4.5 Caractérisation du silicium
4.5.2 Perspectives
Passou-se anteontem em meio da recordação vivaz dos contem- porâneos a relembrança do fato histórico de 1835, quando o general gaúcho Bento Gonçalves da Silva deu o grito de revolta contra o impé- rio e em nome da liberdade.
Para comemorá-lo houve as costumadas festas públicas resumidas no embandeiramento de edifícios estaduais e municipais e iluminação à noite com retreta na Praça General Telles.
O fato maior do dia, para nós, os rio-grandenses, foi a inaugura- ção da estátua de Bento Gonçalves à Praça Marquês de Tamandaré, para onde o povo se canalizou durante a tarde e a noite a contem- plar o brônzeo monumento esculturado pelo notável artista português Teixeira Lopes com a maior competência e verdadeiro gosto artístico.
Conhecíamo-lo através das descrições que chegavam até nós pro- cedentes do atelier do estatuário em Vila Nova de Gaia.
Eram, porém, unicamente, as suposições dos delineamentos e do vigor artístico do trabalho que o Rio Grande encomendara o que nos trabalhava na imaginação.
Agora, temos sob os olhos a obra de Teixeira Lopes e podemos afirmar que ela bem se nivela à fama do artista que a moldou.
A figura do guerreiro é impressionante pelo gesto largo e heroico e pela verdade descritiva do tipo, raça, momento histórico e demais agentes que influíram para o acabamento daquele trabalho que o ar- tista executou apenas com o auxílio de fotografias e dados explicativos de um fato ocorrido há muitas décadas num para ele desconhecido recanto da América do Sul.
Acompanham Bento Gonçalves na perpetuidade do bronze dois companheiros dedicados nas refegas sangrentas de 35; são eles os ge- nerais Netto e Garibaldi que condecoram com os seus bustos também moldados no bronze, o meio-corpo do pedestal.
No primeiro plano e sob os pés de Bento Gonçalves, está o soberbo grupo de leões; pela parte superior e, no mesmo plano, coroas e palmas simbólicas, tudo de bronze, estão sobre a inscrição ofertiva: “Ao general Bento Gonçalves, o povo do Rio Grande. 20 de setembro de 1835-1909”.
Temos para nós que o pedestal deverá ser mais elevado e menos vultuoso.
Será isto talvez a impressão recebida de momento e dadas as cir- cunstâncias do local que está sendo dominado pela luxuriosa vegetação que se lhe desenvolve em torno.
Isso, porém, em nada desmerece a obra de arte confiada ao ilustre escultor português Teixeira Lopes, que a executou com essa superiori- dade invejável que põe em destaque os gênios no seio glorioso da arte universal.
A inauguração
À hora aprazada e na presença de autoridades civis e militares, corpo consular, representantes de muitas sociedades locais e classes populares, o Sr. tenente-coronel Dr. Trajano Lopes, como representante do Dr. presidente do estado, foi convidado pelo Sr. coronel Virgilino Porciúncula que representava o tenente-coronel Rosalvo Azevedo, vice- -intendente municipal em exercício, e que se encontrava enfermo, a assumir a presidência da solenidade que ia ter lugar.
Logo após, o Dr. Trajano fez descer o panejamento tricolor far- roupilha que revestia o monumento, levantando vivas à memória de Bento Gonçalves, ao Rio Grande e à república.
As bandas presentes dos Aprendizes Marinheiros, Gioacchino Ros- sini e União Musical tocaram o hino de 35 e muitas palmas repercuti- ram no local.
Dada a palavra ao orador oficial Sr. Dr. Vaz Dias Júnior, este talentoso conterrâneo pronunciou elegante discurso sobre a tocante cerimônia que se efetuava, perorando brilhantemente sobre a figura do herói que representa um ensinamento de alto valor às gerações vindou- ras, quer pela sua personalidade de guerreiro inteligente e denodado, quer pela integridade de seus ideais de liberdade e fraternidade.
