Discussion générale
IV. Perspectives de travail
ração de uma equipa de pessoas cujas decisões se baseiam na sua experiência colectiva (Pearrow, 2000). Os especialistas envolvidos num projecto são com frequência oriundos de disciplinas diversificadas, e é vulgar verificar-se que diferentes disciplinas têm diferentes valores, prioridades e estilos de pensamen- to.
Este desalinhamento pode fazer com que um aspecto que uma pessoa acha importante passe inteiramente despercebido a outra, a qual não vislum- brará sequer a possível relevância de tal aspecto. Como faz notar Kim (1990), a propósito do design de interface pessoa-computador, quando indivíduos de diferentes disciplinas se encontram, os seus valores tendem a colidir, devido à rigidez e hierarquia de prioridades que as respectivas disciplinas desenvolve- ram para se poderem tornar eficazes nas suas áreas.
Tais prioridades, interiorizadas pelos profissionais em causa, passam a ser habituais e assumidas inconscientemente, tornando-se invisíveis ao seu por- tador. Não sendo necessariamente boa ou má, tal invisibilidade permite, por um lado, a comunicação eficiente entre pessoas da mesma disciplina. Por outro lado, impede que estas se apercebam de que a sua resposta já não é adequada, por não permitir a discussão com outros indivíduos que não pertencem à mes- ma área de interesses.
Esta condição tende a produzir perturbações quando profissionais de diferentes áreas sentem que o que para si é importante é irrelevante para o outro e, por se identificarem com a sua disciplina, interpretam esse comporta- mento como um insulto pessoal.
3.1.1 · Condições do processo de design de interacção
É sabido que as comunidades de artistas e cientistas têm padrões de comportamento largamente diferentes no que diz respeito a linguagem e expressões, de que são exemplo o “protótipo” do programador e a “maquete” do músico e do designer, termos que designam objectos com idênticas funções. O simples reconhecimento das barreiras colocadas pela gíria de termos do ofício e de práticas localizadas pode fazer muito para estabelecer uma ponte en- tre as diferentes partes (National Research Council, 2003).
Tomando como paradigma a colaboração entre programadores e designers gráficos, afirma ainda Kim (1990) que, juntos, estes podem criar algo muito mais forte do que cada um deles poderia criar trabalhando isoladamente. Considerando o “casamento forçado” que crescentemente ocorre entre programadores informáticos e designers gráficos, Vertelney, Arent e Lieberman (1990) manifestam que cada um destes dois tipos de especialistas é capaz de ultrapassar as visões estereotipadas que possuem acerca da outra profissão.
Se para o programador o estereótipo de designer é o de “embelezador” que serve para tornar as coisas bonitas depois destas estarem a funcionar, o designer tende a encarar o programador como alguém obcecado por tecnolo- gias, que não cuida dos aspectos comunicacionais e estéticos do que produz. Na realidade, ambos os especialistas são capazes de produzir resultados válidos, embora tendam a concentrar-se sobre os critérios de usabilidade, funcionalida- de, estética e comunicação visual em diferentes proporções.
Assim, pode acontecer que o programador consiga colocar-se a si pró- prio no papel de potencial utilizador, o que permitirá bons resultados caso pos- sua um fundo de experiências comuns aos utilizadores mais frequentes. Porém existe o risco elevado de, sendo o programador um perito, não contemplar as dificuldades encontradas por um utilizador principiante ou ocasional.
Por sua vez, o designer gráfico pode ser capaz de simular utilizadores, servindo-se da sua percepção para ensaiar diferentes cenários possíveis de uti- lização, o que permitirá revelar problemas e oportunidades que de outra forma seriam ignorados. De facto, a sua relativa falta de perícia em programação pode ser uma vantagem neste processo por se aproximar das capacidades habituais dos utilizadores típicos.
Porém, sublinham Vertelney, Arent e Lieberman (1990), nenhuma des- tas alternativas será tão segura como obter, desde o início e ao longo do desen- volvimento do projecto, as reacções de utilizadores reais, por meio de testes de usabilidade.
