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Perspectives d’une impl´ementation mat´erielle

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 113-121)

A partir de alguns autores percebemos que as questões de higienização eram uma das maiores incorporações dos discursos modernizantes da igreja. Já no cotidiano do Nóbrega, através da nossa documentação, encontramos uma infinidade de textos

preocupados a higiene, nos quais o discurso médico-cientista foi incorporador numa série de práticas, que vão desde dedetizações, cuidados contra epidemias, a criação de diretorias específicas responsáveis pela higiene do colégio (DIÁRIO DE FUNDAÇÃO 1917-1929).

A confluência com o discurso da modernidade não seria, portanto uma novidade. Ainda em tempos agostinianos percebe-se que aceitações da razão e das inovações advindas de suas contemporaneidades fazem-se necessária para a adaptação da Igreja. O que, claro, não a impede de delimitar o uso da racionalidade à ótica da fé.

Com o tempo, tornou-se comum em alguns textos publicados pela Igreja, a aceitação da razão, da modernidade, e das inovações benéficas, especialmente nas áreas de saúde.

Com argumentos totalmente ilógicos e enganosos, não deixam de invocar a força e superioridade da razão humana, e de destacá-la contra a santíssima fé de Cristo; e resmungam descaradamente que tal fé é contrária a razão humana. Não se pode sequer imaginar e cogitar nada que seja mais desconsiderado de tudo isso, mais ímpio e repugnante à razão mesma. Embora a fé seja superior a razão, todavia não se pode nunca afirmar que entre elas exista dissídio e conflito, porque as duas provêm da única idêntica fonte de imutável e eterna verdade, ótimo e máximo Deus, e se auxiliam mutuamente. (PIO IX, 1846. pg. 84)

Segundo José Gonçalves Gondra, na obra “Artes de civilizar – Medicina, Higiene e Educação Escolar na Corte Imperial”, foi em meio a um jogo de afastamento e aproximação entre religião e ciência, e a partir da dinâmica interna entre dois modelos mais gerais, um francês, outro inglês e inúmeras correntes médico-acadêmicas, que a medicina vai se institucionalizando no Brasil no século XIX (GONDRA, 2004).

Destacando, contudo, o que concerne ao nosso foco, Gondra mostra como o higienismo estava ligado a um discurso utópico de um modelo escolar integral que concentrou numa instituição a educação física, moral e intelectual (GONDRA, 2004).

E é esse um dos pontos que se concentra uma das confluências entre a racionalidade acadêmica positivista médica, o social do Estado e a moral da Igreja: “A escola enquanto lugar de cura para uma sociedade descrita sob marcos da incivilidade, desordem, feitiçaria, curandeirismo, práticas mágicas, curiosidade e desrazão” (GONDRA, 2004. pg. 12).

Embora indiscutivelmente ameaçada pela crescente racionalidade de alguns modelos, a Igreja se posiciona de uma forma a abraçar aquilo que de forma inevitável já tinha conquistado certo espaço de credibilidade social, e durante o fim do século XIX e início do XX vai tentando flexibilizar a negação da modernidade:

Assim como o Estado, também a ciência, o método e a investigação científica, nada têm a temer do pleno e perfeito mandato educativo da Igreja. Os institutos católicos, a qualquer grau de ensino e de ciência a que pertençam, não têm necessidade de apologias. O favor de que gozam, os louvores que recebem, as produções científicas que promovem e multiplicam, e mais que tudo, os sujeitos, plena e excelentemente preparados que oferecem à magistratura, às várias profissões, ao ensino, e à vida em todas as suas actividades, depõem mais que suficientemente em seu favor (PIO XI, 1929) A admissão da validade do conhecimento científico na modernidade traz um novo discurso da Igreja, numa faixada mais desenvolvimentista que abandona ideias arcaicas de sociedade, mostrando que a defesa da tradição da Igreja não significa necessariamente uma negação do bom progresso:

Uma sciencia existe, mas que todas necessária; sciencia que as crianças, novas ainda no mundo lhes ensina o donde ellas vêm, o porque vêm, e para onde vão; sciencia que revela ao homem a sua missão, o seu valor e o seu destino; sciencia que única possue o segredo de uma moral eficaz; é a sciencia da Religião. Si a escola moderna, pois, é o templo da sciencia, não pode deixar de fora o ensinamento da mais importante das sciencias: a Religião. (LEME, 1916)

Trazendo isto ao cotidiano recifense, Augusto Lins e Silva, é um ótimo exemplo para mostrar que essa confluência com a modernidade em seus discursos higienistas não era exclusividade do Nóbrega, mas sim do pensamento católico, que também podia se manifestar com moldes mais “racionais”. Mostrando que o catolicismo republicano não nega a validade científica, ele discursava sobre como a responsabilidade médico-legal pode levar para as discussões que envolvam conceitos éticos e morai influências da doutrina católica. Ele o faz na formulação de uma linha do tempo sobre a responsabilidade médico-legal, em que dá mérito à Igreja por aceitar as pesquisas acerca do assunto, viável apenas pela desvinculação delas das superstições, dando a ela credibilidade:

(...) depois, o direito eclesiástico, acceitando intelligentemente as pesquisas medico-legais dá importância honrosa à medicina, pela media edade, a despeito das praticas cahoticas, abstrusas e superticiosas que enchem o terreno menos vasto das jurisdicções e são o apanagio consolador do seu tempo sem depurar a ordem dos factos accresce que já por esse tempo, o casamento (...) (SILVA, 1913, pg. 6) ·.

