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“Cantai, cantai a natureza, Cantai o amor e o bem, Cantai a pátria portuguesa E a nossa terra – Santarém! Cantando um cântico de glória Com muito engenho e muita arte Espalhou Camões por toda a parte, O resplendor da nossa história.”1

A 23 de Março de 1946, como já referimos, o Club Literário Guilherme de Azevedo organizou a conferência “Afonso Lopes Vieira, Poeta do Nacionalista do Ideal e da Beleza”, proferida pelo advogado e professor Manuel Busquetts de Aguilar e abrilhantada por um grupo coral infantil misto (quatro raparigas e nove rapazes) dirigido pela pianista Judite de Figueiredo David que cantou poemas do homenageado.2 O sucesso do grupo levou os dirigentes do Club à génese de um coro infantil misto e de um curso de solfejo tendo como público-alvo os descendentes dos sócios da colectividade com idade compreendida entre os cinco e os quinze anos.3 A sua regência ficou a cargo do maestro Luís Silveira coadjuvado pela pianista Judite David. O Coral Infantil Scalabitano, secção do Club Literário Guilherme de Azevedo, estreou-se no teatro Taborda, a 26 de Janeiro de 1948, após a conferência “A Acção das Artes na Cultura Popular”, pelo escultor Anjos Teixeira Filho. O grupo apresentou canções populares infantis, peças de Costa Ferreira, Tomás Borga e Silveira Pais, alguns solos de piano e recitativos.4 O coral era composto por cerca de quarenta cantores enquanto a orquestra integrava treze instrumentistas (um violoncelo, oito violinistas, um clarinete, um flauta, um rabecão e um flautim) entre os nove e treze anos.5

1“Hino do Coral Infantil Scalabitano” in BMS – Programas do Coral Infantil Scalabitano, 5/5/1952. 2Cf. Correio do Ribatejo, 30/3/1946, p. 6.

3Cf. Idem, 13/12/1947, p. 1.

4Cf. Idem, 24/1/1948, p. 2; 31/1/1948, p. 8 5Cf. Idem, 17/7/1948, pp. 1, 8.

A opereta em dois actos e quatro quadros “A Princesa Perolina”, escrita por Alberto Cardoso dos Santos, musicada por Luís Silveira e encenada por Guilherme Monteiro Pereira, foi uma das principais produções apresentadas pelo Coral Infantil. Esta fantasia infantil contava entre os seus personagens com um rei liberal de uma imaginário país, uma princesa que não ria, vários cortesãos intrigantes, um bobo da corte, anões, gente do povo, um pastor que não queria ser príncipe e uma bruxa. Todos se moviam no reino da Florilândia, numa mistura entre a realidade e a ficção. Os ensaios do coro e da orquestra infantil iniciaram-se em Outubro de 1948 e a estreia decorreu no teatro Rosa Damasceno, a 30 de Abril do ano seguinte, com repetição a 2 de Maio, revertendo a receita para o Centro Familiar e Social.6 A opereta encetou uma breve tourneé com uma passagem de êxito pelo Club Art e Sport, em Lisboa.7

Opereta “A Princesa Perolina”, teatro Rosa Damasceno, 30/4/1949. Fotografia Estúdios Grandella Aires cedida por José Carlos Garcia.

Nos seus espectáculos, o Coral apresentava reportório variado com preferência pelas peças de autores portugueses (Frederico de Freitas, Luís Silveira, Sampaio Ribeiro, Gonçalves Simões, Armando Leça, Gonçalves Simões, Joel Canhão) e pelos clássicos (Beethoven, Schubert, Fauconnier, Kuntz, Gounod).

6Cf. Idem, 23/10/1948, p. 8; 7/5/1949, pp. 4, 8; “O Coral Infantil Scalabitano” in Ribatejo, 2.ª série, n.º 6,

Dezembro de 1954, p. 124.

O Coral promoveu o ensino da música ao proporcionar inicialmente um curso de solfejo que se alargou ao ensino de diversos instrumentos. O primeiro curso de solfejo decorreu no ano lectivo de 1947-48, tendo os alunos recebido diplomas atribuídos por um júri presidido pelo maestro Frederico de Freitas (1902-1980) que, na distribuição dos prémios, elogiou quer os laureados quer o trabalho dos seus professores.8 Perante este sucesso, o Coral resolveu abrir inscrições para a frequência de um novo curso de solfejo desta vez aberto a todas as crianças da cidade (raparigas dos seis aos dezassete anos e rapazes dos seis aos quinze anos) que poderiam beneficiar de aulas de música gratuitas.9 Segundo o maestro Luís Silveira, pretendia-se que esses cursos de música dessem acesso ao Conservatório e permitissem a continuidade do Orfeão sem necessidade de recrutar músicos fora de Santarém.10