O objectivo prioritário deverá ser a produtividade do utilizador, aliado à compreensão de que existe uma diferença vital entre construir um sistema efi- ciente e atribuir eficiência ao utilizador. Esta compreensão é também chave para
ção entre os especialistas, quando se pretende atingir este objectivo (Tognazzini, 2003).
Embora seja admissível a necessidade de expressão artística e diverti- mento, e de passar na Web momentos agradáveis, há que reconhecer que o principal objectivo de muitos projectos deverá ser o de facilitar aos visitantes o pronto acesso aos conteúdos e à realização de tarefas úteis (Nielsen, 2000a).
No processo de design de interacção estão presentes três condições- chave:
• Centragem no utilizador: Mesmo que o processo de desenvolvi- mento, por si só, não garanta a intervenção de utilizadores, dever- se-á encorajar a concentração de atenções sobre este aspecto, pro- porcionando oportunidades de validação e retorno por parte de utilizadores;
• Critérios específicos de usabilidade: objectivos para os utilizado- res a definir no início do projecto, devem determinar características que convergirão na experiência final dos utilizadores. Estes deve- rão ser auxiliares na escolha entre diversas alternativas de design e ajudar a verificar os estádios de progresso do projecto;
• Design iterativo: permite o refinamento gradual de um projecto, através da discussão de requisitos, aspirações e necessidades entre designers e utilizadores. O processo de iteração é inevitável, espe- cialmente quando se pretende inovar, já que mesmo que os utili- zadores julguem ter uma visão muito clara do produto em causa e os designers sejam invulgarmente bons, necessitarão rever as suas ideias à luz dos resultados, das tentativas e dos erros.
As condições atrás enunciadas levantam por sua vez algumas questões a que será importante responder para que se possam harmonizar esforços de desenvolvimento.
3.1.2 · Questões levantadas no design de interacção
Para que se desenvolva com eficácia, o processo de design de interac- ção exige respostas para algumas questões:
• Quem são os utilizadores? Termo sujeito a várias interpretações, podendo referir-se a membros representativos do segmento da população a que o produto se destina. Pode dizer respeito a indi- víduos de um ou ambos os sexos, e com certas características de instrução, culturais e de personalidade. Aspectos relacionados com o escalão etário ou a perícia dos indivíduos podem também ser tidos em conta.
A categorização pode estender-se ainda a utilizadores primários (os que farão uso directo e frequente do sistema), secundários (que o empregarão ocasionalmente) ou ainda terciários (que serão afec- tados pela introdução do sistema, ou influenciarão a sua aquisição) (Preece et al., 2002).
Uma das dificuldades em encontrar respostas para diversas ques- tões de webdesign reside em não existir o “utilizador médio”: todos os utilizadores da Web são únicos, e todo o uso da Web é basica- mente idiosincrático (Krug, 2000).
• Quais as suas necessidades? A premissa básica do design centra- do no utilizador é a de que as suas necessidades são tidas em conta ao longo do processo de design e desenvolvimento. A abordagem a seguir deverá ser a da compreensão das características e capaci- dades dos utilizadores, daquilo que eles procuram alcançar e da forma como o alcançam no presente e se os seus objectivos seriam alcançados mais eficazmente se fosse diferente o apoio prestado (Preece et al., 2002).
• Como se geram as alternativas de design? Uma solução existente que funcione e seja vista como “suficiente boa” pode ser indesejá- vel por fazer com que a procura de uma boa alternativa não seja considerada necessária. Sendo cruciais no processo de desenvol- vimento, as alternativas podem provir do esforço individual do designer.
Contudo, muito pouco do que existe é verdadeiramente novo, sendo antes fruto de evoluções e fertilizações cruzadas, bem como da observação de experiências alheias. Através da observação de
produtos similares ou diferentes, é possível extrair inspiração para potenciar a criatividade e desenvolver novos produtos.