Tanto nesta Seção quanto na próxima, busco fazer uma abordagem de cunho predominantemente descritivo35 acerca da pesquisa de campo tanto na FGV-EAESP quanto
na Chicago Booth School of Business, relatando as experiências e as vivências mais relevantes em cada um destes espaços36: a partir das anotações, gravações e percepções advindas da
pesquisa de campo, tento fazer uma incursão mais profunda no nível micro da pesquisa, ou melhor, tento, através de uma descrição detalhada dos eventos de que participei na EAESP, transmitir ao leitor a minha percepção de pesquisadora, imersa em um contexto que me era estranho. Estranho no sentido de que tanto o espaço no qual eu adentrava pela primeira vez, quanto os agentes que eu almejava contatar, situavam-se em um espaço diferente daquele em que vivia.
Desde a escolha da roupa que ia vestir, até a escolha das palavras que ia usar, todas as dimensões da pesquisa foram pensadas em relação ao quê e a quem se esperava encontrar no campo. Assim, minhas expectativas e mesmo pré-conceitos foram constantemente postos em xeque diante do encontro com o Outro, interlocutor principal da pesquisa que almejava realizar.
Dito isso, cabe ressaltar que a pesquisa de campo (tanto no sentido físico quanto virtual, através da incursão em sites e perfis de alunos da EAESP no Facebook) teve como motivação principal os preceitos etnográficos do olhar, do ouvir e do escrever: a inspiração aqui partiu das considerações de Oliveira (2000), para quem estes três elementos são fundamentais no processo de imersão na realidade através da etnografia37.
Tanto o olhar, quanto o ouvir e o escrever são dimensões específicas de uma mesma realidade e só podem oferecer uma melhor compreensão desta, na medida em que se complementam. Assim, ao longo da pesquisa, a incursão no campo foi de extrema relevância para se captar “o olhar” e “o ouvir”, bem como para o desenvolvimento do diário de campo,
35 Ao longo destas duas Seções busco trazer elementos do Diário de Campo, descrevendo os eventos e
acontecimentos mais relevantes para a pesquisa. Optei por este estilo de abordagem, que num primeiro momento não privilegia tanto as análises sociológicas, para fornecer ao leitor uma visão daquilo que considero ser, de certo modo, uma descrição interpretativa da realidade observada. As análises acerca destas duas Seções que se seguem, encontram-se melhor elaboradas nas Seções 6 e 7, respectivamente
36 Apesar de não me referir nesta Seção aos eventos observados junto à Chicago Booth School of Business,
pondero que segui a mesma proposta de observação e sistematização da pesquisa de campo em ambas as situações.
37 Apesar de não ter seguido os preceitos etnográficos em sua essência, foi através deles que pautei minha
instrumento fundamental para “o escrever”, para o registro da memória e para elaborar a reflexão socioantropológica posterior.
Nesse sentido, os atos de olhar e de ouvir são, a rigor, funções de um gênero de observação muito peculiar - isto é, peculiar à antropologia -, por meio da qual o pesquisador busca interpretar - ou compreender - a sociedade e a cultura do outro "de dentro", em sua verdadeira interioridade. Ao tentar penetrar em formas de vida que lhe são estranhas, a vivência que delas passa a ter cumpre uma função estratégica no ato de elaboração do texto, uma vez que essa vivência - só assegurada pela observação participante "estando lá" - passa a ser evocada durante toda a interpretação do material etnográfico no processo de sua inscrição no discurso da disciplina. Costumo dizer aos meus alunos que os dados contidos no diário e nas cadernetas de campo ganham em inteligibilidade sempre que rememorados pelo pesquisador; o que equivale dizer, que a memória constitui provavelmente o elemento mais rico na redação de um texto, contendo ela mesma uma massa de dados cuja significação é melhor alcançável quando o pesquisador a traz de volta do passado, tornando-a presente no ato de escrever. (OLIVEIRA, 2000: 34)
Ao me inspirar no método etnográfico, é importante destacar que não desconsidero o grande debate que há na Antropologia sobre o que se entende como etnografia, tanto no sentido clássico quanto a partir de reinterpretações antropológicas contemporâneas (URIARTE, 2012). Por isso, ao mencionar a etnografia, considero seu caráter norteador, ou como já coloquei anteriormente, como inspiração para a tarefa de organizar, sistematizar e interpretar as informações pertinentes do diário de campo. Isto posto, considero como Peirano (2008) que uma boa etnografia consiste
[...] na habilidade de considerar a comunicação no “contexto da situação” - a expressão e a idéia são de Malinowski; (ii) na difícil transformação, para a linguagem referencial escrita, do que foi indéxico e pragmático na pesquisa de campo (volto ao tema); e, finalmente, (iii) na possibilidade de detectar, de forma analítica, a eficácia social das ações das pessoas. Considero que essas três condições não são possíveis se não ultrapassamos a compreensão de senso comum sobre os usos e o papel da linguagem, já que etnografia e teoria se combinam por meio dela. O trabalho de campo se faz pelo diálogo vivo e, depois, a escrita etnográfica pretende comunicar ao leitor (e convencê-lo) de sua experiência e sua interpretação. (pp. 5-6).
