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PISTE, VOIE DE CIRCULATION, TABLIER ET SURFACES PROFILÉES

5.2 IMPACTS ET MESURES D'ATTÉNUATION SPÉCIFIQUES À LA PHASE DE CONSTRUCTION

5.2.1 PISTE, VOIE DE CIRCULATION, TABLIER ET SURFACES PROFILÉES

6 Husserl escreveu milhares de páginas de manuscritos de suas lições, muitos deles ainda não publicados em

alemão. A tradução era uma tarefa muito difícil, uma vez que, Husserl escrevia na linguagem da taquigrafia, para poupar tempo na escrita, e necessitava que seus escritos fossem transcritos em alemão antes da publicação. Entre os assistentes de Husserl que contribuíram para esse trabalho de transcrição, estão Adolf Reinach, Edith Stein, Martin Heidegger, Eugen Fink, entre outros.

Em Investigações Lógicas, Husserl (1900/2014, 1901/2015) já apresentava suas críticas em relação à maneira como vinha sendo construída a Psicologia e as decorrências dessa construção para a Filosofia. Nessa época, denunciava o psicologismo que vinha ocorrendo com características objetivistas e naturalistas (Kockelmans, 1987). O psicologismo a que se referia era aquele de deduzir os enunciados lógicos e a verdade a partir de uma vivência psicológica, não considerando de maneira adequada a diferença entre o objeto de estudo da Psicologia e aquele da Lógica. Essa crítica de psicologismo era dirigida para alguns projetos de Psicologia, sobretudo aqueles de caráter experimental e positivista, não cabendo a toda a Psicologia (Peres, 2014). Enquanto ciência explicativa, a Psicologia era considerada uma entre outras ciências existentes em sua época, mas caberia a ela delimitar bem o seu campo de estudo, a seu ver, o campo das vivências. Contudo, mais do que adotar apenas uma atitude explicativa, a Psicologia deveria se dedicar à descrição das vivências psíquicas. Nessa obra citada acima, por propor a Fenomenologia como uma ciência descritiva da consciência, surgiram vários questionamentos, como aquele que indagava se a Fenomenologia não seria apenas mais um novo tipo de Psicologia. Isso ocorreu até mesmo por uma gradativa diferenciação de terminologia que Husserl vinha desenvolvendo na medida em que sua argumentação se desenvolvia. No primeiro volume das Investigações Lógicas, Husserl (1900/2014) abre margem para certa ambiguidade em relação a essa questão. Se por um lado chega a afirmar que a Fenomenologia é uma Psicologia descritiva, ao mesmo tempo afirma a Fenomenologia como uma preparação para Psicologia e para outras ciências empíricas (Moran & Cohen, 2012). Na verdade, o que Husserl já estava propondo era que a Fenomenologia fosse tomada como uma ciência propedêutica, uma ciência que se colocasse como fundamento de outras ciências, o que mais tarde seria explicitado em outros textos husserlianos.

Embora, Fenomenologia e Psicologia tomassem a consciência como campo de estudo, entre elas existia uma diferença que necessitava ser explicitada por Husserl. Assim, é em A filosofia como ciência de rigor, que Husserl (1911/2009) evidencia pela primeira vez que a Fenomenologia e a Psicologia são distintas, embora se interessem pela consciência.

Assim, nos deparamos com uma ciência – cujo formidável alcance nossos contemporâneos ainda não tem ideia – que é ciência da consciência, porém, não Psicologia: a fenomenologia da

consciência, oposta à ciência natural da consciência. Como não é que se trate de um equívoco causal,

cabe esperar, de antemão, que a Fenomenologia e a Psicologia terão de estar em relações muito próximas, na medida em que ambas tem a ver com a consciência, ainda que em modos diferentes: em “atitudes” distintas. Vamos expressar isso dizendo que a Psicologia tem a ver com a “consciência

empírica”, com a consciência na atitude empírica, existindo no contexto da natureza. Ao invés disso, a Fenomenologia tem a ver com a consciência pura, ou seja, com a consciência na atitude fenomenológica (Husserl, 1911/2009, p.27, itálicos do autor, tradução nossa).

