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1 Quelle place pour la spiritualité dans un espace thérapeutique ?

Dans le document Clinique du sens (Page 79-83)

A sexualidade da Boca no NP

1 - Um pouco da História da Boca

A expressão ‘boca’ serve para quase tudo e sempre há alguém, em qualquer canto ou qualquer hora, atrás de uma. Desde que me conheço por gente, nunca deixei de encontrar um candidato a uma ‘boa boca’, justificando diálogos mais ou menos assim:

- Tenho uma ‘boca firme’ para nós... - Legal?

- Legalérrima. Mas ‘boca de defunto’ na estória, que ‘boca de siri’ já está se abrindo...

Tudo onde se entra é ‘boca’. Se o muquifo é perigoso, é boca pesada’; se a gafieira não tem porteiro é ‘boca fácil’; se a polícia também gosta de lá, então cuidado. Não vá que é ‘boca suja’. Se a reunião tiver comes e bebes, então avança – que é ‘boca livre’.

Se pilantra vai se casar com moça endinheirada não falta gente invejando a ‘boca rica’. Até a música popular já consagrou a gíria num samba de estilo e classe, que todo mundo aprendeu:

‘Eu também tô aí Tô aí, que é que há, Também tô nessa boca...’

E os dois conversavam na esquina, vendo o mulherio passando em desfile na Avenida Ipiranga, em plenas oito horas da noite.

- Não atraca, seu trouxa. Essa eu manjo. É da ‘boca’ da Laura. Está de virgem para os otários, mas fatura uma nota firme.

- Mulher é isso, mora. E dirigi-lhe o galanteio:

- Me diz que sim e eu caio de boca...

Se o assunto é maconha, então a ‘boca’ é do ‘fumo’, comumente vasculhada no Carrão e na Vila Maria. Quando as coisas melhoram e o ‘baratino’ tem fundo musical e estofamento de boate, aí a conversa é outra, porque não falta gente de bem na ‘boca da cocaína’ ou ‘boca do pó’, tanto faz. Se o policial cisca por perto, é a vez do garção avisar, na base do cochicho:

-Manera, que a boca está ‘furada’...

Se o cidadão é comunista, danou-se: é ‘boca torta’. Se fala demais, danou-se do mesmo jeito: é ‘boca mole’. Se for um repórter agourento que basta pegar no telefone para indagar de uma notícia e cai um avião em seguida, com oitenta passageiros a bordo, o resmungo na sala de imprensa é coletivo:

- Vá ser ‘boca amarela’ nos quintos...

Depois que fecharam o baixo meretrício, a exploração do lenocínio veio vindo para o centro da cidade: Andradas, General Osório, Protestantes. Era o ‘lixo’ sem limites. E no coração da capital localizam-se as ‘bocas’ na sua proverbial generalidade – leves, pesadas sujas, ou de fumo – numa fusão heterogênea para atender qualquer preferência: mulher, maconha, jogo, assalto, cachaça, heroína, pervitin, com o Palácio do Governo no meio, para facilitar as reivindicações, e igrejas para as mundanas que pecam de madrugada e se confessam de manhã, sempre de bem com Deus

É a consagração de todas as ‘bocas’, a mais completa da cidade. Falada, discutida, condenada, combatida, mas nem por isso deixa de ser frequentadíssima, a ‘boca’ das ‘bocas’, a ‘boca do crime’. De certa forma, a sempre festejada ‘boca do lixo’ (PORTÃO, 1969b).

Um decreto governamental de 1953 acabou com a Zona do Baixo Meretrício da cidade de São Paulo, até então confinada no bairro do Bom Retiro. As prostitutas foram expulsas da região a golpes de cassetete e mordidas de cachorro. A medida higienista foi não só arbitrária, mas um completo desastre em relação aos resultados almejados. Extinguiu-se o local de confinamento, mas obviamente não se extinguiu a demanda pelos serviços que ali eram prestados.

Poucos anos depois, a atividade migrou para as ruas dos Andradas, Aurora, General Osório, Protestantes, área que viu surgir rapidamente uma grande concentração de bares, local onde não somente a prostituição, mas todas as atividades que lhe dão suporte ou impulso, tais como boates, hotéis de alta rotatividade, cinemas com programação adulta, pensões, etc., se formaram e se estruturam (JOANIDES, 2003, p. 33-8).

