1.4 Mécanismes des déformations différées
1.4.2 Pendant le retrait endogène ou de dessiccation
Aristóteles, que introduziu o termo “ética” na filosofia ocidental, considerava desnecessário demonstrar a existência do ethos por presumir que todos compreendessem algo que é evidente para os homens. Para ele, todos conhecem as ações que são desprezíveis e quais são louváveis. Ninguém, em sua sã consciência, pensaria que deixar uma criança agonizando de fome seria a coisa correta a se fazer. A ética não parte de conceitos abstratos, mas do agir humano, que é contingente e implica um pré-saber ou uma pré-compreensão. Aristóteles foi o primeiro filósofo a introduzir o conceito praxis para definir a ética como uma atividade do saber agir. O método parte da sentença antropológica e ontológica que “todo homem deseja, por natureza, conhecer”, expresso na primeira linha de sua obra Metafísica. Assim, Aristóteles separa o conhecimento em três esferas distintas: teórico, prático e produtivo. O conhecimento teórico abarca a busca da verdade, aqui se encontram a matemática pura e aplicada, a física e a filosofia primeira. No conhecimento prático, que é a atividade do saber agir, encontram-se a ética, a economia e a política. Por fim, o conhecimento produtivo, que envolve as atividades do saber fazer, medicina, poesia e os
trabalhos manuais. Portanto, Aristóteles ensina que o conhecimento é obtido através de muitos modos e métodos; por meio dele, o estudo da ética torna-se possível.
Diferente das outras ciências, a ética não anseia por respostas exatas, nem utiliza dos mesmos métodos de estudo da matemática que, por exemplo, através de operações e processos dedutivos, busca alcançar a exatidão (EN I 3, 1094b 25). A ética é uma ciência esquemática, não possui a natureza explícita de um resultado matemático, ela está imersa em um grande número de variáveis que envolvem o agir humano. Aristóteles, através do método argumentativo da dialética, parte do que ele chama de opiniões reputadas para detectar certos requisitos da ética na ação humana. Ele chega à definição através de opiniões geralmente aceitas que sejam capazes de serem reaplicadas a um argumento. É nesse contexto, e aplicada à razão prática que cada situação exige, que torna possível a investigação do objeto. O saber e o agir ético, como coloca Aristóteles, não pode ser atribuído a um conhecimento teorético. O comportamento modifica-se conforme cada situação e deve ser pensado de diversos modos. É preciso fornecer condições para o desenvolvimento de boas disposições, mas, para isso, não se pode cobrar a exatidão do rigor matemático. O raciocínio usado aqui deve ser diferente daquele utilizado em outras ciências. Não que a ética não possa ser universalizada, mas é através das experiências da vida e do aperfeiçoamento que o homem será capaz de julgar as ações pertinentes que cada situação particular exige. O agente só pode julgar bem o que conhece e, conforme exposto, isso exige um pré-saber, uma boa formação, que deve ser buscada nas experiências cotidianas e nas opiniões reputadas. O homem instruído, através da boa deliberação, é capaz de encontrar o meio-termo que a situação exige e, dessa forma, agir bem conforme a razão.
Aristóteles faz uma divisão estratégica ao definir a ética como filosofia prática, cria duas dimensões para a natureza humana: a da política e da ética. A política não se dissocia da ética, elas apenas se diferenciam. Enquanto a primeira apresenta uma dimensão social, a segunda se restringe ao individual. A ética é parte integrante da política e tem como finalidade infundir certo caráter nos cidadãos através de sua legislatura – torná-los bons e capazes de praticar boas ações (EN I 9, 1098b 30).
Na Política, Aristóteles define a pólis (cidade-estado) como uma universalidade de cidadãos; um não existe sem o outro. O homem sendo um animal cívico e comunicativo necessita se reunir a outras pessoas para suprir suas necessidades que variam desde os diversos exercícios da techne29 até as questões da justiça. “É evidente, pois, que a cidade faz
29 É uma das virtudes intelectuais que tem a capacidade de produzir objetos por meios racionais. Refere-se,
parte das coisas da natureza e que o homem é naturalmente um animal político, destinado a viver em sociedade.” (Política, I 1 §9). E cita Homero ao falar de indivíduos sem pátria, merece “a censura cruel de ser sem família, sem leis, sem lar” (Política, I 1 §9). Sendo o homem um animal político, possuidor de logos, é na associação política que se torna possível exercer a faculdade humana, deliberando sobre a natureza da vida boa e exercitando as suas virtudes.
