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3. Tests de performance

3.3. Les tests de performance

3.3.2. Performances du système

Tradicionalmente, a Semântica é a subteoria da ciência da linguagem dedicada ao estudo da significação que se expressa através das palavras, frases e sentenças de uma língua (CANN, 1993). Sendo, portanto, a disciplina default da Linguística ocupada com o significado, seu objetivo é oferecer descrições que sustentem adequadamente explicações a respeito da natureza do componente representacional da linguagem natural – como, através desse sistema arbitrário de signos simbólicos, é possível representar algo externo a ele; em outras palavras, como a linguagem pode significar. Afinal, desde Saussure, ficou metodologicamente mais claro que, embora o significante seja algo sensível, o significado é apenas perceptível. É bom lembrar que, para ser linguisticamente relevante, qualquer investigação sobre a significação da linguagem natural deve contemplar aspectos do significado que, de uma forma ou de outra, estejam codificados nas expressões linguísticas, ou seja, partam dos elementos explicitamente expressos nas proposições.

Num nível mais sofisticado, envolvendo não mais apenas a descrição da relação entre proposições e um determinado estado de coisas, mas o uso da linguagem e propriedades extralinguísticas da situação comunicativa, o componente representacional da linguagem permite também a recuperação de informações que estão além daquelas codificadas. A acomodação teórica dessa faceta da LN foi uma das mais complexas e debatidas conquistas da Linguística, aspecto cuja urgência por tratamento, embora nascida no seu arcabouço teórico, só encontrou solução na pesquisa interdisciplinar, inicialmente, a partir de um encontro com a Filosofia, quando, passou-se a vislumbrar possibilidades metodológicas para a retomada das investigações sobre o significado na Linguística.

Por muito tempo, a existência de uma área específica orientada ao estudo do nível semântico não produziu – nem na tradição, nem na Linguística científica – investigações com resultados expressivos a respeito da natureza desse aspecto nuclear da linguagem natural (MATTOSO CÂMARA Jr., 1990; COSTA, 1984; GEDRAT, 1986). Isso acarreta, obviamente, lacunas

importantes no que se refere ao conhecimento sobre a própria linguagem. Operacionalmente falando, podemos dizer que essas dificuldades não foram por falta de esforço, mas de jeito – e por „jeito‟ entendemos metodologia.

Na tradição dos estudos da linguagem – que envolve a Gramática Normativa, a Filologia e a Gramática Comparativa –, verifica-se uma atitude metodológica do tipo observacionalista, segundo a qual os fenômenos a serem estudados eram considerados objetos pré-existentes no mundo, e, portanto, dependiam de serem descobertos para daí serem conhecidos. O significado, dessa forma, ao invés de ser tratado como algo intrateoricamente determinado, era tomado como objeto real; e, nessa concepção, antecedia a qualquer proposta desenvolvida para estudá-lo. Por outro lado, tais propostas também se caracterizavam por uma atitude amplamente descritivista: arrolavam-se propriedades, mas pouco se tinha a dizer sobre sua natureza, ou seja, havia uma carência de explicações consistentes.

Além disso, qualquer que fosse a abordagem do significado, ela não estava livre de perceber que aspectos de diferentes naturezas, a saber, psicológicos, culturais, históricos, filológicos, lógicos, etc., influenciavam na determinação do significado linguístico para fins específicos. Dada a quantidade de fenômenos envolvidos na configuração do mesmo, a tradição não pôde oferecer mais do que explicações metafísicas e/ou especulativas devido à dificuldade, de certa forma previsível, considerando-se a fragilidade metodológica das propostas, qual seja, a de se tentar sugerir generalizações, só que a partir de modelos muito abrangentes e heterogêneos, ou seja, que envolviam tantos elementos e de diferentes naturezas, mas de tokens, ao invés de types, da linguagem.

Nesse sentido, a tradição contemplava e reconhecia a possibilidade do significado de uma expressão ir além daquilo que está codificado e o fato de que isso interfere na interpretação do enunciado. No entanto, ficava enfraquecida enquanto proposta teórica quando procurou dar conta do significado em LN sem enfrentar as consequências metodológicas impostas pela natureza e pelo papel dos aspectos que estão envolvidos na constituição do mesmo. A Linguística científica  pós- saussuriana  não estava em posição mais confortável. As propostas dos paradigmas fortes, o Estruturalista6 e o Gerativista7, haviam sucumbido às especificidades do fenômeno da significação; tinham-se críticas consistentes, mas não alternativas.

