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Antes de descrever como se deu a coleta dos dados desta pesquisa, torna-se relevante narrar o caminho percorrido para a construção de nosso objeto de análise. Essa construção se confunde com nossa formação ao longo do Curso de Mestrado.

Na seleção para o curso, submetemos um projeto também ligado à temática da leitura, mas que procurava analisar por que, mesmo tendo se graduado em instituições cuja discussão acerca da construção dos sentidos do texto é profícua e com materiais didáticos escritos à luz dessas concepções, os professores ainda não conseguiam satisfatoriamente formar leitores maduros e autônomos. No entanto, a orientação de nossa pesquisa, de início, ficou a cargo da professora e pesquisadora Dra. Sandra Maia Farias Vasconcelos, estudiosa que se interessa pela análise de narrativas de vida no âmbito da linguística. Nesse interim, foi necessário adequar nossa temática ao âmbito de pesquisa da orientadora, mas ainda permitindo ligar o estudo das narrativas à temática da leitura.

Assim, a partir de nossas discussões, nossa primeira intenção era, a partir de uma sequência didática para a produção de narrativas de vida sobre aprendizagem da leitura de

alunos do primeiro ano do ensino médio, perceber que influências e estratégias propiciaram, ao longo da vida dos estudantes, sua aprendizagem da leitura. Talvez, pudéssemos ter enveredado por este caminho, porém ele não foi possível. A razão disso é que, para aplicação da sequência didática, escolhemos aplicar um projeto de clube de leitura em uma escola de ensino médio de tempo integral. Apesar da divulgação e do incentivo, aparentemente pelo receio de que trabalhássemos somente textos literários (essa era a justificativa dos estudantes), não houve adesão ao projeto.

Já no segundo semestre de 2017, decidimos, então, uma vez que nossa intenção era descobrir as influências e as estratégias que permitiram/engatilharam o aprendizado da leitura, decidimos ampliar nosso leque de possibilidades para narrativas de vida, agora coletadas em formato de entrevista narrativa oral, de qualquer sujeito que tivesse passado por algum nível de escolaridade. Nesse projeto, avançamos um pouco mais, mas logo encontramos um problema de ordem metodológica: uma vez embasados em Bertaux (2010), não poderíamos, à luz da proposta desse autor, construir hipóteses plausíveis que caracterizassem uma trajetória social se nos valíamos de narrativas de diferentes sujeitos, com idades, profissões, escolarizações e de classes sociais totalmente díspares, portanto com trajetórias sociais diferentes. Enveredar por esse caminho logo se revelou incoerente com nossos pressupostos metodológicos.

Foi nesse momento que, então, a partir da leitura de outros trabalhos também orientados pela Dra. Sandra Maia Farias Vasconcelos, à época ainda orientadora desta pesquisa, bem como de discussões no Grupo de Pesquisa em Linguística e Discurso Autobiográfico – GELDA, percebemos que devíamos definir uma variável de controle que melhor delimitasse os sujeitos que narrariam sua vida. Tal como havíamos pensado no projeto enviado para a seleção do Mestrado, decidimos trabalhar com professores, mas agora do eixo de alfabetização, que, a partir de nossa percepção profissional, ainda carregam consigo o capital social de serem, em alguns casos, os únicos responsáveis por apresentarem a leitura ou, num sentido mais geral, a escrita para as crianças brasileiras.

Feito isso, o momento foi de redefinição dos objetivos, das questões e das hipóteses de nosso projeto, passo que, à semelhança da seleção dos sujeitos, também nos foi caro. As palavras fugiam ou nos remetiam a vários fenômenos, inabarcáveis em uma pesquisa de Mestrado. Além disso, duas aflições começaram a ficar mais latentes. A primeira delas, que nos acompanhava desde o primeiro dia da disciplina de Métodos de Investigação em Linguística, era conseguir definir em que medida o estudo da leitura, atrelado ao de narrativas, compete à ciência Linguística. Essa angústia, que parecia não cessar, inúmeras vezes nos fez cogitar a

possibilidade de mudança do tema ou, mesmo, a de desistir do curso. Mesmo assim, procuramos seguir e, em meio a conversas com professores pesquisadores em Linguística Aplicada e, também, com os integrantes do GELDA e com nossa orientadora, chegamos à conclusão de que compete também à Linguística não somente o estudo dos fatos de descrição e análise da língua, nem somente o da análise do discurso em suas mais diferentes vertentes, mas também o da formação dos professores de Língua Portuguesa e, nesse interim, sendo a leitura a mediação, via escrita, da interação entre leitor e produtor, é tarefa da Linguística entender seus meandros estratégicos, bem como os capitais culturais que nela interferem. Além disso, os próprios pressupostos teóricos de que nos valemos realizam a discussão do fato de ser a leitura objeto de investigação interdisciplinar, sendo a Linguística uma das principais áreas que podem ajudar no entendimento desse objeto.

Uma outra angústia que começou a nos afligir, esta mais tardiamente, foi o fato de sermos integrantes do GELDA e, dessa maneira, à semelhança dos integrantes que desenvolveram e desenvolvem pesquisas atreladas ao grupo, acharmos que deveríamos contribuir, em alguma medida, com a pesquisa em narrativas de vida. Essa aflição, menos angustiante que a primeira, mas, sem dúvidas, muito influenciadora na construção de nosso objeto, logo foi sanada quando conhecemos as considerações de Jorge Larrosa, pesquisador espanhol, cujas ideias foram discutidas em nossa fundamentação teórica. Conhecemos este autor por intermédio da leitura da pesquisa de Ribeiro e Gonçalves (2003), evocada em nossa introdução. Do conhecimento do pensamento de Larrosa até a qualificação, ascendemos bastante na construção de nosso objeto e, portanto, do projeto de pesquisa.

Na qualificação, uma das imensas colaborações que recebemos de nossa banca foi o fato de, pela leitura do projeto, não ser possível entender claramente o objetivo da pesquisa. Sem dúvida, essa crítica, apesar de somente percebida por nós na qualificação, era totalmente lógica. A escrita da justificativa do projeto, tópico que melhor define os objetivos da pesquisa, passou por muitas reescritas ao longo de 12 meses de construção, o que a fez ter trechos que ainda diziam respeito ao projeto que fizemos para a seleção. Um outro fato que corroborou essa percepção da banca, também percebido por nós após a qualificação, foi a questão de, inclusive na análise-piloto, estarmos querendo enviesar as narrativas analisadas a evidenciar o que nossa fundamentação teórica postulava, o que ia totalmente de encontro à nossa metodologia de pesquisa.

Assim, também depois da qualificação, foi necessário refletir acerca da formulação de nossos objetivos, de maneira que ainda não encontrávamos um norte. Foi então que decidimos

proceder à coleta de dados da pesquisa e, após a análise das primeiras entrevistas, começar a repensar a formulação dos nossos objetivos, o que desaguou na construção dos objetivos apresentados atualmente.

Após a construção de nosso objeto e com os objetivos delineados, partimos para a etapa de geração dos dados, que se valeu da proposta clínica de coleta, com base na proposta de Maia- Vasconcelos (2005). A discussão e narração disso ocorre no tópico a seguir.

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