E isso não se limita aos olhares da Igreja sobre o assunto. Segundo Lêda Sellaro, no início do século XX a ideia de que só por meio da educação haveria a assimilação de hábitos higiênicos pelos sujeitos sociais e as iniciativas ligadas à política sanitária

surtiriam os efeitos possíveis e desejáveis se aplicadas de forma correta. (SELLARO, 2009). Então, com o intuito diretivo a códigos “cristãos, brancos, europeus e masculinos” no que se refere a corpo e espírito, os jesuítas desde a chegada ao Brasil ainda no período colonial atendem a população física e espiritualmente (GONDRA, 2004):

O socorro aos corpos tornou-se um mecanismo cuja finalidade era amparar a alma daqueles indivíduos considerados selvagens. Eminentemente missionários, os jesuítas também se tornaram médicos, boticários e enfermeiros. Num país marcadamente representado pelo signo da falta, puderam preencher múltiplas funções assistindo igualmente índios, brancos e negros, o que implicava cuidar dos doentes, hospitalizar, fornecer e ministrar medicamentos, lancetar, sangrar, sarjar e partejar. (GONDRA, 2004. pg. 35).

Essa postura de “salvação” do “gentio” indicando-lhe o padrão a seguir não parece mudar na vinda dos jesuítas no início do século XX (DIÁRIO DE FUNDAÇÃO 1917-1929).

No CMN visualizamos a vinculação a um trabalho dentro do programa social de Ação Católica de assistência moral e religiosa aos doentes, existindo até guias sobre o assunto no arquivo do colégio20. Além disso, o cotidiano dos alunos do colégio era cercado de atividades disciplinadoras voltadas ao cuidado do corpo21, nas quais estava incluída a higiene.

Entretanto, periodicamente ondas de “peste” assolavam a cidade do Recife na República Velha, e consequentemente o Colégio por sua posição geográfico central. (DIÁRIO DE FUNDAÇÃO 1917-1929). As que mais causaram impacto no CMN foram as ocorridas nos anos de 1918 e 1919, levando, em14/05/1919, o diretor de higiene do colégio a solicitar o fechamento do CMN por questões de segurança. Esse reabriu três dias depois, após o Dr. Otávio de Freitas, a pedido do Diretor do CMN, enviar uma equipe para desinfetar o colégio. (DIÁRIO DE FUNDAÇÃO 1917-1929. pg. 82)

Continuando nossa exposição, ao longo deste capítulo visualizaremos outras práticas cotidianas que envolviam o colégio e que não encontraram dificuldades de serem aplicadas, seja pelo apoio de uma grande parcela da sociedade ou pela ausência

20 COSTA, Joaquim Pinto Da. Assistencia moral e religiosa aos doentes: Notas de teologia pastoral pratica e accao social catolica. 1. ed. Porto: Biblioteca utiledulci, 1924. 495 p

significativa de um movimento opositor de cunho mais radical como encontraram em Portugal.

Embora tenha havido a necessidade de adaptação ao discurso da modernidade, as ações do CMN denominadas por seus próprios agentes como restauradoras, nem precisaram serem de fato “restauradas”, uma vez que o discurso de uma moral “civilizante” vindo “de baixo para cima” já era algo ordinário na cultura da sociedade recifense. As ações “catequizadoras” elitistas ocupavam o espaço público sem grandes dificuldades, usando instituições de ensino religiosas para, ao mesmo tempo, instruir os futuros militantes católicos, e realizar um disciplinamento social das massas.

E é justamente na promessa de instauração da “ordem pública”, que o discurso produzido pelos agentes do CMN ganha mais receptividade nos setores de elites políticas, que precisavam lidar na época com uma série de revoltas pontuais e necessitavam do apoio de um discurso diplomático que contivessem os ânimos e agissem como razão conciliadora entre eles e as massas.

Assim, garantindo a manutenção da ordem para as elites e exercendo sua divina obrigação de auxílio ao pobre por meio das mais variadas campanhas de caridade e de ensino profissionalizante gratuito, que o CMN consegue se instaurar como mediador dos conflitos entre essas camadas sociais, garantindo um lugar de destaque na sociedade recifense, o que os permitiram ir além, fazendo com que os discursos moralizantes representassem uma força real que não poderiam ser ignoradas pelos setores políticos/legislativos.

4. CAPÍTULO 3: ENTRE PESSOAS, LUGARES E INSTITUIÇÕES: UM

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