GENERALITES GENER
3.6. Physiopathologie de la drépanocytose et facteurs modulateurs
A inserção dos psicólogos na Saúde Pública brasileira está aliada a Reforma Sanitária e Psiquiátrica, sendo resultante de um complexo processo de transformação econômica, política e ideológica, no início da década de 1970, bem como dos movimentos sociais da década de 1980, associada à crise do modelo de exercício liberal da profissão (DIMENSTEIN, 1998). A Reforma Sanitária resultou na implementação do SUS – com o direito ao acesso irrestrito e universal à saúde, garantido pela Constituição Brasileira de 1988, e baseando-se em um conceito mais amplo e complexo de saúde – e foi um marco importante na consolidação da Saúde Pública como espaço de prática, formação e referência profissional para a Psicologia. Com a Reforma Psiquiátrica, em meio à crise do modelo médico e aos avanços no processo de desinstitucionalização psiquiátrica, houve a extensão da rede ambulatorial que gerou a necessidade de formação das equipes multiprofissionais, passando a Psicologia a fazer parte de um conjunto de saberes que buscava romper os limites da concepção tradicional de saúde mental e das práticas assistenciais asilares (DIMENSTEIN; MACEDO, 2012; NEPOMUCENO; BRANDÃO, 2011).
O avanço das políticas públicas e as reformas no setor da saúde exigiam que novos profissionais fossem incorporados ao sistema de forma que se estruturassem equipes de cuidado com vistas a uma alegada atenção integral aos usuários. E os saberes e as práticas da Psicologia passaram a ser cada vez mais requisitados. A manifestação de um interesse pelo psicólogo por parte dos órgãos públicos implicou um movimento de contratação desse profissional. Foi na Saúde Mental que a entrada dos psicólogos no setor público se fez mais vigorosamente, pois passou a ser considerado um profissional capaz de contribuir para a promoção da saúde mental (DIMENSTEIN; MACEDO, 2012; NEPOMUCENO; BRANDÃO, 2011).
Paralelamente a esse momento político de instauração de programas com ênfase na questão ambulatorial e na montagem multiprofissional das equipes de saúde, houve a retração de mercado para a Psicologia, em virtude da crise financeira que assolou a classe média brasileira nesse período, com consequente diminuição da busca pelos consultórios particulares e procura por um novo espaço de atuação com novas alternativas de emprego. Além disso, a Psicologia vinha sendo alvo de inúmeras críticas no sentido de que o trabalho clínico
tradicional do psicólogo não apresentava grande significado social, pois, destinado a uma pequena minoria da população, despreocupava-se com os problemas sociais. Por fim, a expansão da Psicologia no Brasil também está associada ao expressivo número de cursos superiores das mais variadas localidades e regiões do país (DIMENSTEIN, 1998; DIMENSTEIN; MACEDO, 2012).
De acordo com Nepomuceno e Brandão (2011, p. 768-769),
O papel diferencial da Psicologia situa-se em uma ampliação da capacidade de ver e de escutar os indivíduos e coletivos, considerando potencialidades de saúde, criando espaços de reflexão e diálogo capazes de fomentar a expressão de não ditos e de abordar dimensões profundas da saúde, do adoecimento e da recuperação. [...] O papel da Psicologia no SUS, portanto, aparece ligado a um conceito ampliado de saúde, ao desenvolvimento de uma visão ampliada sobre as interações presentes no processo saúde-doença e no trabalho em saúde.
Na Saúde Pública, a Psicologia, como bem lembra Nepomuceno e Brandão (2011), trabalha com o atendimento das demandas de sofrimento psíquico e transtornos mentais de uma população de diversas faixas etárias, bem como com os processos de organização de coletivos, os processos de interação e as ações que visam ao desenvolvimento humano e social. Mais especificamente na Atenção Básica, o papel da Psicologia é bem mais amplo e abrangente do que as ações de tratamento-cura em saúde mental. Envolve uma compreensão integral dos indivíduos às suas redes de interação e às suas necessidades e potenciais de saúde, com olhar ampliado para as relações sociais, construídas nos modos de vida de famílias e comunidades.
O encontro da Psicologia com o SUS, especialmente com os serviços de Atenção Básica à Saúde, tem aproximado o psicólogo de uma realidade ainda distante da que comumente se conhece e se discute em sua formação. A Psicologia reproduziu em larga escala os modelos que nortearam a sua constituição e que não se adequavam à realidade da clientela atendida nas instituições de Saúde Pública. Com sua formação limitada, este profissional se vê diante do despreparo histórico da categoria para desenvolver um trabalho em sintonia com os imperativos de mudança, ou seja, com os princípios norteadores do SUS. O desafio requer lidar com uma concepção ampliada de saúde, que aponte múltiplas dimensões e caminhos de atuação (DIMENSTEIN; MACEDO, 2012; NEPOMUCENO; BRANDÃO, 2011).
A formação e o exercício profissional dos psicólogos precisam acompanhar os novos modos de gestão dos processos de trabalho no SUS. É preciso fazer investimentos estratégicos
em termos da abertura de novos cursos e da sua redefinição política e pedagógica, tentando dar respostas aos projetos, programas e serviços ligados às políticas públicas; aprofundar a relação ensino-serviço-comunidade, ampliando o leque de disciplinas e conteúdos relacionados ao SUS e à Reforma Psiquiátrica nos cursos de graduação; apostar em uma formação em que os psicólogos possam realizar leituras e análises conjunturais a respeito das necessidades sociais e de saúde da população; proceder à escuta e à intervenção sobre os processos psicológicos e psicossociais (DIMENSTEIN; MACEDO, 2012).
Porém, de acordo com Fuentes-Rojas (2011), o trabalho na Atenção Básica e o atendimento direto à comunidade ainda são desvalorizados pelos alunos de graduação e pelos próprios docentes, que não abrem mão da clínica, acreditando que esta seja a principal atuação do psicólogo. De fato, um dos principais desafios para a Psicologia na área da Saúde Pública refere-se à adequação de suas práticas ao novo modelo assistencial, baseado no conceito de saúde como processo saúde-doença e que confronta o hegemônico modelo biomédico de atenção à saúde, expresso na Psicologia pela prática clínica individualizante (OLIVEIRA et al., 2017).
Para Nepomuceno e Brandão (2011), é notável o caráter inovador de algumas práticas que visam a superar antigos estigmas e limitações históricas da categoria na Saúde Pública brasileira. No entanto, ainda há muito que caminhar na construção e na consolidação de uma nova cultura profissional, pautada em uma visão ampliada da saúde e do adoecer e em um amplo escopo de ações voltadas para o cuidado integral. Também conforme Dimenstein e Macedo (2012), apesar dos avanços quanto à presença do psicólogo nos serviços e nas equipes de saúde pública em todo o país, bem como de algumas tentativas de mudanças na formação acadêmica e profissional, esse profissional ainda trabalha isoladamente, opera predominantemente com psicoterapias e tem pouco conhecimento do território onde atua. Diante de tantas lacunas curriculares, dificuldades de inserção e de reconhecimento em um novo espaço de trabalho, emerge a questão: como se dá o trabalho do psicólogo na Atenção Básica nos dias atuais? Quais são as atividades desenvolvidas e as dificuldades enfrentadas por esse profissional?