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Photosynthesis coupled to sulfur oxidation

A contratação de Benjamin pelo hospital no qual trabalha se deu intermediada pelo CEEE Helena Antipoff. Segundo Benjamin, a professora Cecília, coordenadora do grupo de inclusão no trabalho dessa instituição, foi quem lhe informou da vaga e da possibilidade de trabalhar no hospital, orientando-o em todos os procedimentos e etapas do processo seletivo. Em seus relatos, ele avalia que isso constituiu uma facilidade no processo de contratação, pois atribui as dificuldades para conseguir um emprego ao fato de não ter estudo, e principalmente de não saber ler.

Como foi dito, Benjamin trabalha na rouparia da empresa. A função deste setor é suprir toda a demanda do hospital por rouparia limpa: toalhas, tapetes, batas, roupas para pacientes, cobertores e roupas de cama. Cada funcionário cobre uma parte do hospital, sendo responsável pela entrega da demanda prevista e atendimento das intercorrências42.

Benjamin inicia seu turno de trabalho às seis horas e encerra às 13 horas, com exceção dos domingos em que trabalha das 6,00 às 17,00h. Chega sempre pontualmente e, ao chegar, vai direto fazer a entrega no Centro Cirúrgico e na UTI, setores que têm prioridade para recebimento das roupas. Além das entregas, auxilia em todo o trabalho da rouparia, desde a conferência das peças que chegam do serviço de lavanderia até o lacre dos sacos onde são colocadas as roupas de cama e banho, após serem conferidas, separadas e ensacadas.

Realiza todas as atividades sem que seja preciso que alguém fique lhe conduzindo passo a passo, demonstrando conhecimento do setor como um todo. Auxilia na

42Intercorrências são os pedidos que não estavam previstos nas planilhas de entrega do setor ou solicitações emergenciais.

organização das estantes, recolhe e deposita na lixeira os sacos da lavanderia que vão sendo descartados, informa novas demandas que surgem e que lhe são repassadas durante as entregas e interage em todos os tipos de situações. A despeito da sua dislalia, se comunica bem, é cortês e tem iniciativa. Atende às demandas que surgem, opina sobre elas e sugere alternativas de resolução. Uma de suas colegas, durante as observações de suas atividades, afiança que “por ele estar já acostumado com o trabalho do setor, ele já destrincha tudinho. Não tem nenhuma dificuldade não” (JOANA).

Ele mesmo assegura que sabe resolver os problemas de seu trabalho, ao relatar como procede com a entrega: “Levo para o Centro Cirúrgico a roupa, subo na hora que chego, descarrego o carro, aí boto lá, aí confiro com a menina. O que ela não souber, aí eu sei, eu já tenho mais experiência”. E acrescenta: “Qualquer coisa eu faço. Eu trabalho com qualquer coisa, menos assim de ler alguma coisa, eu não sei direito” (BENJAMIN).

As falas e a prática de Benjamin que foram observadas revelam que sua experiência educacional foi marcante para sua inclusão no mundo do trabalho. Afirma ter aprendido como conversar com as pessoas, como se comportar de forma adequada, além de ter aprendido questões práticas de como realizar as tarefas, já que foi encaminhado para o estágio em um hospital. Relembra que sua professora do CEEE Helena Antipoff o orientou quanto à sua inserção na empresa:

Oh, vocês vão trabalhar. Então vocês têm que ter comportamento, têm que conversar, falar com a pessoa, chegar: “Bom dia, boa tarde”, aquelas coisas, de fazer o serviço, têm que ter aquele sorriso, tal, no rosto, nunca brigar (BENJAMIN).

A ênfase do aprendizado de comportamentos adequados aos ambientes, os scripts sociais, talvez possa ser explicada por uma descrença no potencial cognitivo do sujeito com deficiência intelectual, sendo necessário reforçar o bom comportamento para manutenção do emprego, ao mesmo tempo em que atribui ao próprio sujeito a responsabilidade de ajuste ao modelo padrão existente como garantia de sua empregabilidade.

