É preciso esclarecer algumas implicações referentes à metodologia nos estudos de gênero. Terragni (2005) aborda a pesquisa de gênero a partir de suas implicações e
32 SOUZA, Lincoln M. de. Crônica de um partido não anunciado: programa e governos do PT entre 1979-2000. 2004. 615f. Tese (Doutorado) – Curso de Economia, Departamento de Economia, Universidade Estadual de Campinas, 2004.
contribuições metodológicas. Dessa forma, a autora afirma existir uma metodologia feminista própria que requer, entre outras prerrogativas, um posicionamento político da pesquisadora e do pesquisador. A pesquisa feminista confrontou-se com a sociologia tradicional positivista, que trata a realidade a partir de modelos de explicações causais. A crítica feminista à sociologia remete ao uso de categorias masculinas sem criticidade, sem utilizar analiticamente a experiência social das mulheres ou percebendo-as de modo enviesado pelo rótulo masculino. Um primeiro desafio apresentou-se à pesquisa feminista. Inicialmente as pesquisas sobre mulheres não alteravam o modelo androcentral dominante, pois a partir das mesmas categorias eram estudadas as mulheres. Da articulação com o movimento feminista e, principalmente da experiência das mulheres, é que se desenvolvem novas formas de conhecimento.
A autora defende que existe um aspecto diferenciador na metodologia feminista; as experiências da pesquisadora e do pesquisador devem ser incluídas na pesquisa.
A experiência não diz respeito somente ao “objeto de pesquisa”, mas abrange também o pesquisador. Não somente porque o ato de refletir sua própria experiência faz surgir sucessivas interrogações de pesquisa, mas porque tal experiência é inseparável do seu ser, do seu agir e do seu olhar como cientista social (TERRAGNI, 2005, p. 147).
Elementos como objetividade e distanciamento são questionados, porque não é possível para a pesquisa feminista praticar um distanciamento, pelo contrário, a aproximação com o sujeito-pesquisado é um requisito importante como provar e reconhecer que as emoções são importantes para a compreensão do fenômeno estudado.
Em muitos textos que se inspiram na metodologia feminista, ao contrário, assume um papel central: a contextualização dos problemas da pesquisa, as condições na qual esta aconteceu, as dificuldades, os recursos, as surpresas, são amplamente descritos, não por simples amor à verdade, mas porque estes constituem um material importante que “faz parte” da pesquisa (TERRAGNI, 2005, p. 148).
Aqui é importante tratar das minhas experiências que levaram à realização desta dissertação, como proposto por Terragni (2005). A cidade de Fortaleza como cenário das candidaturas aqui analisadas é um ponto de partida das minhas observações sobre Maria Luiza e Luizianne. Em 2004, ano da candidatura à prefeita de Luizianne, foram as primeiras eleições que participei como eleitora, aos 17 anos. De início, votei no candidato Inácio Arruda (PCdoB), por considerá-lo o melhor candidato para exercer o
cargo. Após a ida de Luizianne para o segundo turno votei nela, principalmente por considerar o outro candidato, Moroni Torgan, representante do conservadorismo e atraso político. Era comum ouvir da população a comparação com Maria Luiza, o que geralmente era considerado negativo por sua conturbada gestão. Nesse momento, eu terminava o Ensino Médio e iria prestar o vestibular para Ciências Sociais, e não imaginava que viria a pesquisar tais candidaturas. Após o término da graduação, pensando no projeto para o mestrado, decidida pelos estudos de gênero e pelo tema da participação política, conversando com amigos e professores, resolvi escrever a dissertação sobre essas duas candidaturas.
