Estas considerações tratam das matrizes estudadas nos capítulos II e III. As cosmovisões abordadas nesta pesquisa podem classificar-se em três grupos: cosmovisões da interconexão, do decreto e da descoberta-verificação. O substantivo interconexão não tem a intenção de “santificar” as cosmovisões incluídas nesta categoria. Tampouco sugere a ausência de hierarquias e estratificações nos grupos de pessoas que a elas aderem. Também com os vocábulos decreto e descoberta-verificação não se pretende “satanizar” determinados sistemas de direção hierárquicos. Estes termos usam-se somente para identificar modos de relacionamento. A cosmovisão taína e a das religiões cubanas de ascendência africana pertencem ao primeiro grupo, o da interconexão; a cristã ao segundo, a do decreto; e a marxista ao terceiro grupo, a da descoberta- verificação.
Na cosmovisão taína, a dinâmica do relacionamento estabelece-se de forma circular. Nela tudo está interconectado. Isto se percebe nas metáforas que descrevem o comportamento dos seres humanos e supra-humanos e nas narrações sobre a Criação. Nesta visão, tudo surge a partir da interconexão. A interconexão dos opostos céu-terra possibilita a Criação e remete a Yaya, o centro do Universo, que é, ao mesmo tempo, um ser dual capaz de integrar tudo o que existe. Assim, a interconexão entre água, abóbora e seres humanos gera rios, lagos, oceanos e mares. Também os fenômenos astronômicos e mitológicos ligam-se por meio do princípio mitológico dualidade-oposição. No século XXI e à luz dos avanços das diferentes áreas do saber, esta cosmovisão parece pouco científica, mesmo assim ela produzia nos seus adeptos respeito e cuidado extremo à totalidade instrumental dada à mão do ser humano455, no intuito de que as obras propriamente humanas e as utilidades intencionais não afetassem seu entorno natural.
Essa tendência também está presente na Regra Arará; na Regra Conga; nos Abakuá e na Regra Ocha, que são as quatro principais religiões de ascendência africana em Cuba. Embora seus mitos, estórias e divindades remetam a um universo diferente do taíno, o teor de suas cosmovisões também alude à necessidade de manter o equilíbrio entre as diferentes esferas e dimensões da vida, pois todas estão interconectadas.
455
Para maior informação sobre a totalidade instrumental, as obras humanas e utilidades intencionais, cf. capítulo 1, p. 44, da presente pesquisa.
No caso da cosmovisão cristã456, que aqui se classifica como a cosmovisão do decreto, tudo quanto existe surgiu a partir de uma ordem divina. O Deus imutável, eterno, infinito, onisciente, onipotente criou tudo quanto existe por meio de sua palavra: ele falou e foi feito. Deus encarnou-se através de seu filho Jesus Cristo, que nasceu de Maria. Jesus Cristo “fundou” a Igreja, que tem o dever de ensinar a todas as nações a “verdadeira doutrina” e de administrar o mundo que Deus criou. Os sistemas políticos, econômicos e religiosos desenvolvidos na América sob a influência ibérica alicerçaram seu agir num instrumental teórico supostamente bíblico. Isto justificava tanto a conversão dos “pagãos” quanto a exploração a vontade dos recursos naturais. O interessante é que uma cosmovisão aparentemente “mais avançada”, “mais moderna”, “mais justa”, trouxe à luz sistemas mais sofisticados de exploração e submissão dos seres humanos, bem como um deterioro mais acelerado dos recursos naturais.
A cosmovisão da descoberta-verificação, título que nesta pesquisa se usa para aludir à maneira em que o socialismo interpreta o ser humano, o mundo e a sociedade, tem as suas vantagens: procura uma compreensão mais realista do ser humano e o universo, focada em momentos da história concreta; tenta propiciar um desenvolvimento equilibrado que não afete o entorno natural e que facilite o relacionamento igualitário entre os seres humanos; interpreta o ser humano como sujeito de sua própria história e não como um ente dependente de um decreto. Mas a sua preocupação em demonstrar que a sua visão é superior à capitalista, o desgaste nas lutas ideológicas, a crença de que possui a verdade absoluta e as dificuldades econômicas, que decorrem tanto de situações alheias ao sistema quanto de incompetências internas deste, fazem com que o vácuo entre a teoria e a prática pareça invencível.
Diante dessa realidade, um exercício importante a ser praticado quando uma instituição, ou uma pessoa, se dispõe a dialogar com visões de mundo diferentes da sua – ora com indivíduos ou grupos de pessoas, ora com instâncias políticas, econômicas ou socioculturais – é se perguntar se a maneira desse alter interpretar o ser humano, a sociedade e a natureza contribui positivamente para o desenvolvimento das pessoas como seres bio-psico-sociais, como indivíduos que vivem em constante relação consigo mesmos, com a sociedade e com a natureza.
456
Adverte-se que o cristianismo não é um broco homogêneo e que o autor da presente pesquisa está ciente de que nem todas as denominações cristãs têm idêntica forma de interpretar o ser humano, o mundo e a sociedade. Mas aqui se expõe a que maior influência teve em Cuba é a que, de modo geral, tem causado maior impacto no âmbito latino-americano e, possivelmente, no mundo ocidental.
Acontece que geralmente discutem-se doutrinas e teorias (como surgiu o mundo, o ser humano e tudo o criado) e nem tanto o simbolismo inerente a(os) mito(s)457 que as pessoas tomam como referencial no seu dia-a-dia: o que o(s) mito(s) diz(em) para quem o sustenta? Como se demonstrou nestes capítulos, cada cosmovisão tem aspectos valiosos a serem resgatados, ou pelo menos analisados. Isto também poderia aplicar-se às diferentes lógicas de desenvolvimento econômico. Um dos grandes desafios atuais da liturgia cristã - a liturgia entendida como serviço à comunidade -, e de qualquer sistema sócio-político-econômico, seria a criação de espaços para o diálogo e a concatenação dos aspectos positivos dessas visões de mundo, visando o melhor convívio entre os seres humanos e o equilíbrio entre todas as interfaces da vida.
Os aspectos tratados facilitam a compreensão do contexto sócio-cultural em que o protestantismo cubano se inseriu. A este ramo do cristianismo será dedicado o próximo capítulo, sob o título Raízes históricas do protestantismo cubano: Presença protestante em Cuba.
457
Mito, na perspectiva da presente investigação, entende-se como uma estória, ora real ora proveniente do imaginário das pessoas, que serve para guiar os seres humanos e lhes providenciar sentido no seu agir cotidiano.