No segundo volume de Investigações Lógicas, Husserl (1901/2015) havia discutido a ambiguidade e multiplicidade com que o termo consciência era adotado na Psicologia, explicitando a maneira pela qual a Fenomenologia o assumia. Em A filosofia como ciência de rigor, Husserl (1911/2009) sintetiza várias das passagens investigativas realizadas anteriormente, clarificando o significado de seus achados. Entre esses, evidencia que a consciência pela qual se interessa a Fenomenologia é aquela pura, tomada em sua essência mesma, distinta da consciência de um indivíduo psicofísico que percebe esse objeto que está aqui, ou recorda aquele acontecimento específico que ele viveu anteriormente. Ao contrário, a Fenomenologia se interessaria pelas vivências puras da percepção, da recordação, da imaginação, entre outras, tomadas em sua generalidade essencial e não em sua particularidade existencial. O domínio da Psicologia como ciência natural, ou seja, como uma “Psicologia Psicofísica”, se distingue da Fenomenologia pela busca das essências. Caberia à Fenomenologia, ocupar o lugar de fundamento da Psicologia, oferecendo descrições essenciais daqueles fenômenos que ela se interessa em estudar empiricamente.

Em Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica, Husserl (1913/2006) apresenta na introdução do texto a mesma argumentação: “A Psicologia é uma ciência empírica” (p.28). Enquanto ciência de fatos e realidades, a Psicologia toma como objeto os eventos reais que possuem uma existência efetiva; ao invés, a Fenomenologia Pura ou Transcendental seria fundada como ciência de essências, ou ciência eidética. Nessa obra, Husserl sistematiza a redução fenomenológica como o método responsável que conduziria a uma passagem do fenômeno psicológico à essência pura, descrevendo sistematicamente o método da redução e a estrutura da consciência pura que se abre como campo de estudo. A ênfase na diferenciação entre fato e fenômeno, que, por sua vez, coincide em diferenciar existência e essência, ganha os contornos necessários que reafirmam a diferença entre Psicologia e Fenomenologia, já sinalizando que o caminho para acessar a consciência pura deveria partir de uma modificação de orientação diante dos acontecimentos. A orientação fenomenológica, diferente daquela orientação natural, volta-se ao objeto enquanto captado pela consciência pura (noema), ao mesmo tempo em que possibilita a análise dos atos que permitem essa captação (noesis).

Em 1917, Husserl discutia, em Fenomenologia e Psicologia, a possibilidade de uma “Psicologia Racional” a priori, que teria para a Psicologia a mesma função que a geometria

pura tem para as ciências da natureza (Ales Bello, 2016b). Nesse texto, ele já apontava para a possibilidade de que Psicologia, constituída a partir das bases da Fenomenologia, buscasse as leis a priori da esfera das vivências imanentes, objeto da Psicologia. Assim, apresenta uma Psicologia descritiva que buscava: (1) espécie e gênero das vivências; (2) descrever os tipos de indivíduos humanos e (3) os modos típicos do aspecto corpóreo e espiritual (Husserl, 1917/2003; Ales Bello, 2015a, 2016b).7

Na década de 1920, Edmund Husserl dedica-se a aprofundar ainda mais a relação entre Psicologia e Fenomenologia. Conforme esclarece Peres (2014), nessa década, o projeto de uma Psicologia Fenomenológica Pura vai sendo marcadamente explicitada, principalmente, em três estudos: Lições de psicologia fenomenológica (1925), Artigo para a Enciclopédia Britânica (1927) e Conferências de Amsterdam (1928).

No verão de 1925, na cidade de Friburgo, Husserl conduziu um curso sobre Psicologia Fenomenológica, inaugurando uma sequência de estudos que abordariam o tema. Nos anos seguintes, em 1926-27, ministrou outro curso sinalizando a possibilidade de uma Psicologia Intencional e, em 1928, um curso sobre Psicologia Intencional. Na edição da Husserliana, volume IX, Walter Biemel incluiu a inteira lição de 1925 e alguns importantes fragmentos desses outros dois cursos citados (Scanlon, 1977). Em Lições de psicologia fenomenológica, Husserl (1925/1977, p.33) descreve as características de uma “nova Psicologia”, denominada por Psicologia Pura ou Psicologia Fenomenológica, designando-a como: apriorística, intuitiva, intencional, comprometida com a existência do mundo natural, eidética e descritiva pura. A característica de apriorismo significa que essa Psicologia proposta por Husserl visava às universalidades e necessidades essenciais, sem as quais seria inconcebível o estudo dos fatos psicológicos e sua compreensão. A busca por esse a priori se daria de maneira intuitiva8, ou seja, estaria fundamentada na consideração da captação dos fenômenos, assim como se apresentam à consciência e não resultante de conjecturas ou preconceitos teóricos. Esse procedimento da intuição, ao ser adotado, revela o caráter de intencionalidade da consciência, isto é, que a consciência é sempre a consciência de alguma coisa. Husserl (1925/1977) apreende nessa característica uma dimensão teleológica central, uma vez que, permite captar,