A “Boca de Mil Dentes” dava à luz a outra boca, maldita e fascinante, reino da diversão dos otários, trabalho das prostitutas e lucro dos malandros. A tentativa infrutífera de disciplinar a metrópole fez nascer de suas entranhas a “Boca do Lixo” da região central de São Paulo. Espaço governado por leis e valores próprios, constituinte dos e constituído pelos desajustados e desgraçados, aqueles que estão à margem do socialmente desejável, lugar no qual estes foram acolhidos, se reagruparam, se estabeleceram e nele reconheceram seu novo e mais uma vez segregado território. Seja à revelia, por complacência ou mesmo lucro das autoridades políticas e das forças da ordem, a Boca do Lixo reconfigurou o mapa e o imaginário da cidade de São Paulo. Como afirma Foucault:

As disciplinas, organizando as “celas”, os “lugares” e as “fileiras” criam espaços complexos: ao mesmo tempo arquiteturais, funcionais e hierárquicos. São espaços que realizam a fixação e permitem a circulação; recortam segmentos individuais e estabelecem ligações operatórias; marcam lugares e indicam valores; garantem a obediência dos indivíduos, mas também uma melhor economia do tempo e dos gestos. São espaços mistos: reais pois que regem a disposição de edifícios, de salas,

de móveis, mas ideais, pois projetam-se sobre essa organização caracterizações, estimativas, hierarquias. A primeira das grandes operações da disciplina é então a constituição de “quadros vivos” que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas (FOUCAULT, 1987, p. 174).

Homens e mulheres desempenham papéis bastante distintos e, por conseguinte, deles se esperam diferentes atitudes diante do universo da Boca. Da mulher respeitável, a única relação que ela deve manter com a Boca é a de distância. Mães, esposas e donzelas, enfim, todas as “filhas de Maria”, não devem pisar jamais o solo infecto desse lugar, sob pena de mácula irreparável em suas reputações.

Ao mesmo tempo, são também as mulheres a exercer a força gravitacional que atrai homens das mais diferentes idades, classes sociais e temperamentos à Boca e que são, da mesma forma, responsáveis pelo sustento de um número não desprezível de outros homens, os “malandros” que auferem lucros expressivos graças a seu trabalho diário. Mas à mulher que trabalha na Boca, àquela desgraçada pela vida, expulsa ou alijada do convívio familiar e segregada pela sociedade é reservado o fardo da mais absoluta desonra que o termo “prostituta” impõe. Assim:

A mulher prostituta é o contraponto à figura da mulher/mãe/esposa esteio da família, representação ideal feminina elaborada pelos médicos e conveniente à nova ordem econômica. Se à segunda se destina o espaço doméstico, onde as funções de esposa e mãe devem obedecer a um modelo constituído pelo amor aos filhos, submissão econômica e sexualidade circunscrita à zona de controle da mãe, à mulher prostituta se destina o espaço da casa de tolerância (FELDMAN, 1988).

Já para o homem “de bem”, o marido provedor, ou o solteiro de “boa família, a “Boca do Lixo” é o local do desfile cotidiano do carnaval às avessas da grande metrópole.

Território em que, para se desfrutar da alegria que ele oferece e mergulhar na luxúria que lhe dá razão de existir é necessário, antes de tudo, arrancar as máscaras das aparências e da respeitabilidade, deixar de lado os personagens do namorado, noivo ou marido fiel, do funcionário exemplar da repartição, do religioso imaculado e até do machão e encarnar o libertino em um processo de libertação que não raro escancara suas próprias fragilidades e o faz encarar seus conflitos mais íntimos. A Boca do Lixo faz nascer asas de Ícaro em seus frequentadores, derretidas com os primeiros raios de Sol de cada manhã. Cuidado, folião! Às transgressões ao estabelecido espreitam a censura e a tragédia.

