A principal desvantagem descrita na literatura no uso de questionários completados pelos pais é o próprio preenchimento destes. Pais com pouca alfabetização ou pouco envolvidos no preenchimento podem responder aos
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Medicalização pode ser definida como o processo pelo qual o significante (sintoma) torna-se inteiramente transparente ao significado e o ser do significado (o sujeito) se esgota na própria sintaxe do significante que passa a ser reconhecido como manifestações de desordens bioquímicas ou fisiológicas. Em outras palavras, há um abandono da busca do sentido dos sintomas apresentados pelo sujeito em detrimento de uma realidade normatizadora e reguladora, na qual o sujeito é definido de acordo com um funcionamento: quando em ordem, normal; quando alterado, doente (Foucault, 2004; Guarido, 2007).
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questionários de forma aleatória ou mesmo omitir respostas (Rydz et al., 2005; Rydz et al., 2006; Williams & Holmes, 2004; Glascoe & Dworkin, 1993; Hamilton, 2006; Oberklaid & Efron, 2005).
Foi possível evidenciar essa desvantagem em dois momentos desta pesquisa. O primeiro, quando duas mães não preencheram o questionário enviado por serem analfabetas. Contudo, isso foi facilmente contornado por meio de uma entrevista oral.
O segundo, quando duas mães que avaliaram suas filhas como sem suspeita de atraso do desenvolvimento no questionário enviado mudaram de opinião durante a entrevista oral. Nesses casos, analisando o discurso das mães1 obtido na entrevista oral, foi possível observar que ou não haviam entendido o real questionamento implícito nas perguntas ou não prestaram a atenção necessária para respondê-las precisamente. Assim, se limitaram a fornecer respostas genéricas, indicando a crença de que suas filhas não tinham nenhum problema de saúde. Entretanto, ao serem questionadas diretamente sobre o desenvolvimento de suas filhas informaram suas preocupações. Uma possível explicação para a mudança na avaliação seria a relutância inicial de alguns pais em reconhecer que seus filhos apresentam alterações e a posterior diminuição dessa após lhes perguntarem se algo os preocupa ou os aflige em relação a seus filhos (Patcher & Dworkin, 1997; Williams & Holmes, 2004; Glascoe, 2003; Glascoe, 2007). Esta relutância está intimamente ligada a fatores culturais e expectativas dos pais (Patcher & Dworkin, 1997) e, talvez, o questionário escrito não as tenha sensibilizado como a entrevista oral. Em outras palavras, a presença do examinador pode ter funcionado como uma maneira facilitadora para contornar a resistência das mães em perceber suas filhas como portadoras de algum problema.
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Discussão 96
Também é interessante notar como nesses dois casos a representação social de problemas de desenvolvimento não está atrelada a problemas de saúde. Mesmo após descreverem possíveis atrasos de desenvolvimento, as mães continuam a dizer que suas filhas não apresentam problemas de saúde: “...não tem problema de saúde não, ela está bem...” e “Ela não tem nenhum problema... ou melhor dizendo, tem sim, mas não é de saúde.”
Os dois outros pré-escolares cujos pais forneceram respostas discordantes na entrevista oral e no questionário foram uma menina e um menino, ambos de cinco anos. A menina havia perdido a mãe e era criada pela avó de 62 anos que durante a entrevista oral reconhece não haver nada de errado com a neta; na verdade, era ela, a avó, que não conseguia mais dar conta da agitação da menina, inclusive lembra que a mãe da criança, quando tinha a idade dela, era igual.1
Observa-se, portanto, que o problema inicialmente relatado pela avó estava relacionado com a dificuldade dela em cuidar de sua neta e, portanto, se constituía em um problema real para a avó, merecendo seu apontamento no questionário escrito. Entretanto, esse fora descrito como sendo a criança a qual apresentava um problema. Novamente, a entrevista oral foi capaz de reconhecer o verdadeiro significado que estava sendo atribuído e, apesar de em um primeiro momento ocorrer uma culpabilização da criança, após a real apreensão e entendimento do discurso da avó, ela não se manteve.
No caso do menino, quem havia respondido o questionário fora seu pai, enquanto a entrevista oral foi realizada com a mãe. A própria mãe explica a diferença de avaliações informando que o pai passava pouco tempo com o filho e, assim, ela conhecia mas o filho que aquele. O resultado do Teste de Denver II para essa criança
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Discussão 97
foi “questionável” e os professores a classificaram como sem suspeita de alteração do desenvolvimento.
Uma possível explicação para estas diferenças decorre da observação de alguns autores de que diferenças de escolarização, classe econômica, idade dos pais, experiência em criar filhos, raça e identidade do genitor (pai ou mãe) não parecem interferir nas habilidades dos pais em reconhecer ou não alterações em seus filhos, enquanto a ascendência cultural sim. Por exemplo, pais de ascendência latina esperam que seus filhos falem e andem mais cedo e parem de usar chupeta e mamadeira mais tarde que os de ascendência anglo-saxã (Patcher & Dworkin, 1997; Rosenbaum, 1998; William & Holmes, 2004; Vygotsky, 1978). No caso desse menino, a mãe era filha de alemães, enquanto o pai, de brasileiros.
Continuando o estudo das representações sociais, em apenas três questionários enviados aos pais, a resposta à pergunta aberta não indicava um problema real de desenvolvimento, apesar de os pais acharem que seus filhos apresentassem um. As queixas foram: comer em demasia, a esperteza da filha e a desobediência do filho. Nesses casos tanto o Teste de Denver II como a percepção dos professores classificaram as crianças como sem suspeita de atraso do desenvolvimento. Em todos os outros, pais identificaram problemas reais de comportamento e desenvolvimento, como atrasos de linguagem, dificuldade na realização de atividades, dificuldade de compreensão, dentre outros. Ressalta-se também que, mesmo quando o problema indicado não era de desenvolvimento, estava relacionado com este. As queixas descreveram problemas de crescimento1 (obesidade) e de comportamento das crianças (desobediente e esperta), que, apesar de normal, preocupava os pais.
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Tomado aqui como aumento do tamanho e número de células, tal qual foi definido na sessão 1.1 (Introdução).
Discussão 98
Quanto ao tipo de preocupação descrita pelos pais, Glascoe (1995) descreve que as relacionadas com fala e linguagem, habilidades motoras finas e funcionamento global1 previam com precisão os problemas de desenvolvimento. Outras preocupações parentais, como autocuidado, performance nas atividades da vida diária e habilidades motoras grossas e sociais foram menos sensíveis. Dentre as onze crianças que apresentaram avaliações dissonantes entres os três métodos usados nesses estudo, houve um predomínio de queixas relacionadas com as habilidades motoras finas e o funcionamento global, principalmente com o último.2 Nos casos sem avaliação discordante, a maioria das queixas também estava relacionada com as habilidades motoras finas e funcionamento global, mas questões quanto a fala e habilidades motoras grossas também foram frequentes. De modo geral, a preocupação mais prevalente foi quanto à performance em habilidades motoras finas, seguida do funcionamento global e habilidades motoras grossas.