William Blake é um dos mais incisivos revisores do mito satânico. Sua primeira obra a dialogar com este tema é o poema iluminado The Marriage of Heaven and Hell (1790-92). Na lâmina 4, intitulada ―The Voice of the Devil‖, encontra-se uma voz ou presença profética que corrige os erros de diversos dogmas religiosos estabelecidos; já a seção final do livro, ―A Song of Liberty‖, dialoga com a Revolução Francesa e apresenta um herói satânico, que prediz posteriores apropriações do tema, como em America A Prophecy (1793).
Segunto Peter Schock (1993), as reapropriações satânicas do século XVIII ocorriam em três instâncias: artística, social e religiosa. O autor trata esse conjunto de instâncias, essa concepção integrada, como uma ―Matriz Cultural‖. Segundo Schock, o tema satânico ―arises out of a matrix of specific cultural forces and influences, converging in this case in the early 1790s‖ (SCHOCK, 1993, p. 442)44
. A instância artística da matriz diz respeito a recorrentes reapropriações do Satã de Paradise Lost, trazendo o anjo envolto em uma aura de heroísmo épico e libertador, em contraste com o que seria a opressiva figura divina. A instância social envolve as apropriações políticas que a figura demoníaca recebeu de revolucionários e conservadores durante os anos revolucionários do século XVIII, particularmente no período da Revolução Americana e da Revolução Francesa. No caso de Blake, em particular, envolve as reapropriações do mito em meio ao círculo de artistas em torno no livreiro Joseph Johnson. Na perspectiva religiosa ou mítica da matriz, temos um o declínio da crença na existência do diabo e o ressurgimento dessa figura como símbolo ideológico e artístico. Nessa perspectiva, minha análise e argumentação se constroem em um diálogo constante entre as instâncias dessa ―matriz cultural‖:
the religious myth of the adversary lost authority, and the figure of Satan was reconstituted by ideology and by the idealized conception of Milton‘s Satan. In Romanticism Milton‘s charismatic fallen angel survives as an ideological vehicle, a
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[E]merge a partir de uma matriz de forças e influências cultuais específicas, convergindo, neste caso, no início da década de 1790.
mythic standard-bearer of moral, political, and religious values (SCHOCK, 1993, p. 443)45.
Em relação à matriz cultural, as concepções para a composição da temática satânica de Blake têm suas raízes no diálogo que o artista estabeleceu com o ―Partido do Diabo‖, a Igreja da Nova Jerusalém e Paradise Lost. Segundo Aileen Ward (2003), o ―Partido do Diabo‖ diz respeito às relações do artista com o grupo de personalidades que compunham o círculo social do editor Joseph Johnson. De ideologia dissidente e revolucionária, de pensamentos críticos acerca das revoluções do período, muitas dessas figuras, como o filósofo William Godwin, a protofeminista Mary Wollstonecraft, os pintores Henry Fuseli e James Barry, além dos ativistas políticos Joseph Priestley e Thomas Paine, teriam influenciado nos ideais de Blake para a composição do seu mito demoníaco. O artista também desenvolveu uma relação turbulenta com a Igreja da Nova Jerusalém, fundada por Emmanuel Swedenborg. Blake, em um primeiro momento, teria simpatizado com a hostilidade swedenborgiana ao sacerdócio, a visão contrastante e positiva sobre a homossexualidade e com suas profecias sobre uma Nova Era. Contudo, o artista teria decepcionado-se com a crescente institucionalização e dogmatização da Nova Igreja. Por fim, Blake teria se apropriado e ressignificado o tema satânico de Paradise Lost. Nas concepções iniciais de Blake para este herói rebelde, Satã assume uma aura apocalíptica46, sublime e humanizada a tal ponto que se torna a apoteose da vontade e consciência humanas.
A lâmina 4 de The Marriage (Figura 1.9) apresenta um ideal que visa confrontar e corrigir dogmas religiosos instituídos, atacando, sobretudo, a questão do dualismo entre corpo e alma. Esta é uma das questões que dá tom a toda a composição visionária e profética47 de The Marriage. Na lâmina, uma voz profética, a voz do diabo, enuncia os três principais erros presentes nos códigos sagrados: a divisão do homem entre corpo e alma; a associação de Energia ao mal e ao corpo e, por sua vez, de Razão com o bem e a alma; o tormento eterno para quem se deixar conduzir por suas energias. Em seguida, a voz afirma a verdade acerca de tais questões: o homem não tem corpo distinto da alma, sendo o corpo uma porção da alma
45 [O] mito religioso do adversário perdeu autoridade e a figura de Satã foi reconstituída a partir da ideologia e da concepção idealizada do Satã de Milton. No Romantismo, o carismático anjo caído de Milton sobreviveu como um veículo ideológico, um estandarte mítico de valores morais, políticos e religiosos.
