As inquietações relacionadas ao campo da administração e ao entendimento da complexa relação sociedade/Estado (RAMOS, 1989) não sob o olhar da economia ou da Ciência Política e sim da administração foram dois elementos que impulsionaram os estudiosos do recente campo disciplinar que chamamos de Administração Política (SANTOS & RIBEIRO, 2009).
Este estudo começado com o Prof. Dr. Reginaldo Santos, da UFBA, em 1993, com as discussões do Grupo de Pesquisa, com poucos interessados e pouca receptividade do mundo
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acadêmico. Somente em 1999, com a finalização do pós-doutorado do mesmo em Portugal e retorno às atividades científicas na IES, foi formando um conjunto de pesquisadores interessados em tornar esta discussão em objeto de estudo científico. No mesmo ano, a inserção em âmbito internacional foi realizado na Universidade de Compostela, pela Prof. Msc. Elizabeth Santos, que subsidiou a análise comparativa dos programas sociais no Brasil e na Espanha sob a perspectiva da Administração Política. Estas ações pioneiras, possibilitou após 15 anos, entender que a Administração política ainda se encontra em construção, porém já possui um escopo de características que possibilita o entendimento de seu conceito e capilaridade junto as campos de conhecimento da área de ciências sócias (GOMES, 2012, 2013, SERVA, 1990; SANTOS, 2002, 2008, 2009 e 2010a).
Em 2010, foi elaborada uma Carta como resultado do I Encontro de Administração Política, em Garanhuns, Alagoas. Na qual foi identificado e exaltado o “papel da administração como uma disciplina social” (GOMES, 2012, p.2) e “ a natureza política, ideológica, propositiva de ação transformadora da sociedade e condutora do desenvolvimento, com um olhar transdisciplinar, crítico, histórico e cultural da dinâmica social (SANTOS, 2004).
Com forte influência de Guerreiro Ramos (1989), por compreender e identificar a responsabilidade das ciências sociais (administração política e economia política) com a complexa e dinâmica relação sociedade/ estado e o seu resultado: o processo de desenvolvimento. O que até então, e muito presente ainda, não se percebia nas discussões acadêmicas uma analise que extrapolasse a relação funcionalista, utilitarista, operacional/instrumental da Administração, com foco nas organizações como objeto de estudo (SANTOS, 2009).
A análise das relações sociais de produção passa a exigir do setor público mais que ação e sim uma atuação direta e dinâmica em ter uma concepção mais ampla de um projeto de alcance nacional, para nortear as relações de produção seja no modelo de gestão ou de execução (SANTOS & RIBEIRO, 2009), o que foi denominado por Santos (2008) de materialidade das relações sociais.
Nesta perspectiva, reforçou-se a preocupação da administração política de realizar a crítica dos modelos de gestão e desenvolver elementos de análise que se debrucem sobre as alternativas que possam solucionar os desafios da sociedade contemporânea. De ser entendida, como “possibilidades de gestão das relações sociais de produção e distribuição, contextualizadas histórica e simbolicamente, com vistas à superação dos desafios que se
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apresentam à Nação nesta etapa histórica de profundas desigualdades, em um mundo de radicais mudanças nas relações de poder” (SANTOS, 2010a, p.235).
Gomes (1012), Santos (2009), Santos e Ribeiro (2012) indicam que são por estas razões que o campo da administração e a “administração política” como linha de conhecimento, devem se preocupar com essas discussões; elas envolvem uma tipologia de “gestão” das grandes questões nacionais, que perpassa também por um modelo de “gestão” do Estado, principalmente da política econômica. A capacidade de centralização da política econômica, no sentido de definição e redefinição das fontes e do uso dos recursos financeiros necessários para viabilizar as diretrizes, ações, programas e projetos das demais políticas públicas, promove sua própria “gestão” à condição de supremacia.
