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CHAPITRE 1: FONDEMENTS THÉORIQUES & CONCEPTUELS

8. Les conduites de décision et de préaction motrices

8.4. Le rôle de la perception dans la prise de décision motrice

8.4.3. La perception auditive

3.1 Selecção da Oferta de FP para o EPT

A escolha dos cursos de FP no EPT e no Sistema Prisional em geral baseia-se, principalmente, no seu índice de empregabilidade. Uma vez que o grande objectivo é a reinserção social, a aposta é a formação de competências para melhorar a empregabilidade do recluso, uma vez que o desemprego é uma causa forte de exclusão. Em menor grau, mas também importante, são as sugestões das reclusas, que chegam às técnicas através de impressos e em contactos com as reclusas.

3.2 Divulgação da Oferta de FP no EPT

As reclusas tiveram conhecimento do curso de formação através de cartazes afixados nos vários locais do EP, através de outras colegas que viram os cartazes e ainda, através do trabalho das técnicas que informam determinada mulher de acordo com o que conhecem da mesma.

3.3 Destinatários da FP nos EP

Para poder frequentar uma acção de FP a candidata tem de estar condenada. Em relação aos presos preventivos, apenas se podem inscrever se os serviços tiverem indicadores que permitam concluir que o sentido é de condenação. Se forem cursos financiados pela UE, estão excluídos aqueles que não residem dentro destas fronteiras, estando esta situação a ser avaliada, no sentido de se proporcionar oferta de FP a nacionalidades extra-UE.

3.4 Motivos que levam as reclusas a frequentarem a FP

Os cursos de FP no EPT têm tido uma boa adesão, visível pelo número de interessadas que se inscrevem (60 inscrições para 14 seleccionadas). No entanto, esta procura de FP não surge espontaneamente ou por necessidade específica da reclusa. De acordo com a técnica, como se viu anteriormente, sendo esta uma população imediatista, procura os benefícios que a frequência na FP pode oferecer, a saber, a bolsa de formação e a boa apreciação comportamental para o juiz. Já a formadora, refere que os reclusos vão para a FP porque é o que existe dentro do EP e o seu estado de fragilidade leva-os a ter

uma atitude cooperativa e de aceitação com as ofertas apresentadas. Refere ainda que a ocupação do tempo, a terapia e a bolsa de formação são motivos que levam as formandas à FP e, finalmente, a procura de habilitações. Nas palavras das próprias, verificou-se que as razões apontadas são: a) a aprendizagem e a certificação; b) para passar o tempo; c) como terapia; d) pela facilidade dos contéudos; e) motivadas pelas técnicas ou pelas guardas e f) (embora com algum pudor, como foi referido) pela bolsa de formação. Os motivos económicos e ocupacionais foram também detectados no estudo anteriormente apresentado por Santos et alli (2003) e têm relação directa com o imediatismo e o estado psicológico referido pela técnica e pela formadora e, em menor grau, por uma ou outra reclusa.

3.5 Selecção dos Formandos

Como se concluíu anteriormente, a selecção dos formandos é feita em várias fases. Após as inscrições, seguem-se: a) um levantamento da situação jurídica; b) a emissão de um parecer médico (psicológico/comportamental/físico); c) emissão de parecer da Chefe das Guardas; d) “mini-reunião” de pré-selecção das técnicas do SEE; e) se o parecer for favorável nesta reunião as reclusas fazem testes psicotécnicos.

A aplicação destes testes é da responsabilidade da entidade formadora, no caso, CJP, embora a formadora no curso não faça parte em nenhum momento do processo de selecção ou na aplicação dos testes. As reclusas consideraram-nos relativamente fáceis. A formadora e a técnica questionam a fiabilidade destes testes. A formadora questiona porque já deparou com situações onde os formandos, depois de serem seleccionados e de já estarem na formação, mal sabiam ler e escrever.