No final de 1949, o Coral passou a ser “… organizado, de molde a passar de um simples curso para uma instituição regular, com os seus estatutos e cortes gerentes…”11. Um grupo de associados do Club Literário Guilherme de Azevedo constituiu uma Comissão Directiva, presidida por Francisco de Raimundo de Azevedo Cordeiro, e promoveu uma assembleia-geral da referida colectividade onde foram aprovadas “…as bases do seu regulamento interno, permitindo-lhe admitir sócios individuais e colectivos que, pela sua quotização, possam suavizar os encargos que, dia a dia, vão aumentando…”12. O regulamento interno do Coral dava ampla autonomia à Escola de Música, conforme se pode verificar no anexo IX.

Apesar da autonomia expressa a partir de 1950, o Club e o Coral mantinham uma relação de grande proximidade, partilhando muitos dos sócios e a mesma sede. No entanto, essa autonomia permitia ao Coral obter mais apoios quer das entidades políticas da cidade quer dos “beneméritos” e amantes da música. O acesso ao Conservatório tornou-se um dos principais desafios do Coral, que elaborou o seu plano de estudos com duração de cinco anos, distribuídos pela secção geral que compreendia os três primeiros anos e a secção complementar de preparação para o ingresso. Do currículo escolar faziam parte disciplinas de “Língua Portuguesa”, leccionada pelo professor de Liceu Bernardo Neto, “História Pátria” e “Ginástica”, orientadas pelos professores Mário

8Cf. Correio do Ribatejo, 17/7/1948, pp. 1, 8. 9Cf. Idem, 25/9/1948, p. 2.

10Cf. Idem, 16/4/1949, p. 4. 11Idem, 29/10/1949, p. 1.

Maria e Armando Campeão.13 Em Fevereiro de 1950, estabeleceu-se um curso de música nocturno para os rapazes e raparigas que trabalhavam e que por isso estavam impossibilitados de frequentar o regime diurno.14 A direcção do Coral ficou a cargo de Joaquim Barros e Mattos, enquanto o trabalho pedagógico pertencia ao maestro Luís Silveira, a Judite Figueiredo David, a D. José Zarco da Câmara e, mais tarde, a Luís Fernandes.15 Ao maestro Silveira coube a missão de dirigir a Escola de Música que possuía uma “direcção juvenil” eleita e maioritariamente composta por raparigas.16 A madrinha do Coral era Teresa Augusta Vigário Pereira da Silva.

Em 1950, a Escola de Música contava com cinquenta e oito alunos, sendo que trinta e seis frequentavam o primeiro ano, quinze encontravam-se no segundo ano e os restantes no terceiro ano. Entre os alunos do segundo e do terceiro ano, doze aprendiam violino, enquanto seis optaram por piano e dois por violoncelo.17 Nesse ano, o júri que atribuiu os diplomas e as medalhas aos melhores alunos foi presidido pelo maestro e compositor Rui Coelho (1892-1986) que se deslocou a Santarém para o sarau de entrega de prémios realizado a 24 de Julho, no teatro Taborda.18 Esse maestro referiu-se ao Coral como uma obra “…tão nobre em valor e realidade…”19, enaltecendo “… a tarefa daqueles que se dedicavam a educar os filhos do povo, sem distinções de classes ou situações, dando-lhes cultura musical, nivelando-lhes a sensibilidade…”20. No ano seguinte, a Escola de Música manteve-se em funcionamento e por ela passaram “… dezenas de crianças de todas as condições sociais – filhos de sócios do Club Literário Guilherme de Azevedo, filhos dos sócios dos Sindicatos Nacionais, pequenos recolhidos do Asilo da Misericórdia – ali têm recebido uma cuidada preparação musical, que os tornará, num futuro muito próximo, imprescindíveis colaboradores das “grandes coisas” que então podem ser realizadas com êxito.”21. Na festa de encerramento do ano lectivo 1951-52, o Coral integrava quarenta e três coralistas enquanto a orquestra era composta por treze executantes de piano, violino e violoncelo.22

13Cf. Correio do Ribatejo, 25/2/1950, p. 2; 4/3/1950, p. 2. 14Cf. Idem, 4/3/1950, p. 2.

15Cf. Idem, 4/2/1950, p. 8; 11/3/1950, p. 4.

16A direcção era constituída por Aida Moreira Jacob (presidente), Maria de Lourdes Piedade Augusto

(secretária), Victor Manuel Faustino (tesoureiro), Silvete Cardoso Ferreira e Maria João das Neves Duarte (vogais). Cf. Idem, 21/1/1950, p. 1. 17Cf. Idem, 21/1/1950, p. 1. 18Cf. Idem, 29/7/1950, pp. 1, 8. 19Idem, 23/9/1950, p. 1. 20Idem. 21Idem, 6/10/1951, p. 1.

