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O governo mobilizou universidades, destinou recursos para a criação do Ginga, porém depois de o middleware ter sido lançado os radiodifusores e a indústria não receberam incentivos ou oportunidades que garantissem segurança de investimentos, permanecendo um clima de desconforto e indecisão. Segundo Regina Diniz (2012) o governo diminuiu o investimento na área de TV digital desde 2006 e explica que

a falta de decisão política efetiva com deliberação de decretos de incentivo para esse novo mercado e de investimentos em P&D para esse segmento, e a resistência das radiodifusoras, reunidas no grande fórum de TV, a Sociedade de Engenharia de Televisão (SET) e fortalecidas por acordos políticos no Congresso e nos órgãos governamentais, foram os principais antídotos para o desenvolvimento dessa „promessa‟ [da TV digital interativa]. A universidade também se queixa e o projeto Ginga ao invés de crescer e amadurecer em um ambiente propício e auspicioso foi esquecido num canto da sala (DINIZ, 2012, p. 74).

Apesar disso, com a norma Ginga pronta, muitas empresas começaram a criar implementações e a desenvolver possibilidades interativas para oferecer aos radiodifusores como, por exemplo a HXD. Os próprios radiodifusores também começaram a investir em pesquisas e a desenvolver as próprias ideias, como a Rede Record mostrada no capítulo 4.

Para que o telespectador pudesse receber a interatividade na TV de casa, era preciso que os fabricantes investissem pesado em pesquisa e começassem a colocar produtos (TVs, celulares e set-top-boxes) no mercado com o middleware embarcado. A interatividade pensada pelo governo não convenceu os radiodifusores e a indústria de que esta seria a grande salvação das TVs para vencer a competição com inúmeros dispositivos e tecnologias novas que entravam no mercado. O que o setor vem fazendo é colocar no ar algum conteúdo interativo como, por exemplo, informações da programação e notícias.

A interatividade para uso do governo, como forma de inclusão social e acesso da população a serviços de utilidade pública, pode se tornar o ponto forte do uso do Ginga, porém ainda devido a não cobertura da TV digital em grande parte do território nacional e a pouca produção de conteúdo destinado a atender a população, não se pode afirmar que esta também será a melhor forma de aplicação do middleware.

Entretanto, uma iniciativa que precisa ser mencionada como pequeno esforço do governo em despontar o Ginga são os resultados advindos do projeto Serviços Multiplataforma de TV Interativa (SMTVI) do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD)141 com apoio do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (FUNTTEL), do Ministério das Comunicações. O projeto, que teve início em 2008 com término em 2011, objetivou fortalecer a TV digital no Brasil. Foram apresentados e oferecidos os links de downloads, no portal do CPqD na internet, dos seguintes aplicativos:

Inclua Saúde – permite marcar consultas em postos de saúde, para o usuário e seus dependentes, utilizando o controle remoto do aparelho de TV digital interativa.

Chat (bate-papo) na TV – por meio dessa aplicação, dois usuários podem trocar mensagens instantâneas utilizando a TV interativa. Permite que o usuário crie um perfil, com apelido e foto, gerencie sua lista de amigos e envie convites para um amigo fazer parte de sua lista.

Comércio na TV – aplicação destinada ao anúncio, busca (por categoria ou palavra-chave) e compra de produtos pela TV interativa. Permite também fazer perguntas ao vendedor e gerenciar créditos para compra de produtos.

Jogos – são cinco jogos populares – Damas, Cobrinha, Campo Minado, Fantasmas e Memória -, com regras fáceis e adequados ao uso em TV, pelo controle remoto (CPqD, on- line)142.

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O CPqD, criado há 35 anos, é um centro de pesquisa independente que atua como propulsor das tecnologias da informação e comunicação (TICs), seu objetivo é o desenvolvimento de produtos e tecnologias que alavanquem a inclusão digital da sociedade. São mais de 1.300 profissionais que trabalham no maior programa de P&D da América Latina.

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CPqD CONCLUI ENTREGA DE APLICAÇÕES PARA TV DIGITAL INTERATIVA. CPqD. Disponível em: <http://www.cpqd.com.br/imprensa-e-eventos/press-releases/6261-cpqd- conclui-entrega-de-aplicacoes-para-tv-digital-interativa.html>. Acesso em: 31 jul. 2012.