Temos ainda a figura do malandro, não restrita somente à figura do rufião ou proxeneta que exploram o lenocínio, mas que pode ser descrita em uma escala completa, hierarquizada pelo prestígio e pelo poder inerentes à cada uma das funções desempenhadas, ou acumuladas, pelos “profissionais” da marginalidade. Assim temos desde jovens aprendizes que vigiam as casas de prostituição e pontos de droga para avisar ao dono do “estabelecimento” no caso de uma inesperada aparição da polícia, passando por punguistas e estelionatários que faturam seu dinheiro através de artimanhas e truques sem o uso da violência e chegando até os responsáveis por agenciar um número expressivo de prostitutas, controlar o recebimento e a distribuição de tóxicos, administrar boates e “inferninhos” e as casas de jogo clandestinas, enfim, os membros de uma espécie de “nobreza da marginalidade”. São homens que se tornaram célebres até mesmo fora das fronteiras da Boca do Lixo graças não só à fama de valente que conquistaram com seus atos de extrema violência, mas também às grandes quantias acumuladas com os negócios escusos em que estavam envolvidos e que eram gastas quase tão rapidamente quanto eram ganhas, e até às cenas dignas de cinema de suas fugas e confrontos com a polícia. Nomes como Quinzinho, Nelson da 45 (em referência à sua arma predileta), Malaguti, Hiroito de Moraes Joanides, Osny Freitas de Almeida, Brandãozinho, Carlinos Bang-Bang dentre alguns outros chegaram

a compor uma elite de marginais que estampavam primeiras páginas de jornal e disputavam, entre si, em fins da década de 1950 e princípios da de 1960, o título de “Rei da Boca do Lixo”. Como nos revela o próprio Hiroito de Moraes Joanides em suas memórias escritas de dentro da Casa de Detenção em São Paulo e publicadas em livro cuja primeira edição data de 1977:

A esfera de vida na qual se movem os desajustados é um mundo à parte, com suas próprias normas e convenções, suas idiossincrasias concepções e aspirações peculiares – e onde os valores morais inerentes ao homem, por imorredouros, transfiguram-se, transvestem-se, mutilam-se na adaptação aos requisitos do meio. Assim é que ali se faz da sensualidade o simulacro do amor, da notoriedade o substitutivo do renome, da vaidade a contrafação do verdadeiro orgulho, e na associação de interesses escusos é que se vai encontrar o arremedo de amizade. Estranho mundo, povoado por seres de sentimentos pobres e emoções gastas, mas de corações belicosos – nos quais, em atalaia, a cólera e o vício se aquartelam (JOANIDES, 2003, p. 28)1.

Esse universo criminoso descrito por Hiroito é regido por um “Código de Honra” que deve ser respeitado à risca: um bandido, a despeito de seus conflitos e inimizades, jamais pode delatar outro bandido. Essa lealdade se apresenta como o grande liame das relações

1 Hiroito de Moraes Joanides foi um bandido que, ao contrário da maioria de seus colegas e comparsas teve oportunidades de estudo e era um rapaz tido como de “boa família” até ingressar no mundo da marginalidade. Em suas memórias, redigidas em uma linguagem que fizeram algumas pessoas duvidar de que pudessem ter sido escritas por um marginal, ele relata que o assassinato do pai e a suspeita da autoria do crime que sobre ele recaiu foram determinantes em seu exílio na Boca do Lixo (local que já frequentava como “freguês”) e consequente busca, através do crime, de meios para seu sustento. Ele também faz uma interessante descrição, na qual me baseei, para o relato feito acima, acerca das atividades desempenhadas pelos marginais. Porém, Hiroito distingue a categoria do “malandro”, ou seja, de “todos os indivíduos cuja conduta seja essencialmente criminosa, tipificada e punida por lei” da do “vadio”, formada por tipos “menos conhecidos e mais numerosos” e que “se constituem algo assim como o corpo assessorial da malandragem, o seu staff. São indivíduos que vivem ou frequentam o submundo, onde ganham a vida através do cometimento de ações que não chegam a ferir a letra da lei ou, se ferindo, é apenas de leve. Nessa categoria, portanto, devemos incluir também as prostitutas”. Algumas das opiniões e visões de mundo de Hiroito, dada a qualidade de seu relato e à sua vivência como figura proeminente da Boca do Lixo, serão usadas como referencial auxiliar para a compreensão de elementos das “Histórias da Boca” retratadas no Notícias Populares.

sociais desse meio. Ela pode ser ilustrada através do caso relatado por Ramão Gomes Portão, então repórter policial e futuro secretário de redação do Notícias Populares, em seu livro “Estórias da Boca do Lixo”, de 1969: Após uma séria desavença entre Hiroito Joanides e Osny Freitas, o primeiro feriu o segundo com três tiros que, por pouco, não custaram a vida de Osny. Descrito por Ramão como um homem que ‘não esquecia sua elegância, os óculos escuros e o indefectível colete’, Osny teria protagonizado o seguinte diálogo com um delegado da RUDI (Rondas Unificadas do Departamento de Investigações) e que, segundo o jornalista seria símbolo da “dignidade do bandido que não é ‘pé de-chinelo’”:

- Pois é, Osny. Volta e meia você dá as caras... - Sempre a convite, não é doutor?