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Trato aqui do tema do apocalipse em Blake, que não se refere a um cataclismo de qualquer forma, mas sim a uma ampliação dos sentidos, baseado na purificação das portas da percepção – uma espécie de comunhão dos sentidos através da arte.
47 Após a purificação das portas da percepção, a partir do ideal metafísico blakeano, o homem se tornaria um visionário, capaz de tecer profecias – não no sentido de uma predição do futuro, mas de uma espécie de purgação através da arte, que o guiaria à verdadeira eternidade: uma realidade e totalidade imaginativa.
discernida pelos cinco sentidos; Energia vem do corpo e é a única forma de vida; Energia é eterno deleite:
The voice of the Devil
All Bibles or sacred codes. have been the causes of the following Errors. 1. That Man has two real existing princi- -ples Viz: a Body & a Soul.
2. That Energy. Call‘d Evil, is alone from the Body. & that Reason, calld Good. is alone from the Soul.
3. That God will torment Man in Eternity for following his Energies.
But the following Contraries to these are True 1 Man has no Body distinct from his Soul for that calld Body is a portion of Soul discernd by the five Senses, the chief inlets of Soul in this age
2. Energy is the only life and is from the Body and Reason is the bound or outward circumference of Energy.
3 Energy is Eternal Delight
(MATRIMÔNIO, lâmina 4, linhas 1-21)48.
A ilustração na porção inferior da página (Figura 1.9) apresenta um embate entre um anjo e um demônio, os respectivos representantes do céu e do inferno, da Razão e da Energia. Ambas as figuras parecem flutuar sobre um gigantesco oceano. O anjo está livre, empunha uma esfera de luz ou fogo. O demônio está acorrentado e envolto em chamas. O anjo ainda segura ou reclama para si um bebê, frequentemente associado pela crítica à imaginação ou ainda ao estado de inocência.
Vale ressaltar aqui a distinção entre os termos Razão e Energia, reapropriados por Blake para representar o conflito entre céu e inferno, corpo e alma e corpo e mente. O termo ―razão‖ tem suas origens no grego, correspondente a ―logos‖, a raiz da palavra moderna ―lógica‖. ―Logos‖ foi traduzido para o latim como ―ratio‖ (PIANIGIANI, 1907), que significa ―medida‖, ―conta‖, cálculo‖ e é o particípio passado de ―reor‖ que, por sua vez, signfica aquilo que ―determina‖, ―estima‖, ―estabelece‖ (NASCENTES, 1996). Segundo Kompridis
48 Todas as traduções citadas de The Marriage of Heaven and Hell são de autoria de Enéias Farias Tavares: A Voz do/ Demônio/ Todas as Bíblias ou Códigos Sagrados têm/ instaurado os seguintes Erros:/ 1. Que o Homem possui dois princípios reais/ de existência: um Corpo & uma Alma./ 2. Que a Energia, denominada Mal, origina-se/ do Corpo & que a Razão, denominada Bem,/origina-se da Alma./ 3. Que Deus penitenciará o Homem por toda a/ Eternidade se ele abraçar suas Energias./ Todavia, tais Contrários são Verdadeiros:/ 1. O Corpo do Homem não difere da Alma,/ pois o Corpo não passa de uma porção da Alma,/ discernida pelos cinco Sentidos, as principais/ avenidas para a Alma nesta Era./ 2. A Energia é a única vida e ela advém do/ Corpo; sendo a Razão a circunferência externa ou/ o perímetro da Energia./ 3. Energia é Eterno Deleite.
(2000), o termo ―razão‖, assim como seus derivativos, diz respeito à capacidade consciente de compreensão das coisas, um senso sobre as coisas, de aplicação lógica, que verifica e estabelece noções a partir de fatos. Segundo o mesmo autor, a ―razão‖ está associada ao pensamento, a cognição e o intelecto, ou seja, com tudo aquilo o que é lógico, racional, na forma de hábito ou intuição. A ―razão‖ seria uma das maneiras pelas quais o pensamento associa uma ideia a partir de outra e/ou relaciona ideias.
