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Na nossa pesquisa, tomamos a definição de poder simbólico de Bourdieu (1991), a fim de complementar a abordagem da ACD, nessa investigação. O referido autor oferece uma abordagem do mundo social com base em diferentes formas de capital e poder, incluindo o simbólico que não tem só base em origens sócio- econômicas, mas é resultado de diferentes formas de capital (ibid).

De acordo com Bourdieu (1991, p. 170), o poder simbólico é o poder de constituir pelas manifestações, de fazer as pessoas verem e crerem, “de confirmar ou transformar a visão do mundo e, assim, a ação sobre o mundo, e, assim, o próprio mundo”. Esse ponto de vista é coerente com a proposta da ACD (FAIRCLOUGH, 2001, 2003) que leva os homens a mudar suas condições de vida e, consequentemente, mudar o mundo ao seu redor por meio do discurso. Sendo o discurso ação, os sujeitos são históricos e ativos nos processos de mudança social.

Com base no exposto, entendemos que o poder simbólico do discurso dá uma força social com o poder de transformar a sociedade através das crenças e práticas dos seus membros.

Essas transformações são baseadas na interação entre o poder simbólico e o capital simbólico. Ambas as noções de poder e capital simbólicos têm uma relação muito estreita. Para Bourdieu (2009, p. 255), o capital simbólico pode ser qualquer forma de capital “representado, ou seja, apreendido simbolicamente, em uma relação de conhecimento ou, mais precisamente, do desconhecimento e reconhecimento".

Por sua vez, capital é entendido como uma força que determina "as chances de sucesso pelas práticas" (ibid, p. 242), com um potencial produtivo e lucrativo. Para exemplificar formas de capital simbólico, o referido autor menciona prestígio, carisma e charme (BOURDIEU, 1991); e glória, honra, crédito, reputação e fama (idem, 2000) como elementos que constituem resultados de processos de legitimação.

A teoria social de Bourdieu (2009) acrescenta três tipos de capital ao capital econômico: social, cultural e simbólico. Capital econômico - "imediata e diretamente conversível em dinheiro e pode ser institucionalizado na forma de direitos de propriedade" (ibid, p. 243); O capital cultural - refere-se a potenciais que são disposições encarnados da mente e do corpo, os bens culturais e as credenciais institucionalizadas, como qualificações educacionais; e capital social - refere-se a relacionamentos e redes sociais (ibidem).

Por isso, tomamos as noções de poder simbólico e capital de Bourdieu (op. Cit.) para basear nossa pesquisa sobre a economia moral no discurso das

publicidades de bancos para destacar a esfera social, indo além dos aspectos econômicos. Consideramos a conexão entre os domínios morais e simbólico- econômicos e não-econômicos, com foco nas implicações discursivas e ressignificação do poder social.

Influenciado pelo conceito de "poder simbólico" de Bourdieu, mas em uma perspectiva cognitiva, van Dijk (2008) diz que o modo de produção do discurso é controlado por "elites simbólicas" (jornalistas, escritores, artistas, diretores, acadêmicos e outros grupos) que sustentam o aparato ideológico que permite a busca e manutenção do poder nas sociedades. Este autor critica o poder das “elites” sobre a sociedade através de seus discursos para manter o poder.

Por isso, ele sugere aos pesquisadores o questionamento de quem pode falar ou escrever o que, para quem, em que circunstâncias (2008); ou quem tem acesso a vários gêneros47 e formas de discurso ou aos meios de reprodução, a fim de investigar as estratégias utilizadas pelos poderosos para manter o poder.

Van Dijk (op cit), em sua perspectiva cognitiva, aborda o discurso como uma ferramenta para "controlar" a sociedade. Ele discute as relações entre discurso e poder social, considerando o poder social em termos de controle, em suas palavras, o controle de um grupo por outro grupo e seus membros (ibidem, p. 17). Seu objetivo é entender como esse poder se expressa, se disfarça ou se legitima por textos e declarações, dentro do contexto social (ibidem, p. 39).

Esse poder do discurso é, de acordo com van Dijk (2008, p. 14), porque "o controle do discurso público é o controle da mente do público, e, portanto, indiretamente, o controle do que o público quer e faz. Um não precisa de coerção se pode persuadir, seduzir, doutrinar ou manipular as pessoas". Essa citação reforça o poder atribuído aos discursos das elites simbólicas e suas estratégias para "controlar as mentes" do público com relação às dimensões sociais, como na política, na ciência e na mídia.  47 Osgênerossãocompreendidoscomousosdelinguagemconvencionadoserelativamentefixosouestáveis, associadosaumtipoparticulardeatividade.Elestambémsãoentendidoscomoummododeusodalinguagem parainteraçãoemumaatividadesocialespecífica,comumpropósitocomunicativoespecífico,emcontextos sociaiseinstitucionaisparticulares(FAIRCLOUGH,1995a,2001,2006). 

A sua perspectiva de poder do discurso pelo "controle da mente" pode parecer determinista, entretanto, ela nos ajuda a identificar a dominação dos meios de comunicação pelo discurso como um mecanismo de produção e reprodução de poder, deixando um espaço limitado, ou nenhum espaço, para uma transformação da sociedade.

Considerando a dimensão histórica, Chartier (1990) fala de representações sociais individuais ou coletivas que geram discursos que produzem efeitos práticos na sociedade, ainda que nem sempre representem todo um grupo ou a opinião da população em geral. No entanto, as representações individuais podem gerar um comportamento coletivo, muitas vezes, a fim de impor autoridade, como elas podem ser vistas como uma forma de organização social.

O autor supracitado chama a atenção para a relação entre representações e imaginários os quais, segundo ele, são geralmente derivados das necessidades de um grupo específico, fazendo com que as pessoas construam novas percepções de sua apropriação (op cit). Para ele, as representações são intrínsecas às nossas ações individuais ou coletivas e estão sempre presentes nas manifestações políticas, religiosas, e, incluo aqui, nas instituições econômicas.

Em suma, o poder simbólico é uma forma de dominação de grupos, indivíduos e instituições que lutam entre si nas relações cotidianas das sociedades. Assim, a prática moral é agora valorizada, novamente, a fim de dar às relações e processos econômicos uma perspectiva moral.

Contudo, esse suposto retorno a um paradigma de reconhecimento das dimensões morais e éticas em transações econômicas; de valorização à honestidade, tradições e responsabilidades para com os outros, indivíduos e sociedades, não se sustenta nas práticas econômicas dos bancos devido aos seus interesses no capital.

Até agora, apresentamos algumas noções importantes que nos ajudaram a compreender a ideia geral desta pesquisa. A partir de agora, o foco será na definição de economia moral, um elemento-chave na pesquisa, e seu papel nas práticas das sociedades e na vida de seus indivíduos e instituições, especialmente as bancárias.