Não estamos dizendo que a tradição estivesse equivocada nem que a Linguística científica não tivesse motivos para ficar metodologicamente perplexa frente ao significado em LN, e, em especial, em relação ao seu comportamento nas práticas comunicacionais, afinal, o significado linguístico está envolvido com muitas propriedades, como vimos; o que redunda numa incrível suscetibilidade a variações em relação a contextos e intenções.

Feitas essas considerações, é possível apontar alguns aspectos gerais sobre o problema central para o avanço do conhecimento sobre o significado. Dentro dos estudos pré-científicos, isso se deve à prolongada carência de metodologias adequadas. Já no caso da Linguística científica, o problema

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Citamos o empiricismo behaviorista de Bloomfield e a Teoria dos Campos semânticos de Trier (LYONS, 1987). 7

Aqui referimo-nos às crises do paradigma gerativista, em especial, às críticas de Katz e Fodor (1964) e Katz e Postal (1964) aos modelos chomskianos (apud COSTA, 1984).

pode ser modelado como uma espécie de dilema: ou os modelos garantiam suas identidades teóricas e, consequentemente, suas conquistas nas áreas da Fonologia e da Sintaxe e optavam por manter investigações sobre o significado fora de seus núcleos, ou acomodavam o componente Semântico, alterando seus pressupostos teóricos. Essa segunda opção acabaria comprometendo os avanços já alcançados, arriscando os resultados já obtidos e enfraquecendo aqueles que iriam se seguir.

O ponto crítico da premência por investigações sobre o significado na Linguística surgiu quando as incontestáveis contribuições, fruto de abordagens de natureza abstrato-formal, durante a vigência dos modelos chomskianos, não foram suficientes para aliviar as críticas de estudiosos como Lakoff (1971) e Mc Cawley (1971). Eles reclamavam um tratamento para uma espécie de lógica da linguagem natural, identificada na sua propriedade comunicacional: seu uso em contextos específicos

– aspecto desde Saussure8

, e ratificado por Chomsky9, metodologicamente excluído da Linguística. Nesse momento, a pesquisa interdisciplinar promoveu o encontro entre a Filosofia e a Linguística.

Como vimos, Hacking (1999, p. 12)apresentou com muita propriedade a atitude da Filosofia em relação ao componente semântico da linguagem natural ao declarar: “... a teoria pura do

significado não interessa muito à filosofia, embora a linguagem interesse”10

. Questões semânticas estão no âmago dos interesses da Filosofia. Como o próprio Mey (1993) salienta, é muito interessante o fato de terem sido os filósofos, e não os linguistas, os primeiros a se debruçarem sobre questões referentes à relação significado e uso da linguagem.

No entanto, isso não é espantoso, pois há aspectos do significado em LN que têm consequências para questões nucleares com as quais a Filosofia se preocupa. Por exemplo, o fato de a linguagem ser via essencialmente única para o conhecimento – não é à toa que as indagações de Sócrates, nos Diálogos de Platão, envolvendo Teeteto e Crátilo, ecoam até hoje –, bem como ser veículo de expressão dos fundamentos da ciência. Além disso, é também importante considerar a significação e aspectos relacionados à configuração de argumentos em linguagem natural.

As maiores contribuições dos estudos filosóficos podem ser verificadas, em especial, através dos debates entre duas tendências. Na primeira, encontramos o positivismo de teóricos como Frege ([1982], 1978), Russell (1905), inicialmente, e, mais tarde, Wittgenstein (1921), Carnap (1950) e Tarski (1944) – denominados de filósofos da lógica –, os quais se dedicaram ao estudo da relação linguagem/mundo, privilegiando a natureza da questão semântica referente ao significado como representação livre de qualquer interferência comunicacional ou de empregos específicos. Como dito, embora estagnados na Linguística, na Filosofia, estudos sobre o componente semântico da LN foram fortemente impulsionados. Tais investigações, contudo, à luz de modelos lógico-matemáticos, produziram abordagens formais que contemplavam a forma e o significado linguísticos.

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Referimo-nos ao conceito de „parole‟ proposto por Saussure e apresentado na obra Curos de Linguística Geral. 9

Referimo-nos ao conceito de „desempenho‟ proposto por Chomsky (1957). 10

As propriedades do caráter representacional da linguagem passam a ser objeto de atenção dos filósofos. E este mostrou-se complexo, interessante e problemático, não só do ponto de vista dos fenômenos que os usos específicos da linguagem geram, mas também do ponto de vista do desenvolvimento de modelos para tratar tais aspectos.