O último passo antes do início da FP é a assinatura do contrato, altura em que as formandas têm de fazer um compromisso de que não fogem e que são assíduas. Para ajudar a carregar de significado a FP, é realizada uma cerimónia de abertura da FP e uma cerimónia de fecho, muito participada pelas reclusas.

3.6 Sessão de Formação

Como decorre uma sessão de formação? No curso de Jardinagem EFA B3 a decorrer em Tires, a formação tinha início por volta das 9.15h até às 11.45h, depois das 14.15h às 16.45h, o que corresponde ao horário normal das brigadas, dentro do EPT. As sessões de formação dividem-se em sessões teóricas, da parte da tarde, e sessões práticas, da parte da manhã, podendo esta planificação ser alterada. As formandas começam por

assinar as folhas de presença. Se for uma sessão teórica, sentam-se e assistem à aula. A formadora vai explicando e, na maior parte das vezes, as formandas tiram apontamentos. Também realizam trabalhos de grupo, cuja constituição se baseia na afinidade das formandas umas com as outras sendo, por isso, mais ou menos sempre os mesmos grupos, mas algumas reclusas referem gostar muito desta opção. Na parte prática, as formandas trabalham nos terrenos de Tires, todos potenciais jardins, e fazem o trabalho de raiz, desde a adaptação do solo até à construção final e manutenção.

Estas sessões teóricas e práticas consistem na Formação Tecnológica (Unidades de Curta Duração). A parte preferida das formandas é a parte prática, uma vez que lhes permite trabalhar “na rua” e porque algumas têm familiarização com a agricultura, tem também familiarização com os conceitos e os materiais utilizados no âmbito da Jardinagem. Já a parte teórica levanta algumas dificuldades, por vezes pela nomenclatura dos elementos da Jardinagem e pelo volume de conhecimento necessário.

3.7 Aprendizagens e Interesse pelos assuntos ministrados

De um modo geral, as reclusas gostam do curso. Gostam porque lhes permite aprender coisas novas, porque gostam da Natureza ou cresceram em meio rural, havendo uma certa identificação, e porque se surpreendem com aquilo que aprendem, apesar das dificuldades. Foi evidente pelas entrevistas que as reclusas não aprendem todas ao mesmo ritmo e daí uma das reclusas considerar um certo desequilíbrio na organização do curso.

3.8 Dificuldades sentidas ao longo da FP 3.8.1 Por parte das reclusas

Como se verificou anteriormente, antes de tecer quaisquer considerações sobre este indicador, há que ter em atenção que a situação de reclusão, pelo que implica a todos os níveis da pessoa, é em si, uma dificuldade, que condiciona de forma mais ou menos permanente as formandas. Assim, o discurso da formadora vai de encontro ao que dizem as formandas. A principal dificuldade está então relacionada com o facto de estarem presas porque origina uma preocupação e ansiedade constantes, e até conflitos entre as formandas, e originam situações como a incapacidade de integrar outros conhecimentos porque são incapazes de estar presentes na formação, de estar atentas. A integração de novos conteúdos torna-se assim mais lenta e difícil por não haver, literalmente, espaço para os mesmos. Além desta dificuldade, enunciada por todas as formandas, existem outras que se relacionam com esta, a saber, cansaço mental (em alguns casos atribuído à

idade, mas principalmente, à situação), estado psicológico alterado. De modo não tão directo, são enunciadas outras dificuldades, a principal relacionada com o facto de não terem hábitos escolares e o analfabetismo funcional. Estas dificuldades foram assim mais evidentes na altura da FB, uma vez que muitas delas nunca tinham, por exemplo, aprendido Inglês ou mexido em computadores. Salienta-se, no entanto, o esforço e a força de vontade das formandas para ultrapassar as suas dificuldades em muitos casos, com sucesso.

