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Pflanzenernähr.Düngemittel Bodenkunde 1_05; 194-202

No que tange à terceira questão secundária de pesquisa deste estudo, a saber, “Quais os fatores de divergência entre as práticas discursivas dos sujeitos envolvidos no processo de concessão e uso do MPO como suporte para a Ação Empreendedora de mulheres artesãs, no contexto do Empreender JP?”, encontramos os seguintes resultados, expostos a partir do confronto entre as práticas discursivas dos sujeitos estudados.

Há uma tendência rotineira do formulador da política pública de acreditar que sua proposta irá atender às necessidades do seu público-alvo. Porém, a realidade de implementação de políticas públicas no Brasil em muitos casos evidencia um certo

desencontro entre o planejado e o executado. Tal assertiva se faz presente no cotidiano do Empreender JP.

As práticas discursivas dos sujeitos componentes da equipe administrativa desse programa apontam na direção de um alinhamento, como uma verdade estabelecida entre eles, no que diz respeito ao discurso dos benefícios do programa para os tomadores de crédito. Contudo, como verificar essa adequação (ou não) sem ouvir sistematicamente a opinião dessas pessoas? Não haveria especificidades na tomada de crédito por homens x mulheres, jovens x idosos, brancos x pretos, homo x heterossexuais, para ficarmos em alguns binários de estereótipos tão frequentes em nossa sociedade?

No caso particular do nosso estudo, percebemos uma tensão entre o que dizem os representantes do Empreender JP e as mulheres artesãs tomadoras de crédito desse programa sobre a capacitação. Estas afirmam que o Curso de Gestão Empresarial Básica é curto e que elas sentem dificuldade em entender o conteúdo abordado neste treinamento.

Eu mesmo fui testemunha ocular desse problema como aluno do Curso (conforme certificado constante do Anexo E desta tese), pois nessa capacitação utilizava-se uma metodologia baseada num jogo de negócios, o Best Game, a meu ver mais apropriada para treinar universitários, e não mulheres de baixo grau de escolaridade. Só relembrando: das seis artesãs entrevistadas, cinco possuíam, em termos de formação escolar, o Ensino Fundamental, enquanto uma havia concluído o Ensino Médio.

Por ter percebido essa lacuna, a Diretora já nos relevou que a partir do ano de 2015 o Empreender JP deixará de usar tal metodologia em seu curso de iniciação empresarial, oferecido aos tomadores de crédito do programa. E que está em negociação com o Sebrae a adoção de uma nova metodologia de ensino, mais adequada ao perfil do público-alvo do Empreender JP.

Outro ponto que emerge das divergências entre as práticas discursivas dos sujeitos estudados é o embate político entre as artesãs e o Curador do Programa de Artesanato da Paraíba, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura, sobre que produtos fabricados pelas artesãs se enquadram (ou não) no que esse Programa julga como verdade estabelecida sobre o que vem a ser artesanato. Essa Curadoria, por determinação legal – Decreto Governamental nº 24.839 de 06 de fevereiro de 2004 –, “tem como objetivo principal analisar, classificar e registrar a artesanato e o artesão paraibano, bem como orientá-lo para que seu produto tenha elementos da identidade cultural regional, e assim possa levar ao mercado um produto genuíno e de qualidade”. A esse respeito, assim se posiciona a entrevistada 1: “o

Curador diz que as nossas bonecas são feitas a partir da Internet. Mentira. Nós observamos, sim, alguns modelos, mas a idéia é nossa. A gente não copia, cria”.

Embora aconteçam duas feiras anuais apoiadas pelo Governo do Estado – uma entre os meses de junho/julho no Maior São João do Mundo em Campina Grande, e a outra entre dezembro/janeiro em João Pessoa no período de Férias Escolares – um fator apontado pelas artesãs como problema do Empreender JP diz respeito à falta de uma ‘Central de Vendas’ dos produtos fabricados por elas. Segundo o Gerente, “há três anos foi feita uma tentativa de criação dessa Central, porém, por ‘entraves administrativos da máquina pública’[com aspas], a idéia não foi adiante.

Ao promover o 21° Salão do Artesanato da Paraíba, no período de 19 de dezembro de 2014 a 25 de janeiro de 2015, com a intenção de divulgar e estimular as vendas dos produtos do dos artesãos paraibanos, ficou patente a falta de diálogo dos agentes públicos que organizaram o evento com as artesãs. Resultado: a escolha do local não foi criteriosa, alijando essas mulheres dessa importante decisão. Segundo a entrevistada 5, “essa Feira não foi negociada com as artesãs. Foi imposta goela abaixo. Por isso as vendas foram poucas”.

Mais um fator de divergência sobre as práticas discursivas das mulheres estudadas e dos concedentes de crédito diz respeito à emancipação das artesãs, a qual é aqui assumida como “afirmação de relações radicalmente diferentes das condições anteriores e presentes de opressão e dominação, de uma situação vivida negativamente, onde se forjam as forças e identidades capazes de pretender outra vida” (MISOCZKY; AMANTINO-DE-ANDRADE, 2005, p. 200). Sobre essa questão, as práticas discursivas dessas mulheres fizeram emergir afirmações como a da entrevistada 2: “com o meu trabalho, eu me sinto mais autônoma”; “eu empresto dinheiro ao meu parceiro”; entrevistada 4, ao afirmar que o ganho financeiro decorrente do engajamento no Empreender JP “não atrapalha o relacionamento com o meu marido”. Em contrapartida, segundo relato da Diretora, as mulheres, ao irem contrair o empréstimo ou pagar as parcelas deste, sempre levam o marido/companheiro “a tiracolo”. Em concordância com essa visão, o Gerente entende que existe um ‘machismo velado’ nesta relação das tomadoras de crédito estudadas com seus maridos/companheiros em se tratando da dimensão financeira.

Indagados mais detidamente sobre essa questão, tanto a Diretora quanto o Gerente afirmaram que concordam com a assertiva de que as artesãs conseguem um certo grau de emancipação psicológica e financeira em sua atividade produtiva. Entretanto, não enxergam nelas uma emancipação de gênero, pois a “cultura machista está impregnada em nós” (palavras da Diretora).

De acordo com os argumentos apresentados nos parágrafos precedentes, o presente capítulo destacou as singularidades do Empreender JP e o perfil dos sujeitos da pesquisa. Em seguida, expôs e interpretou os resultados da pesquisa aqui em consideração. No próximo capítulo, realçaremos as considerações finais do nosso estudo.