A dinâmica sincrética que constitui o espaço do Catolicismo Santorial afirma e registra um forte caráter festivo. A Zona da Mata mineira, antes da queda do Ouro em Minas Gerais, era habitada por diferentes tribos indígenas como puris, coroados, coropós, botocudos, que vieram do litoral fluminense e do capixaba, herdeiros dos índios goitacás. Mais tarde foi a vez dos bandeirantes paulistas a se embrenhar por estas matas. Depois vieram padres, mineradores, soldados, aventureiros e lavradores (GIOVANINNI, 2005, p. 1).
Mas somente no século XIX a ocupação da região se deu de forma efetiva (GIOVANINNI, 2005, p. 12). Com a valorização do café, a região se tornou atraente e cada vez mais próspera com a presença dos negros. Da miscigenação dos diferentes tipos que nestas terras firmaram suas raízes pode-se sinalizar a constituição de uma cultura pautada na religião católica, permeada fortemente pela influência dos negros e algumas contribuições indígenas; isso porque, com a chegada dos brancos, as tribos foram dizimadas quase que em sua totalidade. Os índios que resistiram, retiraram-se pela província de Espírito Santo e até meados do século XIX já não se encontravam concentrações de indígenas na região (GIOVANINNI, 2005, p. 12).
A dinâmica social da região é marcada pela religiosidade devocional festiva, que deu origem a diferentes tipos de folguedos fundamentados pela fé cristã, mas atravessados por crenças, práticas, rituais e símbolos outros. Como manifestações religiosas tradicionais de maior expressão da região e que ainda hoje são encontradas, podem ser citadas o Congado, Charola de São Sebastião e de Nosso Senhor dos Passos, Encomendação das Almas e Folia de Reis e de São Sebastião (GIOVANINNI, 2005, p. 11-12).
O Congado é uma manifestação do Catolicismo Santorial em que se apresentam explicitamente a presença do sincretismo afro-católico e a marca dos negros nas manifestações religiosas populares. Isso porque é uma festa praticada inicialmente somente pelos negros escravizados, em que sua figura aparece de forma privilegiada no processo de comunicação com o sobrenatural. Nesse folguedo, a imagem de Nossa Senhora do Rosário tem centralidade mítica e simbólica (GIOVANNINI, 2005, p. 92).
O mito que sustenta o Congado tem diversas versões, mas a que se encaixa mais ao contexto mineiro e que é apresentada pelos congadeiros conta que a imagem da santa foi encontrada em uma gruta de pedras. Várias pessoas tentaram levar a imagem da gruta para a Igreja, até mesmo o padre, seguido de uma procissão, tentou trazê-la efetivamente, porém sem
sucesso, pois sempre voltava para o lugar onde foi encontrada na calada da noite. Depois de inúmeras tentativas, os negros congadeiros dançaram e cantaram em honra a Nossa Senhora do Rosário em sua gruta e assim a levaram à Igreja. Conta a história que somente depois da intervenção dos negros a santa assumiu seu posto e não mais fugiu de volta à gruta (GIOVANNINI, 2005, p. 92).
Esta história explica a devoção dos negros a Nossa Senhora do Rosário e a referenda como a protetora dos negros. A análise do mito também sugere a importância e a habilidade do negro junto às práticas de comunicação com o sobrenatural, afirmando que somente os seus cantos, batuques e danças tiveram a eficácia mágico-religiosa necessária para trazer a imagem definitivamente para o ambiente sagrado. Giovannini (2005, p. 93) ainda enfatiza que os congos13 eram expostos a todo tipo de humilhação e exploração em suas vidas cotidianas, como conta a história dos escravos no Brasil e em Minas Gerais, mas, nas atividades com o plano espiritual, eles detinham o poder e demonstravam a eficácia do mesmo através desses feitos contados e transmitidos oralmente a cada geração.
A história do Congado passa pela história da escravidão em Minas Gerais e assume no Estado uma importância considerável na compreensão da problemática da construção da identidade negra nesse contexto (SILVA, 2010). Este debate não será travado nesta pesquisa, mas a descrição do ritual do Congado de forma sucinta é apresentada a seguir, para que o leitor possa identificar o caráter festivo e devocional dessa manifestação que compõe o amplo leque de festejos religiosos do Catolicismo Santorial.
