A pesquisa foi conduzida na comunidade quilombola de Praia Grande (Figura 7), uma das doze comunidades que compõem a Ilha de Maré (NEVES et al., 2011), a qual pertence à XVIII Região Administrativa da cidade de Salvador-BA (MACHADO; ALMEIDA, 2008).
Figura 7 – Vista da comunidade de Praia Grande, Ilha de Maré, Salvador-BA.
Fonte: Acervo próprio.
Ilha de Maré tem uma população em torno de 12.000 habitantes (predominam pessoas negro-mestiças de baixa renda), se distancia da capital baiana por oito milhas náuticas (14,8
km), tem cerca de 14 km2 de área (RODRIGUES, 2012) e é uma das 56 ilhas pertencentes à Baía de Todos os Santos (NEVES et al., 2011). Nesta ilha há doze comunidades bem estabelecidas, as quais: Bananeiras, Botelho, Caquende, Itamoabo, Maracanã (ou Armenda), Martelo, Neves, Oratório, Ponta Grossa, Porto dos Cavalos, Praia Grande e Santana (NEVES et al., 2011). Destas, cinco foram certificadas pela FCP como remanescentes de quilombos, as quais: Praia Grande (em 25/05/2005), Bananeiras (em 10/12/2004), Porto dos Cavalos, Martelo e Ponta Grossa (em 12/09/2005) (FCP, 2019).
A ilha é uma Área de Proteção Ambiental (APA) e está localizada em frente à entrada da Baía de Aratu, na foz do Rio Cotegipe (MOURA et al., 2008). Nela, a vegetação é constituída por espécies da Mata Atlântica, manguezais, mangueiras, coqueiros e canabrava (NEVES et al., 2011), sendo coberta praticamente em toda a sua extensão por remanescentes vegetais de Mata Atlântica, com áreas com áreas agropastoris dentro e fora da mata (PAIVA; ALMEIDA; SILVA, 2011).
Trata-se de uma das poucas localidades da Baía de Todos os Santos que conserva suas características naturais bem primitivas, de forma que não há circulação de carros, o mar é a única via de acesso à ilha e o único meio de transporte são as lanchas (Figura 8), as quais partem do terminal marítimo de São Tomé de Paripe (Figura 9) com um tempo estimado de 30 minutos para se chegar até a Ilha de Maré (NEVES et al., 2011).
Quanto à renda, Silva (2012) refere que esta advém das atividades de extrativismo, como pesca, mariscagem e agricultura familiar, sendo a primeira apontada por Neves et al (2011) como uma atividade historicamente predominante na vida dos moradores de Ilha de Maré. Além das atividades extrativistas, a produção de barcos e canoas é uma forma de contribuir com a renda (SILVA, 2012), sendo este ofício aprendido na prática e transmitido de pai para filho (NEVES et al., 2011). Entre as mulheres, a contribuição com o orçamento familiar ocorre a partir do trabalho artesanal com o doce de banana enrolado na folha de bananeira, cestaria com canabrava e o artesanato com renda de bilros (renda de almofadas) na produção de toalhas, colchas, panos e roupas. Além disso, a mariscagem é apresentada às meninas desde cedo pela sua mãe, que coleta moluscos bivalves (o chumbinho é o mais frequente) e crustáceos (caranguejo e siri) (NEVES et al., 2011).
Figura 8 – Lanchas ancoradas no Terminal de São Tomé de Paripe para transporte de
passageiros à Ilha de Maré, Salvador-BA.
Fonte: Acervo próprio.
Figura 9 – Entrada do Terminal de São Tomé de Paripe, Salvador-BA.
Em se tratando da questão do saneamento ambiental na Ilha de Maré, Gois, Machado e Costa (2011) referem ser este um aspecto em que se observa negligência por parte da gestão municipal de Salvador, que não assiste a ilha, uma vez que esta não acompanha o desenvolvimento da capital baiana. Assim, há precariedade no que concerne ao abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de águas pluviais, manejo de resíduos sólidos e controle de vetores.
No que diz respeito ao abastecimento de água, apesar de ter sido implantado o serviço pela concessionária EMBASA em 1999, refere-se que tal medida não representou uma solução para a questão da água na ilha, que ainda tem uma distribuição inconstante deste elemento, já que muitas comunidades passam dias – e até mesmo semanas – sem serem abastecidas pela água da rede, que provém da adutora subaquática de Candeias, que recebe água da Barragem de Pedra do Cavalo (GOIS; MACHADO; COSTA, 2011).
No contexto do esgotamento sanitário, Gois, Machado e Costa (2011) referem que a ilha não possui um sistema com esta finalidade, de forma que a população se utiliza de fossas rudimentares (Figura 10) e do despejo em valas a céu aberto (Figura 11) como estratégias para dar fim aos dejetos. A ilha também não dispõe de um sistema de manejo das águas pluviais, de forma que as águas das chuvas se misturam aos esgotos dispostos a céu aberto, favorecendo a contaminação do solo, das reservas de águas subterrâneas e o aparecimento de doenças de veiculação hídrica. Diante disso, piora-se a situação de controle dos vetores, uma vez que a drenagem das águas pluviais é um dos métodos de controle da proliferação de mosquitos e de outros insetos, além de diminuir o contato da população com águas contaminadas com urina de ratos (GOIS; MACHADO; COSTA, 2011).