7 Embora Peres (2014) tenha considerado que somente na década de 1920, Husserl teria atribuído à Psicologia

Fenomenológica, e não mais apenas a Fenomenologia Transcendental, a tarefa de fundamentar a Psicologia, Ales Bello (2016) aponta que essa mudança já ocorria nesse texto husserliano Fenomenologia e Psicologia, em 1917.

8 Diferentemente do significado popular que a considera como uma forma de pressentimento que apenas algumas

pessoas estariam dotadas, a noção de intuição em Edmund Husserl assinala a operação primária de captação da coisa em sua essência que caracteriza a consciência intencional como sendo sempre consciência de alguma coisa. Em Investigações Lógicas, Husserl (1900/2014), utilizava o termo ideação para denominar essa visão de essência originalmente doadora. O conhecimento se daria não pela visão sensível, mas pela visão das essências (intuição das essências) assumida na orientação fenomenológica.

através da consciência de ou da possibilidade de vir a ter consciência de várias possibilidades de objetos da vida psíquica, do mundo real ou da vida psíquica intersubjetiva.

Husserl (1925/1977) adverte ainda que, se por um lado, a Fenomenologia pode prescindir da comprovação da existência real das coisas que estuda, uma vez que, se interessa pelo fenômeno enquanto captado pela consciência, a Psicologia não poderia prescindir de seu interesse pelo mundo existente dos objetos, das pessoas e da realidade. Ainda que a Psicologia Pura buscasse evidenciar aspectos essenciais, para que posteriormente servisse de fundamento para estudos empíricos, ela o faria a partir das evidências que se apresentam, disponibilizando, posteriormente, seus achados para as situações concretas. Neste sentido, a Psicologia poderia ser entendida como um ponto de partida rumo à Fenomenologia Transcendental.

Talvez nossa Psicologia forneça um possível a priori e ponto de partida natural para a ascensão a uma Filosofia e Fenomenologia transcendentais. Nessa medida, a Psicologia interior seria de especial interesse filosófico, bem como um estágio pedagógico, estágio motivador preliminar à Filosofia (mas de modo algum como disciplina fundadora). Entretando, embora este interesse possa ser efetivo e, embora o espírito de Filosofia possa ser preparado por este curso de conferências, a Filosofia não será nem pressuposta nem seguida de forma sistemática aqui. Queremos permanecer na atitude natural; queremos realmente não ser mais do que psicólogos, dirigidos dentro do natural, de maneira humana em direção ao mundo objetivo como realidade, e tentando investigar isso na medida em que é um mundo do espírito. (Husserl, 1925/1977, p.34, tradução nossa).

A busca por um conhecimento a priori aos estudos empíricos somente seria possível na medida em que a “nova Psicologia”, apresentada por Husserl (1925/1977), se constituísse como uma teoria pura das essências dos fenômenos psicológicos. O conhecimento gerado sobre os aspectos psíquicos individuais, sociais e das produções sociais pela Psicologia Pura que visa às essências dos fenômenos, estabelece, comparativamente, leis necessárias de serem consideradas no estudo dos casos concretos. Não são apenas as ciências exatas aquelas capazes de disponibilizar leis gerais sobre o funcionamento dos fenômenos, também as ciências experienciais, como a Psicologia, podem carregar essa possibilidade, mas, para isso, precisa visar as essências dos fenômenos que compõe seu objeto de estudo enquanto ciência. “O conhecimento de que uma infinidade de leis essenciais, a serem investigadas sistematicamente, precedendo aqui tudo o que é contingentemente factual, é o conhecimento mais importante para moldar a Psicologia em uma ciência rigorosa” (Husserl, 1925/1977, p.36, tradução nossa).

