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Performances des systèmes de reconnaissance en conditions contrôlées 43

O hibridismo cultural ou hibridização, além de outros temas como a globalização e a pós-modernidade, tem sido constantemente discutido no período em que vivemos período este marcado por encontros culturais, raciais, multinacionais, dentre outros, cada vez mais intensos e instantâneos, graças ao fomento dos meios de comunicação alavancado pela rede mundial de computadores, a Internet. Segundo Burke (2016, p. 7), o preço da hibridização, principalmente na velocidade em que está ocorrendo, “inclui a perda de tradições regionais e de raízes locais”. Do ponto de vista do historiador britânico, não teria sido por acaso que a atual fase da globalização cultural teria passado a ser considerada como a era das reações étnicas, como sucedido nos casos da Sérvia e da Croácia.

Em Os filhos da meia-noite, o hibridismo cultural pode ser detectado logo nas primeiras páginas do livro um, quando o narrador vai trazendo informações de si e de seus antepassados de forma a obrigar o leitor a fazer essa ligação entre culturas a fim de que possa acompanhar o desenrolar dos fatos. É o caso da perda da religiosidade de Aadam Aziz, após sua vivência na Alemanha. A dúvida quanto à sua própria fé e o abandono de suas práticas religiosas provoca na personagem um sentimento de incompletude característico do processo de hibridização. Na narrativa, tem-se a impressão de que Salman Rushdie almeja enfatizar esse hibridismo desencadeador de tantos fenômenos desde a independência da Índia até a pós- modernidade liquidificada pela velocidade dos acontecimentos e pela divulgação de fatos em tempo real.

Os filhos da meia-noite, a meu ver, reúne um arsenal de ferramentas que atendem ao

pós-colonialismo. No quesito “hibridismo cultural”, por exemplo, o romance, ao extrapolar a linguagem para conferir uma conotação fantástica a acontecimentos históricos, dá visibilidade à história e à cultura por meio de sua adequação ao momento atual vivido pela Índia, A intenção maior do autor é a de recriar uma versão não oficial dos fatos que seja capaz de

atingir um público conhecedor de novas linguagens e novas tecnologias. Em todos os aspectos do pós-colonialismo abordados neste capítulo, desde os mais gerais até os mais particulares, como o hibridismo cultural, o caráter plural da Índia é enfatizado de forma a demonstrar uma de suas mais importantes características.

Para Balmiki Prasad Singh (2010, p. 40), desde o final do século XX outro encontro de civilizações, abrangendo diferentes áreas do cotidiano indiano, viria acontecendo com a denominação de “revolução da informação e do conhecimento”. Tal fenômeno teria como resultado a rápida integração entre mercados e culturas, fomentando, assim, a integração e o desenvolvimento dos indivíduos. Desse modo, um novo tipo de conhecimento viria sendo produzido nas últimas décadas, com base nas tradições indianas e nos entendimentos científicos propagados ao redor do mundo. Em outras palavras, o que está implícito na reflexão de Singh é uma forma de hibridização cultural em que jovens indianos estão, como consequência dos avanços nos diferentes campos do conhecimento, tentando ultrapassar as divisões culturais para se familiarizar com novas línguas, metodologias científicas, histórias e religiões. Para Singh,

O número de homens e mulheres renascentistas no país está cada vez maior. Têm a coragem, o intelecto e a habilidade para competir no mundo e, um número significativo dessas pessoas, têm um forte desejo de se ligar com o resto de suas comunidades e contribuir para forjar uma Índia forte e justa (SINGH, 2010, p. 40).

Nesse sentido, Singh (2010, p. 40), ao problematizar fenômenos atuais, corrobora com Burke (2003, p. 103), que assevera que as mudanças que hoje denominamos de “globalização” são principalmente tecnológicas e econômicas. Em Os filhos da meia-noite, observa-se a preocupação do autor em não transformar a sua narrativa em um “caldeirão cultural”, disseminando, em vez disso, a noção de “pluralidade” como parte de um todo. Vale ressaltar que foi exatamente a não homogeneização ou a diversidade cultural indiana o fator preponderante para o seu fortalecimento como Estado-Nação. Nesse sentido, Rushdie (2006, p. 123), retrata os hábitos e principalmente a “desordem” que reina no cotidiano indiano na seguinte passagem:

Primos em silêncio... macacos presos por correias cessam seu alarido... serpentes enrodilhadas em cestas... e o adivinho a circular, vendo a história falar através de seus lábios. (Como terá sido?) O começo: “Um filho... e que filho!” E então a revelação: Um filho, sahiba, que jamais será mais velho do que a pátria dele... nem mais velho nem mais jovem”. E agora um medo real perpassa pelo encantador de serpentes, pelo homem dos mangustos, pelo consertador de ossos e pelo ambulante da carrocinha, pois jamais viram Ramram exprimir-se assim (RUSHDIE, 2006, p. 123).

Nesse trecho, Rushdie sublinha os principais ofícios do povo da rua, que desenvolve suas habilidades livremente através dos séculos, constituindo a cultura de massa transmitida de geração em geração. Entretanto, Singh (2010, p. 42), como observador pós-modernista, afirma que a Índia está passando por um período de grande turbulência exacerbado pelo terrorismo, os naxals e os separatistas, a violência religiosa provocada pelas mentalidades fechadas e a politização dos laços étnicos, religiosos e de casta.

Por outro lado, como resultado de ações de boa governança, a Índia tem alcançado resultados expressivos na área econômica, graças a uma nova ênfase na eficácia, na produtividade e na concorrência. Como estudioso dedicado da história e dos problemas do seu país, Singh tem sua particular visão do mundo pós-moderno, através da qual afirma que o direito à informação se tem revelado uma arma eficaz nas mãos do povo para controlar a corrupção, lutar contra as injustiças e fazer com que o governo se torne cada vez mais transparente.

A Índia pós-colonial, sob a perspectiva política e social de um político da atualidade, tem um caminho a percorrer: “a emergência da Índia como um ator global em termos políticos e econômicos nos próximos anos é evidente, juntamente com uma consciência cada vez maior do patrimônio cultural da Índia” (SINGH, 2010, p. 42). Salman Rushdie, sob um viés histórico, faz seu resgate cultural por meio da materialização de um romance destinado a levar a sua Índia às mais distintas localidades. O inglês, nesse sentido, tem aberto as mais diversas veredas, em conjunto com a tradução, que tem contribuído para o acesso à narrativa daqueles que não dominam o idioma no qual é veiculada. Dessa forma, a Índia também passa a pertencer a cada leitor, a cada um que se aventure pelo seu multiculturalismo, secularismo e demais maravilhas que ela e seu povo são capazes de ofertar a cada um de seus visitantes reais ou virtuais.

CAPÍTULO 3 CONFLITOS PÓS-INDEPENDÊNCIA: AS DIFICULDADES NO