A linha positivista, por exemplo, estuda a linguagem não do ponto de vista natural, nem do comunicacional, mas a partir da sua estrutura lógica na interface com a Semântica. Assim, interessa, antes de mais nada, segundo Mey (1993), a relação dos enunciados uns com os outros, não deles com os fatos – aqui já estaríamos no terreno da semântica propriamente dita. No entanto, a linguagem e sua propriedade representacional estão igualmente envolvidas em outros aspectos de interesse da Filosofia, tais como as relações entre mente, linguagem e mundo; contemplando mais especificamente, aspectos referentes à representação, significado, verdade e comunicação. E, por nortearem as investigações, o estudo de tais fatores e suas inter-relações motiva o desenvolvimento de propostas teóricas.

Nesse sentido, a segunda tendência, contando com teóricos como Strawson (1950), Wittgenstein (1953), este, em especial, – a partir de seus estudos sobre jogos de linguagem, desenvolvido no texto Investigações Filosóficas11 –, Grice (1967/1975), Austin (1962) e Searle (1969) – ou filósofos da mente –, tratou da significação procurando identificar, na relação linguagem/usuário, a partir do ato comunicacional, o papel da intenção e do contexto como elementos também determinantes da configuração do significado em LN. A Pragmática é fruto das reflexões desenvolvidas à luz dessas orientações.

Embora cada grupo tenha trilhado caminhos metodológicos radicalmente diferentes, e até mesmo apresentando dissidências internas12, ambos foram cruciais para o desenvolvimento, em especial, da Filosofia da Linguagem e da Linguística. Isso porque, através do trabalho dessas correntes, configurava-se uma nova perspectiva para a abordagem do significado da linguagem contemplando aspectos de natureza lógico-linguístico-filosófico-comunicacionais. A Pragmática consiste, sem dúvida, em uma das grandes contribuições da Filosofia para a Linguística, pois investiga justamente as implicações do componente representacional da linguagem natural e suas relações com contextos – daí ser considerada um marco na troca de paradigmas para o estudo do significado (COSTA, 1984).

A fim de identificarmos, e metodologicamente isolarmos, o fenômeno de significação que nos interessa, apresentaremos alguns aspectos da evolução histórico-teórica dos estudos da Filosofia da Linguagem bem como exemplos ilustrativos. Começamos com os filósofos da lógica. Para eles, um dos aspectos importantes envolvendo o estudo do significado eram as implicâncias do mesmo para a determinação do valor-verdade das proposições.

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Obra em que ele contesta sua postura quanto ao tratamento da linguagem, privilegiando a partir de então o papel de elementos extralinguísticos na determinação do significado total de um enunciado.

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A fim de tentar dar conta da variação da significação, Grice aproxima-se de Wittgenstein e de Austin. No entanto, considera que esses teóricos ampliaram a utilidade da noção de contexto para explicar a variação do significado. Wittgenstein (1953) e Austin (1962), respectivamente, emparelharam o significado com o uso (significado = uso) através dos conceitos de “jogos de linguagem” e “atos de fala”. Nisso consiste, basicamente, a oposição de Grice a esses teóricos. Segundo ele, se se deseja verificar a variação do significado, é preciso fazer menção à intenção do falante: o que as palavras significam é uma questão do que as pessoas significam com elas (SARTORI, 1999, p. 24).

Tendo como ponto de investigação as propriedades formais da linguagem, esses filósofos identificaram fenômenos intrínsecos ao significado linguístico13, os quais foram tomados como evidência para a ilogicidade da linguagem natural. Ou seja, quando a propriedade representacional da LN é usada para fins específicos ou comunicacionais gera efeitos de significação que não podem ser tratados por modelos formais com base da lógica standard, como, por exemplo, o da Semântica das Condições-de-Verdade.

Fenômenos como (1) a alta dependência de fatores contextuais, (2) a vaguidade14, (3) a ambiguidade, (4) a capacidade de referir a objetos que não existem, (5) o desacordo com a lógica standard na medida em que não respeitam as inferências tradicionais, e (6) o fato de a parte lógica da linguagem não ser transparente na estrutura de superfície (ou gramatical) caracterizam uma faceta, de um ponto de vista teórico, desagradável da linguagem natural, pois não favoreciam o seu emprego como veículo de expressão da ciência, daí o rótulo „ilógica‟. Vejamos cada um individualmente. (1) A: Você já votou?