3.8.2 Por parte da técnica

Num outro plano, as dificuldades sentidas pela técnica no desempenho das suas funções, no âmbito da FP e outras, situam-se a nível do relacionamento com as pessoas e resultados da sua intervenção. Assim, esta técnica tem uma dúvida permanente sobre o tipo de intervenção realizado, dificultado pela ausência de continuidade no acompanhamento das reclusas, após a libertação. Esta dificuldade é atenuada com o desenvolvimento de uma resistência à frustração, que lhe permite continuar a intervir em pessoas que são reincidentes. Outra das dificuldades é a capacidade de cumprir um planeamento, uma vez que praticamente todos os dias ocorrem situações inesperadas, que causam alterações. Finalmente, uma dificuldade (quase) ultrapassada é a de dificuldade de distanciamento do local de trabalho e salienta-se a paixão da técnica relativamente ao seu trabalho.

3.8.3 Por parte da formadora

No mesmo sentido vão as afirmações da formadora quando refere que as suas dificuldades foram diminuindo ao longo do tempo por ter feito um grande trabalho de adaptação, alimentado pela paixão pelo seu trabalho, à semelhança da técnica. As estratégias para superar as dificuldades passou pela aprendizagem de que o sucesso dos formandos não estava dependente apenas do seu trabalho, mas também das características dos formandos e que não é possível, apenas com o esforço da formadora, garantir o aproveitamento dos formandos.

3.9 Acompanhamento durante todo o processo

O acompanhamento das formandas, como se constatou, ocorre em alturas diferenciadas. Pode ser a formanda a solicitar esclarecimentos ou podem ser as técnicas a intervir junto das formandas. No primeiro caso, as formandas podem pedir

esclarecimentos sobre determinados aspectos do curso. No segundo caso, as técnicas intervêm junto de mulheres que consideram ser aptas para ingressarem na FP, motivando- as ou anunciando resultados dos testes psicotécnicos. Durante a formação, o acompanhamento pelas técnicas ocorre quando existem conflitos, quando existe a intenção de desistência por parte de alguma formanda e de supervisão, para saber se está tudo bem. As técnicas fazem também o acompanhamento das actividades integradoras. Quando existe a intenção de desistir, o papel é também da formadora e deve ser sempre no sentido de incentivar a continuação, apesar de por vezes, serem situações muito difíceis.

A entidade formadora, CPJ, além da aplicação dos testes, faz visitas aos locais de formação para verificar o seu funcionamento e aplica os exames finais.

Em face da situação de reclusão, a técnica revela alguma flexibilidade na aplicação das regras inerentes à FP, como os limites de faltas. Assim, as formandas faltam além dos limites, embora muitas vezes estas faltas sejam justificadas pela Chefe das Guardas, permitindo assim a continuidade.

Nas palavras da formadora, verifica-se que o acompanhamento é variável de EP para EP, havendo casos em que os técnicos querem ver todos os documentos antes de estes seguirem para o CPJ e existem outros com uma postura não tão interventiva. Pela sua parte, a formadora refere que, durante as sessões necessita de muita calma e de dar explicações quase individualmente, em face das dificuldades das formandas. Quando ocorrem conflitos (geralmente entre as reclusas), a formadora refere que os mesmos se devem, principalmente, à preocupação obsessiva com a situação jurídica e que são de resolução, na maior parte dos casos, relativamente fácil. A formadora faz também as avaliações mensais.

3.10 Sugestões das reclusas para a realização de outros cursos no EPT

Todas as formandas consideram positiva e desejável a existência de mais cursos pois, por um lado, permitem suportar melhor o tempo que se está no EP, para aumentar a empregabilidade tanto dentro como fora do EP, para aprender e para terem dinheiro para gastos pessoais, derivado das bolsas de formação. Algumas áreas sugeridas são áreas tradicionalmente atribuídas ao género feminino como o baby-sitting, a culinária, a costura, cabeleireiro e geriatria. Outras, mais neutras do ponto de vista do género: jardinagem e informática. A técnica refere que, das solicitações das reclusas, apareceram áreas como Iniciação à Informática e Ajudante de Cabeleireiro e que o curso de Jardinagem é dos que tem mais sucesso porque dá possibilidades de trabalho intra e extra muros. A formadora

considera que deviam haver mais cursos, uma vez que para os reclusos, esta é sempre uma experiência enriquecedora.