Acerca dos resíduos sólidos, na Ilha de Maré estes não recebem os devidos cuidados, uma vez que o lixo é recolhido e transportado para o continente (Figura 12) devido ao fato de não haver na ilha uma unidade de coleta seletiva e de processamento.
Figura 10 – Fossa para descarte de dejetos em Praia Grande, Ilha de Maré, Salvador-BA.
Fonte: Acervo próprio.
Figura 11 – Vala a céu aberto em Praia Grande, Ilha de Maré, Salvador-BA.
Figura 12 – Lixo sendo recolhido para transporte até o continente. Praia Grande, Ilha de Maré,
Salvador-BA.
Fonte: Acervo próprio.
Considerando-se os aspectos supracitados acerca das comunidades que compõem a Ilha de Maré, Praia Grande foi selecionada como cenário para este estudo devido ao fato de se tratar de uma localidade socialmente vulnerável, na qual as condições sociossanitárias não são favoráveis e se constituem como fator de risco para a ocorrência de diarreia infantil. Ademais, trata-se de um lócus onde o grupo de pesquisa de que faz parte a pesquisadora deste projeto, o Grupo de Estudos da Saúde da Criança e do Adolescente (CRESCER), desenvolve seus estudos desde o ano de 2002, havendo, desta forma, aproximação com os remanescentes de quilombolas desta localidade, fator considerado necessário para que haja maior aceitação por parte dos participantes, visto que, conforme Thiollent (2012), a forte interação entre pesquisadores e participantes é um dos principais procedimentos deste tipo de pesquisa. Baldissera (2001) corrobora a importância da aproximação entre os envolvidos ao referir que esta estratégia metodológica requer uma estrutura de relação entre os pesquisadores e as pessoas envolvidas.
Praia Grande é a maior comunidade da Ilha de Maré e a segunda mais populosa, com aproximados 2.500 habitantes (MACHADO; ALMEIDA, 2008), ficando atrás de Santana (NEVES et al., 2008). Sua localização na ilha está à zona oeste, tem vista panorâmica para a Ilha de Paramana e Madre de Deus e se divide em linhas imaginárias, de acordo com a ocupação territorial a partir do nome da rua, quais são: Cidade Palha, Beco, Major, Caieira, Apicum e Tuíca (RODRIGUES, 2012).
Quanto à infraestrutura, há instituições públicas de educação e saúde, além de organizações comunitárias que integram o local. No que diz respeito à Educação, está disponível para os moradores da comunidade a Escola Municipal Ilha de Maré (Figura 13), fundada em 1992, com capacidade para 609 alunos, com oferta de vagas que vão da creche (limite de 3 anos de idade) até o Ensino Fundamental II (9º ano). Além disso, é ofertada nos turnos matutino e vespertino a Educação de Jovens e Adultos (EJA) (PREFEITURA DE SALVADOR, S.D.). Destaca-se que apesar de ter sido fundada em 1992, a construção da escola no atual prédio data de 2016.
Figura 13 – Escola Municipal Ilha de Maré. Praia Grande, Ilha de Maré, Salvador-BA.
Fonte: Acervo próprio.
No contexto de assistência à saúde, há na comunidade uma USF (Figura 14), inaugurada em 29 de agosto de 2008, a qual conta com equipe multiprofissional composta por médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, dentista, auxiliar de consultório dentário e agentes comunitários de saúde (A TARDE, 2008). Por se tratar de uma instituição de nível primário, conforme referido no estudo de Siqueira (2014), não tem horário ininterrupto de funcionamento, de forma que os serviços não estão disponíveis no período noturno nem nos finais de semana, ficando os moradores obrigados a atravessar até o continente quando da necessidade de assistência formal à saúde.
Figura 14 – Unidade de Saúde da Família Ilha de Maré. Praia Grande, Ilha de Maré, Salvador-
BA.
Fonte: Acervo próprio.
Há também duas Organizações Não-Governamentais (ONG) (Sociedade dos Amigos de Praia Grande de Ilha de Maré e Adjacências e a Associação Beneficente Educacional e Cultural de Ilha de Maré – ABECIM), além de uma fábrica apresentada na Figura 15 e denominada SOMMAR (SOMA de saberes; Som e Mar), a qual foi construída pelo grupo Crescer-UFBA em 2010 e está à disposição de toda a comunidade para a geração de economia sustentável a partir do reaproveitamento de resíduos de canabrava (muito abundantes na região) na fabricação de placas acústicas e produção de doces caseiros na cozinha experimental contida no local (SIQUEIRA et al., 2017).
Também está disponível na comunidade uma concessionária EMBASA (Figura 16), a qual fornece água potável para a comunidade e cujo contexto de funcionamento foi descrito acima, ao tratar do abastecimento de água em Ilha de Maré.
Figura 15 – Fábrica comunitária (SOMMAR) em Praia Grande, Ilha de Maré, Salvador-BA.
Fonte: Acervo próprio.
Figura 16 – Concessionária EMBASA em Praia Grande, Ilha de Maré, Salvador-BA.