22Componentes do Coral: 1.ª Voz – Filomena Maria Suspiro, Tilita Amaral Cravador, Maria do Rosário

A partir do final de 1953, o Coral passou a participar nas “Horas de Arte” do Orfeão Scalabitano. A 4 de Maio de 1954, deslocou-se à Batalha e a Leiria integrado na visita organizada pelo Orfeão. Em Leiria realizou uma “matinée” a favor da assistência local, apresentando “Auto da Barca do Inferno”, numa adaptação infantil de Afonso Lopes Vieira. Na Batalha cantou junto à campa do “Soldado Desconhecido” um tema do maestro Luís Silveira, “Ode ao Soldado Desconhecido”.23No final do ano lectivo de 1953-54, passaram nos exames trinta alunos dos quatro anos de ensino, cinco dos quais do Asilo da Misericórdia, avaliados pelo júri constituído pelo pianista Campos Coelho, professor no Conservatório Nacional de Música, o maestro e director artístico do Coral Luís Silveira, a pianista Judite David e o professor Luís Fernandes.24

O surgimento do Círculo Cultural Scalabitano, fruto da união entre o Orfeão Scalabitano e o Club Literário Guilherme Azevedo, em 1954, levou o Coral Infantil a integrar uma secção desta nova colectividade, dirigido pelo maestro Luís Silveira. Em 1955, a Escola de Música do Coral contava com a direcção artística do maestro Joel Canhão, sendo frequentado por cento e trinta alunos com idade média de dez anos.25Às aulas de música (coral e instrumental) associaram-se aulas de dança clássica e regional. A partir de 1956, à lista de colaboradores da Escola juntaram-se os professores de piano, Maria de Lurdes Hintze Ribeiro e de violino, João Torres Costa. A secção sofreu algumas reformas, nomeadamente pedagógicas, com o afastamento do músico Luís Fernandes, em 1959. O Coral, a Orquestra de Cordas e a Escola de Música passaram para a direcção de Manuel Afonso.26 No entanto, a crise que afectou nesse período o

Helena Peças de Magalhães, Helena S. Bicudo Martins, Rosária Maria Mateus, Maria Irene da Graça, Maria João das Neves Duarte, Silvete Cardoso Ferreira, Isabel Maria de Figueiredo David, Emília Maria das Neves, Maria Noémia Gameiro; 2.ª Voz – Herculano Ferreira Joaquim, Orlando Baptista Ferreira Mendes, António Pereira de Castro, António Rodrigues Santos, José Silvestre Ferreira, Glaucia Castro Varzielas, Maria Judite Nogueira, Laura Maria Pereira de Castro, Maria Virgínia Vieira, Arseolinda Antunes, Maria de Lourdes de Oliveira, Maria Etelvina Ferreira da Silva, Maria de Fátima Ferreira da Silva, Gisela Maria da Graça; 3.ª Voz – Manuel Beirão, Leandro de Jesus Osório, José Jesus Alves, António Gerardo, António Vassalo, José Faria da Costa, Francisco Gomes da Graça, Humberto Soares, José Baptista Alves, José Pereira Duarte, Luís Marques Maria, Rui Pereira Lúcio, José da Silva Matos, José M. de Oliveira.

Componentes da Orquestra: Pianista – Rosária Maria Caetano Mateus; Violinistas – Orlando Baptista Ferreira Mendes, Maria João das Neves Duarte, Silvete Cardoso Ferreira, Maria Etelvina F. Ferreira da Silva, Maria de Lourdes de Oliveira, Herculano Ferreira Joaquim, Maria Judite Nogueira, José Manuel Alves, Francisco Gomes da Graça, Maria Virgínia Vieira; Violoncelistas – Maria Irene da Graça, Marília Nogueira Bastos. BMS – Programa do Sarau do Coral Infantil Scalabitano, 5/5/1952.

23Cf. “O Coral Infantil Scalabitano” in Ribatejo, 2.ª série, n.º 6, Dezembro de 1954, p. 124. 24Cf. Correio do Ribatejo, 26/6/1954, p. 8.

25Cf. Circular n.º 3, Santarém, Círculo Cultural Scalabitano, 16/2/1955. 26Cf. Circular n.º 13, Santarém, Círculo Cultural Scalabitano, 10/10/1959.

Círculo Cultural Scalabitano foi determinante para a extinção do Coral Infantil no início da década de 60. Para trás deixou formação musical a muitos escalabitanos que de outra forma não a teriam obtido.