―Energia‖ advém do grego e seria o resultado de um trabalho; ―energia‖ seria também a propriedade dos objetos que pode ser transferida para outros objetos ou convertida em diferentes formas, embora não possa ser criada ou destruída (HARPER, 2007). Essa característica do termo, de algo que advém do trabalho científico ou mecânico, de forças físicas, denota certa subersão do termo por parte de Blake. Porém, Paley argumenta que ―energia‖ ―was a fashionable word in the eighteenth century (....), the word was current in morals, science, and psychology‖ (1970, p. 3)49
. O mesmo autor também esclarece que a ―energia‖ era associada à poesia e, embora seus significados pudessem ser variáveis, havia certa constância de significações entre as ideias de ―force; vigour; efficacy‖ (1970, p. 5)50
. Por fim, Paley menciona que ―Blake conceives of energy as erotic in origin and as revolutionary in expression‖ (1970, p. 10)51
. Na lâmina 3 de The Marriage, Blake associa o inferno ao mal e a tudo o que queima e tem movimento, ideias que sumariza na concepção de Energia. O artista estabelece uma relação paralela ao associar o Paraíso a tudo o que é bom e estático, ideias representadas pela Razão.
Em uma observação inicial, a imagem de ―The Voice of the Devil‖ funciona de forma ilustrativa para o confronto dualista entre Razão e Energia. Contudo, Wolfson sugere que ―Blake‘s infernal method is to make his reader pause over these visual effects, to see the design, as well as process the information of his poetry‖ (2003, p. 68)52
. Assim, em uma segunda apreensão, percebo que há sentidos dúbios na imagem, os quais poderiam referenciar não a afirmação da dualidade, mas a verdade obscurecida por traz do frágil verniz deste regime dual.
Se o anjo retém o infante, sugerindo uma supremacia da Razão nas religiões ocidentais, ele retém também uma esfera de luz ou fogo. Esta, porém, é uma breve
49 [E]ra uma palavra na moda no século XVIII (....), a palavra era frequentemente encontrada relativa a moral, ciência e psicologia.
50 [F]orça, vigor, eficácia.
51 Blake concebe energia como erótica em sua origem e revolucionária em sua expressão.
52 O método infernal de Blake visa fazer com que seu leitor pause diante dos efeitos visuais, para ver o design, assim como o processo de informação de sua poesia.
circunferência limitada, que cabe mesmo em sua mão. Já o demônio é visto completamente envolto em chamas. Bachelard associa o fogo ao devaneio: ―[s]omos criados por nosso devaneio. Criados e limitados por nosso devaneio, pois é o devaneio que desenha os últimos confins de nosso espírito‖ (BACHELARD, 1994, p. 161). Nessa perspectiva,
[o] que reconheço como vivo, de imediatamente vivo, é o que reconheço como quente. O calor é a prova por excelência da riqueza e da permanência substanciais; por si só oferece um sentido imediato à intensidade vital, à intensidade de ser. Comparadas à intensidade do fogo íntimo, como as outras intensidades sensíveis são frouxas, inertes, estáticas, sem destino (BACHELARD, 1994, p. 162).
Nesse contexto, o fogo tem uma relação direta com o que é infernal, com a Energia proclamada pelo poeta. Esta seria a moção do processo criativo, uma das chaves para a purificação das portas da percepção e, acima de tudo, o combustor da imaginação. Isso porque ―um átomo de fogo é suficiente para incendiar um mundo‖ (BACHELARD, 1994, p. 108), ou seja, criar ou recriar um mundo. Enquanto o anjo possui sua imaginação limitada por uma forma predefinida — um círculo brilhante — a do demônio queima de forma impetuosa e livre, mesmo sobre a água, seu oposto. Nada contém aqui a imaginação energética e infernal. É claro que o demônio está acorrentado, porém, seus grilhões o ligam à água. Bachelard associa tal elemento à imaginação e ao sonho. O autor menciona que ―[t]ão logo nos entregamos inteiramente ao reino da imaginação, com todas as forças reunidas do sonho e da contemplação‖ (1997, p. 33), percebemos o olhar da água, o modo de olhar além do tempo, pois ―[n]os nossos olhos, é a água que sonha‖ (BACHELARD, 1997, p. 33). Bosi, por sua vez, associa o sonho ao devaneio. A imaginação é ativa e cria a fantasia, o caráter divagatório associado com a criação poética. ―O devaneio seria a ponte, a janela aberta a toda ficção. (...) No vazio que se abre além do horizonte de uma visão presente e finita, é possível imaginar‖ (BOSI, 2000, p. 19). Nessa perspectiva, a água seria a matéria do sonho e do devaneio, fontes da criação artística, e o fogo o combustor do visionário, que inflama a capacidade de criar arte. O demônio encontra-se entre a água e o fogo, entre o combustível e o combustor, ele seria a própria fricção e fissão, o portador do apocalipse blakeado, capaz de desobstruir as portas da percepção.
