Através da apresentação contida no tópico 3.1, tivemos acesso aos perfis dos sujeitos da pesquisa, o que nos possibilitou conhecer a trajetória de cada um enquanto pedagogo atuante nas escolas localizadas nas áreas rurais da Região dos Inconfidentes.
Durante todas as etapas presentes nesta pesquisa, nos deparamos com a complexidade que envolve o pedagogo escolar, seja ele denominado como coordenador pedagógico, supervisor pedagógico, orientador pedagógico ou pedagogo. Placco et al. (2011) acrescentam, ainda, outra denominação: professor-coordenador. Segundo elas, as denominações para o cargo de pedagogo são diferentes, de acordo com as redes de ensino municipal ou estadual. Essa diversidade não se restringe somente na forma como profissional é denominado, mas também nas funções: sete dos dez pedagogos entrevistados assumem que desempenham funções administrativas e pedagógicas concomitantemente no cotidiano da escola.
Na escola acaba que a gente sempre faz de tudo! Na ausência do diretor, você assume papel de diretor, assume de professor, aí eu faço papel de tudo: de coordenador, de orientador de tudo, porque [riso] não tem jeito! (Laís). Nas narrativas dos demais pedagogos do campo participantes desta pesquisa foi bastante recorrente a descrição, por parte deles, das funções que assumem advindas das escolas e das secretarias municipais de Educação.
O pedagogo assume várias funções, além das de ser pedagogo, mesmo porque são muitos problemas que surgem a todo momento, é [...] muita coisa que você tem que dar conta. Ah, se o diretor não está... Acontece que faltou um professor... Então, assim... Acaba que assume muitas coisas que não deveria assumir (Laís).
Tem os momentos que a gente é sozinho, porque eu que tenho que ir à escola, eu com os professores, eu com aquele ambiente, não tem direção fixa na escola... Então quem está lá... No dia que estou na escola resolvo tudo (Thaisa).
Acontece que você faz muito trabalho burocrático e administrativo que te consome muito e que, se você ficar só resolvendo esses problemas, você não atinge o pedagógico (Amanda).
Acaba que você tem que atender também coisas de gestão, administração e atendimento (Selma).
Em nossa imersão no campo, ao conhecermos a realidade de cada sujeito participante da pesquisa, pudemos constatar que, muitas vezes, eles assumem diversos papéis no ambiente escolar, devido ao fato da direção das escolas do campo, na maioria das vezes, não ser fixa, isto é, as escolas têm diretor/gestor que gerencia mais de uma escola, sejam elas registradas como escolas do campo ou aquelas localizadas em distritos. Com isso, o pedagogo37, ao atuar nessas escolas, é levado a resolver demandas administrativas e pedagógicas concomitantemente.
A pesquisa da Fundação Victor Civita sobre o perfil dos coordenadores pedagógicos da rede pública (2010) ouviu, por meio de entrevistas telefônicas, quatrocentos38 pedagogos de várias capitais brasileiras. Estes indicaram que 15% dos seus problemas são causados pelo excesso de atribuições/falta de tempo e 10% dizem que falta tempo para planejar seus afazeres, 7% queixam-se que as questões pedagógicas competem com questões administrativas. No contexto deste estudo, foram entrevistados pedagogos de escolas públicas de vários Estados brasileiros e não exclusivamente os que trabalham nas escolas do campo. Os outros problemas, considerados mais graves, alegados por esses coordenadores pedagógicos foram: falta de motivação e disciplina dos alunos (28%), pais e comunidade (21%), professores – preparo e motivação (16%).
Considerando os dados colhidos nestas entrevistas, Placco et al. (2011) ressaltam que, apesar de haver dispositivos legais sobre as funções do coordenador pedagógico na escola e das pesquisas acadêmicas sobre a temática, a prática destes profissionais revela que muitos incorporam, voluntariamente ou involuntariamente, muitas atribuições que não são exclusivas de seu cargo. As pesquisadoras analisam a questão explicitando que o coordenador pedagógico é um profissional atuante e articulador entre os diversos atores da comunidade escolar, visando a uma prática educativa orientada pelas diretrizes no currículo escolar. “A falta de compreensão sobre os objetivos e limites de sua atuação, considerando o eixo da articulação, pode gerar equívocos e desvios de suas reais atribuições na função coordenadora” (PLACCO et al., 2011, p. 51).