E, ao pensar no papel do pesquisador que almeja desenvolver um olhar etnográfico, a autora nos propõe a seguinte questão “Qual o desafio do etnógrafo, então?”, para a qual nos dá a seguinte resposta:
Realizada a pesquisa, ele não pode apenas repetir o que ouviu - até citações precisam de contextualização. Ele precisa interpretar, traduzir, elaborar o diálogo que esteve presente na pesquisa de campo. O antropólogo precisa transformar a indexicalidade que está presente na comunicação em texto referencial. É preciso colocar em palavras seqüenciais, em frases consecutivas, parágrafos, capítulos, o que foi ação.
Aqui, talvez esteja um dos desafios maiores da etnografia e, certamente, não há receitas preestabelecidas de como fazê-lo. (PEIRANO, 2008: 7).
À luz destas considerações, busco transpor para o papel aquilo que vivenciei enquanto pesquisadora durante os momentos de interlocução e vivência junto à EAESP e à Chicago
Booth School of Business38, seus alunos, ex-alunos, aspirantes, professores e funcionários.
3.1. Considerações iniciais sobre o trabalho de campo:
Ao longo da primeira parte da pesquisa, fiz três visitas à FGV-EAESP: a primeira teve como objetivo a realização de uma entrevista com professor da Escola; a segunda teve como objetivo a participação na palestra “Converse com o administrador e com o administrador público”, na qual dois professores, um de Administração Pública e outro de Administração de Empresas expunham o perfil de cada curso e as características que os/as alunos/as interessados/as neles deveriam ter para seguir uma carreira de sucesso; já a terceira visita foi feita com o intuito de observar os discursos dos/as alunos/as e professores/as da instituição que participaram do evento “GV Day”, o qual tinha por objetivo mostrar para alunos/as do ensino médio, aspirantes a ingressar nos cursos da FGV-EAESP, como seria concretamente a vivência dentro da instituição.
3.2. FGV-EAESP, 27/08/2014: Entrevista semiestruturada com Professor de Administração de Empresas
Em primeiro lugar, é importante lembrar que uma das motivações da pesquisa, era realizar entrevistas com professores/as da EAESP, alunos/as e ex-alunos/as, entretanto, como relato ao longo desta Seção, consegui realizar apenas uma entrevista pessoal. A princípio, elaborei um roteiro semiestruturado, cujas perguntas buscavam entender as motivações e percepções do professor enquanto profissional e ex-aluno da FGV-EAESP. O contato com ele foi possível devido à existência de um amigo comum entre nós, o qual havia sido seu aluno e que, tendo conhecimento desta pesquisa, nos apresentou.
A entrevista, realizada no dia 27 de agosto de 2014 à tarde, aconteceu na própria sede da EAESP, situada na Rua Itapeva, 432, na cidade de São Paulo. A Escola está localizada em
38 Maiores considerações sobre a pesquisa de campo junto à Chicago Booth School of Business estão detalhadas
uma área bastante arborizada, nos arredores da Avenida Paulista, tendo como principal referência o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Na área, há um tráfego muito grande de executivos/as, bem como inúmeros prédios de empresas privadas e clínicas hospitalares privadas.
