Maranhão
No cenário atual, observa-se a velha máxima “precisamos preparar trabalhador” para o domínio dos fundamentos tecnológicos e das habilidades técnicas necessárias ao fazer das profissões. Mas, para além de preparar, precisa- se compreender a necessidade do desenvolvimento de competências genéricas,
43 “A distinção entre educação, entendida enquanto instrução, e educação entendida enquanto
produção - formação de homens, construção da identidade de uma classe, é uma velha distinção que vai além de uma pura diferença nominal e encontra uma longa e tensa tradição teórica prática” (GOMEZ et al., 2002, p. 77).
que assegurem a compreensão técnica, científica e política, elementos fundamentais ao exercício da cidadania, da participação política e, por conseguinte, da intervenção nos destinos da sociedade.
Não se observa uma efetiva interação dos agentes envolvidos, na escola e na empresa, em torno de uma proposta comum de trabalho, que seja expressão de um projeto educacional e social, resultante da articulação entre concepções, visões de mundo e interesses coletivos.
Não obstante, vem o questionamento quanto ao que efetivamente tem motivado as empresas a uma colaboração com as escolas. Seria uma preocupação com a criação de uma “imagem social” positiva na comunidade em que estão situadas? Ou: Será possível evidenciar, nessa prática, uma perspectiva do empresariado de intervir na condução ou no financiamento das políticas educacionais?
Essas e muitas outras questões podem ser suscitadas, tendo em vista a proposição de parceria entre empresários e governo, como linha de política educacional, assentada no propósito de descentralização do ensino.
Em relação às inúmeras alternativas que surgem dentro da lógica empresarial, Ferretti (1997, p. 229) alerta para o chamado “modelo de competência”, proposta que visa orientar a formação de recursos humanos compatível com a organização do trabalho que lhe convém.
Tal conceito é usado em substituição ao de qualificação profissional (e, às vezes, usado como seu sinônimo), mas com conotações diferentes, na medida em que enfatiza menos a posse dos saberes técnicos e mais a sua mobilização para a resolução de problemas e o enfrentamento de imprevistos na situação de trabalho, objetivando maior produtividade com qualidade.
Nessa perspectiva, as transformações do trabalho podem resultar de “jogos de atores” em torno da organização, constantemente empurradas pelo crescimento rápido das empresas, o que pode ser evidenciado a partir de meados da década de 80, quando associações e fórum empresariais, assim como empresários isoladamente, passam a discutir sobre a função social da empresa e sobre sua responsabilidade social.
Neste estudo, parte-se da compreensão de que as empresas são construções sociais e de que questões como eficiência, competitividade e qualidade
podem ser vistas a partir do papel social que cabe às empresas assumir em tempos de globalização e reformas para o mercado.
Sainsaulieu (2006), estudioso da Sociologia da Empresa na França, fala da empresa como uma realidade humana viva, que dispõe de uma vasta gama de recursos diferenciados. Essa agregação de indivíduos os transforma em atores sociais.
Assim, contrariamente a uma abordagem da empresa como um agente passivo ante a sociedade, já que não se trata de uma adaptação mecânica da empresa às imposições econômicas e técnicas que vêm de fora, corrobora-se o pensamento desse autor de que os atores no seio da organização têm sempre escolhas possíveis.
Seguindo essa direção a empresa contemporânea não se limita a gerir e manter recursos econômicos, técnicos e humanos, como o fizera antes. A invenção e desenvolvimento de novos recursos se impõem como exigência de sobrevivência econômica. Como aponta o mesmo autor, uma das chaves para resolver esse problema é a qualidade da estrutura social das relações humanas de trabalho, sem dúvida uma das fontes cruciais de criatividade (SAINSAULIEU; KIRSCHNER, 2006, apud SAINSAULIEU, 1997).
Sainsaulieu e Kirschner (2006, p. 19, apud Sainsaulieu, 1997, p. 421-422) explicam:
O olhar sociológico sobre a empresa desvela dois fenômenos consideráveis para a compreensão de seu futuro. De um lado, a empresa é uma entidade em si que hoje em dia encontra sua força e sua eficiência não mais nas virtudes e nas possibilidades de seus dirigentes, mas no valor criador de seu próprio sistema de funcionamento. De outro lado, autônoma porque se tornou social em seu âmago, a empresa não pode mais limitar sua eficiência unicamente ao lucro econômico, ela 'fabrica‟ também emprego, tecnologia, solidariedades, modos de vida, cultura.
Portanto, a função social da empresa pode ser analisada por dois eixos: o primeiro, estudando a relação empresa/sociedade (o tipo de interação com a dinâmica da sociedade); o segundo, analisando o que a empresa efetivamente faz para assegurar a coesão e mobilização de seus empregados.
