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Chapitre 1 : Synthèse Bibliographique : Comportement et devenir des produits

2. La rétention du glyphosate 12

4.2. Photodégradation 25

Numa narrativa de tempo descontínuo, construída em analepses, as personagens são reconstruídas pelo narrador na terceira pessoa e progressivamente o retrato de André, um jovem rapaz, de boa índole é analisado, interpretado e comentado, de acordo com o ponto de vista das testemunhas em tribunal e juristas. É o juiz que cria um fio condutor na narrativa que permite ouvir diversas personagens que discutem e problematizam diferentes domínios da sociologia e antropologia cultural cabo-verdiana. O autor utiliza a técnica de centralizar no Tribunal todo o conhecimento da ação e o narrador na terceira pessoa tem a função de explicar e ajuizar os comportamentos das personagens no desenrolar da diegese. O narrador constrói as personagens a partir de um questionamento retórico de natureza explicativa, por vezes de certa ambiguidade, numa busca contínua de respostas justificativas dos factos e sobretudo à problematização gerada por falta de provas do homicídio cometido ou não por André Pascoal. O retrato dos intervenientes na acção é materializado sob a forma de informações que provém das perceções do mundo exterior e da interferência com outras figuras da narrativa.

O pai de André, duro, austero, inflexível, insensível a sentimentalismos, cultor incondicional de princípios morais e costumes, defensor do culto sagrado do casamento, funciona como oponente e ligado à tradição popular, quantificado com a sua preservação a todo o custo para perpetuarem naquela comunidade, insiste com André que a honra tem de ser reposta. Em tribunal, testemunha, teve uma posição de frieza em relação ao seu filho João e viria a dizer “[...] que nunca tinha acreditado que a vítima teria a coragem de apertar a mão do irmão depois da desonra a que o tinha submetido..” (DI:61).

Ele representa a voz popular de uma comunidade de Ribeira de Santiago que preserva o enraizamento de seus valores culturais e morais. É uma personagem referencial (Philipe Hamon, 1977:96), organizadora do texto representativa da tradição de um afeto familiar que não consegue desprender-se da noção de honra, num conceito patriarcal que acaba por vitimá-lo. Maurice Halbwachs diz: “La mémoire collective remonte dans le passé jusqu’à une certaine limite, plus ou moins éloignée d’ailleurs suivant qu’il s’agit de tel ou tel groupe.” (1997:166). Mediador de um grupo social, obedece e transfere hábitos valorativos de um determinado espaço social. Pela sua atitude para com o filho André e das restantes figuras familiares, o adultério gera o conflito familiar e mesmo legislativo. Ele não aprova a amizade entre os irmãos, mas ainda aprova menos o afeto entre André e sua mãe. Cita-se texto:

André tinha tido sempre um grande apego à mãe, como se desse modo quisesse compensar-se da rigidez do pai, e antes de se casar passava muitas horas com ela dentro da cozinha ajudando-a a preparar as refeições ou então acompanhava-a quando ela saía a catar lenha, embora o pai nunca tivesse aprovado essa excessiva familiaridade e costumasse dizer com aspereza que André gostava de mais dos trabalhos próprios para mulher. (DI:60).

Dentro da hierarquia das personagens textuais, o pai é a personagem nuclear que desencadeia a tragédia na família.

A mãe oscila entre o seu sentir de forte amor maternal dos valores e o sentido da comunidade. Como testemunha diz ao juiz com um tom monocórdico “[...] que tinha visto o seu filho sangrando, mas ainda de pé e encostado a uma parede” (DI:74). Segundo testemunho da mãe em tribunal, André foi sempre “[…] manso, pacífico, meigo, […]” (DI:75). A mãe tem uma atitude ambígua, pouco esclarecedora e contraditória.

Maria Joana é adúltera, porque comete adultério com João, irmão de André. Tio Doménico no seu depoimento exprime o sentimento geral de frustração do povoado e confirma o adultério: “Toda a vizinhança tinha ficado a saber que o falecido tinha sido encontrado em cima da cunhada, o próprio chefe da família em pessoa tinha ouvido os ais e demais gemidos no palheiro [...]” (DI:19). Esta personagem é defensora da tradição popular bem como João o Tanso que descreve o crime e afirma tê-lo

João, o filho mais novo, é lutador,desafiador, rebelde, frontal para com o pai e vítima do comportamento social familiar. Ele mantinha uma certa cordialidade para com o seu irmão André: “[...] eu sou teu irmão, temos que continuar a ser irmãos, não podemos permitir que o nosso pai nos separe.” (DI:185).

Pedro Miguel, amigo do réu e com a função de adjuvante na narrativa, testemunha, no seu depoimento, descreve-o como “[...] um indíviduo brincalhão, conversador, sempre bem humorado e sempre com piada pronta.” (DI:16), bom amigo, companheiro, silencioso e distante em relação a Maria Joana. Esta personagem constrói o retrato psicológico do seu amigo.