37 No caso de nossa pesquisa, pedagogos também eram responsáveis por mais de uma escola.
38 Pesquisa realizada em duas etapas, tendo Placco como assistente na primeira etapa, em 2010, e coordenadora da segunda fase, em 2011. Os quatrocentos pedagogos são provenientes das seguintes capitais brasileiras: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Natal, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo.
Essa diversidade de funções exercida por alguns pedagogos do campo da Região dos Inconfidentes reflete-se diretamente na maneira como eles se veem e percebem sua rotina. Pinto (2006) afirma que o universo da Pedagogia escolar e todo conhecimento produzido nesse meio só recebe sentido quando se manifesta e é vivenciado pelos educadores de diferentes maneiras e ações. Segundo ele, essas diferenças é que impactam de forma singular cada pedagogo escolar, sendo expressas por meio de fragmentos advindos de teorias pedagógicas, científicas, de sensos comuns pedagógicos, saberes da experiência, estética, valores e senso comum. Ressalta, ainda, que a denominação pedagogo escolar se refere ao profissional da Educação que trabalha no ambiente da escola, tendo como objetivo unificar as funções que estão desarticuladas em seu ambiente de trabalho. Percebemos, em nosso campo de pesquisa, como esse exercício é realizado pelas pedagogas Cristina e Thaisa ao organizarem suas tarefas pedagógicas.
Eu tenho um cronograma das atividades e, cada dia da semana, tem a escola que eu vou para atender e, dali, deixo as atividades que vou realizar em cada escola (Cristina).
Separo cada dia da semana para uma escola, para me dedicar especificamente a esta escola, e vou até lá e resolvo tudo que preciso. No outro dia, já é outra realidade, outra escola, começa tudo de novo (Thaisa).
Quando o pedagogo do campo da Região dos Inconfidentes trabalha em duas ou mais escolas, acontece, muitas vezes, de fazer escolhas que interferem no cumprimento e na organização de seus planejamentos:
Acaba sendo impossível até pela própria rotina. Às vezes, tenho a necessidade de estar na escola, eu estaria lá, mas, de repente, surgiu algum imprevisto aqui que eu não vou pra lá mais (Elisa).
Alguns expuseram a falta de autonomia diante dos desafios do trabalho.
E, muitas vezes, por estar longe, por questões de transporte, de distância, essa relação ela se torna um pouco mais – como eu posso dizer... – distante mesmo e isso prejudica um pouco, porque, às vezes, você vai tomar uma atitude e aí você se depara nessa atitude, eu tenho autonomia... para fazer isso ou não? (Amanda).
O pedagogo do campo deveria ter autonomia de sentar com o professor e ver aquilo que é melhor para aquela comunidade (Cristina).
Deste modo, percebemos que essas características trazidas pela pesquisa de Placco et al. (2010) nos dão um panorama de atribuições ao coordenador pedagógico nas escolas públicas brasileiras. As pesquisadoras afirmam que os coordenadores ainda desenvolvem funções não correlatas ao cargo e que as consideram parte de seu trabalho. Com relação aos pedagogos do campo na Região dos Inconfidentes, percebemos, através de seus relatos, que a dinâmica/rotina de trabalho ainda precisa ser melhor sistematizada. A ausência de profissionais, como diretor e vice-diretor em algumas escolas do campo, aumenta o volume de trabalho do pedagogo, visto que ele acaba resolvendo demandas de outros setores. Tudo isso nos revela os aspectos que permeiam as construções das identidades dos pedagogos do campo da Região dos Inconfidentes.
3.3 Pedagogos que atuam nas escolas do campo: dos desafios na formação