O Congado é caracterizado por um cortejo que passa pelas ruas da comunidade chamando a assistência para a festa. O Rei e a Rainha Congo são as personagens de maior relevância. O Rei precisa ter uma habilidade com o mundo sobrenatural e respeitar a religião acima de tudo. Para “ocupar esse posto, é necessária não somente a herança familiar, mas é preciso ter muita sabedoria sobre os mistérios do congado. É uma liderança que deve conhecer os rituais e os fundamentos míticos (quer dizer do mito) e místicos (quer dizer espirituais)” (GIOVANNINI, 2005, p. 101). O Rei do Meio, que será o herdeiro da Coroa, e o Capitão também assumem posições importantes no cortejo e no ritual como um todo.
O cortejo com a Bandeira sai da casa do Rei ou Capitão em direção à Igreja onde será erguido o mastro14, que marca o início da festa, no sábado à noite (GIOVANNINI, 2005, p. 98). Na madrugada de domingo, é cantada a Alvorada nas casas que desejam receber o
13
Os escravizados que participavam dos Congados eram chamados de congos. Hoje é mais comum o nome congadeiros.
Congado, que é reconhecida pelo altar montado à sua porta. Ao fim da Alvorada, a Bandeira volta à casa de onde saiu e inicia o Reinado, a parte mais importante da festa.
No domingo é servido um almoço caracterizado pela fartura, uma marca das festas tradicionais mineiras. Após o almoço, os congadeiros vestem seus trajes específicos da festa. O Rei, Rainha, Capitão e Rei do meio assumem o centro do cortejo. A Bandeira, assim como na Folia de Reis, é o símbolo sagrado do grupo. No Congado, ela é levada por três mulheres, as três virgens (GIOVANNINI, 2005, p. 104). À frente delas, assumem a dianteira os bambas e os corta-ventos, membros do cortejo que com suas espadas e bastões assumem a função de abrir caminhos. Os corta-ventos atuam inclusive cortando o poder de mandingas possíveis que possam ameaçar o grupo, sempre dançando e batendo espadas (GIOVANNINI, 2005, p. 105). Nas encruzilhadas, as espadas são riscadas no chão fazendo um círculo que possui a eficácia simbólica de fechar o grupo contra feitiços e energias negativas (GIOVANNINI, 2005, p. 106).
O Reinado continua passando nas casas das pessoas relevantes do grupo, como Reis e Rainhas velhos. Para que os “nobres” acompanhem o Congado, é necessário que se faça um ritual chamado de Embaixada, o que “consiste em um canto onde o rei congo convida sua rainha e demais realezas a se juntarem ao séquito formado pelos outros componentes e caminharem pelas ruas até a igreja (GIOVANNINI, 2005, p. 107).”
Até a Igreja os integrantes da realeza são protegidos por guarda-chuvas que têm uma função espiritual, além de protetora, para amenizar os efeitos do sol e da chuva. Um antigo congadeiro relata que os antepassados e os congos velhos já falecidos são reverenciados e muitas vezes participam do ritual. O guarda-chuva então se manifesta como um protetor espiritual das cabeças dos integrantes da realeza (GIVANNINI, 2005, p. 109).
Chegando à porta da Igreja para a missa (ou missa conga), na qual se fará a transferência da coroa para os novos Reis e Príncipes, é cantado o Bendito, um canto que o Rei Congo entoa em homenagem aos santos reverenciados pelos negros (GIOVANNINI, 2005, p. 1). Após a celebração da missa, a procissão segue para a casa onde a Bandeira é guardada. Lá se despedem da Bandeira cantando a Alvorada mais uma vez com muita alegria e dança, apesar da exaustão dos dias festivos.
