Antes de concluirmos este capítulo, vamos apresentar trechos de um dos discursos analisados que apontam para a existência de uma outra representação social do climatério. Mesmo que encontremos, nessa fala, muitos elementos comuns aos demais discursos, de acordo com as hipóteses formuladas por Abric (1994), temos, neste caso, uma estruturação diferenciada de um mesmo conteúdo. Vejamos o que diz essa profissional da saúde.
Eu não me sinto em nenhum estado diferente da minha vida inteira. A única coisa que eu sinto em... eu acho que eu tenho assim, assim... Eu sou uma pessoa hoje nessa fase... quando eu me vejo assim com mais idade, com a maturidade, bem madura mesmo, eu diria que eu me sinto assim... num, num... realizada, entendeu? Mais tranqüila, mais calma. Me sinto mais tolerante porque (pausa longa) também não sei se é porque eu faço opção por prática alternativa. Então, o fato que eu já vou para 18 anos que não como carne vermelha. Então não sei se isso aí vem me ajudando
também aí, aí, (pausa longa) me torna menos assim, mais compreensiva, menos agressiva (...) Então eu acho que se eu parasse para pensar sobre o climatério... então eu acho que esse é o momento... pra mim tem sido uma fase boa da minha vida, porque eu não estou mais com crianças pequenas, meus filhos já são grandes, já são independentes, eu hoje tenho mais condições de me dedicar ao meu trabalho, de me dedicar às coisas que eu gosto, às leituras((S3)
Observemos que a ênfase deste discurso não está centrada nas
qualificações do objeto, tais como, “doloroso”, “muito difícil” ou que “amedronta”, mas em expressões do tipo “eu me vejo assim com mais idade, com a maturidade, bem madura mesmo, eu diria que eu me sinto assim... num, num... realizada, entendeu?” Vejamos um pouco mais:
Mas... mas até hoje não sinto assim... esses... sintomas que muitas companheiras minhas da minha idade sentem, né? De acordar assustada, de ter insônia, de ter palpitações, de ter um calor fora de série. Na verdade, agora, ultimamente, eu tenho sentido muito calor, mas eu acho que Natal tá muito, tá muito quente, né? Mas eu não sinto assim nada desses outros... sintomas... eu não senti ainda não (...) Ás vezes eu fico esperando a toda hora que aconteça (risos), mas até aqui não aconteceu(S3).
Sim, uma coisa que às vezes me ocorre... às vezes, nessa idade agora, talvez mais do que nas outras é de pensar assim, um pouco assim... em doenças. È interessante eu antes vivia assim minha vida com 30, 40, vinte e tantos anos eu não estava assim preocupada com as doenças, mas hoje eu noto que tenho uma preocupação... assim, com as doenças, não é? Qual a doença que a gente vai ter, o que vai aparecer em mim. Aí vem essa coisa que eu tenho de nódulos mamários, né?(S3)
Como se pode constatar, esta profissional da saúde não deixa de compartilhar de vários elementos do conteúdo da representação social hegemônica. Por exemplo, a associação do climatério com o processo de
envelhecimento e o sentido “doença”. Observemos que ela, mesmo dizendo não sentir os “sinais” do climatério “espera” por eles. Influenciada pela representação hegemônica, ou seja, pelo sentido hegemônico circulante nas interações cotidianas, ela imagina o momento em que poderá vir a sentir os “anúncios” do climatério. Da
mesma forma, embora se sentindo uma pessoa saudável, hoje começa a pensar mais nas doenças que pode vir a ter: “É interessante eu antes vivia assim minha vida com 30, 40, vinte e tantos eu não estava assim preocupada com doenças...”. Tem-se, assim, o exemplo de um agente que compartilha elementos de um mesmo conteúdo, mas que os articula em um outro campo semântico. Relembrando o que diz Abric (1994), duas representações sociais podem ter o mesmo conteúdo, mas serão diferentes porque esse conteúdo estará organizado em núcleos distintos. No nosso caso, o conteúdo representacional apreendido articula-se, de modo
hegemônico, em torno dos elementos velhice/doença. Todavia, a partir do discurso aqui analisado, podemos perceber que o mesmo conteúdo está submetido a uma outra organização cuja centralidade é dada pelo campo semântico “maturidade”.
Uma outra evidência dessa diferente organização representacional é o fato da mesma resultar em orientações práticas distintas. Como temos destacado, desde o Capítulo I, as representações sociais constituem uma modalidade de saber que tem por finalidade orientar as ações e práticas das pessoas no seu cotidiano. Portanto, o sentido que elas constroem para um determinado objeto visa também a orientar as suas práticas e ações em relação ao mesmo. No discurso das
profissionais de saúde que analisamos anteriormente predomina uma atribuição negativa de sentido ao objeto o que, no plano da ação, suscita atitudes de “medo”, “de fase difícil”, de tentar fugir dos sinais do climatério através da reposição
hormonal ( tentativa esta profundamente influenciada pelo discurso
medicamentoso ), de apego à estética corporal e adesão ao culto mercantilista da eterna juventude, entre outras. Neste último discurso, constata-se, pelo contrário, uma atribuição de sentido positiva. Nota-se que, apesar de compartilhar da crença de que o climatério aproxima a mulher da doença mais que antes, de sentir a influência das relações de gênero sobre a mulher nesta fase ( “o climatério é mais
pesado para a mulher” ), essa profissional indica compartilhar uma representação que a orienta para atitudes mais positivas diante da vida.
(...) Como fase da vida, eu digo que é uma fase nova e tudo, é a única coisa que me ocorre, esse lado mais companheira do meu companheiro. A gente combina muito, a gente tem muitas coisas parecidas, não é? Tem muita aproximação e, com o todo assim, me sinto bem. E, não sei quando chegar... encarar o outro lado, assim, fisiológico. Mas... mas até hoje não sinto assim...esses... os sintomas que muitas companheiras minhas de idade sentem, né?(S4)
Comparando os nossos achados até aqui, constatamos a justeza das hipóteses e princípios formulados por Serge Moscovici sobre a relação ativa do ser humano no processo de construção das representações. Sendo uma versão e extensão do sujeito social as representações traduzem, como estamos percebendo, as suas particularidades tanto no plano objetivo quanto subjetivo. Não existe,
portanto, uma relação mecânica entre estruturas objetivas e subjetivas na
construção simbólica do mundo. No processo de construção dos sentidos para o mundo que lhes rodeia, os sujeitos atuam, de forma criadora e estruturante, dentro dos espaços que, em última instância, estabelecem os limites de suas ações.