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Dans le document Les vertébrés exotiques envahissants (Page 63-67)

A existência de um humor masculino relativamente estabelecido cria toda uma cultura também masculina que se comunica por meio da intenção de provocar o riso. A predominância cultural, portanto, se reproduz nas formas de rir e fazer rir, na medida em que assumir a posição de provocar o riso é também se assumir hierarquicamente mais poderoso.259 Historicamente tal posição de poder foi domínio masculino, logo o humor segue no encalço e carrega consigo as marcas do masculino: agressividade, virilidade, abuso de poder. Em termos de fontes não parece difícil demonstrar como o humor se constrói de maneira generificada, a exemplo do já citado O Pasquim.

Regina Barreca aponta que estudos no campo da psicanálise sugerem que os homens têm maior tendência a rir de alguém em uma posição de constrangimento, enquanto as mulheres tendem a ajudar.260 Essa posição poderia ser uma queda acidental, uma cena cotidiana, mas também pode ser a intenção de riso de uma charge em que uma mulher é ridicularizada, por exemplo, ou uma pessoa negra. A empatia entre elas seria mais comum do que entre eles. A mesma autora reforça que as mulheres produzem um humor mais humanizado que se recusa a rir da aparência de alguém, ou de suas condições social, cultural e econômica.261 Os marcadores de gênero, portanto, definem os modos de

259

BARRECA, op. cit, p. 25. 260

BARRECA, op. cit. p. 12. 261

rir de homens e mulheres e, consequentemente, em termos de mulheres feministas, tais modos são ainda interseccionados pela reflexão que identifica as dicotomias e desigualdades às quais as mulheres estão sujeitas em uma sociedade que privilegia o masculino.

Nesse universo de diferenças – de humor –, conforme Nancy Walker, ―[…] the language of women‘s humor reinforces the sense of separation from the dominant culture.‖262 As charges e tirinhas publicadas nos periódicos feministas do Cone Sul reforçam que diante da existência de um humor masculino, o humor produzido com preocupação feminista acabou por criar um senso de separação da cultura dominante. Trata-se da emergência de um humor em que as mulheres são protagonistas e não os alvos.

Figura 41

Fonte: HELÔ, Brasil, novembro de 2015. Conteúdo produzido para compôr a tese Quem Ri por Último, Ri Melhor: Humor Gráfico Feminista (Cone Sul, 1975-1988). Roteiro: Cintia Lima Crescêncio.

A separação simbólica tem impacto direto no modo como os homens veem o humor produzido por mulheres, sejam elas feministas ou não feministas. Assim como nós, dado nosso aparato cultural, se temos acesso a uma referência crítica, temos barreiras conscientes e inconscientes em achar graça de um humor com marcadores nitidamente masculinos, eles, provavelmente, enfrentam barreiras ao serem confrontados com um humor não masculino.

The fact that humor, to be successful, requires that the reader be familiar with the social context it describes has worked against the appreciation of

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―[…] a linguagem do humor das mulheres reforça o senso de separação da cultura dominante.‖ (WALKER, 1988, op. cit., 129, tradução nossa).

much women‘s humor by the dominant culture: the very separation of male and female ‗spheres‘ and values that it describes means that men have been hard pressed to understand and find amusing what women have created.263

Convém reforçar que o humor gráfico é absolutamente contextual. Ele depende diretamente do domínio do contexto para que sua mensagem seja enviada com sucesso, mesmo que o sucesso não signifique necessariamente graça. Uma charge que satiriza um debate entre homens sobre os direitos da mulher funciona em um cenário cultural em que as mulheres têm pouca predominância na política. Uma tirinha que ironiza o medo das feministas só faz sentido em um cenário cultural em que o feminismo é considerado uma ameaça. Segundo Barreca, ―[…] The laughter depends on our response of recognition. By recognizing her references, we‘re complying with the premise that we‘ve gone through it too. Or at least that we understand it.‖264

O riso depende diretamente do reconhecimento das referências, do envolvimento da expectadora, é apenas através do reconhecimento que garantimos, no mínimo, a compreensão, já que o riso não é uma certeza.

In part humor depends on our complicity, because so many of the workings of humor lose impact when they are explained. For the humor to work, there has to be a shared basis of particular experience – one of the reasons comedy often doesn‘t seem as eternal as tragedy is because comedy often relies on getting a particular play with words or the overturning of a particular rule.265

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―O fato do humor, para obter sucesso, exigir que o leitor esteja familiarizado com a situação descrita prejudica a apreciação, da cultura dominante, de grande parte do humor feito pelas mulheres: a própria separação das ―esferas‖ e dos valores do masculino e do feminino que os descrevem indicam que os homens têm dificuldades em entender e divertir-se com a criação – humorística – das mulheres‖ (Ibidem, p. 72, tradução nossa).