Não apenas este, mas outros projetos como, por exemplo, os desenvolvidos pelo Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital (LAVID) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) também trabalham no fomento ao desenvolvimento de aplicativos que possam ser parte da TV digital interativa aberta no Brasil. Geralmente os aplicativos desenvolvidos são voltados a serviços que auxiliem a vida da população.

Para entender mais sobre o Ginga e o desenvolvimento dos aplicativos é preciso relembrar que, no lançamento da TV digital em 2007, o Ginga não estava pronto. Guido Lemos (2012), um dos pesquisadores responsáveis por desenvolver o Ginga, relembra que “em 2007, conseguiu trocar a compatibilidade com o padrão europeu por uma API nova e teve que refazer a norma, depois que você fecha a norma que você vai fazer o produto, então naquela época era impossível”. Diante dos desafios de criar uma nova norma e da dificuldade de fazer essa criação, houve demora para finalizar o projeto. Os pesquisadores da PUC e UFPB só terminaram as normas do Ginga em 2009/2010, por isso o assunto da interatividade se tornou tabu, muito falado e pouco visto. Atualmente muitos televisores e set-top-boxes já possuem Ginga embarcado, entretanto o principal problema que surge são as implementações desenvolvidas sem estarem em conformidade com a norma, então alguns aplicativos funcionam e outros não. Guido Lemos (2012) explica porque isso vem acontecendo.

Essas implementações foram feitas pelos fabricantes em um modelo que a gente decidiu lá atrás no fórum de auto- certificação. Então, você tem a norma, você implementa e a responsabilidade de ter feito uma implementação conforme a norma é sua, fabricante. A gente vai passar por uma fase e essas coisas vão ter ainda uns ajustezinhos.

Segundo Guido Lemos (2012), o problema está na aplicação ou no middleware Ginga que pode estar implementado de maneira errônea, ou seja, ou o erro foi do fabricante da TV ou da emissora que desenvolveu o aplicativo sem conformidade. Nestes dois casos, quando o consumidor final detectar o

problema, a quem ele deverá reclamar? Este tipo de problema é visto aos olhos de Lemos como ônus do progresso, todos os fabricantes já possuem produtos com Ginga, a maioria das grandes emissoras no eixo Rio - São Paulo também está apostando nessa ideia e, quando algum erro aparecer, haverá uma iniciativa em conjunto para solucioná-lo desde que seja criada uma suíte de testes-padrão143.

A suíte de testes é algo muito discutido pela Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão, pois as emissoras acabam tendo que fazer testes no ar (enquanto a programação está sendo transmitida), já que não possuem infraestrutura para avaliarem suas criações. Paulo Feres (2012) entende que, trabalhando desta forma, as emissoras tornam-se amadoras quando não possuem um laboratório, pois trabalhar com software é mais difícil e exige mais cuidado com sua finalização. A suíte de testes é necessária para que todos os fabricantes tenham seus produtos aprovados antes de lançarem o middleware e que as emissoras testem suas aplicações antes de colocarem no ar. Ricardo Minari (2011) da Visiontec, em entrevista144 ao pesquisador e jornalista Valdecir Becker, afirmou que “enquanto não houver regulamentação vai ficar complicado. Precisamos de uma suíte de testes para harmonizar todas as versões de middleware com as aplicações de todas as emissoras”. Ele afirma, ainda, que atualmente é impossível definir onde está o problema, se é a aplicação que não está compatível com a norma, se é o receptor, a transmissão ou todos esses juntos. É o que vem acontecendo com o aplicativo do Jornal da Band, desenvolvido pela HXD Interactive, onde alguns receptores não conseguem rodar o aplicativo. Salustiano Fagundes145 (2011) garante que a empresa solicitou pareceres técnicos pelas Universidades PUC-Rio e Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que garantiram que o código da aplicação estava correto. Fagundes garante que “hoje não existe conversor no

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A suíte de testes é importante para definir rotinas de avaliação de funções previstas no aplicativo, oferecer confiabilidade aos implementadores e influenciar na interoperabilidade dos sistemas oferecidos no mercado.