A personagem André Pascoal aculturou-se durante o tempo vivido em Lisboa na condição de emigrante, mas de regresso acaba por reassumir os seus valores de formação rural, reinserindo-se na sua comunidade. A esse propósito Osman Lins afirma que uma das funções do espaço social quando se transfigura é influenciar a personagem e “[...] que mesmo a personagem é espaço;” (1976:69). André, pressionado pelo meio popular, questiona a sua identidade, desafia o seu destino como pessoa com ideias novas, mas condicionado está dependente de forças cultivadas pelo pai, tio Doménico e toda a aldeia que prevalecem inexoráveis e que estão na origem do conflito. Já no fim da narrativa, André diz: “Nunca pensei em matar [...] Mesmo no primeiro dia não pensei que o mataria, mesmo que tivesse sido ele a dizer-me que se tinha deitado com a minha mulher.” (DI:231).

Pelos traços já apresentados, a personagem André é um marco de dinamização dos valores em circulação na narrativa. Por um lado, a personagem problematiza e questiona os valores tradicionais do ilhéu de Santiago, por outro, no seguimento do julgamento, a sua postura confronta-se com opiniões e comentários feitos pelos magistrados, durante um jantar. Sobre isso Arnaldo França comenta:

[...] no século XIX [...] denominada “Ilha de Cabo Verde” ou simplesmente Cabo Verde, afastada até à década de sessenta de uma aculturação urbana – até que ponto a condição de emigrante não explica as hesitações de André? – eis onde encontrar uma natureza genuína que se submete a leis irrevogáveis. (1977:207).

Devido a André ser uma personagem que se situa entre dois espaços sociais diferentes, Lisboa e a sua aldeia, um ser culturalmente miscigenado, caracterizado como

o homem novo ainda não aceite na sociedade rural cabo-verdiana, dando lugar no próprio julgamento a um debate que foca a importância antropológica e de sua situação no contexto social contemporâneo. A propósito da emigração, Germano Almeida explica a Dominique Stoenesco: “[...] é verdade que os emigrantes, quando chegam em Cabo Verde, chegam com hábitos diferentes, com costumes diferentes, que significam de algum modo uma agressão ao nosso modo de vida, [...]” (2004:48). O retrato de André Pascoal é construído progressivamente pela leitura das testemunhas nos dois registos, o extra-textual e o inter-textual num processo gradativo de valorização e desvalorização da personagem. A este respeito Ezquerro diz: “[…] a personagem de romance constrói-se exclusivamente com os materiais da linguagem.” (1984:106).

José Furtado é inseguro e contraditório. Ele encontra dificuldades em explicar o motivo de ter dado “[...] voz de prisão [...] apenas por o ter encontrado numa esquina com uma navalha.” (DI:135), navalha essa que não tinha chegado a reparar, se efectivamente tinha sangue, “[...] até porque ainda estava bastante escurinho e a sua vista já não prestava para alcançar certas coisas.” (DI:135).

Borges é uma nova testemunha, mas o seu papel é mudo.

O digno agente do Ministério Público é severo, duro, crítico, contraditório e cumpridor das leis jurídicas. Ele desempenha as funções de advogado de acusação. O advogado de defesa é benevolente, menos rigoroso, procura provas reais que fundamentem o crime praticado pelo réu. e mostra firmeza e decisão que fundamentem o crime praticado por André. Ele tem uma posição firme e decidida e diante da ambiguidade dos factos é minimizador e problemático.

O Merítissimo Juiz é defensor da lei, justo, cuidadoso, dirige a audiência e tem uma posição de dúvida em relação ao crime. Na dúvida do crime, esta personagem procura ser justo e cuidadoso, por isso leva trinta e oito dias a refletir.

A argumentação probabilística é importante na identificação do criminoso e na construção das várias personagens do texto e ainda na culpabilidade ou não de André Pascoal. A propósito desta matéria Cristina da Costa Vieira cita Perelman que “[…] discrimina três tipos de nexos causais, […] como procedimentos retóricos: 1) a procura das causas para determinado efeito (ou o motivo, quando o efeito é provavelmente intencional); 2) a determinação dos efeitos; e 3) a apreciação de um facto pelas suas

testemunhas e procuram as causas e os motivos da morte de João. No entanto existe da parte dos elementos do tribunal uma apreciação dos acontecimentos ocorridos e das suas consequências.

Verifica-se ainda que o processo de construção das personagens é feito a partir da caracterização direta e indireta, dois processos narrativos que exploram a dimensão dos traços comportamentais das diferentes figuras na diegese.

Assim a descrição psicológica das personagens e o seu relacionamento familiar, refratam o quadro social dessa comunidade ainda defensora de valores éticos enraizados.

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