A administração política tem o papel imprescindível de fazer a crítica da influência do econômico sobre o político, e na definição da agenda do país e da gestão da sociedade (Gomes, 2005) e consequentemente possibilitar, com esta discussão a formação de profissionais mais críticos e menos funcionalista (SANTOS, 2009).
Este pensamento crítico também aparece em Santos e Ribeiro (2006, 2012) e Santos (2009, p. 121) ao defenderem que: “uma ciência que engloba a parte que observa, que expõe e que explique (considerando o lado puro, científico), bem como, a parte empírica, aplicada, normativa ou artística (que aconselha, que prescreve, que dirige). Só assim, o conhecimento pode ser libertador do homem.” O fazer ciência, hoje, requer muito mais do que observar, descrever e explicar; é preciso propor. De forma particular, nos dirigimos àquelas que são voltadas para o campo da produção, como a economia, a administração, o direito, as finanças e as atuariais.
Na atualidade, pelo paradigma dominante, delimitar o campo de atuação dessas ciências, haja vista que, para isso, é preciso cumprir alguns condicionantes epistemológicos, tipo a delimitação “precisa” de alguns elementos (objeto, método, pressupostos/hipóteses etc.). No caso específico da Administração, ela constitui um campo de conhecimento sem uma identidade própria, seja por falta de um aprofundamento epistemológico ou pela própria natureza multidisciplinar do campo. Para Santos (2004), existe uma impropriedade metodológica de uma corrente de pensadores da administração que, equivocadamente, definem a “organização” como o seu objeto de estudo e deslocam as discussões para teorias das organizações, estudos organizacionais, ciências das organizações etc., quando pouco se fala em ciência administrativa. Embora as organizações constituam o gênero que contém elementos essenciais da gestão, elas
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são espaços particulares nos quais habita o objeto central da administração. “Isso, quando entendido, é permitido dizer que as organizações podem constituir-se em objeto de pesquisa em administração, mas nunca constituem em objeto que dá status de ciência” (SANTOS, 2004, p. 38).
Se tomarmos como hipótese que o objeto de estudo da administração seja a gestão e não a organização, podemos entender que, enquanto campo disciplinar, a administração ocupa-se do estudo das organizações como um fenômeno social, voltando-se para preocupações mais amplas, do que apenas a maximização da eficiência produtiva. Desta forma, podemos classificar a Administração Política como um campo da ciência administrativa que trata da gestão das relações sociais de produção, distribuição e consumo em qualquer contexto e momento histórico do processo civilizatório da humanidade, conforme definiram Santos et al (2009, p. 127).
A melhor maneira de abordamos esta disciplina, como qualquer outra, é conhecendo os problemas que ela se propõe a investigar. Os problemas da Administração Política possuem um elevado grau de generalidade e abstração, que consistem em responder as seguintes questões: Como devemos organizar o sistema produtivo de uma sociedade? Como os agentes econômicos agem dentro desse sistema? Qual a melhor forma para distribuir a riqueza produzida neste sistema? Quem deve consumir a riqueza gerada por essa sociedade? Isto posto, verifica-se que os problemas da Administração Política originam de uma reflexão que é, sobretudo, normativa, por contraste dos estudos empíricos feitos no campo do paradigma dominante do conhecimento científico, que prioriza as análises descritivas e explicativas.
Os estudos da Administração Política está além dos pressupostos dominantes do pensamento da Administração, propostos inicialmente por Taylor e Fayol e prosseguidos por Peter Drucker, Henry Mintzberg, Michael Porter e outros. Enquanto campo do conhecimento trata da gestão das relações sociais de produção, distribuição e consumo de uma dada sociedade. Deve incluir em suas análises as diversas idéias políticas (Santos et al, 2009) que pode subsidar uma formação de profissionais na área de administração com um olhar para além da ação com o resultado organizacional imediato, voltada para um resultado social que consequentemente trará resultados para as organizações mais efetivas (SANTOS, 2004).
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