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MINARI, Ricardo. Ginga. A interatividade em marcha lenta? Panorama Audiovisual, São Paulo, 23 mai. 2011. Entrevista concedida a Valdecir Becker. Disponível em: <http://www.panoramaaudiovisual.com.br/2011/05/23/ginga-a-interatividade-em-marcha-

lenta/>. Acesso em: 29 jan. 2012.

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BECKER, Valdecir. Ginga. A interatividade em marcha lenta? Disponível em: <http://www.panoramaaudiovisual.com.br/2011/05/23/ginga-a-interatividade-em-marcha-

mercado 100% compatível com as normas do Ginga”, por isso há a insistência dos fabricantes e desenvolvedores para que seja criada uma suíte de testes que identifique onde estão os problemas com a norma Ginga.

A pesquisadora Cosette Castro (2012) afirmou, no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em um debate sobre os avanços do campo público na TV Digital, que o governo já investiu 150 milhões de reais na área de tecnologia digital, mas que os projetos de criação de novos conteúdos e aplicativos não passam do campo teórico. A autora afirmou, ainda, que o projeto de TV digital é frágil e a campanha para sua divulgação é ineficiente: “O Fórum Brasileiro de TV Digital e o governo parecem empurrar um para o outro a missão de construir uma campanha sólida”.

Apesar das informações apresentadas indicando insensibilidade do governo em investimentos no fomento ao Ginga, em dezembro de 2012 um anúncio feito pelo governo federal parece dar novo ânimo para a interatividade na TV Digital. O Ministério das Comunicações criou o Programa de Estímulo ao Desenvolvimento do Padrão Nacional de Interatividade da Televisão Digital Brasileira – Ginga Brasil e prevê investimentos no fomento de aplicativos de interatividade por meio de créditos orçamentários do próprio Ministério e de outros órgãos federais, patrocínios, investimentos de empresas e organizações da sociedade civil. A Portaria n. 482, publicada no dia 7 de dezembro de 2012 tem como objetivo:

I - Fomentar a criação e a difusão de conteúdos e aplicações interativas transmitidas por emissoras de televisão digital, com ênfase na produção independente;

II - Promover a capacitação de profissionais e estudantes das áreas do audiovisual, design, tecnologia da informação, engenharia, dentre outras correlatas;

III - Disponibilizar aos cidadãos brasileiros conteúdos e aplicações que proporcionem experiências de interatividade em atendimento às finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas da televisão digital brasileira; e

IV - Implementar e manter repositórios digitais públicos, destinados a abrigar conteúdos e aplicações multiplataforma146.

Apesar dos recursos esperados serem de 50 milhões de reais, apenas 10 milhões de reais estão garantidos, pois o restante faz parte de emenda parlamentar do Orçamento de 2013 para promoção de conteúdos digitais, do senador pelo PMDB de Roraima, Romero Jucá. 5 milhões de reais previstos na Lei Orçamentária para o Ginga Brasil serão destinados ao contrato firmado com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP)147. O contrato contempla quatro ações que objetiva impulsionar o desenvolvimento de aplicativos:

1) Capacitação de profissionais de TVs Públicas.

2) Construção de laboratórios de testes de aplicativos Ginga em TVs Públicas a serem selecionadas pelo Ministério das Comunicações. 3) A RPN disponibilizará um repositório de conteúdos e aplicativos

interativos.

4) Construção de uma rede de distribuição de conteúdo que servirá como plataforma de gerenciamento e compartilhamento de conteúdo.

Esse esforço do Ministério das Comunicações pretende estimular a participação da academia no desenvolvimento de aplicativos, além de fomentar a produção de conteúdo interativo em 2013. O que faltou por parte do governo no ano em que a interatividade foi lançada foi incentivar o desenvolvimento de conversores de baixo custo e dar continuidade no fomento ao Ginga para que a população, tanto de alta quanto de baixa renda pudessem ter acesso à TV digital interativa.

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PORTARIA Nº 482, DE 6 DE DEZEMBRO DE 2012. Disponível em:

http://www.lex.com.br/legis_24042595_PORTARIA_N_482_DE_6_DE_DEZEMBRO_DE_2012. aspx. Acesso em: 08 dez. 2012.

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INCENTIVO AO GINGA COMEÇA COM CONTRATO DE R$ 5 MILHÕES COM RNP.

Convergência Digital. Disponível em:

http://convergenciadigital.uol.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=32594&sid=3. Acesso em: 15 dez. 2012.

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