Chapitre III Quelles leçons tirer des expériences européennes ?
A. LES INQUIÉTUDES QUE SUSCITENT LES LÉGISLATIONS ET LES PRATIQUES
1. Les Pays-Bas
Para compreendermos o sentido dos saberes cotidianos e o senso comum da prática docente, far-se-á uma breve incursão na literatura, revisitando alguns teóricos clássicos, como Antonio Gramsci (1986), Vázquez
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O autor identifica diferentes tradições da prática de ensino reflexivo: acadêmica, da eficiência social, desenvolvimentista, da reconstrução social e genérica.
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(1977), Boaventura Santos (1989) e Certeau (1994), os quais, em contextos diferenciados, qualificaram a ciência e o senso comum, suas positividades e negatividades, a relação entre teoria e prática, tendo em vista uma melhor apreensão desses conceitos, na tentativa de transpor a discussão para o campo dos saberes do professor, sem, no entanto, pretender aprofundar o debate filosófico acerca da temática ciência/conhecimento.
Em Gramsci (1986) vimos que senso comum “é um nome coletivo, como ‘religião’: não existe um único senso comum, pois ele é produto e um devenir histórico” (op. cit., p. 14). O senso comum e também a religião “não podem constituir uma ordem intelectual porque não podem reduzir-se à unidade e à coerência nem mesmo individual” (op. cit., p. 14). Ainda que implicitamente, o senso comum “emprega o princípio da causalidade, em uma série de juízos, identifica a causa exata, simples e imediata, não se deixando desviar por fantasmagorias e obscuridades metafísicas, pseudo-profundas, pseudo- científicas” (op. cit., p. 35). Nisto reside o valor do bom senso, que avança/supera o senso comum: “a filosofia é a crítica e a superação da religião e do senso comum e, neste sentido, coincide com o ‘bom senso’ que se contrapõe ao senso comum” (op. cit. p. 14). O bom senso seria o caminho para o desenvolvimento da consciência, sendo construído por meio da experiência e da observação direta da realidade.
Para Vázquez (op. cit.), a oposição entre teoria e prática só se dá quando as relações entre essas são formuladas em bases falsas, seja porque a prática tende a desligar-se da teoria, seja porque a teoria se negue a vincular- se conscientemente a prática. Na consciência comum se concebe
“o prático num sentido estritamente utilitário que se contrapõe à teoria. Esta se faz desnecessária ou nociva à prática. Em vez de formulações teóricas, temos assim o ponto de vista do “senso
comum”, que docilmente se dobra aos ditames de uma prática esvaziada de ingredientes teóricos. [...] Para o senso comum a prática se basta a si mesma [...]” (op. cit., p. 210).
Boaventura de Souza Santos (1989), em seu livro Introdução à ciência pós-moderna, analisa criticamente as relações entre a ciência e o senso comum no interior da ciência moderna e na transição paradigmática. O paradigma da ciência moderna “se constitui contra o senso comum, recusando as orientações para a vida prática que dele decorreram...” (op. cit., p. 34). Para o autor, “a oposição ciência e senso comum não pode equivaler a uma oposição luz/trevas, uma vez que, se os preconceitos são as trevas, a ciência [...] nunca se livra totalmente deles [...]” (op. cit., p. 38).
Nessa fase de transição entre o paradigma da ciência moderna e um novo paradigma denominado pós-moderno, está-se caminhando para uma nova relação entre ciência e senso comum, “uma relação em que qualquer deles é feito do outro e ambos fazem algo de novo” (op. cit., 40). Entretanto, este caminho só é possível tendo presente que a caracterização do senso comum usualmente é feita a partir da ciência, daí toda a sua negatividade, estando a mesma permeada de representações, como ilusão, falsidade, conservadorismo, superficialidade, enviesamento, etc. É necessário que se faça um esforço analítico para superar esse etnocentrismo científico e chegar a uma caracterização positiva do senso comum. Desse esforço, o autor desenvolve uma nova caracterização para o senso comum, focalizando que:
“O senso comum faz coincidir causa e intenção; subjaz-lhe uma visão de mundo assente na ação e no princípio da criatividade e das responsabilidades individuais. O senso comum é prático e pragmático; reproduz-se colado às trajetórias e às experiências de vida de um dado grupo social e nessa correspondência se afirma de confiança e dá segurança. O senso comum é transparente e evidente; desconfia da opacidade dos objetos tecnológicos e do
esoterismo do conhecimento em nome do princípio da igualdade do acesso ao discurso, à competência cognitiva e à competência lingüística. O senso comum é superficial porque desdenha das estruturas que estão para além da consciência, mas, por isso mesmo, é exímio em captar a profundidade horizontal das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso comum é indisciplinar e imetódico; não resulta de uma prática especificamente orientada para o produzir; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. Por último, o senso comum é retórico e metafórico; não ensina, persuade” (op. cit., p. 40).