No artigo Fenomenologia, escrito para a Enciclopaedia Britannica, Edmund Husserl (1927/1971) inicia com uma afirmação importante:

O termo "Fenomenologia" designa duas coisas: um novo tipo de método descritivo que trouxe uma importante descoberta para Filosofia, na virada do século, e uma ciência a priori derivada dela; uma ciência destinada a fornecer o instrumento básico (Organon) para uma Filosofia rigorosamente científica e, na sua consequente aplicação, possibilitar uma reforma metódica de todas as ciências. Juntamente com esta Fenomenologia Filosófica, mas ainda não separada dela, no entanto, surgiu uma

nova disciplina psicológica paralelamente a ela no método e conteúdo: a Psicologia a priori pura ou "fenomenológica" [itálicos nossos], o que levanta a reivindicação reformadora de ser o fundamento

metodológico básico, somente sobre a qual uma Psicologia empírica cientificamente rigorosa pode ser estabelecida. Um esboço desta Fenomenologia Psicológica, que se aproxima do nosso pensamento natural, é adequado para servir como um passo preliminar que conduzirá a uma compreensão da Fenomenologia Filosófica (Husserl, 1927/1971, p.77, tradução nossa).

Na abertura do verbete sobre o que é a Fenomenologia, Husserl (1927/1971) destaca que a Psicologia Fenomenológica, enquanto uma nova disciplina desenvolvida por ele, surgiu simultaneamente ao próprio desenvolvimento da Fenomenologia. Assim, afirma um paralelismo entre Fenomenologia e Psicologia Fenomenológica no que se refere ao método e ao conteúdo, mas ressalva que esta última serviria como um passo preliminar que conduziria à primeira. Isso não significa que a Fenomenologia Transcendental não poderia ser desenvolvida sem a Psicologia Pura Fenomenológica, mas trata-se de assumir a via de acesso psicológica ao território de estudo da consciência transcendental, como já vinha apontando em suas análises anteriores.

Ainda sobre o artigo Fenomenologia (Husserl, 1927/1971), Ales Bello (2016b) realça que o método da redução fenomenológica é fundamental para colocar em evidência o campo fenomenológico-psicológico e que apenas a partir dele é possível uma “Psicologia pura”. Tanto a Psicologia, quanto a Fenomenologia são disciplinas eidéticas, sendo que a Fenomenologia se funda sobre uma análise essencial das vivências, embora ambas passem pela epoche transcendental.

Cabe ainda sinalizar que enquanto Husserl vai gradativamente descrevendo as características de uma Psicologia Fenomenológica, ao mesmo tempo em que realiza a comparação desta com a Fenomenologia Transcendental, vai ficando cada vez mais evidente não apenas a contribuição que a Psicologia Fenomenológica pode oferecer à Psicologia Empírica, mas também a originalidade da contribuição que a Fenomenologia disponibiliza à Psicologia Pura. Na medida em que a Fenomenologia Transcendental vai se configurando como um tipo de ciência de todos os fenômenos concretos, ou seja, uma ciência universal, ela se constitui como uma ontologia por possibilitar o conhecimento de todas as existências possíveis (Husserl, 1927/1971).

Em Lições de Amsterdam, Husserl (1928/1979, p.170) dá um importante passo na discussão da relação entre a Fenomenologia e a Psicologia Fenomenológica, afirmando que,

existe um “paralelismo”, “uma identificação”, “uma coincidência em certa medida” entre elas. Husserl descreve que, partindo da orientação fenomenológica transcendental, o Eu Puro reconhece o Eu-homem, isto é, Eu Psicofísico como um correlato entre as outras coisas concretas apreendidas pela consciência. Esta auto-objetivação atingida pela auto-apercepção reconhece simultaneamente um Eu Puro e um Eu Psicofísico, ou nos termos utilizados nesse texto (Husserl, 1928/1979), reconheço a mim mesmo como pertencente ao meu ser absoluto, fazendo alusão ao Sujeito Transcendental.

Se este um dentro do outro, e com isto esta coincidência singular da esfera de experiência que vai até nos particulares, se este um dentro do outro mediante mudança de atitude – que se verifica, porém, internamente à atitude já transcendental – é tornada compreensível, agora se compreende também o seguinte resultado: o surpreendente paralelismo, antes em certa medida a coincidência, entre Psicologia Fenomenológica e Fenomenologia Transcendental, ambas tomadas como disciplinas eidéticas. Uma está implicitamente na outra (Husserl, 1928/1979, p.170, itálicos do autor, tradução nossa).