- E como vai indo aquela chumbada do Hiroito?

Osny fez que se lembrou do tiroteio e fez muxoxo para responder: - Ainda tem qualquer coisinha. Bala é bala...

O delegado foi dando corda:

- Pelo menos o Hiroito está fora de circulação e você vive sossegado. - Pois é, Doutor. Mas isso dura pouco

- Como dura pouco? - Ele já está para sair... O policial estranhou:

- Calma, ainda é meio cedo, velho... Osny sorriu maliciosamente

O chefe da RUDI começou a pensar nas zoadas do Hiroito solto: - A bronca dele é pesada.

- Mas acontece que eu aliviei... O homem quase teve uma coisa:

Como aliviou? Ele te encheu de caramelo2 e quase te mandou pro beleléu?

Pois é. Eu dei uma colher de chá pro Hiroito...

Como a autoridade esperasse a continuação, Osny explicou:

- O Hiroito mandou me pedir3. Eu fui ao juiz e falei que ele atirou em legítima

defesa.

- Legítima defesa?

- Positivo, Doutor. Qualquer dia desses ele está por aí...(PORTÃO, 1969b, p. 19-20).

Por fim, é preciso mencionar também o papel de destaque exercido pela polícia nas dinâmicas de configuração e reconfiguração pelas quais a Boca do Lixo passou em sua história. Fica evidente que o florescimento de tão notória região onde eram praticados os mais diversos crimes e onde se abrigavam uma enorme diversidade de delinquentes, como os descritos acima, não poderia se consumar sem o conhecimento das forças da ordem.

Muito mais do que tolerar, é certo que um número expressivo dos policiais encarregados do combate a esse foco de desordem incrustrado em pleno centro da metrópole paulistana tinham, na Boca do Lixo, uma importante fonte de renda. Em 1963, ninguém menos que o Secretário de Segurança Pública de São Paulo atestou essa situação, na qual as prostitutas e marginais passam de criminosos a alvo de extorsão da polícia e até de alguns membros da imprensa:

Meretrício: reconhece o sec de segurança a existência de caixinha

O general Aldevio Barbosa Lemos, secretário de segurança pública fez ontem à imprensa séria denúncia, a existência de uma “caixinha” organizada no trecho policiado pela 3ª Delegacia Circunscricional, para proteger marginais, principalmente daqueles que atuem na área outrora conhecida como zona do meretrício. Acrescentou verbalmente o general que, somente as mulheres que exercem sua infeliz atividade

2 Gíria para denominar balas de revólver. 3 Mandou me assassinar.

naquele setor da cidade recolhem semanalmente quatro milhões de cruzeiros. Aduziu que nessa arrecadação criminosa estão envolvidos policiais e jornalistas, de cuja ação a Secretaria de Segurança está procurando colher provas concretas4.

O assunto, como esperado, ganhou grande repercussão e foram cobradas as medidas cabíveis diante de tão absurda e vergonhosa situação. A polícia, por óbvio e constrangedor que pareça, viu-se na obrigação de agir como polícia para poder moralizar não só a Boca do Lixo, mas também e principalmente suas próprias atitudes e dar a resposta que a sociedade esperava. O resultado imediato de tal fenômeno foi, a partir de 1963, um recrudescimento da repressão policial que tinha por objetivo aumentar expressivamente o número de prisões, o que de fato ocorreu. Porém, o que se verificou foi um aumento exponencial das detenções com o objetivo de se realizar “averiguações”, as chamadas prisões correcionais e não no número de flagrantes delitos. Dessa maneira, os problemas de corrupção e da moralização parecem sem solução, uma vez que:

A atividade policial quer repressiva ou preventiva, estava totalmente voltada a operar, a partir da própria ilegalidade, a gestão diferenciada dos ilegalismos, que se traduzia, entre outros aspectos, na dinâmica arbitrária e suspeita das detenções correcionais, em detrimento, é certo, de uma atuação repressiva à criminalidade (TEIXEIRA, 2012, p. 97).