Essa descrença se manifesta nas falas contraditórias de sua líder de setor. Ao mesmo tempo em que constantemente elogia seu desempenho e educação no trabalho, assevera que ele deveria ficar só no apoio, pois “se surge uma intercorrência, ele não sabe resolver”. A afirmação da líder de setor não corresponde ao que observamos durante a pesquisa de campo, o que revela conceitos já estabelecidos sobre a deficiência intelectual e

o potencial do sujeito. As intercorrências surgidas foram todas atendidas e sempre informadas ao setor.

Sassaki (2006, p. 29) ressalta que “o modelo médico da deficiência tem sido responsável, em parte, pela resistência da sociedade em aceitar a necessidade de mudar suas estruturas e atitudes para incluir em seu seio as pessoas com deficiência [...]”. Por outro lado, a inserção da pessoa com deficiência no mundo do trabalho, ainda que precária, acaba por gerar os conflitos necessários ao questionamento das atuais estruturas vigentes e por proporcionar, no contato entre os diferentes, uma reflexão sobre as relações estabelecidas.

A ênfase no “bom comportamento” pode ser observada também no relato sobre o aprendizado fora do CEEE Helena Antipoff que, segundo Benjamin, contribuiu para a construção de sua prática: “A minha mãe sempre aconselha: ‘Você tem sempre que respeitar as pessoas e sempre ter aquela humildade, de nunca pegar nada de ninguém, viu!’(BENAJMIN).

Conforme relatado por Rita, nenhuma adequação ou mudança no ambiente de trabalho foi feita por não ter sido detectada necessidade de alteração que pudesse facilitar a atuação da pessoa com deficiência intelectual, tampouco relatada alguma tentativa de incentivar Benjamin no uso da leitura e da escrita nos últimos nove anos. De acordo com sua crença, todas as necessidades para consecução do trabalho estão sendo garantidas. Esta compreensão é reforçada pelo próprio Benjamin que não enxerga em seu ambiente de trabalho nada que obstaculize sua ação, ao contrário, crê que hoje seu trabalho é facilitado por ser mais específico, já que antes o setor de rouparia era responsável também pela limpeza da roupa suja, realizada, atualmente, por empresa terceirizada.

No entanto, observamos a importância do processo de inclusão quanto ao atendimento da subjetividade de Benjamin (desejos, necessidades). Benjamin assevera que gosta e se sente bem em seu trabalho, embora deixe transparecer em sua fala, que é “puxado”, muitas vezes cansativo. Ao ser questionado por qual razão lhe satisfaz trabalhar, ele esclarece: “cada dia dá meu dinheiro, comprar minhas coisinhas, minha roupa. Gosto. Gosto das meninas, elas brinca, aquelas coisas. Tem aquela correria todo dia, mas dá para levar” (BENJAMIN). Desta forma, é possível compreender que o trabalho se constitui, como fonte de realização pessoal, embora fetichezado pelo consumo, por proporcionar independência financeira e pelas relações sociais (reais e simbólicas) que o sujeito estabelece com os colegas de trabalho.

Vale destacar, no entanto, que a situação de Benajmin, embora com vieses que intensificam e, ao mesmo tempo, justificam seu processo social de exclusão, não se diferencia dos demais funcionários da empresa (e do setor) em que ele trabalha, uma vez que, para o sistema do capital, todos estão incluídos na mesma categoria: a de trabalhadores.

Como trabalhadores que são, tanto Benjamin quanto seus colegas alfabetizados de equipe, vendem sua força de trabalho ao capitalista, que os explora para obtenção de lucro. Essa exploração faz parte da do processo de manutenção e reprodução do capital. A inclusão, neste sentido, abre espaço à participação da pessoa com deficiência no sistema produtivo, mas, ao fazê-lo, em condições desiguais e precárias, contraditoriamente contribui para arrefecer as lutas e tensões entre classes, na medida em que constrói a falsa imagem de um sistema democrático e de oportunidades para todos.