B: Meu título de eleitor está em cima da mesa.

(2) O resultado da Flórida foi anunciado muito cedo.

(3) É importante salvar o mundo dos republicanos.

(4) O César dos Estados Unidos quer ser reeleito.

(5) Se a contagem dos votos foi honesta, Gore venceu. p  q A contagem dos votos não foi honesta.__________ ~p

Gore não venceu. ~q

(6) Bush é republicano. Rb

O texano é republicano. (x) (Tx Rx)

Em (1), ao dizer que o título de eleitor está em cima da mesa, A tanto pode querer dizer (i) já foi votar ou (ii) que está se preparando para ir votar – a dependência contextual e as duas possibilidades são inegáveis. É importante também observar que o significado exato não está codificado, embora possa ser perfeitamente capturado dentro de situações comunicativas determinadas. Já em (2), quanto ou quando é cedo? Percebe-se também a necessidade de elementos contextuais. O enunciado (3) permite tanto a interpretação de que é importante salvar o mundo de forma que nenhum republicano venha governá-lo ou é importante que algo como „o mundo daquelas

pessoas que são republicanas‟ seja salvo. O enunciado (4) fala de algo que não existe: o César dos

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Frege, por exemplo, no final do século XIX, chamou atenção para o problema da pressuposição e sua relação com o contexto. Pierce, na mesma época, fez menção à relação entre os signos e os seus interpretantes. Mais tarde, Wittgenstein (1953), embora inicialmente positivista, salientou a importância do contexto para a significação através do conceito de „jogos de linguagem‟.

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Segundo Ilari (2001), a linguagem é instrinsecamente indeterminada, ela é dita vaga quando não existe um critério único e seguro para decidir a que objetos a aplicaríamos.

EUA. Em (5), temos um raciocínio perfeitamente compreensível e plausível comunicacionalmente expresso através de uma forma lógica inválida, conhecida como a Falácia do Modus Ponens. Em (6), é possível perceber que, apesar das sentenças terem a mesma estrutura gramatical, apresentam uma estrutura lógica diferente.

Tais particularidades foram tratadas como defeitos lógicos da LN e usadas como evidência para demonstrar e sustentar a tese de que ela não permite a derivação de raciocínios exclusivamente válidos, aspecto que tem profundas e cruciais consequências para a construção de modelos teóricos que se pretendam rigorosos. Contudo, mesmo sendo problemáticos de um ponto de vista lógico, todos esses exemplos podem ser acomodados e usados de forma comunicacionalmente eficiente; daí a suposição da existência de algo que pode ser tratado como uma espécie de lógica da linguagem, afinal, a comunicação não é caótica, mesmo apesar da grande quantidade de elementos envolvidos tanto explícita quanto implicitamente.

Embora a Pragmática estivesse delineando-se como alternativa para dar conta de tais fenômenos, havia opositores. Russell, por exemplo, foi uma das vozes contrárias mais fortes ao desenvolvimento de abordagens de natureza pragmática, diz ele na obra História do Pensamento Ocidental:

Em filosofia, observa-se um desenvolvimento bastante semelhante [psicologia associacionista] ao de certas formas da Linguística, que abandonam o significado no sentido tradicional e substituem o uso efetivo da linguagem, ou a disposição para utilizá-la sob certas maneiras na ocasião adequada. Assim como os cães de Pavlov, pretende-se que salivemos em vez de pensar (RUSSELL, 2001, p. 426, grifo nosso).

A crítica de Russell procede quando pensamos em abordagens especulativas e nos propósitos e natureza das investigações que ocupavam o filósofo. No entanto, na ciência contemporânea, em especial, a partir do entendimento de Thomas Kuhn (1962)15, a questão metodológica antecede a qualquer outra coisa, e, portanto, nada impede que as especificidades que o uso da linguagem natural acrescenta à configuração do seu componente semântico sejam metodológica e kuhnianamente enfrentadas.

Embora tais aspectos fossem indesejáveis, do ponto de vista positivista, não se pode negar que eles fazem parte da natureza da linguagem natural e podem ser perfeitamente empregados na comunicação. Assim, se, por um lado, foram considerados pelos filósofos da lógica como obstáculo que desestimulava investigações, os filósofos da mente tomaram-lhes como um conjunto de elementos motivador, promovendo e justificando estudos de natureza pragmática – do ponto de vista dessa outra tendência da filosofia, tais aspectos precisavam ser metodologicamente acomodados e tratados.