Como tinha hora marcada na recepção, fui logo conduzida à pequena sala em que o professor me aguardava. Pedi a ele que assinasse o termo de consentimento e autorização para gravar a entrevista, que, no entanto, não foi gravada pelo aparelho que eu portava39, mas de
qualquer forma, anotei naquele momento os principais pontos ressaltados pelo professor durante nossa conversa, os quais relato a seguir.
O Professor40 começou a conversa me relatando que o fato de o aluno da GV não
querer ser executivo, mas professor ou ter qualquer outra ocupação, era sacrilégio há alguns anos atrás, quando ele ainda era aluno. Ressaltou que trabalhou em empresas, mas queria dar aula para “deixar sua marca, para melhorar o mundo, para deixar sua contribuição”.
Para ele, existe dentro da EAESP, uma forte identidade “GVniana” entre os alunos, principalmente, devido ao grande assédio das empresas sobre alunos da GV. Segundo ele, isto seria um elemento crucial para a manutenção da autoestima dos alunos, uma vez que eles sabem que quando saírem da GV terão emprego ou pelo fato de que, mesmo antes de sair da instituição, muitas vezes já começam a estagiar em empresas de grande porte.
Em relação à outras faculdades como Insper e USP, o professor me disse que é feito um levantamento todo ano acerca dos/as alunos/as que prestam vestibular na EAESP, na FEA e no Insper e, segundo os dados internos obtidos, ele disse que geralmente quem não passa na FGV acaba optando pelo Insper e que entre a FGV e a FEA há uma maior concorrência do que entre a FGV e o Insper.
O professor, ao falar das diferenças entre os cursos de Administração da FGV-EAESP e do Insper, disse que a GV forma pessoas com uma forte carga humanista, enquanto o Insper foca no ensino mais matematizado. Para ele, o aluno da GV se preocupa em mudar o mundo, em deixar sua marca, como por exemplo, através do engajamento em ONG’s e em trabalho voluntário: citou o cursinho popular41 que os alunos da FGV mantêm dentro da instituição,
oferecendo aulas aos sábados para alunos de baixa renda.
39 Apesar de ter testado várias vezes, o aparelho de gravação não funcionou no momento da entrevista.
40 De modo a situar melhor o leitor a respeito das características dos agentes apresentados nesta pesquisa, faço
uma pequena descrição deste: professor da área da Marketing, encontra-se na faixa etária de 30 a 40 anos, foi ex- aluno da EAESP.
41 Interessante notar que as aulas de tal cursinho pré-vestibular são ministradas por alunos de graduação,
Já em relação à FEA-USP, o professor disse que os alunos de lá possuem baixa autoestima. Para exemplificar, comparou o evento promovido pela FGV “Baixa a bola GV” com o da FEA “Yes, we can” (em português: “Sim, nós podemos”): de acordo com ele, ambos os eventos aconteceram na mesma época, sendo que o primeiro, tinha como objetivo mostrar aos alunos/as da GV, através de palestras com profissionais experientes que, para obterem sucesso eles precisavam “baixar a bola”. O professor explicou que é necessário dizer isso aos alunos porque quando eles entram na FGV, ficam com autoestima tão elevada que isso às vezes se torna prejudicial, por isso é preciso fazer este tipo de evento, para que eles criem consciência que sem trabalho e esforço contínuos, o sucesso não vai cair do céu. Segundo ele, o nome da FGV é sim um diferencial, mas que não é tudo sem esforço pessoal.
Como observei, este evento apontado pelo professor parece ser recorrente, já que em 12/02/2015, a página da FGV-EAESP no Facebook divulgou o “Baixa a Bola”:
Dia 26/02, a RH Junior Consultoria realizará o Baixa Bola, uma palestra ministrada por um ex-GVniano que tem por objetivo mostrar aos alunos que fazer GV não é tudo e que é preciso realizar outras atividades extra faculdade que contribuam com experiências e conhecimentos diversos para que se alcance o sucesso profissional. (Dados da pesquisa de campo).