A compreensão das contradições do processo de inclusão no capitalismo e da apropriação ideológica da luta pela garantia dos direitos humanos é imprescindível, portanto, para a desconstrução do atual modelo excludente. Faz necessário perceber que tanto Benjamin, quanto seus colegas sem deficiência estão incluídos nessa sociedade, ainda que vivenciem processos discriminatórios ou vivam em situações de pobreza e privação de direitos, “o problema não se encontra no fato de estar ou não incluído, mas em que condição se está incluído” (RAPÔSO, 2010, p. 22).

Um exemplo disso é o fato de Benjamin acreditar que atualmente as pessoas com deficiência têm mais facilidade para conseguir um emprego do que em anos anteriores. Essa facilidade é atribuída, em sua fala, ao aumento do número de vagas nas empresas. Segundo Benjamin, “Hoje em dia está mais fácil, no caso de trabalho, porque hoje em dia tem muito lugar que está precisando. Antigamente não tinha, agora hoje tem demais. A minha colega, que mexe no computador lá, olha tanto emprego, tanta coisa”! Ao ser perguntado por que hoje em dia é mais fácil do que antes, ele complementa: “É porque eles acham que nós temos assim a capacidade deles para trabalhar”.

Essa observação de Benjamin reflete um momento histórico de intensificação das ações sociais de inclusão e as consequentes conquistas pelos direitos da pessoa com deficiência em diversas áreas, em especial no campo do trabalho. A constatação do aumento do número de vagas, percebida pela presença mais frequente da pessoa com deficiência no mundo do trabalho, também acaba revelando novas relações. Quando Benjamin afirma que eles acham que nós temos assim a capacidade deles para trabalhar faz-nos perceber que há uma mudança de visão; de um novo olhar sobre o outro e sobre a

própria deficiência. O outro, antes incapacitado para a vida em sociedade, agora ocupa o espaço de um trabalhador, de um sujeito capaz de realizar, mesmo que tenha algumas limitações.

Ao utilizar o pronome “eles” parece personificar a prerrogativa legal que lhe garante a inserção no trabalho. A força da lei, portanto se faz sentir como agente de mobilização, contribuindo para o “desequilíbrio” (no sentido piagetiano do termo) das instituições e desafiando-as a construírem, a partir da estrutura contraditória que possuem, novos modos de funcionamento, capazes de acolher a diversidade.

As pessoas com deficiência, conforme destacado por Aroucha (2012, p. 78), “ao ingressarem no mundo do trabalho, poderão sentir-se verdadeiramente seres humanos, por estarem exercendo uma tarefa laboral, ou seja, sentir-se produtivos por realizarem tarefas relacionadas com as verdadeiras capacidades e habilidades”.

A construção de um ideal social de sujeito e as possibilidades de atuação/participação na sociedade aparecem nos sonhos manifestos e objetivos acalentados por Benjamin. Mesmo reconhecendo suas dificuldades com a leitura e a escrita, diz que gostaria de terminar os estudos, mas não o faz porque não consegue aprender a ler. Percebe a inviabilidade do seu sonho, por compreender que vivemos numa cultura letrada, exigida em seu espaço de trabalho. Da mesma forma, expressa o desejo profissional de ser um advogado, em virtude das cenas de violência e discriminação presenciadas e vivenciadas por ele em sua comunidade. Quando perguntamos para Benjamin por que ele gostaria de ser advogado, ele reflete e conclui que seria para poder “vencer muita gente, ajudar muita gente”.

Seu relato aponta para a necessidade constante de refletirmos sobre as formas cada vez mais complexas de inclusão e de exclusão social, e no mundo do trabalho, discutindo os elementos que interagem dialeticamente nesse processo, quer sejam psicossociais, políticos, econômicos, educacionais e outros. Essa discussão é o que nos propomos a seguir.

5.1.4 Possíveis fatores que interagiram para a inclusão e exclusão de Benjamin no