No Brasil, segundo Martins e Barros (2003), a abertura do mercado no início dos anos 90 contribuiu para a evolução de vários setores, entre eles o da construção, na medida em que permitiu às empresas construtoras a importação de
produtos e tecnologias. Além disso, a estabilidade econômica do primeiro período do plano real e a elevação do custo da mão-de-obra devido ao ganho dos trabalhadores incentivou as construtoras a pensar na tecnologia como ferramenta de competitividade (TÉCHNE, 2002 apud MARTINS e BARROS, 2003).
Nesse período diversas empresas construtoras investiram na modernização dos meios de produção, observando-se a crescente industrialização nos canteiros. Acredita-se, assim, que a introdução de novos materiais, equi- pamentos, técnicas especiais, processos construtivos e administrativos voltados à construção civil são alguns dos responsáveis pela melhoria de vários aspectos organizacionais, que contribuem com a redução do desperdício, um dos grandes problemas enfrentados pelas empresas do setor.
Considerando essas questões, fez-se escolha de três empresas do setor da Construção Civil que são conveniadas ao IFMA, para a realização da pesquisa que se tinha em vista, a qual consistiu em visitas a uma obra de cada empresa para observação e efetivação de entrevistas. Para tanto, organizou-se a caracterização dessas empresas44 que, entre outros, apresentaram os seguintes aspectos:
Descrição Empresa X Empresa Y Empresa Z
Tempo no mercado 30 anos 25 anos 03 anos
Número de Obras 02 07 10
Número de empregados na obra
visitada 60 186 300
Número de Estagiários do IFMA 01 02 03
Quadro 2 – Caracterização das Empresas Pesquisadas.
Outro ponto relevante dessas empresas é que a utilização de inovações aparece como uma importante ferramenta para que elas obtenham vantagens competitivas e diferenciação frente a seus concorrentes, agregando também maior eficiência às atividades de produção. Segundo se observa no depoimento do Responsável pela obra da Empresa X: “[...] a empresa tem procurado sempre
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investir em material de qualidade e equipamentos. A última grande aquisição foram duas escavadeiras de esteira”.
De um modo geral, o setor da construção tem como peculiaridade a resistência em assumir os riscos da incerteza em mudar o seu status quo. Essa resistência às vezes significa o envolvimento de várias empresas e a dependência do setor quanto à pesquisa de novos materiais e equipamentos, o que faz com que a construção civil não se modernize no ritmo de outros setores produtivos (ARO; AMORIM, 2004).
Por essas e outras questões é que as mudanças na Construção Civil são pouco expressivas, provocando uma evolução muito lenta das tecnologias, dos processos construtivos e da gestão de organização da ICC ao longo do tempo. Entretanto, as rápidas mudanças no quadro mundial da economia e todo um ambiente industrial provocado pela inovação tecnológica, levaram as empresas à necessidade de adequarem-se a tais mudanças.
Segundo Aro e Amorim (2004), essas mudanças sócio-econômicas são significativas e, a partir do final da década de 80, fizeram a ICC questionar seu atraso tecnológico e seu modo de agir e pensar no processo de produção.
O país apresenta nova estrutura no âmbito social, com a promulgação do Código de Defesa do Consumidor, e o Governo Federal lança políticas mais efetivas visando à estabilidade econômica.
Nesse contexto, segundo Santos e Farias Filho (1998, apud ARO e AMORIM, 2004), a indústria da construção civil (sub-setor edificações) vive um momento de transição marcado por:
a) Falta de um sistema contínuo e seguro de financiamento para o sub- setor;
b) Aumento das exigências feitas pelos clientes;
c) Descrédito com as empresas, frente aos acontecimentos atuais, tais como: (1) Falência de empresas e respectivo descumprimento de contratos; (2) Baixa de qualidade das construções; (3) Demolições de vários prédios, entre outros;
d) Crescimento da concorrência, devido à entrada de empresas estrangeiras no sub-setor.
Por esse motivo, a ICC teve que atentar para a melhoria na qualidade dos produtos finais, a modernização tecnológica (racionalização dos processos), o desenvolvimento de inovações tecnológicas (desenvolvimento de novos produtos) e a qualidade das relações humanas de trabalho.
Nessa direção, o Sindicato das Indústrias da Construção da Civil no Estado do Maranhão – SINDUSCON-MA, que conta atualmente com 116 empresas associadas, vem desenvolvendo muitos projetos em parceria com o Serviço Social da Indústria - SESI e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial - SENAI para, respectivamente, alfabetizar e qualificar os trabalhadores nos canteiros, objetivando prepará-los para as exigências decorrentes das mudanças que paulatinamente vêm ocorrendo no setor motivado pela preocupação “com um possível apagão de mão de obra especializada” (SINDUSCON, 2010).
Com base nessas questões, conclui-se que vários fatores podem influenciar no desenvolvimento e aplicação das inovações tecnológicas nas empresas, especialmente na Construção Civil, a saber: o ambiente (a legislação, as exigências dos consumidores, a competitividade), a tecnologia (caracterizada pela dependência de outros setores), a organização (empresas de diferentes portes e níveis de organização) e o indivíduo (responsável pelo desenvolvimento e aplicação dessas inovações).