3.11 Recursos da FP

A falta de recursos para a realização da FP é patente nos discursos da técnica e da formadora. Em relação à primeira, verificou-se que a falta de recursos se faz sentir, por exemplo, a nível da falta de equipamento informático para a componente TIC da FB, questão resolvida com empréstimos de material de empresas, solicitado pelo EPT. Em relação à formadora, apesar de não especificar quais os recursos em falta, refere que muitas vezes estes não existem e que inventa recursos para ministrar a formação e chega mesmo a financiar alguns materiais.

3.12 Impacto da FP nas reclusas

Uma das mais valias da FP para as reclusas, como se verificou anteriormente, está directamente relacionada com as suas dificuldades e as motivações que as trouxeram à formação. Sem ser seu objectivo, a FP ajudou algumas mulheres a recuperar uma rotina, a terem vontade de acordar de manhã para irem para o curso, funcionando assim como terapia. Outra das mais valias apontadas foi o facto de as formandas terem descoberto que têm capacidades para aprender e de obter bons resultados e também o gostarem de ter mais conhecimentos. O impacto destas aprendizagens é evidente no discurso de algumas reclusas que têm em vista uma colocação nesta área após a libertação, para as quais as aprendizagens fazem todo o sentido e outras referem que as aprendizagens são importantes a um nível mais pessoal, académico. As palavras da formanda vão no mesmo sentido, quando refere que os reclusos se surpreendem com a formação, fazem coisas que não sabiam serem capazes e ultrapassam as suas dificuldades com muito esforço e força de vontade.

3.13 Expectativas após a conclusão do curso

Não há muita certeza quanto ao que as reclusas vão fazer quando acabarem o curso, porque algumas delas ainda não tinham a certeza se no final do curso iriam ser libertadas. Duas das reclusas refere o desejo de ir para RAVE no final do curso para trabalhar na área da Jardinagem e duas delas referem que não se importariam de trabalhar nos jardins de Tires, desde que fossem pagas.

3.14 Resultados da FP

A maioria dos formandos tem aproveitamento nestas acções, não só em Tires, mas também nos outros EP. Apesar de não conseguirem notas muito elevadas, os formandos apresentam uma taxa de sucesso de cerca de 90%, á custa de muito esforço da formadora. A técnica refere que este aproveitamento, em Tires, ronda os 95% nos cursos de dupla certificação.

3.15 Formador

3.15.1 Opinião sobre o Formador

Conforme referido anteriormente, as reclusas valorizam muito os aspectos pessoais e relacionais da formadora, em detrimento do seu desempenho técnico. Todas as formandas referem gostar muito da formadora, considerando-a uma boa pessoa, motivadora, compreensiva, amiga e que explica bem. De um modo geral, as formandas referem ter gostado de todos os outros professores, excepto de um.

3.15.2 Papel do Formador

Nas palavras da própria, como verificado, o seu papel é fundamental para fazer com que os reclusos valorizem a FP, de lhes fazer ver que, apesar de não ter um ganho imediato aparente, pode vir a ser uma mais valia. Outra das competências que o formador destes contextos tem de desenvolver é a paciência, característica também enunciada por Cannat (1955) em relação aos formadores das prisões-escola, e também a compreensão pela heterogeneidade de pessoas e de modos de aprender com que tem de lidar. O formador tem de ser isento, não ter preferências por qualquer formando.

As competências desenvolvidas pela formadora neste contexto traduziram, para a própria, um crescimento pessoal e profissional.