A voz demoníaca declara a errônea noção de que o homem teria corpo e alma separados, sendo ele, na verdade, uma única existência física, carnal, sensual. A voz profética afirma ainda que a verdadeira vida é Energia e sua fonte é o corpo. Através desta proclamação, o narrador blakeano, aqui o próprio demônio, confronta a noção religiosa de que o corpo seria uma forma impura e decaída. Como elucida Frye, Blake contraria a oposição
corpo e mente ou corpo e alma pela sua compreensão de que ―all mental activity is also a bodily struggle, because based on sense experience‖ (FRYE, 1990, p. 194)53.
Conforme elucidado no decorrer de The Marriage, Blake associa Energia ao Desejo, utilizando, em alguns casos, os termos como sinônimos. Vale traçar aqui alguns apontamentos acerca do termo Desejo como categoria filosófica, justamente porque a própria reinterpretação do termo demonstra o tipo de subversão que o artista apresenta no referido poema.
Em Introdução à Leitura de Hegel (2002), Alexandre Kojève menciona que, segundo Hegel, o desejo é o que dá a um ser cognoscente a capacidade de se reconhecer como indivíduo. O homem seria um ser que possui a consciência de si, de seu estar no mundo, e que seria capaz de aprender e reconhecer este mundo através da contemplação e apreensão. O desejo seria aquilo que concede ao homem que contempla a noção de si mesmo, o conhecimento e reconhecimento de si como indivíduo.
De acordo com Hegel, o conhecimento mantém o homem em quietude passiva e seria o desejo aquilo que o torna inquieto e que o leva a agir. Assim, a ação tenderia a satisfazer o desejo, que só se realizaria pela negação, a qual implica a destruição ou transformação do objeto desejado. Por exemplo, no caso da fome, o desejo só pode ser saciado pela transformação ou destruição do alimento. Desse modo, toda ação seria negadora, pois destrói o objeto desejado, se não sua essência, ao menos sua forma dada. E essa negatividade seria ativa, embora não necessariamente destrutiva, pois essa ação que destrói o objeto de desejo, que é objetivo, cria uma realidade subjetiva para substituir este objeto. No mesmo exemplo, o ser que come aniquila a realidade conhecida e a assimila, assim, cria outra realidade subjetiva e interiorizada. De modo geral:
[O] Eu do desejo é um vazio que só recebe um conteúdo positivo e real pela ação negadora que satisfaz o desejo de destruir, transformar e assimilar o não-Eu desejado. E o conteúdo positivo do Eu, constituído pela negação, é uma função do conteúdo positivo do não-Eu negado (HEGEL, 2002, p. 12).
Para Hegel, a única coisa capaz de ultrapassar a realidade dada seria o próprio desejo, porque ―o desejo considerado como desejo, isto é, antes de sua satisfação, é apenas um nada revelado, um vazio irreal‖ (HEGEL, 2002, p. 12). Isto porque o desejo como forma de revelação de um vazio, como sintoma de uma ausência real, difere do objeto de desejo, da coisa desejada. Desse modo, um desejo que se refira a outro desejo criaria, pela sua ação
53 [T]oda atividade mental é também um esforço corporal, porque baseado na experiência dos sentidos.
negadora que assimila para a satisfação do desejo, um outro Eu que não um Eu animal: ―[e]sse Eu, que se alimenta de desejos, será ele mesmo desejo em seu próprio Ser, criado na e pela satisfação de seu desejo. E já que o desejo se realiza como ação negadora do dado, o próprio Ser desse Eu será ação‖ (HEGEL, 2002, p. 12). Assim, esse ser de negatividade que nega, será uma forma de devir que não se manifesta no espaço, e sim no tempo, pois o ato de desejar e a ação de satisfazer o desejo se realizariam no tempo, na negação ativa que transforma.