A comunidade política surge para propiciar uma vida autossuficiente, não visando apenas às necessidades básicas e da sobrevivência. A pólis é capaz de promover a excelência e a eudaimonia de seus cidadãos, pois é uma instituição que supre as carências de todas as outras organizações. Por isso, diz-se que através dela o ser humano se realiza e atinge seu maior fim: a felicidade. Se o indivíduo reconhece que o fim pelo qual age é o mesmo da sua cidade-estado, ele reconhece que seu próprio fim é o fim do outro. O bem individual estende- se ao bem coletivo.
Quando falamos em auto-suficiente não queremos aludir àquilo que é suficiente apenas para um homem isolado, para alguém que leva uma vida solitária, mas também para seus pais, filhos, esposa e, em geral, para seus amigos e concidadãos, pois o homem é por natureza um animal social. (EN I 7, 1097b).
Entender o que a cidade-estado representa para Aristóteles é compreender toda a sua filosofia. A justiça e a vida boa só podem ser exercidas quando o todo existe, quando os poderes e suas funções se articulam à vida do homem. É uma inclinação natural que leva os homens a exercerem suas vidas em sociedade. É nesse sentido que falamos na excelência humana e o que determina a vida boa. A política e a ética são indissociáveis à medida que protegem os homens das injustiças e, sobretudo, quando o discernimento e o conhecimento formam a base da vida social e individual (Política, II 1 §4). É importante entender a comunidade política como condição necessária para a realização da natureza humana, do seu fim último, da sua felicidade.
O escopo do Estado é a felicidade na vida. Todas essas instituições têm por fim a felicidade. A cidade é uma reunião de famílias e pequenos burgos associados para gozarem em conjunto uma vida perfeitamente feliz e virtuosa. É preciso, pois, admitir em princípio que as ações honestas e virtuosas, e não só a vida comum, são o escopo da sociedade política. (Política, III 5 §14).
O bem viver, como pode ser visto, não se limita às relações interpessoais, ele se estende à vida das instituições. Viver junto é condição necessária à felicidade, mas não autossuficiente, já que ela está sujeita às virtudes. Contudo, muitas das virtudes humanas só
podem ser genuínas e expostas na vida compartilhada na pólis, porque, de alguma maneira, estão implicadas na noção de outro (MACINTYRE, 2001, p. 252). O virtuoso apresenta-se na prática de boas ações e sua excelência cívica serve ao papel educativo de uma boa cidade- estado.
Para chegarmos à questão central da ética aristotélica – que é propor uma finalidade última para onde todas as ações humanas tendem, segundo ele, todas as atividades visam a um bem, “por isto, foi dito acertadamente que o bem é aquilo que todas as coisas visam” (EN I 1, 1094a) –, é preciso viver em um Estado e, somente dessa forma, será possível não apenas falar acerca dos comportamentos dos membros desse povo, mas determinar o que pode convir à pluralidade. A pólis é um espaço cívico por excelência. Compreende não apenas as ações deliberativas e a criação de uma estrutura de direitos, mas um local em que o exercício da razão e do convívio humano possa ser exercitado. Nesse sentido, a pólis é mais um sistema formador de pessoas honestas que um local relacionado à promulgação de leis. Então, compreendemos que a tarefa essencial do Estado seja a educação; que através de boas ações e condutas dirija os homens para o melhor dos fins. A ética é uma ciência prática que molda os agentes pela habituação de boas virtudes. Coragem, amor, fidelidade, sabedoria, respeito, amizade são disposições adquiridas pelo processo educativo, sendo o agente ético participante e responsável pela construção e fundamentação desse sistema. À medida que a educação e a formação ético-política são incorporadas, o indivíduo se reconhece como cidadão genuinamente humano, capaz de afirmar sua excelência, ou seja, sua humanidade.