Nesse trecho, Husserl não apenas explicita o paralelismo entre Psicologia Fenomenológica e Fenomenologia Transcendental, mas, ao fazê-lo, possibilita uma via de acesso ao estudo do Sujeito. Retomando aqui o objeto de estudo da presente pesquisa, a autenticidade pessoal, somos direcionados por Husserl a considerar que o método fenomenológico aponta para o reconhecimento dos aspectos universal-transcendental e particular-eidético como inseparáveis. Este “um dentro do outro”, convida a reconhecer que o método fenomenológico constitui-se como um caminho viável para o estudo da autenticidade pessoal e da maneira como a corporeidade se apresenta nessa relação, validando o uso da Fenomenologia pela Psicologia e convidando a considerar o tema a partir de uma atitude transcendental. Somente a partir de uma descrição do aspecto universal-transcendental é que as características particulares ganham a sua relevância, como mais tarde afirmará Husserl (1935/2012). Prescindir da redução transcendental ao estudar a autenticidade, poderia acabar nos levando novamente ao ponto de partida da crítica husserliana, uma vez que, possivelmente cairíamos em um psicologismo, ao corrermos o risco de generalizar demasiadamente rápido afirmações que fossem fundadas em preconceitos teóricos ou na experiência empírica.

Ainda nas Lições de Amsterdam, Husserl (1928/1979) já apontava a possibilidade de, uma vez efetivada as análises a partir da orientação transcendental, retornarmos à orientação natural munidos do conhecimento eidético de estruturas fenomenológicas psicológicas, em outras palavras, uma vez explicitado os aspectos universais do sujeito puro via Fenomenologia Transcendental, a Psicologia Fenomenológica seria orientada ao

reconhecimento dos aspectos essenciais do fenômeno – ou do próprio indivíduo psicofísico – disponibilizando para a Psicologia Empírica a possibilidade de realização de estudos rigorosamente científicos.

Em Filosofia Prima, Husserl (1923-24/2007) prescreve que, mesmo a compreensão de uma vivência particular ou do próprio indivíduo psicofísico deveria partir de uma redução transcendental: “Devo exercitar a redução universal desde o princípio para obter ainda que uma vivência singular como componente puramente psíquico. É, então, claro que a epochè universal que investe toda a objetividade deve pertencer aos fundamentos metodológicos do psicólogo” (Husserl, 1923-24/2007, p.167, tradução nossa). Vale destacar que, nos primeiros estudos, como por exemplo em Ideias I, Husserl (1913/2006), convidava a uma modificação da orientação natural em direção à orientação fenomenológica, visando atingir a estrutura das vivências transcendentais. Já em Filosofia Prima, ele destaca a possibilidade de se realizar o caminho inverso, o que não significa que prescindisse da via cartesiana ou da via psicológica para acessar a região transcendental, mas que se levasse em conta a necessidade de não desconsiderá-la para acessar os fenômenos concretos. Entre os fenômenos que seriam beneficiados por este percurso compreensivo proposto, está apontado aquele que se refere à vida de uma pessoa, tomada como uma unidade de sentido. Assim, oferece-nos a via de estudo da autenticidade, da vida autêntica ou inautêntica, ao sinalizar a possibilidade de uma via sobre a essência não apenas de uma experiência, mas da totalidade da vida.

. . . posso olhar em conjunto meu dia de ontem, ou os anos de universidade . . . . posso tomar decisões baseadas nisso, por exemplo, planejar as férias. Enfim, posso abraçar universalmente com o olhar a minha vida em seu complexo e tomar decisões que se referem à sua inteireza, ao mesmo modo que posso fazer para traços da vida limitados. Deste modo, posso exercitar uma crítica universal de toda a minha vida até aquele momento e, unido a esta crítica, posso querer dar forma a toda a minha vida futura . . . . atingimos uma peculiar autodeterminação [Selbstregelung] reflexiva, ligada ao olhar de conjunto universal da vida (Husserl, 1923-24/2007, p.199, tradução nossa).

Um olhar compreensivo sobre a vida apreende não apenas valores objetivos realizados na totalidade das experiências, tomada como uma unidade essencial, mas, simultaneamente, provoca um juízo crítico a partir da experiência atual de considerá-la. É neste aspecto que o critério adotado ao emitir tal juízo pode levar em consideração o tema da autenticidade. Qual critério adotado para reconhecer de que modo a existência se apresenta como autêntica ou inautêntica, foi descrito não apenas por Martin Heidegger (1927/2005b), mas também por Edith Stein (1917/1998; 1922/1999p; 1932-33/2000), como a presente pesquisa busca evidenciar suas contribuições para o debate deste aspecto.

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