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O contexto vivenciado pelas outras áreas da ciência no período pós-segunda guerra se opunha a esse aspecto obscuro e incerto, pois a realidade estava cercada por recursos metodológicos e tecnológicos embasados em estratégias, métodos e controles, que conduziam a um gerenciamento da informação, a exemplo os computadores. O domínio e o controle da informação era uma necessidade intrínseca ao ser humano, sendo expandido para todas as áreas da ciência, abrangendo inclusive o processo evolutivo natural, que foi simulado artificialmente em um sistema computacional por John Holland. Assim, as conferências sobre métodos de projeto passaram a questionar a obscuridade do processo heurístico, pois era necessário encontrar uma forma de descrever e registrar o processo projetual de maneira a possibilitar o desenvolvimento de uma discussão sobre tais procedimentos.

A sistematização foi a maneira encontrada para estruturar e externar o pensamento do projetista. Ao adotá-la como um procedimento foi possível registrar e demonstrar cada tomada de decisão, permitindo o total conhecimento sobre os critérios e os motivos adotados durante o processo de projeto, que passou a ser denominado como caixa de vidro devido à sua transparência.As principais características desse método são a definição prévia dos objetivos, das variáveis, dos critérios e das estratégias, a realização de uma análise que antecede a obtenção da solução, e um processo de avaliação conforme uma estrutura lógica (JONES, 1992).

Esse método possui uma estruturação muito semelhante ao processo computacional (Figura 3.2), sendo possível fazer uma analogia com os procedimentos algorítmicos criados por Alan Turing e as estratégias definidas para a programação de uma partida de jogo de xadrez com um computador. Dessa forma, a sistematização tornou possível compreender melhor os processos mentais adotados pelos projetistas, gerando a possibilidade de exercer um maior controle sobre todo o processo projetual e identificar as possíveis incongruências (ANDRADE et al., 2011).

Figura 3.2 – No método como Caixa de Vidro o projetista é como um computador.

Fonte: adaptado de Jones (1999, p. 50).

3.2.1 Projeto como problema pernicioso

No mesmo período de 1960, Horst Rittel formulou a abordagem dos problemas de difícil solução ou problemas perniciosos (wicked problems), problemas que não possuem uma formulação bem definida, apresentam soluções melhores e piores, e permitem sempre mais do que uma possibilidade de explicação. Quando a definição de wicked problem foi publicada pela primeira vez, estava relacionada a uma classe de problemas vinculados ao sistema social, sendo composta por questões mal formuladas e informações confusas devido à existência de muitos agentes participativos no processo, e que levariam a valores conflitantes, capazes de gerar ramificações no sistema (BUCHANAN, 1992). O processo de projeto em arquitetura apresenta uma situação muito parecida, pois a identificação e formulação dos problemas que envolvem um projeto dependem da interpretação de cada projetista, não correspondendo a variáveis claras e objetivas como ocorre em uma ciência exata. Para esses problemas Rittel propôs uma abordagem alternativa aos métodos tradicionais de busca por soluções, composta por duas fases, a estruturação e a solução do problema. A primeira é uma sequência analítica em que o projetista determina todos os possíveis componentes do problema e especifica o que é requerido para uma solução projetual ideal. A segunda fase é uma sequência sintética em que os diferentes

requerimentos para a solução do problema são combinados e balanceados entre si, criando estratégias para a obtenção da solução ideal.

Além disso, segundo Lawson e Dorst (2009), o projetista ao adotar o modelo de solução de problema como um método de projeto assume um processo de aprendizagem, pois é necessária a definição do problema, a sua análise para a formulação dos requerimentos e a geração de soluções. Isso possibilita ao projetista organizar o conhecimento e as observações sobre o problema a ser solucionado, contribuindo para a geração de um aprendizado a partir do processo de projeto, entendendo a sua natureza e identificando a melhor rota a ser tomada para a sua solução. Essa postura pode ser associada às propostas do Schon (1992 apud OXMAN, 1999) quanto às mudanças no modelo tradicional de projeto adotado no processo educacional, assumindo a natureza dialética do projeto através da interação com os materiais do problema. Ele propõe a definição de um processo de orientação cognitiva para projetar o raciocínio e a sua fundamentação, e a diferenciação entre os modos interativos do raciocínio visual e a ideação projetual. Sendo assim, ao realizar a interação com o problema através da sua análise e síntese (LAWSON, 2011) é possível assumir a sistematização do processo de projeto como um processo de elaboração e estruturação de uma estratégia cognitiva para a solução de um problema.

O processo de projeto no desenho industrial, segundo Löbach (2001), também é assumido como um processo de solução de problemas, sendo necessário realizar uma boa definição do problema, uma análise e a definição de relações criativas entre as informações que o compõem, a criação de diferentes alternativas para a solução do problema, definição de critérios para julgá- las, e a escolha e desenvolvimento da alternativa mais adequada. O Quadro 3.1 apresenta esquematicamente o processo de projeto e as suas etapas conforme Löbach.

Quadro 3.1 – Etapas de um processo de projeto. Processo

Criativo

Processo de Solução do Problema Processo de design

(desenvolvimento do produto) 1. Fase de preparação Análise do problema Conhecimento do problema Coleta de informações Análise das informações

Definição do problema, clarificação do problema, definição de objetivos.

Análise do problema de design

Análise da necessidade

Análise da relação social (homem-produto) Análise da relação com o ambiente (produto- ambiente)

Desenvolvimento histórico Análise do mercado

Análise da função (funções práticas) Análise estrutural (estrutura de construção) Análise da configuração (funções estéticas) Análise de materiais e processos de fabricação Patentes, legislação e normas

Análise de sistemas de produtos (produto- produto)

Distribuição, montagem, serviços a clientes, manutenção

Descrição das características do novo produto Exigências para o novo produto

2. Fase da geração Alternativas do problema

Escolha dos métodos de solucionar problemas, produção de ideias, geração de alternativas

Alternativas de design Conceitos do design Alternativas de solução Esboços de ideias Modelos 3. Fase da avaliação

Avaliação das alternativas do problema

Exame das alternativas, processo de seleção, Processo de avaliação

Avaliação das alternativas de design

Escolha da melhor solução

Incorporação das características ao novo produto

4. Fase de realização

Realização da solução do problema

Realização da solução do problema Nova avaliação da solução

Solução de design

Projeto mecânico Projeto estrutural

Configuração dos detalhes (raios, elementos de manejo, etc)

Desenvolvimento de modelos

Desenhos técnicos, desenhos de representação Documentação do projeto, relatórios Fonte: Löbach (2001, p. 142).

Dessa forma, é possível verificar que as discussões sobre os métodos projetuais passaram por diferentes fases, inicialmente restritas à necessidade de uma sistematização do processo projetual como forma de descrição e registro. Posteriormente, foi identificado o caráter social envolvido, devido à grande diversidade de variáveis presentes em um determinado problema, caracterizando uma situação tradeoff, e atualmente os métodos projetuais assumiram um caráter muito particular, sendo explorados de diferentes maneiras pelos projetistas, criando seus próprios sistemas e ferramentas capazes de gerar, simular e controlar o complexo número de informações sobre um determinado problema, envolvendo assim um alto nível tecnológico (TIERNEY, 2007, p. 99) (figura 3.3).

Figura 3.3 – Etapas de um processo de projeto utilizando diferentes recursos tecnológicos. 1 - avaliação do sombreamento; 2 – avaliação estrutural; 3 – avaliação da pressão sobre a superfície; 4 – estudo simulando

o escoamento da água.

Fonte: adaptado de Hensel et al. (2010, p. 43, 44, 45e 49).