A minha opção pelos estudos de gênero e feminista advém do reconhecimento de uma condição excludente que vivenciam as mulheres (com a qual não posso deixar de identificar-me) em diferentes sociedades que se reflete na política, na educação, na saúde, na ciência, no enfrentamento da violência etc. Scott (1999) considera que uma das contribuições dos estudos feministas foi mostrar que categorias aparentemente neutras são sexuadas, como a noção do indivíduo abstrato, e que a declaração dos direitos humanos, por exemplo, é limitada. A exposição dessa neutralidade aparente que esconde a exclusão das mulheres faz parte do projeto feminista. Assim, é necessário reconhecer que este campo de pesquisa está inserindo numa discussão que envolve engajamentos e posicionamentos políticos. Alguns pressupostos assumidos pela pesquisa feminista como o reconhecimento da dominação social e ideológica imposta às
mulheres exigem tomada de posição33 que nesta dissertação diz respeito à representação
descritiva, ou seja, reconhecer que em contextos específicos mulheres devem representar mulheres.
Dessa forma, como fica a questão da objetividade da ciência na pesquisa feminista? Haraway (1995) afirma que esta não pode ser neutra, mas parcial, relacionada à posicionalidade dos sujeitos envolvidos, por isso os saberes são situados. O conhecimento é sempre parcial, não apenas situado, mas corporificado. A autora faz várias críticas à visão de racionalidade tradicional das ciências, afirmando que esta não é possível, pois é demarcada pela posição de dominação. Dessa forma, D. Haraway insurge contra a ciência positivista tradicional, criticando e propondo outro modelo de
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SARANTAKOS, Sotirios. Feminist Research. In: Social Research. Horendmills, Basingstike, Hampshire: Palgrave Macmillan, 2005.
ciência baseado na posicionalidade e corporeidade dos sujeitos, pois a partir da dita neutralidade científica isso não é possível e nunca foi.
A questão da ciência para o feminismo diz respeito à objetividade como racionalidade posicionada. Suas imagens não são produtos da escapatória ou da transcendência de limites, isto é, visões de cima, mas sim a junção de visões parciais e de vozes vacilantes numa posição coletiva de sujeito que promete uma visão de meios de corporificação finita continuada, de viver dentro de limites e contradições, isto é, visões desde algum lugar (HARAWAY, 1995, p. 33).
Dessa forma, os contextos aqui escolhidos, como ressaltam Dilley (2002) e Haraway (1995), são resultados de intenções parciais que resultaram em conexões que partiram de determinadas visões, resultantes das questões incitadas pela categoria gênero e foram confrontadas com os materiais de pesquisa e os próprios sujeitos da pesquisa, Maria Luiza e Luizianne Lins.
A pesquisa de gênero oferece, pois, como podemos ver contribuição à pesquisa qualitativa, e também desafios epistemológicos, metodológicos que não se encerram em uma ou outra proposta, mas constitui-se afirmando uma parcialidade do conhecimento, tanto da parte pesquisada como do pesquisador e da pesquisadora. O que não diminui a pesquisa feminista, pois mesmo na sociologia clássica, o conhecimento é demarcado por um tempo e um lugar históricos.
Esta dissertação é inspirada nos primeiros estudos sobre mulheres no intuito de recuperá-las como sujeitos ativos da história, neste caso, no âmbito da política. Os estudos de gênero desempenharam papel importante no reconhecimento das mulheres como sujeitos ativos nas sociedades. Assumo, assim, um papel feminista no fazer sociológico em que os estudos de gênero estão circunscritos. Scanove (2008) afirma a existência de uma Sociologia feminista a partir dos estudos de gênero:
Com maior engajamento crítico e político há o processo de construção de uma sociologia feminista que atenta para as relações de dominação masculina e não dispensa o diálogo das teorias com o movimento e a realidade social, pois pressupõe que teoria e ação política se retroalimentam (SCANOVE, 2008, p. 176).
Essas são as perspectivas aqui assumidas, pois entendo que há um posicionamento político no fazer sociológico e que não há conhecimento neutro e
imparcial. Encontro na perspectiva feminista uma crítica à situação em que as mulheres estão subjugadas no sistema patriarcal e como se reflete no campo das ciências. Realizar uma pesquisa com viés feminista é assumir um posicionamento político, consciente de que os saberes são situados.