Segundo os filósofos da mente, especialmente para Grice, as particularidades da linguagem necessariamente não eram prova da sua inconsistência. O próprio Russell, embora condenasse a

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E, como veremos, a partir de outros autores que têm tratado da questão de metodologia, a saber, Poeppel (2004) e Giere (2006).

vaguidade da linguagem natural, tendo em vista seu programa de investigação, reconhecia a importância dessa propriedade justamente como um recurso para otimizar a comunicação16. Além disso, a linguagem natural, mesmo não funcionando exatamente segundo os padrões da lógica standard, apresenta uma lógica que permite, de forma perfeita, a objetividade na e da comunicação, inclusive, para a prática da argumentação.

A Semântica restringe-se às questões do significado que independem do uso, do usuário e do contexto no qual uma expressão foi empregada  ou seja, ela ocupa-se exclusivamente da proposição que, por hipótese, deve ter um valor, um significado estável. Entretanto, a compreensão da natureza e da configuração do significado linguístico, especialmente quando a LN é empregada para fins específicos e/ou comunicacionais, envolve o tratamento das variações e dos aspectos envolvidos na geração e percepção de conteúdos a mais. Nosso trabalho é, como já fica claro, construído à luz de um dos possíveis encaminhamentos para esse fenômeno, a saber, tratar essa flexibilidade do significado via Pragmática.

Embora inicialmente disputando com a Semântica o terreno das investigações sobre a significação, hoje, a Pragmática, devido à consistência metodológica que vem alcançando, passou a dividir com ela tal tarefa, apresentando-se como uma importante aliada na Linguística no que tange aos problemas que esta enfrentava para abordar o significado. Isso permitiu, por um lado, um grande avanço no conhecimento do significado em LN, sem comprometer o rigor da Semântica; por outro, consolidou um novo paradigma que tem trazido contribuições sobre facetas e especificidades do fenômeno linguístico e tem auxiliado no desenvolvimento de novas metodologias.

De acordo com Chierchia (2003, p. vii) “as línguas, por trás de sua fluidez, têm um esqueleto

lógico”. Como foi dito, e será mais bem demonstrado através dos exemplos a seguir, embora

estagnada na Linguística, a Semântica avançou seguindo um rumo formalista – e abstrato –, cuja preocupação maior envolvia as condições sob as quais uma sentença é verdadeira ou falsa (MEY, 1993), e desenvolvendo procedimentos formais importantes para descrever certas propriedades da LN. Contudo, vários aspectos exclusivos da interação linguística, cruciais para esclarecimentos a respeito da natureza do significado linguístico e para a lógica da linguagem natural, não eram capturados por tais abordagens. A íntima relação dessa semântica com a lógica, ao permitir a identificação de propriedades essencialmente formais da linguagem natural, contribuiu com um tratamento descritivo-explanatório rigoroso para questões da significação; limitado, contudo, especialmente à referência e às condições-de-verdade.

Vejamos. Segundo a lógica formal, a molécula „p  q‟ e sua alternativa „q  p17‟ – formadas por duas proposições e pelo conetivo „e‟ – devem ter o mesmo significado, o que corresponde a dizer que devem ter as mesmas condições-de-verdade. Portanto, a sentença abaixo, em linguagem natural, é perfeitamente descrita pelo modelo e compatível com as suas predições.

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Costa (2002), disciplina Seminário de Semântica, em comunicação pessoal. 17Sendo „p‟ e „q‟ proposições quaisquer.

(7) Gore é democrata e Bush é republicano. p Λ q

Em (7), para fins de interpretação, é indiferente a ordem usada para enunciar a sentença. A

propriedade do conetivo „e‟ – cujo símbolo formal é „‟ –, prevista pela lógica e adotada pela

semântica das condições-de-verdade, parece manter-se. A alteração da ordem das proposições dentro do período não caracteriza uma alteração do seu significado original. O tratamento de (7) não oferece, portanto, nenhum problema para uma teoria semântica, e cujo significado pode ser perfeitamente descrito e explicado dentro de uma semântica teórica de modelos, por exemplo.

Um dos momentos mais tensos que disparou o debate entre republicanos e democratas na eleição presidencial americana de 2000 foi quando Gore, dados os resultados da Flórida, acreditando que não poderia vencer, ligou para Bush e disse que estava desistindo da disputa – o que faria de