Outra consequência dessa mudança de atitude por parte da polícia é a migração das atividades criminosas para toda a cidade. Acossados pela repressão policial, não só prostitutas, rufiões e punguistas buscariam novos e variados locais para exercerem suas atividades, mas também o comércio de drogas ilícitas que, antes circunscrito aos hotéis e casas abandonadas da Boca do Lixo, agora passa a se espalhar por São Paulo. A socióloga

Alessandra Teixeira chama esse fenômeno de uma “reconfiguração da economia criminal urbana”, que abrangeria ainda a mudança de escala e de configuração dos crimes contra o patrimônio no qual o batedor de carteira é substituído pela “truculência da trombada e do assalto à mão armada” e a “malandragem e a boemia” dão lugar a marginalidade e a “delinquência urbana” (TEIXEIRA, 2012, p. 97). Já Hiroito descreve o fenômeno em que:

Os malandros continuam a dar tiros uns nos outros e também, já agora, ocasionalmente em uma ou outra pessoa de bem, pois que as duas classes se misturaram e, consequentemente, os distintos problemas se chocam. As prostitutas seguem aliciando fregueses (homens de bem, pois malandros não as pagam) pelas ruas e avenidas, apenas que mais perigosa e impudicamente, e com a diferença de possuírem um maior, imenso campo de ação, já que para elas a cidade toda é uma Boca... Os tóxicos? Bem, nas imediações de qualquer colégio ou fábrica há de se encontrar um traficantezinho em serviço, servindo tanto delinquentes e prostitutas como meninos de escola e trabalhadores. Os primeiros, para que possam, como já disse, fazerem-se menos apercebidos das próprias misérias; os segundos, talvez para não se aperceberem das misérias alheias (JOANIDES, 2003, p. 157).

Mais uma vez, a busca pela extinção de um território não eliminou a demanda pelos serviços que lá são oferecidos e a tentativa de se estabelecer um controle rígido se transformou em total descontrole das atividades ilícitas. Mudada e reestruturada a Boca do Lixo, porém não deixou de existir e assim alcançou o princípio dos anos 80, época em que ganhou novamente destaque na imprensa popular.

2 - As Histórias da Boca entram no Notícias Populares

Os leitores que comprassem o Notícias Populares de 10 de março de 1983 seriam informados pela manchete principal do jornal que o “Monstro de Diadema”, um homem que pesava 150 quilos e era interno de uma instituição psiquiátrica, morria em Diadema. Pouco abaixo, à esquerda, Cleusa Ramos, “dona de uma plástica perfeita” disputava, com seus seios nus, a atenção do leitor junto à chamada que anunciava, imediatamente abaixo do logotipo do jornal, que a cantora Clara Nunes estava em estado de coma.

Perdido em meio à diagramação caótica da primeira página do NP, um pequeno retângulo no canto superior esquerdo da página, espremido entre o Monstro de Diadema e os dotes de Cleusa Ramos anunciava em letras modestas: “Histórias da Boca Não deixe de ler a partir de hoje as histórias reais, vividas nas regiões do Centro, Vila Buarque e Consolação e colhidas por nossos repórteres. Página 6”. Assim, sem grande alarde, entravam em cena as Histórias da Boca do jornal Notícias Populares.

Primeiramente, é interessante destacarmos um aspecto dessa estreia: o jornal realça o componente de realidade nas Histórias. É impossível, contudo, termos certeza sobre quais fatos, ou personagens realmente existiram e quais elementos foram acrescentados, ou retirados pelos autores das Histórias da Boca para lhes conferir maior interesse para o leitor. Esta estratégia de borrar as fronteiras entre o ficcional e o real não era nova na história da imprensa sensacionalista como um todo e na do Notícias Populares em particular, jornal que, por diversas vezes em sua trajetória, chegou a publicar como notícia verdadeira séries inteiras de reportagens ficcionais5. Ao apresentar as Histórias da Boca como histórias reais e

5 A mais famosa delas, iniciada em 11 de maio de 1975 e que se estendeu por 27 dias, tratou do nascimento “Bebê-Diabo” em São Bernardo do Campo. Na verdade, o “Bebê-Diabo” era apenas uma criança que havia nascido com uma pequena deformidade no cóccix. A falta de uma pauta mais interessante para aquele dia,

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