Boaventura Santos salienta a necessidade do diálogo com outras formas de conhecimento, uma vez que nenhuma forma de conhecimento é, em si, racional. Permite-se, portanto, penetrar por elas, valorizando o senso comum, que orienta as nossas ações e dá sentido à nossa vida. O salto qualitativo mais importante é dado do conhecimento científico para o conhecimento do senso comum e se configura como emancipatório, pois o primeiro se realiza quando se transforma no segundo.
Da relação entre a ciência e o senso comum, destacamos Certeau (1994), que trata das práticas cotidianas ou das artes de fazer. Esse autor enfoca as “maneiras de fazer” cotidianas, sustentando que o cotidiano se inventa com mil maneiras e essas maneiras de fazer constituem “as mil práticas pelas quais os usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sócio-cultural” (op. cit., p. 41). O autor reflete sobre a cultura comum e cotidiana enquanto “apropriação (ou reapropriação), o consumo ou recepção considerada como uma maneira de praticar” (op. cit., p. 16), investindo, assim, na elaboração de modelos de análise que correspondem a essas trajetórias “(ou série de operações articuladas umas às outras no tempo)” (op. cit., p. 16).
Enfim, sobre as práticas cotidianas, Certeau vai analisar a célebre oposição entre teoria e prática, mostrando a total dissociação entre as duas
formas de conhecimento ao longo das definições sucessivas do conhecimento: “[...] paira sempre a combinação entre dois termos distintos, um conhecimento referencial e ‘inculto’ e, da outra, um discurso elucidador que à plena luz produz a representação inversa de sua fonte opaca [...]” (op. cit., p. 144).
Da concepção de superioridade do conhecimento científico face ao conhecimento do senso comum, da superação do senso comum ao desenvolvimento do bom senso, da reinvenção do cotidiano pela arte de pensar/fazer e por uma teoria da prática, da elaboração de uma nova caracterização/valorização do senso comum que se faz pela relação com o conhecimento científico, são idéias que, elaboradas em tempos distintos e contextos sociais diferenciados, fazem-nos refletir sobre o saber docente, principalmente sobre os saberes do senso comum da prática cotidiana do professor universitário.
À luz dos autores enfocados, passamos a (re)pensar os saberes docentes do senso comum, definindo-os como aqueles que se formam nas experiências do mundo social e cultural vivido, dos saberes do senso comum que vão compondo uma arte de fazer, reinventando o cotidiano da sala de aula, que traduz o caráter subjetivo e idiossincrático do saber, constituindo/integrando o saber-fazer e o saber-ser do professor, estando baseados em razões, motivos, valores e uma série de juízos. Esses saberes do senso comum afirmam-se, orientam/fundamentam a prática docente, dando ao professor confiança e segurança. Por esta razão, os professores valorizam os saberes da experiência que se formam na ação, uma vez que estes passam a constituir os fundamentos de sua competência, isto é, são submetidos cotidianamente a critérios de eficiência e de qualidade na sala de aula.
Contudo, para a reinvenção de novas práticas e a configuração de novos saberes docentes, parece-nos necessário o diálogo e a articulação permanente entre os diferentes saberes, com vistas à sua ampliação e (re) criação, o que implica conceber o saber docente como expressão da atividade humana que se desenvolve nas trajetórias de formação pessoal/profissional, ao longo de uma carreira, que se constitui pelas experiências vividas no mundo social e cultural, no interior das práticas pedagógicas e na relação com os saberes especializados, profissionais e pedagógicos, que busca a reciprocidade entre a teoria e a prática, entre as dimensões objetivas e subjetivas, constituindo, assim, as múltiplas faces da formação, da carreira e da prática social docente.