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―O riso depende do reconhecimento. Reconhecendo suas referências, nós estamos concordando com a premissa de que também já passamos por isso. Ou pelo menos que nós entendemos.‖ (BARRECA, op. cit., p. 53, tradução nossa). 265

―Em parte o humor depende de cumplicidade, porque muitos dos trabalhos de humor perdem impacto quando são explicados. Para que o humor funcione, é necessária uma base compartilhada, uma experiência particular, – uma das

Para a autora o humor depende de cumplicidade, uma vez que qualquer ação cujo objetivo seja fazer graça perde o sentido se explicada. Assim, para que o objetivo do humor seja atingido é preciso que ele seja amparado por uma base de alguma experiência particular. No caso das charges e tirinhas feministas a base da cumplicidade é o reconhecimento de que as políticas públicas de controle de natalidade afetam os direitos das mulheres, que a desigualdade de gênero é reproduzida mesmo na militância de esquerda e etc. Obviamente que essas experiências não são compartilhadas por todas as mulheres e no mesmo nível, entretanto, como se tratam de mulheres feministas, a existência de bandeiras coletivas dá conta, afinal, empatia é fundamental em um movimento social, indepente das discussões que possam ser feitas para questionar o uso de categorias como mulher, mulheres e gênero.

A identificação tem papel muito importante em termos de imprensa feminista, na medida em que o humor gráfico afirma-se como uma ferramenta de união, de compartilhamento, de conscientização que as mulheres não estão sozinhas em suas rotinas domésticas estafantes, na sensação de impotência em termos políticos-institucionais, na preocupação com a geração de filhos.

Se as esferas masculino e feminimo prevalecem em termos globais, em termos de humor também, assim uma série de códigos precisam ser compreendidos para que o riso seja – ou não – disparado. Nesse sentido, por meio do humor, o senso de separação da cultura dominante e de criação de um lugar de fala protagonizado por mulheres se afirma. Seria equivocado falar da criação de uma identidade de mulheres, mas é importante que tenhamos em mente que o humor gráfico que se distanciava de um modelo masculino de produção colaborou, no mínimo, para o fortalecimento de algum senso de compartilhamento.

Women‘s humor, like minority humor, displays a consciousness of a group identity, often posing a ‗we-they‘ dialect, and both types of humor feature common stereotypes of members of the dominant culture. Women‘s humor, like that of minorities, razões pelas quais a comédia frequentemente não é vista como eterna como a tragédia é porque a comédia frequentemente depende de um jogo de palavras particular ou da derrubada de uma regra particular.― (Idem, tradução nossa).

is usually expressed within the group, rather than in mixed company – orally, in groups composed only of women, and in print, in publications intended primarily for other women. Finally, the humor is frequently a means of dealing with frustration or anger, rather than simply celebratory or fun.266

Nancy Walker destaca que, apesar delas não poderem ser identificadas como grupo de minorias, o humor das mulheres se assemelha muito ao produzido por negros e judeus. A autora informa que tal modalidade de humor se apóia na criação de uma identidade de grupo, através do uso frequente da relação ―eu-elas/eles‖ e da exploração de estereótipos de quem integra a cultura dominante. Além disso, esse humor é exposto dentro do próprio grupo. Oralmente as piadas de mulheres são contadas entre as mulheres e em relação ao humor impresso em publicações em que o público alvo são mulheres. Ao contrário do humor com base em modelos masculinos, esse tipo de humor não visa simplesmente fazer rir, ele é uma forma de lidar com a frustração, com a raiva.

A reflexão sugerida pela citação diz muito sobre as charges e tirinhas listadas até aqui, a única ressalva seria, talvez, em termos de exploração do estereótipo masculino que existe, mas que não é tão frequente. De todo modo, a mensagem se torna ainda mais específica se não pensarmos apenas no humor de mulheres, mas também no humor de mulheres feministas. Se o humor feito por elas já se afirma como diferencial, o humor feminista é marcado também pelo desejo de transformação. De acordo com Regina Barreca o humor feminista é sério e é sobre mudar o mundo.267 Apesar da utopia quase típica de concursos de beleza, é difícil negar que as charges e tirinhas publicadas

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―O humor das mulheres, assim como o humor das minorias, apresenta uma consciência de identidade de grupo, frequentemente afirmando uma dialética ‗nós-elas/eles‘, e ambos tipos de humor caracterizam estereótipos de membros da cultura dominante. Humor das mulheres, assim como o das minorias, é geralmente expresso junto ao grupo, ao invés de diante de grupos mistos – oralmente, em grupos compostos apenas por mulheres, e impresso, em publicações prioriariamente dedicadas a outras mulheres. Finalmente, o humor é com frequência um meio de lidar com a frustração ou raiva, mais do que simplesmente celebratório e divertido‖ (WALKER, 1988, op. cit., p. 106, tradução nossa).

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em periódicos feministas do Cone Sul queriam nada além de mudar o mundo.

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