Seguiram com a palavra respectivamente:
A inteligente menina Odete Pereira, que de junto do grupo de leões pronunciou bonito discurso análogo ao ato;
O Sr. Benjamin do Canto Filho, em nome e como representante do município de D. Pedrito;
O Sr. Francisco Guimarães Filho, que pronunciou longo e entusiás- tico discurso em nome da mocidade;
O Sr. cav. Ricardo Giovannini, oferecendo em tocante alocução fraternal uma coroa e palma de bronze para ser colocada, em nome da colônia italiana aqui residente, junto ao monumento de Bento Gon- çalves.
Esse belo mimo foi conduzido até aquele local em palanquim carre- gado pelos meninos Atílio Capuano, Arthur Gentili, Francisco Schiafino
Filho e Carlos Schiafino, vestido à moda garibaldina.
Também a oficialidade do aviso Oiapoque ofereceu bela coroa de flores naturais tendo pendentes fitas das cores rio-grandenses com inscrição expressiva.
Pelo Sr. coronel Virgilino Porciúncula, presidente do conselho e membro da comissão promotora do monumento, foram agradecidas essas homenagens.
Em seguida foi lavrada uma ata da inauguração pelo secretário do município, Sr. capitão Leonel Constantino Romeu, sendo esse docu- mento assinado por grande número das pessoas presentes, inclusive o corpo consular, autoridades, etc.
_____
Competentemente uniformizada e tendo as armas enfeitadas com fitas das cores rio-grandenses, prestou continência à estátua, uma força de bordo do navio Oiapoque, sob o comando do Sr. 1o tenente Pinna.
Também o 9o batalhão deu guarda de honra, sob o comando do Sr. tenente Virgílio Braga.
_____
Tocaram alternada e conjuntamente, por vezes os hinos nacional, da república, de 35 e marcha real italiana, as bandas da Escola de Aprendizes Marinheiros, Gioacchino Rossini e União Musical.
_____
O policiamento por ocasião da solenidade foi de uma demasiada tolerância: havia entre a multidão um cidadão estrangeiro que, prova- velmente bastante alcoolizado, perturbava a palavra dos oradores com apartes atoleimados.
Infelizmente muitos dos circunstantes faziam coro com o pobre bêbado, rindo-se parvamente!
_____
Ao derredor da estátua havia ligeiro e modesto embandeiramento, pois tendo falecido há pouco tempo o presidente da comissão do monumento, a pompa festiva foi restringida, conforme dissemos.
_____
A comissão da colônia italiana que fez entrega da coroa e palma de bronze, era composta pelos Srs. Ricardo Giovannini, Francisco Acurso, José Gervasi, Augusto Dante, Rafael Anselmi, Roco Caprio, Vicente Pinto, Alexandre Fingallo, Rafael Marsiglia e Luiz Loréa.
_____
Durante todo o resto da tarde, a Praça Tamandaré foi assaz con- corrida, dando, ali, retreta até à noite a banda musical Lira Artística.
Houve iluminação farta, a gás corrente, em arcos em todas as con- fluências das alamedas e globos de cores verde, amarela e encarnada.
_____
À mesa que presidia a solenidade tomaram lugar os Srs. tenente- -coronel Dr. Trajano Lopes, representante do Sr. presidente do es- tado; coronéis Virgilino Porciúncula, membro da comissão promotora e representante do Sr. vice-intendente em exercício e major Joaquim Gonçalves da Silva, filho do general Bento Gonçalves; capitão Leonel Romeu, secretário do município e o nosso ilustrado patrício Sr. Alfredo Ferreira Rodrigues, um dos iniciadores da ideia que naquele momento tinha a sua anelada realização.
Finalizando esta imperfeita notícia, o Diário envia calorosas felicita- ções à comissão promotora e ao povo do Rio Grande, pela inauguração desse monumento de patriotismo e de arte.
_____
A Teixeira Lopes foi enviado este telegrama:
Vila Nova de Gaia, 20 de setembro – Teixeira Lopes – Monumento inaugurado. Efeito sensacional. Congratulações. – Comissão.
##########