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Dans le document ULTI-USE (Page 86-89)

Philippe Lejeune inicia o seu livro Le pacte Autobiographique colocando a questão “É possível definir a autobiografia?”51(1996: 13) Esta questão é de difícil resposta, pois dá lugar a numa vasta discussão. O sentido corrente é o de discurso no qual o autor conta a sua vida. Um sentido mais preciso é-nos dado por Lejeune que afirma o seguinte: “Récit rétrospectif en prose qu’une personne réel fait de sa propre existence, lorsqu’elle met l’accent sur sa vie individuelle, en particulier sur l’histoire de sa personnalité. ” (1996: 14)

Ora se a noção de autobiografia, com uma definição muito delimitada, se aplica a obras literárias com as características acima referidas, o adjetivo autobiográfico mantém, ainda, a “dutibilidade antiga” (Zanone, 1996: 8), ou seja, autobiográfico abrange um discurso em que o autor aborda assuntos da sua vida e os seus sentimentos.

A este estudo interessa esta noção de autobiográfico, de um locutor, um eu, que, no seu discurso, nos fala da sua vida e dos seus sentimentos e que, na sua estratégia retórica, faz

41 comentários e convoca vários elementos, outras pessoas e acontecimentos: “pour bien raconter une histoire, il faut camper des personnages, décrire leurs relations réciproques, expliquer leur raison d’agir; décrire les contextes des actions et interactions, porter des jugements…” (Bertaux, 1997: 32). O locutor torna-se, segundo Kuperty-Tsur na sua intervenção intitulada “Justice historique et écriture mémorialiste”, “le personnage central et indispensable parce qu’il est générateur de sens et de clarté dans le labyrinthe obscur de la masse narrative.” (2000: 53)

O discurso biográfico estrutura-se a partir de uma sucessão de acontecimentos, aquilo a que Bertaux denomina de “linha de vida”52(1997: 33) que não é, na maior parte dos casos, harmoniosa, mas que está sujeita a inúmeras contrariedades, umas de carácter mais global, como por exemplo uma guerra ou um golpe de estado, outras de carácter mais individual, uma doença ou um acidente, que determinam mudanças de vida. (Bertaux, 1997: 34) Este relato, num discurso autobiográfico oral, é mais espontâneo e tem um carácter que podemos de apelidar de dialogal, uma vez que o locutor conhece à partida os interesses de quem o ouve. Existe, então, um pacto – “Ce pacte fait filtre, oriente et

précentre l’entretien.” (ibidem: 35)

Écrire sur soi conduit forcément les auteurs à réfléchir sur les conditions de leurs discours: faut-il tout dire, de quelle façon, etc. En outre, loin d’être un discours solipsiste, le dialogue avec soi-même ou avec d’autres textes stimule l’échange au sein du récit.

(Clerc, 2001: 88)

Interessa ainda abordar a noção de “victime glorieuse” (2000: 59) apontada por Kuperty- Tsur, na sua intervenção no colóquio referido anteriormente, no que diz respeito aos discursos memorialistas: “Cette figuration [de la victime glorieuse] est rendue possible grâce à la temporalité spécifique des Mémoires qui s’appuie sur une présentation dichotomique du passé, avant: la gloire et après: la disgrâce injuste qui, sans prévenir, les transforme en victime.” Nos exemplos dados por esta autora, a estratégia retórica utilizada apontava para a ideia de que uma “desgraça injusta” transforma o memorialista em vítima (ibidem). Esta figura de vítima das circunstâncias da vida que, apesar de todas as contrariedades luta e sai gloriosa de uma ou de várias batalhas parece-nos estar presente nos discursos objeto de estudo.

42 A questão do eu remete-nos também para uma questão muito mais profunda: a problemática da personalidade. Não aprofundando demasiado este questão, até porque exigiria conhecimentos do foro psicossociológico, não podemos deixar de referir uma questão ligada aos modelos educacionais europeus e americanos que, tal como nos diz Lecarme e Lecarme-Tabone, nos ensinam a “olhar a vida como uma aprendizagem e uma progressão: amorfa ou indeterminada no início, depois de ciclos de provas e de iniciações, o sujeito humano acaba por assumir uma personalidade de aço”.53 (2004: 57)

Clerc aponta como regra fundamental para os discursos autobiográficos o “dizer a verdade” (2001: 45). É esta verdade que valida o discurso e que capta a atenção do interlocutor: “Dire la vérité est d’abord ce qui vient donner un assise au discours et le rendre possible” (ibidem). Esta verdade aliada ao facto de o discurso autobiográfico ser uma narração ulterior permite, em primeiro lugar, uma atitude crítica e desmistificadora do próprio passado e pode, por isso, ter um carácter pedagógico, que nos faz pensar na retórica clássica: “[l’interlocuteur] est invité à comprendre un moi et un monde autres qui le feront réfléchir à son tour sur sa propre condition d’homme” (ibidem, 47). A verdade permite, também, transformar os discursos em “monumentos” que têm o poder de agir sobre o outro (ibidem, 51). De referir, ainda, que a verdade tem ela própria uma força ilocutória, fruto do conhecimento que só o locutor autobiográfico possui da sua própria vida e que está disposto a partilhar com o seu público.

Como é que podemos, então, analisar um discurso de cariz autobiográfico? Segundo Clerc, a análise de um texto autobiográfico deve contemplar o título, a ordem e as escolhas narrativas. No caso dos discursos objeto de estudo desta investigação, é importante abordar a ordem pela qual os acontecimentos são contados e as escolhas narrativas, isto é, se o discurso aborda a vida como um todo ou diz respeito apenas a uma parte da existência do enunciador? A ordem pela qual os acontecimentos são narrados não é de somenos importância. Parece natural e habitual que a ordem do discurso seja linear, acompanhando o tempo cronológico desde a infância até ao momento em que se se fala. Por outro lado, este tipo de discurso autobiográfico que implica uma maior ou menor

décalage temporal leva, segundo Clerc (2001: 88), a que o autor esteja numa posição de

comentador de si próprio e da sua vida, mantendo, ao mesmo tempo, um diálogo com os

43 seus interlocutores. Por isso se pode falar de um género dialogal, tal como é confirmado por Zanone que corrobora esta ideia de Clerc:

Raconter sa vie n’est pas un geste qui va de soi: on voit que, d’une part, il est encouragé par un contexte spirituel et social privilégié, qui autorise l’individu à penser ce qui, dans son rapport avec Dieu ou avec la société, fait de son caractère quelque chose d’unique et d’exemplaire.

(Zanone,1996: 41)

Esta dissertação visa o estudo de discursos inspiradores sobre o sentido da vida que têm, por isso, e, na sua generalidade, uma dimensão autobiográfica e uma dimensão moral como transmissores de uma espécie de verdade fundamental pelo que se torna imperioso aprofundar a noção de enunciação aforística.

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