dedicadas ao mar como são as venerações a Nossa Senhora da Ajuda, de Nossa Senhora da Boa Viagem, e de Nossa Senhora dos Remédios (Venâncio et al., 2007). No que se refere ao património religioso material, encontramos na península de Peniche a capela de Nossa Senhora dos Remédios e as igrejas de Nossa Senhora da Ajuda, S. Pedro, Nossa Senhora da Conceição e da Santa Casa da Misericórdia de Peniche.
O artesanato participa também na história desta paisagem, com destaque para a tradição das rendas de Bilros, com mais de quatro séculos de idade. A origem desta tradição estará relacionada com as relações comerciais que se estabeleceram entre as gentes de Peniche e os marinheiros dos portos de Burges e Antuérpia, na Flandres, que lhes terão introduzido a arte de rendilhar entre o final do século e início do século34. Este ofício ficaria associado à mulher de Peniche, sobretudo às esposas
dos pescadores, que encontravam no seu trabalho um complemento ao salário proveniente da pesca.
33 http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=3087259
Popularizando-se até ao século XIX, quando eram laboradas pela maioria das Penichences, as rendas de Bilros de Peniche, sofreram uma regressão com o despoletar da industrialização no século XX (idem). Atualmente, existem, no entanto, instituições que se encarregam de salvaguardar o saber- fazer desta arte, nomeadamente a Escola de rendas de Peniche, Associação Peniche Rendibilros, entre outras.
Também na gastronomia se encontra outro saber-fazer local, o de transformar os produtos do mar, o pescado e o marisco, em pratos típicos, como a Caldeirada de Peniche ou a Lagosta suada, que se podem experimentar nos diversos restaurantes espalhados pelo concelho. Para os apreciadores de doçaria local, terão oportunidade de experimentar os famosos pasteis “Amigos de Peniche”, cuja expressão já coloquei em contexto anteriormente e ainda os “Ésses” (Ss), biscoitos de amêndoa típicos, ambos premiados no Concurso Nacional de Doçaria Tradicional Portuguesas com medalha de prata e ouro, respetivamente.
Ao longo da linha de costa da paisagem litoral de Peniche, assiste-se, nos vários pontos de pesca assinalados, a pescadores que fazem da sua atividade o meio de subsistência ou encontram nela um escape da vida quotidiana. Surgem como pontos das falésias, perfeitamente integrados por entre as escarpas, apoiados, muitas vezes em pequenos patamares calcários ou rochas que se sugerem
periclitantes. É interessante constatar o risco inerente à atividade, associado geralmente aos naufrágios mas, agora, ali, pelo risco de queda ou derrocada. No entanto, as gentes de Peniche, acostumadas às alturas, enfrentam o substrato instável como o comum mortal percorre um passeio de calçada; sem hesitarem, adivinham com eficácia o próximo passo, como se esse talento lhes estivesse no sangue. Nestes locais muito raramente se encontram turistas. Muito embora seja nas escarpas calcárias que se encontrem algumas das mais belas e interessantes atrações, nomeadamente as formações rochosas de complexos estratigráficos, de elevado conteúdo fossilífero, com complexos cársicos, com aves marinhas, entre outros, é no centro, próximo da fortaleza, que se concentram. De facto, o desconhecimento por parte dos turistas, pelas atrações naturais, é patente e flagrante na paisagem. As praias estão, geralmente, repletas de surfistas, sobretudo na zona do Baleal, onde concentram as suas caravanas e escolas de surf. Por toda a paisagem, se encontram referências ao surf, quer seja no letreiro das lojas, nos panfletos e cartazes em várias instituições, nos autocolantes fixados nas montras dos restaurantes. Hoje o município usa o slogan “Peniche Capital da Onda” para passar a mensagem de que Peniche é um local privilegiado para a prática do surf a nível europeu.
Em suma, a identidade cultural assume um cunho particular e coeso no litoral de Peniche, incluindo Ilha da Berlenga, que se expressa por:
Atividades ligadas à pesca – Forte presença de pescadores, em terra e em mar, nas suas
embarcações ou, a nado, em pesca submarina.
Bairros típicos – Bairros típicos de pescadores com ambiente muito familiar. Património edificado – De cariz religioso e defensivo. Igrejas, ermidas, fortes, etc. Vestígios Romanos – Vestígios de ocupação romana, associados a atividades marinhas. Gastronomia – Pratos ligados ao mar, feitos com produtos frescos e locais.