Outros folguedos de relevo no cenário da Zona da Mata e que se manifestam de maneira muito intensa na região de Leopoldina são as Charolas de São Sebastião e as Folias de Reis. Entre as duas manifestações podem ser percebidas algumas proximidades. Assim como as Folias de Reis, as Charolas se caracterizam por uma caminhada ritual cantada à casa do devoto. Algumas possuem um andor, outras, a Bandeira. Mas a diferença primordial está
no período em que cada uma se manifesta. As Folias de Reis geralmente saem em jornada no período natalino até o dia de Reis, 6 de janeiro. As Folias e as Charolas de São Sebastião se apresentam a partir do dia 6 e se estendem até a data em que se celebra o dia do seu santo de devoção, 20 de janeiro. Nas Charolas de São Sebastião, tal como nas Folias de Reis, os charoleiros, todos homens, cantam em versos a história do santo a quem dedicam sua devoção. Os versos principais, chamados de martírio ou adoração, narram a trajetória do santo, desde a prisão até a sua morte, enfatizando elementos como o sangue derramado e os momentos de sofrimento e dor do mártir (GIOVANNINI, 2005, p. 53). Também passam de casa em casa pedindo espórtulas para a festa final e acreditam igualmente no poder taumaturgo de seu santo, pagando-lhe as promessas dos devotos (GIOVANNINI, 2005, p. 56). A formação da Charola é a mesma da Folia de Reis, com a Bandeira à frente guiando os charoleiros que vão atrás com seus instrumentos de corda e percussão. Chegam em silêncio nas casas e logo se posicionam para iniciar a cantoria com os versos da chegada, assim como nas Folias de Reis (GIOVANNINI, 2005, p. 57).
O que diverge é que nas Charolas não se percebe a figura do palhaço acompanhando o cortejo. Além disso, existe a obrigatoriedade de os charoleiros utilizarem o vermelho e o branco como cores predominantes dos uniformes e da Bandeira, fazendo menção ao sangue do martírio, símbolo do sacrifício e da redenção (GIOVANNINI, 2005, p. 54).
A Charola do Senhor dos Passos é bem diferente da de São Sebastião. É um ritual muito simples, realizado em cidadezinhas do interior na época da quaresma, comum na região de Muriaé em seus pequenos distritos. Essas Charolas não contam com a participação de instrumentos musicais. Segundo a tradição, na semana santa não se deve expressar alegria em respeito à morte de Cristo. Portanto, a cantoria que segue sem cessar pelas ruas se dá em uma toada monótona na ausência de instrumentos.
Diferente das Folias de Reis e Charolas de São Sebastião, estes grupos não aceitam refeições nas casas dos devotos. Apenas passam pelas residências oferecendo a bênção da imagem do Nosso Senhor dos Passos. Não é obrigatório aceitar a bênção, mas é de bom tom que o santo entre em sua morada e que o dono aceite o que ele tem a lhe oferecer.
Os devotos devem esperar a Charola com uma toalha branca sobre a mesa onde o andor será colocado para a adoração da família. Este andor é caracterizado por uma casinha envolta em um pano roxo, que é a cor que representa a quaresma e a paixão de Cristo, apoiada sobre duas varas para quatro componentes carregarem. Dentro da casinha de madeira está a imagem do santo carregando a cruz. Esta imagem do Nosso Senhor dos Passos de joelhos, com a expressão sofrida e a testa coberta de sangue sinalizando a dor provocada pela coroa de
espinhos, simboliza a caminhada de Jesus até o calvário onde foi crucificado, por isso a música festiva acompanhada de instrumentos como se observa nas folias não é adequada a este ritual. À frente do andor vem um menino carregando em suas mãos uma cruz com a imagem de Jesus crucificado (GIOVANNINI, 2005, p. 81).
Os charoleiros não lancham na casa do devoto, mas pedem a esmola, assim como a Folia aceita a oferta de dinheiro à Bandeira. A soma recolhida pela Folia é destinada à festa de encerramento do grupo, conhecida como Entrega da Bandeira. O dinheiro recolhido pela Charola é doado à Igreja, recebendo em troca a graça dos pedidos realizados em oração (GIOVANNINI, 2005, p. 82). Dentro da casa, a cantoria segue comandando o ritual que prevê acender de velas, depositar as espórtulas dentro da casinha e beijar a fita que pende do andor. Os versos envolvem toda a assistência, e os versos improvisados não dão a despedida até que todos tenham participado de alguma forma (GIOVANNINI, 2005, p. 84).