Desse modo, Hegel comenta que o desejo humano deve buscar outro desejo e que o desejo humano existe em pluralidade. Essa busca seria sempre um conflito de morte entre desejos: o desejo de ser reconhecido. Assim, o ser humano revelar-se-ia e realizar-se-ia por meio do reconhecimento do outro, dado a partir de conflito de desejos, ou seja, ―não basta que a realidade humana nascente seja múltipla. É também preciso que essa multiplicidade, essa sociedade, implique dois comportamentos humanos antropogênicos essencialmente diferentes‖ (HEGEL, 2002, p. 15).
Nessa discussão acerca do desejo em nível filosófico, vale mencionar o livro Subjects of Desire: Hegelian Reflections in Twentieth-Century (1987), de Judith Butler, no qual a autora discute a influência do pensamento hegeliano acerca do desejo na teoria francesa. Butler parte de um exame de A Fenomenologia do Espírito (1807) de Hegel e passa a discutir então os trabalhos de revisores e críticos do referido filósofo, tais como Aleandre Kojève, Jean Hyppolite, Jean-Paul Sartre, Jacques Lacan, Gilles Deleuze e Michel Foucault.
Na obra, a autora investiga os problemas filosóficos em torno do desejo, de uma vida de impulso, do esforço filosófico em domesticar e regular o desejo como uma instância de um lugar metafísico, em um conflito que tentaria deslocar o desejo para o nível de uma metafísica da identidade. Butler levanta a questão:
What lies in the balance, however, is the question of whether desire‘s satisfaction signifies a kind of death in life, whether satisfaction is life‘s closure or its openness, and whether satisfaction, conceived as the achievement of moral and metaphysical autonomy and an immanent sense of ―place‖ is desirable after all (BUTLER, 1987, p. 14)54.
Seguindo o pensamento de Kojève, Butler examina e expande a noção de desejo como uma sensação de ausência ou necessidade. Nesse sentido, a noção de desejo hegeliano
54 O que está em exame, no entanto, é se a satisfação do desejo significa uma espécie de morte em vida, se a satisfação é o encerramento ou a abertura da vida, e se a satisfação, concebida como uma conquista de autonomia moral e metafísica e de um sentido imanente de ―lugar‖, é desejável afinal de contas.
compreenderia o sentido de não-ser ou morte, pois só na estaticidade de uma negação é que o desejo, ação e movimento em si, poderia ser satisfeito. Na perspectiva hegeliana entre Senhor e Escravo, Butler argumenta que o Senhor derradeiro seria justamente a morte; assim, a vitória do Senhor seria a vitória da morte, que seria, na mesma instância, a vitória do desejo.
Influenciada pela psicanálise, a autora argumenta que o indivíduo necessita perder sua identidade antes de se tornar algo em si mesmo, que a noção do eu do indivíduo é perdida a partir do desejo, assim como o próprio desejo direcionaria o indivíduo para o outro. Assim, a satisfação do desejo seria o outro, em nível de alteridade, a partir do reconhecimento no outro das ausências e necessidades as quais o indivíduo ansiaria. Mais ainda, retomando Hegel, Butler comenta que o desejo, como que a partir de uma sublimação, tornar-se-ia um desejo pelo reconhecimento no outro.
Como mencionei, Blake associa Desejo e Energia; parte da concepção blakeana de Energia foi reapropriada a partir do Satã de Milton, cujo poeta/pintor via como um combustor infindo de energia revolucionária e poética. Para Blake, a queda de Satã concede o mundo e afirma seu potencial humano. Ao associar Desejo e Energia, compreendendo o Desejo com algo da ordem do sensual, do corporal e até do sexual, parece coerente a aura demoníaca e infernal que Blake investe na sua arte profética. Assim, Energia, em Blake, abarca uma noção ampla de vida, de atividade vital, de algo vivificante; emana do corpo, mas não é contida por ele, realiza-se no ato de viver de forma expansiva, o que contraria a racionalidade cognitiva.
Por outro lado, a oposição blakeana entre Energia e Razão não seria excludente. Uma