A crença popular diz que no período da quaresma as pessoas devem rezar muito, pois é época de “assombração”, visto que as forças do bem estão enfraquecidas pelo sofrimento de Jesus. Portanto deve-se tomar cuidado ao passar por encruzilhadas nas noites de sexta-feira de quaresma, pois seria comum encontrar um bode chifrudo de olhos vermelhos bufando e cheirando a enxofre. Logo, é preciso rezar muito, principalmente no sexto dia da semana e fazer sacrifícios como a tradicional privação da ingestão de carne entre os católicos. Dizem que, por Jesus ter sido morto neste dia, alguns feiticeiros escolhem a sexta-feira da Paixão para poder evocar espíritos maus (GIOVANNINI, 2005, p. 79-80). Diante disso, tanto quanto a oração das Charolas, a da Encomendação das Almas é muito importante nesse período.
A origem deste ritual data do século X na Europa, e era uma mistura de rituais cristãos e pagãos, em que se rezava para as almas que acreditavam que estavam no purgatório (GIOVANNINI, 2005, p. 86). Após o Concílio do Vaticano II, este ritual perdeu força, mas é encontrado em lugarejos da Zona da Mata mineira e em algumas cidades barrocas, como São João Del Rei. Provavelmente, o ritual foi trazido pelos migrantes que vieram dessas regiões para a Zona da Mata com a queda do ouro (GIOVANNINI, 2005, p. 87). A crença nos espíritos, como já apresentado anteriormente, também sofreu influência dos povos negros que aqui vieram cativos. Portanto, esse ritual pode ter sido bem recebido pelos africanos e afrodescendentes que se instalaram nestas terras depois da queda do ouro.
O cortejo da Encomendação das Almas é realizado às quartas e às sextas-feiras no período da quaresma e passa cantando e rezando pelos cruzeiros e cemitérios, lugares entendidos pela crença popular como específicos das almas. É um ritual repleto de misticismo, devendo ser realizado no silêncio da noite quando todos já se recolheram, o que
atualmente é mais difícil devido à atividade noturna das cidades. Por isso este ritual é realizado em poucos lugares nos dias de hoje (GIOVANNINI, 2005, p. 87).
Em contrapartida, as Folias de Reis são vigorosas na região de Leopoldina, que compreende seus distritos e pequenas cidades vizinhas como Recreio. Como ritual do Catolicismo Santorial, a Folia de Reis se configura como um importante folguedo encontrado em várias regiões do país, operando fusões de situações diferentes e até opostas entre si, como as ideias de festa e penitência, alegria e dor.
O Catolicismo Santorial por si só já apresenta essas duas faces, é uma religião excessivamente festiva, mas, por outro lado, nutre esse aspecto penitencial que não deixa de ser uma de suas características centrais. Dessa forma, os foliões festejam, comem bem, divertem-se, mas o corpo deve suportar as noites e madrugadas não dormidas, o cansaço extremo das longas caminhadas e a dor proveniente de todo esse esforço. A penitência associada ao prazer e à festa está presente na Folia de Reis e em todas as manifestações apresentadas. É entendida como um elemento intrínseco ao próprio ato de adorar os santos, entrar em contato com o sagrado e praticar a religião.
É possível afirmar que o Catolicismo Santorial é uma forma religiosa permeada pelas manifestações festivas de cunho devocional e penitencial, e que essas manifestações estão presentes no cotidiano das cidades mineiras. São muito fortes nas pequenas cidades da Zona da Mata, como Leopoldina, onde a devoção e as promessas criam e recriam constantemente o contexto ideal para manter as Folias de Reis em atividade, marcando o ciclo natalino com suas orações cantadas e brincadeiras versadas.
Para compreender melhor o sentido de uma festa como a Folia de Reis, é preciso antes de tudo compreender a sua essência, ou seja, o que move as pessoas em direção a esse tipo de experiência com o sagrado. O que leva os foliões a passarem noites e madrugadas caminhando e cantando de casa em casa, ou o que leva as famílias a abrirem suas portas e oferecerem sua comida a essas pessoas? A fé, a devoção, a crença nos Santos Reis. É justamente em torno desses temas e da relação santo/devoto, característica central do Catolicismo Santorial, que a discussão a seguir será traçada.